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Author: Sara Contista
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Suspense - Reviews: 5 - Published: 10-03-06 - Updated: 10-03-06 - Complete - id:2256536

Nota: sei que é curto demais. Nenhuma pretensão oculta aqui. Este pequeno trecho foi escrito em Florianópolis – SC, em 18 de Setembro de 2006, regado a café com leite e muita ansiedade.


O Velho Livro

Karina tomava um café esperando o metrô. O mundo do Subway era sempre mais escuro que os outros, por isso ela esperava mais de meia hora pela inversão da linha para poder ir pra casa. Trabalhara o dia inteiro na biblioteca pública da cidade, como de costume, carimbando datas, conferindo cadastros, cobrando multas e consertando capas de livros quase inutilizados.

Aquele fora um dia como outro qualquer, à exceção de um senhor de idade bastante avançada que viera, segundo ele, devolver um livro retirado há muito tempo. Confusa, Karina verificou o que já imaginara: o velho livro nem ao menos constava no cadastro, embora ela mesma tivesse visto o cadastro na primeira página envelhecida e o número do registro em nanquim: 001. Os livros mais antigos do acervo possuíam aquele tipo de registro, poucos deles sobreviveram ao incêndio do antigo prédio no qual eram abrigados, antes de 1968, e os que restaram raramente despertavam o interesse dos leitores.

Por trás dos óculos amarelados e de lentes grossas, o velho insistiu em fazer a devolução.

“O senhor nem ao menos tem cadastro”. Karina argumentou. “Tampouco o livro está registrado. Fique com ele, como recordação. Tenho certeza de que ninguém se importará”.

“Preciso entregá-lo”. A voz dele foi ficando mais fraca. “Está comigo há tempo demais...”

“Mas como-“

“Você não entendeu, minha jovem. Este não é um livro comum. Se quisesse devolvê-lo, teria feito há muito tempo. O livro escolheu você”.

“Não quero ficar com ele!” Karina apavorou-se.

“Não pode recusar... é tarde demais...”

O senhor saiu cambaleando. Karina confirmou que ninguém os vira, guardou o velho livro na mochila e saiu mais cedo, passando propositalmente pela ponte sobre o rio que cortava a cidade, nas águas do qual atirou o “presente” que o estranho senhor lhe deixara.

Quando terminava o café, Karina levantou apressada. A linha invertera. Entrou no último vagão e se sentou próxima da porta. Foi a única. Na estação seguinte notou que alguém esquecera um volume no último banco. Temerosa e se apoiando nas barras do teto, Karina caminhou até lá. Era uma sacola plástica cinza, pesada... Mais uma vez ela, mesmo sabendo que estava sozinha, se certificou de que ninguém estava olhando. Sentiu um arrepio que não conhecia quando abriu a sacola. Fechou os olhos devagar e parou de se incomodar com o balanço do trem. Por um momento achou que estivesse em qualquer outro lugar que não o Planeta Terra. Quando abriu os olhos de novo, o livro não estava mais lá. Era apenas uma caixa de chocolates. Riu de se mesma, ainda nervosa.

Por dias e dias a imagem do velho livro boiando nas águas do rio lhe ocorreria, e um sobressalto anteciparia a entrada de cada visitante da biblioteca. O velho senhor nunca mais apareceu, mas por algum motivo, Karina jamais esqueceria dele e de sua voz fraca.

Sara Lecter.



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