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CAPÍTULO ONZE
A Diabólica Lavagem Cerebral do Padre McBrien pelo Bispo Lazarus
— Segundo disse Dan Brown, o senhor foi uma grande fonte de pesquisa para o novo livro do afamado autor — disse a repórter da ABC Television — Pode-nos dizer como tal se sucedeu?
A sacristia de St. Thomas’ Church, em Horace St. Catchpole, uma pequena cidadezinha do Surrey, era confortável e aconchegante. Era uma sala grande e espeaçosa, com sofás e poltronas e uma escrivaninha de carvalho perto da ampla janela. No momento, o Padre Richard McBrien, com seus cabelos brancos e seus óculos enormes e quadrados sem aros, estava sentado numa poltrona, com a repórter da ABC no sofá oposto. A sala era enormemente decorada com livros, tanto religiosos quanto de ficção.
— Bem, há alguns meses o Sr. Brown veio à minha igreja e me disse que muitas das minhas idéias eram… ah… surpreendentes e que o haviam impressionado muito — respondeu McBrien — Eu lhe concedi uma entrevista, e ele começou a pesquisar para seu livro.
— Quais são as evidências que o senhor aponta para o casamento de Jesus Cristo? — perguntou a repórter.
— Bem, todos nós sabemos de que a Bíblia não é algo exatamente verídico — prosseguiu McBrien — Muitas das histórias do Antigo Testamento são alegorias com o objetivo de ensinar as palavras de Deus aos primeiros fiéis. A própria ciência já comprovou que não existiu algo como Adão e Eva ou o Jardim do Éden. Esta foi apenas uma alegoria — como as parábolas de Jesus, se você preferir — para ensinar a não trair a confiança de Nosso Senhor. Moisés não conseguiria tanto impacto dizendo “Eu escrevi estas leis para vocês” do que “Deus escreveu estas leis para vocês”, não é mesmo? O profeta apenas escreveu na pedra o que lhe pareceu bom e justo, e disse que foi uma inspiração divina.
“O Novo Testamento segue uma linha similar. Na época, não existiam fogos-de-artifício e gelo seco, para causar impacto nas multidões. Quem assistia aos sermões de Jesus se impressionava apenas com sua retórica e sua força de caráter, todavia quem recebia a Mensagem de segunda mão, não ficaria tão impressionado. Para isso foram criados os milagres, que provavelmente foram adaptações de casos reais onde Jesus não necessariamente usou de poder divino ou outra coisa qualquer.”
— Então o senhor nega que Jesus seja o Filho de Deus? — perguntou a repórter, indiferente.
— Esta é uma pergunta difícil de responder. Todos sabemos que Jesus se autoproclamou o Filho de Deus, mas e se ele quisesse dar outro sentido à expressão? Se ele pregava o Amor, então teria que exemplificar um Deus amoroso, empático e compreensivo. Naqueles tempos tão difíceis de se ter fé e amor — não muito diferente de hoje — ele teria que usar uma comparação entendível, e não apenas dizer “Deus vos ama, irmãos.” Então ele usou a comparação mais plausível para a situação: a do amor paterno. Ele disse que Deus nos ama como a Filhos, e para isso se proclamou Filho Dele. Observe bem: isso não foi admitir que ele possuía divindade, mas uma expressão para dizer que todos nós somos filhos de Deus, não apenas porque ele nos criou, como porque ele também nos ama como um pai ama um filho. Amor incondicional e inegável.
— O senhor realmente acha que Jesus Cristo teve uma esposa? E se teve, isso não poria por terra a idéia da divindade de Cristo?
— Não acredito que Jesus tenha sido dotado de divindade, mesmo sendo um padre católico. Acredito que ele tenha sido apenas o maior de todos os profetas, mas ainda assim humano. Entretanto, para aqueles que acreditam na divindade de Cristo, a teoria de seu casamento não a afeta em nada — acho que até a reforça. Pois se Jesus realmente quisesse ter a vida de um homem, nascer, viver, sentir a dor e tudo o mais, ele também quereria casar e — sim, até mesmo isso — ter filhos, pois são partes da vida de um homem. Ainda mais numa época onde o filho que não casava desgraçava a família. Não nos esqueçamos que Jesus não era apenas judeu, mas também rabino — e a maior obrigação de um rabino era casar e ter filhos, para dar o exemplo.
— O senhor disse que muitas das provas desse casamento estão na própria Bíblia. Quais são elas?
— Há o próprio casamento de Canaã. Por quê seria Jesus o responsável pelo estoque de vinho, e ainda mais sua mãe a cobrar-lhe isso? Aliás, porque Maria de Nazaré estaria incomodada com a falta de vinho na festa? Depois, quando Jesus arranja vinho novo, alguém que a Bíblia apenas se refere como “o noivo” se aproxima de Jesus e diz que os anfitriões geralmente deixam as piores safras para o final, e que pelo visto ele havia feito o contrário. Se o próprio personagem era o noivo, por que ele chamou implicitamente Jesus do anfitrião de seu casamento? Contando isso com o fato de ser Jesus o responsável pelo estoque de vinho da festa, eu diria que, com certeza, os papéis do noivo e de Jesus foram trocados por algum motivo. Então, Jesus se casou.
— E quem seria tal noiva?
— Oh, não posso pensar em outra pessoa. Quando Maria Madalena se aproxima do Santo Sepulcro, e encontra Jesus ressuscitado à porta, ela tenta abraçá-lo, enquanto Jesus lhe repreende: “Não me toques, mulher.” De acordo com as tradições judaicas, apenas a mulher casada não pode tocar qualquer homem sem ordem do marido. A Bíblia não faz referência alguma a algum casamento de Maria Madalena, e neste caso ela poderia tocar livremente qualquer homem. E mesmo assim, Jesus não alerta para que Madalena não o toque — ele ordena. De uma autoridade tal só poderia dispor o marido.
“Se algum dia me dissessem que descobriram que Jesus Cristo foi realmente casado, eu responderia: ”Oh, não precisa me dizer quem é a esposa. Eu já sei. É Maria Madalena.” Além de tudo isso, Jesus sempre teve uma relação carinhosa com Maria Madalena. Está evidente na Bíblia que Jesus a adorava. Ela foi a única mulher além de sua mãe a presenciar sua crucifiação de perto. Era a única discípula mulher de Cristo. Os próprios membros da Igreja, em seus primórdios, chamavam de Madalena Apostolus apostolorum, a apóstola dos apóstolos, pelo fato dela ter sido a primeira a ver o Jesus ressuscitado e ido contar aos outros.
— Mas Maria Madalena não era uma prostituta?
— A Bíblia não faz referência alguma a isso. Na verdade, a crença de que Maria Madalena era uma prostituta veio do pronunciamento do Papa Gregório, o Grande, que decidiu unir os papéis de Maria Madalena, a prostituta arrependida e de Maria de Betânia, pelo fato de haverem Marias demais na Bíblia. E desde então, por razões práticas, Maria Madalena ficou estigmatizada como prostituta.
— Padre McBrien, muito obrigada por sua valiosa entrevista, a ABC lhe é muito grata.
— Não há de quê.
A repórter se levantou e ordenou ao camerman, que devido à baixa verba também cuidava da iluminação, para encaixotar todas as coisas e irem embora.
O Padre McBrien se retirou da sala e entrou em sua sala privativa.
— Maldita entrevista — resmungou uma voz feminina no canto do quarto escuro.
McBrien afastou as cortinas, revelando uma habitação simplória com uma cama, um criado mudo e um armário para roupas. A chegada da luz também revelou o rosto da Sóror Maria do Alcoforado, portuguesa, sentada na cama e vestida com seu hábito de Madre Superiora.
— Devemos ser rápidos, você não pode ser vista saindo daqui — disse McBrien, aproximando-se da amante e beijando-a.
Os dois permaneceram assim por um longo tempo. Era, afinal, o máximo que se permitiam. Era a pior coisa do mundo, mas nunca permitiriam que o amor deles superasse o amor a Deus, traindo o hábito.
Então, a Sóror afastou delicadamente o padre e o sentou ao lado dela na cama.
— Tenho notícias do nosso filho.
McBrien assentiu, escutando.
O fato fôra que, mesmo não querendo trair sua religião, ambos queriam muito ter um filho. A partir daquilo, a dificuldade era ainda maior de manter a castidade. Então, um belo dia, o Padre McBrien aparecera com a grande novidade de que a ciência, à qual a Igreja tanto antagonizava, havia criado uma possibilidade de terem um filho sem trair a própria religião. Mesmo sem entender muito do processo, a Sóror Alcoforado prontamente aceitara se submeter ao processo que McBrien chamara de inseminação artificial.
Aquilo ocorrera há três anos atrás. Como McBrien tampouco a Sóror planejavam largar a Igreja para cuidar do filho que nascera, Maria do Alcoforado o dera para ser criado por sua irmã, e fazia o papel de tia carinhosa.
— Eu trouxe Ricardo — disse a Sóror — Está na hospedaria, dormindo a esta hora.
— Isto é muito perigoso — respondeu McBrien, mas o tradicional xodó que todo pai tem pelo seu filho logo se manifestou em seu rosto — E como ele está?
— Bem. O garoto mais entusiasmasdo por iogurte que eu já vi na vida. Herdou seus cabelos precocemente grisalhos.
Em seguida, um enorme estrondo vindo da sala da sacristia assustou os dois. O Padre McBrien deu um salto e abriu uma fresta na porta.
— Droga, é o Cardeal Lazarus! Deve ter vindo ameaçando a minha excomunhão novamente! Rápido, se esconda!
A Sóror fechou as cortinas do quarto, deixando-o em completa escuridão, e McBrien saiu, recebendo o cardeal com um sorriso sarcástico.
— A que devo a honra de Vossa Eminência ter vindo de Roma especialmente para me ver?
O Cardeal Lazarus, com suas vestes negras e seu quipá roxo, estava sentado confortavelmente numa poltrona.
— Não banque o inocente, McBrien, você sabe!
— Oh, imagino que o senhor esteja aqui para me ameaçar a me excomungar novamente, se eu continuar a divulgar as minhas idéias “profanas”…
— E é isto mesmo! Tenha cuidado com a boca, McBrien, ou vai pagar muito mais do que a excomunhão!
O Padre McBrien olhou surpreso para o cardeal.
— Vossa Eminência está me ameaçando de morte?
— Encare isto como quiser — respondeu o Cardeal Lazarus ameaçadoramente — Entretanto, McBrien, você precisa acabar com toda esta bobagem ou vai acabar se dando muito mal...
— Ora, o senhor que saia da minha frente! — rugiu McBrien, irado — Caia fora da minha sacristia!
O padre não acreditou — nunca poderia acreditar — no que aconteceu a seguir. O Cardeal Lazarus puxou uma Smith & Wesson e a estava apontando para ele.
— Ninguém fala comigo dessa maneira — rosnou Lazarus ferozmente, os lábios crispados ameaçadoramente.
— Vossa Eminência, não faça qualquer bobagem…
O que aconteceu a seguir também merece ser descrito em câmera lenta. Lazarus soltou uma gargalhada maléfica e puxou o gatilho. A bala foi disparada e seu moveu lentamente em direção ao Padre McBrien, que já se acreditava morto. Foi quando a Sóror Maria do Alcoforado, que estivera presenciando a cena da porta do quarto, pulara e, antes que a bala atingisse seu bem-amado, a Sóror já estava na frente deste, e a bala atingiu seu ventre e sujou seu hábito de sangue.
— O que é isto? — rugiu Lazarus surpreso — Uma mulher de Deus escondida em seu quarto!
— Não é o que Vossa Eminência está pensando…
A resposta de Lazarus foi erguer a Smith & Wesson novamente. McBrien pegou um peso de papéis sobre sua escrivaninha e procurou atingir a cabeça do cardeal, entretanto Lazarus atirou primeiro. O peso caiu no chão, e em seguida o Padre, cujas mãos avançaram para seu ventre a vomitar sangue.
Lazarus olhou, incrédulo, o corpo de McBrien a vomitar sangue no tapete. Meu Deus, o que eu fiz? Em seguida, enquanto os segundos se esvaíam e o sangue do Padre McBrien jorrava em borbotões, o Cardeal Lazarus ficou pensando na maneira de reverter o quadro. Era óbvio que os vizinhos teriam ouvido os tiros. Precisava sair dali imediatamente — e com o corpo.
Foi então, que uma idéia surgiu em sua mente. Horrível, diabólica, como haveria de ser se fosse proveniente da mente do Cardeal Lazarus, mas possível.
Naquele fim de tarde, Lazarus pôs o corpo ainda vivo de McBrien no banco de trás de sua limusine, disse “Sem perguntas” ao motorista apavorado e rumou à velocidade da luz para o Aeroporto de Gatwick.
No dia seguinte, Ricardo do Alcoforado foi declarado órfão pelo Tribunal de Vara de Família, entretanto o mesmo Tribunal não tinha condições de saber tanto de seus pais e parentes como seu sobrenome. Assim, chegou sem nome ao orfanato do East End de Londres.
Ao cinco anos, o garoto fugiu do orfanato. Nas ruas, e a partir daquele momento, passou a ser conhecido com Yogurt, já que adorava iogurte.
Tentou se mover, e descobriu que não podia fazê-lo. Também descobriu que estava amarrado — não, acorrentado — a uma cadeira no meio de uma sala de projeção. A mesma cadeira exibia horrendas coisas na altura de seu rosto.
— Signore, ele já acordou — disse uma voz masculina.
— Ótimo. Iniciaremos com a operação agora mesmo.
No campo de visão de McBrien, surgiu um rosto bonachão com barba negra espessa, que este não reconheceu, mas que o leitor sábio reconheceria como Lamberto Fulci. Estava com seu traje tradicional de jaleco.
— Agora, não reclame, sim? — disse Fulci bruscamente.
O cientista arregalou os olhos de McBrien com o polegar e o indicador, e prendeu as coisas nos olhos do padre. Ele acabou descobrindo que estas eram pinças que se prendiam às suas pálpebras — impedindo seus olhos de se fecharem.
Lamberto Fulci fez o mesmo com o outro olho do Padre McBrien, e depois pingou colírio nos dois.
— Você vai ter companhia para a sessão de cinema, eh? — disse Lamberto, sentando-se ao lado de McBrien — Gosta disso? Eh?
— Chega de conversa fiada — disse uma voz fria e brusca atrás. — Vossa Eminência, que deseja que passemos primeiro para seu pupilo.
— A Última Tentação de Cristo. Creio que umas sete ou oito vezes deve dar para o gasto, ao menos por esse filme.
Assim, o padre seguiu vendo o filme, enquanto Lamberto parava a cada minuto para pôr colírio em seus olhos forçosamente abertos. McBrien imaginava o que seus captores pretendiam. Não é tão ruim ver um filme, afinal. Ledo engano.
Durante a quarta vez na qual A Última Tentação de Cristo era exibido, o Padre McBrien já berrava.
— Parem com isto, pelo amor de Deus! Eu não agüento mais!!
Lamberto Fulci olhou para McBrien e respondeu com um sorriso cínico.
— Mas já?? Nós mal começamos!!!
Na sétima vez em que o filme era exibido, McBrien já berrava loucamente, contorcendo-se na cadeira e tendo convulsões. Lamberto Fulci continuava calmamente a pôr o colírio nos olhos inchados e revirantes do padre.
— Que será agora? — perguntou a voz fria, ao terminar o filme.
— Creio que Woodstock seria bom — respondeu Lazarus — Quatro ou cinco vezes serão suficientes.
— Me dêem um F!
— F!
— Me dêem um U!
— U!
— Me dêem um C!
— C!
— Me dêem um K!
— K!
— Que palavra forma?
— FUCK!
— Que palavra forma?
— FUCK!
— Que palavra forma?
— FUCK!
E o Padre McBrien pirava.
— Ele está se recuperando do terceiro dia — disse Spallanzani — Deve ser o suficiente.
— Certamente — respondeu Lazarus. — Poderia fazer a operação física agora?
Spallanzani parou e encarou Lazarus.
— Isto é muito perigoso — disse ele — Você deveria ser acompanhado por um especialista da Techlab.
— Eu sei — prosseguiu o cardeal — Entretanto, sou eu que sei quais modificações pretendo fazer nele.
Ivo Spallanzani retomou o passo.
— Esteja na sala de operação em uma hora.
Ótimo, primeiro as sessões de filmes esquisitos, agora acordo numa sala branca e sem graça acorrentado a uma mesa de operação ou coisa que o valha. Que será que acontecerá agora? Será que Papai Noel vai me resgatar?
— Bom dia, Padre Richard McBrien — disse uma voz sonora.
A mesa foi posta na posição vertical, permitindo a McBrien observar que não apenas o teto, mas o resto da sala também era branco. À sua volta, havia mesas com aparelhos espalhafatosos e estranhos, para dizer o mínimo. Ao seu lado esquerdo, havia uma enorme janela envidraçada, atrás da qual alguns cientistas de jaleco branco, sentados em carteiras, faziam anotações.
O Cardeal Lazarus surgiu no campo de visão de McBrien.
Ótimo, não é o Papai Noel. É a baleia Shamu.
— Agora você passará por uma mutação — disse Lazarus — Sua falta de fé lhe leverá a lugares nunca antes visitados, e agora, terá orgulho de ser um servo de Deus.
— Se ser um servo de Deus significa ser seu servo, eu prefiro ser estuprado pelo próprio demônio — resmungou McBrien de volta. E, teatralmente, cuspiu no rosto de Lazarus.
O cardeal passou lentamente os dedos pela parte cuspida de seu rosto, e respondeu: — Logo terá a conduta exemplar de um servo de Deus.
E desapareceu do campo de visão do padre.
— Onde está você, seu calhorda?? — berrou McBrien.
O silêncio, à guisa de resposta.
— Onde está você, Lazarus?
Dessa vez, não foi o silêncio que veio em resposta. Foi o rugido de nada mais, nada menos do que uma serra elétrica.
— Não se preocupe — ouviu-se a voz de Lazarus — Graças à anestesia, não sentirá dor alguma!
Com um sorriso maléfico, o cardeal dobrou de lado a serra elétrica e fez um corte na horizontal no alto da cabeça do padre. O escalpo, com um bom pedaço do cabelo, voou para cima e grudou no teto branco do laboratório. Desnecessário dizer que sangue e miolos voaram longe, chafariz de sangue, et cetera, et cetera, e logo o chão do laboratório estava tinto de vermelho.
Lazarus começou a trabalhar. Com o auxílio de dois assistentes, mexeram e remexeram o cérebro do Padre McBrien, cortaram e ataram ligações, condicionaram veias e artérias.
— Não teria sido melhor fazer uma lobotomia? — perguntou um dos assistentes em dado momento.
— Não — respondeu Lazarus veementemente — Numa lobotomia, estamos copiando. Numa lavagem cerebral, estamos criando. Agora, me passe água e sabão.
E foi exatamente o que ele fez: começou a lavar cada recanto do cérebro do Padre McBrien, estirpando e apagando toda memória do que ele fôra antes, e implantando novas lembranças, para que McBrien se tornasse um novo homem — ou quase isso.
Em certo momento, o Cardeal Lazarus abandonou a mesa de cirurgia e Ivo Spallanzani tomou seu lugar. “Este é um procedimento padrão que eu posso aplicar e você não”, explicara bruscamente Spallanzani. O que ele precisava fazer era o seguinte: acolchoar as veias principais do Padre McBrien com aço, para depois poder fazer a transfusão de sangue para gasolina e, finalmente, substituir o coração de McBrien por um minimotor de 40 cavalos, para fazer o ser meio-máquina-meio-humano literalmente funcionar.
O mais horrendo de tudo é que o padre permaneceu consciente durante toda a operação. Isso fazia parte do tratamento.