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Nota da Autora: para Stephen King nada concretiza de forma mais exata o medo humano que uma porta entreaberta no fim de um corredor. Achei, humildemente, que deveria escrever a respeito. Então, eis o resultado de uma madrugada escura e chuvosa em São Paulo, 6 de outubro de 2006.
Christina tinha dezoito anos. E também tinha “Fronha”, um bicho amável e tranqüilo. Como todo gato, era dono de uma personalidade muito forte, nada fazia contra a vontade e parecia querer a atenção de Christina nas horas mais impróprias. Nem por isso deixava de ser mais que um adorável animal de estimação. Era um grande amigo.
No início de uma madrugada que anunciava tormenta, embora não estivesse chovendo, Christina olhava ansiosa pela janela. Seus pais estavam dormindo há algumas horas, ela tirara o pijama e pusera sua melhor roupa sem acordá-los. Raul, seu namorado há duas semanas, combinara de passar em frente à casa, piscar os faróis e estacionar no final da quadra. Ele estava cinco minutos atrasado.
Fronha acordou assustado e pulou do cesto que ficava ao lado da cama de Christina. “Deve ser Raul”, ela imediatamente concluiu, sabendo que a audição dos gatos era formidável e que o Pálio 1998 seria o único veículo a cruzar aquela rua durante a madrugada. Fronha parou no meio do corredor, próximo o bastante para que Christina pudesse vê-lo pela porta do quarto, que deixara entreaberta para acusar as idas noturnas de seu irmãozinho Ângelo ao banheiro. Fechá-la seria a última coisa que ela faria antes de pular a janela.
“Dez minutos...” ela consultou o relógio, se perguntando se levara um bolo do rapaz. Distraída, verificou o corredor rapidamente. Fronha permanecia imóvel, olhando fixamente para a última porta. Tímidos relâmpagos cortaram a noite escura.
A porta do quarto dos pais de Christina passava algumas noites entreaberta, embora isso nunca acontecesse na sexta-feira – quando eles saíam para jantar e voltavam “alegres” pelo excesso de vinho – e em ocasiões especiais como o aniversário de casamento e Dia dos Namorados. Ela riu ao vê-la mais uma vez assim. Passara daquela fase na adolescência onde todos duvidam que os próprios pais façam sexo, mas seus pais, ela sabia, ainda punham a mão no fogo atestando a sua virgindade. Doce ignorância. “São mais felizes assim...” ela tinha certeza.
Aliviada por ver que não fora ninguém de sua família acordando o que atraiu a atenção do gato, Christina voltou para o quarto. Raul chegou no minuto seguinte e antes de fechar a porta ela viu que Fronha continuava na mesma posição.
“Gato maluco”, pensou, pulando a janela. “Droga, deveria ter trancado ele no quarto... tarde demais!”
Não precisou andar muito. Ele continuava exatamente no mesmo lugar. “Vamos, agora chega!” ela ralhou, em voz baixa. O gato não moveu um músculo. “Tudo bem, eu sei que você não costuma me dar ouvidos, mas poderia abrir uma exceção só hoje, Fronha?” Ela levou menos de dois segundos para perceber o quanto era idiota implorar para um animal irracional, ainda mais aos cochichos. Encostou a porta, enfiou-se embaixo das cobertas e dormiu feito uma pedra, um pouco antes de começar a chover.
– Foi no início da madrugada, segundo o médico. – alguém lhe explicaria mais tarde. – Acho melhor assim, ela não sofreu, nem ao menos acordou seu pai, o que mostra que foi tranqüilo. Ele só percebeu hoje cedo, quando notou que ela não ouvia o despertador.
A mãe de Christina foi enterrada na manhã seguinte. Há anos lutava contra um pâncreas incapaz de produzir insulina. Teve a morte com a qual todos sonham, depois de aceitá-la: o adormecer da eternidade.
Raul se livrou do gato Fronha tão logo conseguiu capturá-lo, à pedido de Christina.
Sara Lecter.