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Vingança é um Prato Servido Frio
Seus olhos vermelhos fuzilavam à vista do sangue dos dois,que inundava a cama. Pronto. Estava feito. Seu pai estava livre de tão grande injúria. Os dois corpos sem vida ainda mantinham em seus rostos a expressão de surpresa por serem descobertos e mortos logo em seguida pelo filho da mulher, Carlos, um adolescente de apenas 16 anos, que acabava de matar a própria mãe.
O sangue ainda lhe subia a cabeça pela visão horrenda de sua mãe com outro e sentou-se, transtornado. Como começara tudo aquilo?
Fora há algumas semanas atrás, durante o período de aulas. Estava para sair de casa e ir ao colégio. Beijou sua mãe e se despediram. Era a melhor mãe do mundo, ele fosse mais velho, prometeu que se casaria com uma pessoa igual à sua mãe, ou pelo menos metade dela.
Chegando na escola, seu amigo Julio o lembrou que tinham de terminar o trabalho de geografia. Logo ligou para sua mãe e avisou que voltaria com Julio.
Os dois andavam pela rua e conversavam calmamente. Não havia sol, apesar de ser uma tarde quente, e um bafo quente batia de encontro a seus rostos jovens e cheios de vida.
— O cartaz tá aí? — perguntou Julio.
— Tá, sim. Você trouxe a cola?
— Cola, tesoura, tudo.
— E os livros?
Carlos parou. Sabia que havia esquecido algo.
— Você esqueceu os livros?
— Sem problema, dou um pulo lá em casa pra buscar. Vai entrando.
Júlio varou o portão de sua casa enquanto Carlos corria, com passos largos. O vento revolvia seus cabelos, despenteando-os. De repente, houve uma súbita queda de temperatura. O vento parou. O céu tornou-se cinza. O ar, pesado. Algo estava para acontecer.
Carlos atravessou o portão de sua casa e abriu a porta. Ouviu uns ruídos estranhos, mas imaginou que fosse o cachorro no os livros em cima da mesa de jantar e pegou-os. Foi quando ouviu,cada vez mais altos alguns gemidos. Gritos, mas não de medo. Havia um tom quase animal neles.
O garoto subiu as escadas, dois degraus por passada e parou, aterrorizado. Os livros caíram no chão. A boca, escancarada. Os olhos, arregalados. A porta do quarto de sua mãe, entreaberta. Ela,…
— Ela, com um amante?!! Não pode ser! — disse Carlos, indo a caminho da casa do amigo.
O sangue lhe subia a cabeça, corria para tentar esquecer a maior surpresa de sua vida.
Chegou na casa de Julio com uma cara de poucos amigos. Julio nem teve coragem de perguntar o que havia acontecido.
Mas não podia esquecer, afinal, a aterradora cena: sua mãe, com a boca entreaberta, a língua a dançar lentamente dentro dela, as costas curvadas para trás, e as mãos cruzadas sobre seu peito.
Um novo rubor surgiu em suas faces, os olhos fuzilaram, os punhos apertaram, os dentes arreganharam seus lábios até enchê-los de sangue… Julio sequer ousara comentar o estado do amigo, enquanto faziam o trabalho. Estava, sem dúvida alguma, alterado. Sentia-se traído, afinal. E uma doce e quente idéia fomentou-lhe o pensamento: a da vingança.
As semanas seguintes foram inebriadas de suspense e expectativa, à medida que entravam em Julho e nas férias de inverno. Carlos planejava meticulosamente tudo, sem se esquecer de detalhe algum. Foi nesse ínterim que seu pai, quando haviam saído para jogar futebol, contou-lhe um caso estranho:
— Um filho dum amigo meu saiu com a namorada, com a Brasilinha dele. Foram encontrados duas semanas depois no Paraná, nus, no banco de trás do carro, mutilados enquanto ainda se amavam. Nunca descobriram quem foi.
Aquilo lhe deu uma idéia fascinante. Mais algumas investigações e descobriu ser o amante de sua mãe Dimitri Demiris, suposto colega de trabalho de seu pai. Alugou uma Parati cinza no nome de Demiris e escolheu o dia da vingança: seria numa quarta-feira, enquanto supostamente estaria no treino de futebol.
Os detalhes minuciosamente planejados, foram se dissipando de sua cabeça, estava cansado, precisava dormir para fazer tudo certo no dia seguinte: o dia da vingança.
Ao acordar tomou um banho, deixando apenas a água quente correr sobre seus ombros. De acordo com os antigos médicos gregos aquilo ajudava a aliviar a tensão e o stress. Vestiu-se demoradamente, e foi para o clube. Na mala, uma gigantesca barra de ferro, que só poderia ser carregada pela força dantesca do garoto.
Ninguém notaria sua falta no treino, afinal.
Abriu a porta de casa silenciosamente, enquanto carregava a barra de ferro. Dando passos longos e demorados, subiu a escada e viu a porta do quarto de sua mãe entreaberta. Parou. A cena, depois de tão vista e repassada, além de estar desprovida de surpresa, ainda o chocou e por um momento paralisou-o. Mas logo depois, revivendo os gemidos e o ruído das moles da cama se esfregando, da própria cama chacoalhando como se fosse uma carroça a cem por hora numa estrada de terra esburacada, tomou coragem e golpeou a porta com a barra, abrindo-a de supetão.
Os dois pararam, inebriados de choque e surpresa. Carlos volveu o bastão com uma fúria e violência nunca antes vista por ele próprio. O sangue brotou do rosto assustado e surpreso de sua mãe e do braço estendido como uma proteção falsa de Demiris, suas veias pulsando enquanto o líquido se espalhavam em cântaros pelos lençóis; Carlos batia incessantemente, chegando a ter quebrado mandíbulas e ossos, e até já ter expirado a vida dos dois adúlteros, porém sua fúria o levava a estraçalhar e ensangüentar os dois traidores.
É estranho como a quantidade de sangue jorrando de um ferimento pode ser tão grande, e nem filmes nem livros conseguiam retratar a quantidade exata, a maior parte das vezes sendo insuficiente, e outras exagerando; o sangue, nesse caso, havia inundado a cama e se espalhava pelo chão do quarto, manchando os tapetes, enquanto Carlos apenas pensava em bater, bater, bater, e feria, feria, feria… cada vez mais…
Como as partes quebradas e arrancadas em ambos os corpos eram numerosas, foi fácil enfiá-los, achatá-los, dobrá-los dentro de duas maletas de couro, após o estado de torpor do garoto que se seguira ao matricídio. O adolescente pusera as duas malas no porta-malas da Parati prata, ano 1991, alugada em nome de Demiris. Como havia se vestido e tentado se portar de maneira igual à do amante da mãe, não havia chances de ser reconhecido. Além disso, Carlos pusera o mesmo disfarce para dirigir a perua, corroborando a história da locadora de automóveis.
Carlos guiava com calma porém rapidamente pela Via Dutra. Tinha a intenção de largar o carro em algum lugar o mais longe possível da capital, talvez Poços de Caldas, a tempo de voltar a São Paulo no crepúsculo e contar a seu pai, que provavelmente já teria chegado do trabalho, como limpara sua calúnia. Era estranho, Carlos nunca entendera o que seu pai exatamente fazia… nem tampouco seu pai explicara… mas provavelmente ficaria satisfeito ao ver seu “trabalho de limpeza”.
A tarde foi se arrastando enquanto o adolescente guiava. O mais incrível era que, a despeito das aulas que o pai lhe dera sobre como dirigir um carro, o garoto nunca entrara em um para guiá-lo. Tampouco tinha carteira de motorista, portanto se algum tira abelhuda suspeitasse que algo estava errado… ele tinha a carteira de Demiris — e o bastão de ferro.
Eram 4 da tarde quando Carlos atingiu Campinas. Achou que era um bom lugar e entrou numa estrada barrenta e cheia de buracos, embrenhando-se na mata suburbana. Parou a Parati perto de um riacho que corria ali. Perfeito. Tirou as malas do porta-malas e estendeu os dois cadáveres no banco traseiro, dando a impressão que morreram enquanto se uniam, o que não foi muito difícil pois haviam morrido naquela mesma condição. Deixou a chave na ignição e foi ao riacho. Arrancando a roupa de Demiris, deixando-a no banco do motorista, tomou um banho e lavou paulatinamente as duas malas, procurando encobrir qualquer vestígio de sangue, tanto nele quanto nas valises. Vestiu uma roupa esporte, uma camisa e um casaco da ADIDAS com um short da Nike. Quando chegasse em casa, daria uma limpeza mais eficiente nas malas. Enquanto isso, encheu-as com pedras e terra, para dar a impressão que carregavam algo.
Foi andando até um bairro suburbano de Campinas e esperou pacientemente um ônibus para São Paulo na rodoviária. O ônibus chegou umas seis horas, e depois de uma viagem cansativa num ônibus cheio até o teto, chegou na estação Tietê às oito. Dali, pegou um táxi para o tranqüilo bairro onde morava.
Abriu a porta de casa e viu a televisão da sala ligada. Seu pai, sentado no sofá de costas para a porta, bebia uma cerveja.
— Oi, pai — disse o garoto.
— Estava esperando por você, filho — replicou o pai sem se levantar ou voltar a cabeça — Onde está sua mãe?
— Morta — respondeu o garoto, tentando soar como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O pai ficou alguns minutos aterrorizantes em silêncio, sem responder. Por fim, disse, esvaziando a lata de bebida:
— Estava esperando quando você faria isso.
A resposta surpreendente chocou e escancarou a bocarra do adolescente, que fechou a porta e se sentou numa poltrona em frente ao pai. Para sua surpresa, ele estava sorrindo, um sorriso maroto e talvez até cruel. Estava bem barbeado, o cabelo penteado, e seus olhos brilhavam.
— Eu sempre soube que sua mãe tinha fogo nas saias, mas nunca liguei, porque também já dei minhas escapadas. E não foram poucas.
Se pudesse, a bocarra de Carlos se escancararia ainda mais.
— Como…?
— Eu apresentei Demiris à sua mãe, e como a conhecia muito bem, logo ela começou a descaradamente dar em cima dele, e na minha frente. Daí foi um pulo para a cama. Mais cedo ou mais tarde você descobriria, e do jeito que você é, espetaria os dois num instante.
— Mas por quê tudo isso?
— Você ainda não entendeu? Eu planejei tudo.
A estupefação de Carlos foi total.
— Você nunca se perguntou, ou mesmo suspeitou, qual era o trabalho de seu papai? — perguntou o pai, com um sorriso zombeiteiro.
— Você disse para nunca…
— Eu pertenço à Mafiya russa.
A revelação foi arrebatadora para Carlos. Um ódio crescente começou a dominá-lo.
— Como… como pôde ser tão sórdido? como pode fazer tudo isso? — perguntou o garoto, raivoso.
— De que sordidez você está falando? É um de nós agora. Eu precisava congelar Demiris, e você, como um bom filho, fez isso para mim e ainda fez de presunto a rameira da tua mãe.
Carlos sentiu-se enojado de si, do novo ser que havia criado.
— E para completar o plano — disse o pai, se levantando — o filho, com remorso demasiado pelo matricídio, se suicida. O pai, espantado, foge em pânico.
— NÃO!! — berrou Carlos.
O pai rapidamente sacou uma pistola e atirou à queima roupa. Carlos rapidamente se desviou e pulou sobre seu novo inimigo, para roubar-lhe a arma.
A luta foi renhida. O pai deu três cotoveladas na cara do filho, fazendo seu nariz sangrar. Carlos deu-lhe três socos no estômago, o que fez o pai parar um pouco, dando tempo de Carlos agarrar-lhe o revólver e se levantar.
— Agora é você quem morre — disse Carlos, apontando a arma para o pai. Em resposta, o homem semideitado no chão deu-lhe uma rasteira e Carlos tropeçou, fazendo o revólver voar e cair na porta da cozinha.
Pai e filho rolaram no chão em direção à cozinha. Cada um tentando pegar o revólver. Então, o pai agarrou Carlos pelos cabelos e bateu-lhe o rosto infinitas vezes contra o braço duro do sofá.
Carlos cuspiu sangue na face de seu pai e agarrou-o, tentando enforcá-lo; rolaram no chão novamente. Depois, levantaram a cabeça ao mesmo tempo e viram o revólver na soleira da porta, lembrando-se dele.
O garoto agarrou o pai, para impedi-lo de saltar sobre a arma, e jogou-o contra a televisão, que, ligada, se espatifou no chão, eletrocutando o pai. O gigante pedaço de carne queimada e ensangüentada ainda se levantou e pulou sobre o filho, para tirar-lhe o revólver recém-adquirido por Carlos, por conseguinte o garoto atirou. Foi assim, instantâneo. O pai não completou o pulo e na metade deste foi alvejado, caindo espatifado no chão, já morto.
Foi assim, rápido, instantâneo, sem premeditação alguma. Carlos, que imaginava que numa situação dessas iria sentar-se no chão e chorar, enlouquecido, não o fez. Para sua surpresa, largou o revólver no chão e pô-se a gargalhar. Uma risada sádica, louca. Havia, afinal, amado demais a mãe e amado demais o pai. Os dois lhe traíram, e tiveram o que mereciam. Estava livre.
Com uma felicidade doida, nunca antes imaginada por ele, carregou o peso morto queimado até a mesa da cozinha. Pegou uma faca e partiu-o em pedaços, picando–o, quase. Então, os pôs num prato e abriu a porta do quintal, chamando o cachorro:
— Rex, o jantar!
RELATÓRIO DA POLÍCIA CIVIL
28/07
Às nove horas do quinto dia do mês de Julho, o sargento Wesley da Silva de Lima foi perturbado com um telefonema de uma senhora de nome Jacinta Leme Diaféria, residente do bairro de Sta. Luzia, no subúrbio de São Paulo. Ela afirmava que havia ouvido barulhos estranhos e tiros vindos da casa ao lado, pertencente ao Sr. Roman Ivanov Chernov. Como a velha senhora é conhecida por não fazer outra coisa a não ser cuidar da vida alheia, e ser conhecida como abelhuda e fofoqueira, o dito Sargento não deu muita atenção à denúncia. Passadas algumas semanas, os vizinhos e amigos do Sr. Romanov, que vivia com a esposa e o filho Carlos Romanov Chernov, começaram a notar assiduamente a falta dos três membros da família. Não eram vistos em seus respectivos trabalhos e quando o telefone tocava, não era atendido.
Com um mandado de busca, a Polícia Civil invadiu a casa. A televisão havia sido atirada ao chão e quebrada, o tapete fora queimado com o choque elétrico e o tapete em frente ao sofá estava sujo de sangue coagulado, comprovado pelo médico legista que pertencia tanto ao Sr. Chernov quanto seu filho, Carlos, o filho do casal, foi encontrado morto na cama de seu quarto, com um revólver em suas mãos. De acordo com o legista, o garoto estava deitado quando o golpe foi desferido e não há dúvidas de que o próprio garoto empunhava a arma, enfiando o cano na boca. A trajetória da bala coincide com tal hipótese, tendo sido achada logo embaixo da cabeceira da cama, tendo atravessado esta. A face do garoto foi toda desfigurada, tornando difícil seu reconhecimento.
Perto da casa do cachorro da família, foi achada uma ossada que por exame de DNA foi comprovado ser do Sr. Chernov pai. Um exame de fezes também comprovou que o cachorro havia digerido o seu dono, porém a forma das fezes e da ossada levou à conclusão de que o dono já estava morto e foi cortado em pedaços para ser digerido pelo animal. Não foi possível qualquer conclusão a partir deste fato.
O corpo da Sra. Chernov, ao contrário dos outros dois, foi encontrado mutilado nas proximidades de Campinas, dentro de uma Parati prateada, ano 1991, alugada por um certo Sr. Dimitri Demiris, amigo da família, e seus restos também foram encontrados dentro do veículo. A disposição dos cadáveres levou à conclusão de que os dois tinham um caso e que haviam levado o carro alugado para se divertir em algum canto distante e não serem reconhecidos. No meio do ato, foram surpreendidos por um salteador, sendo roubados e mortos logo em seguida.
Devido às supostas relações dos indivíduos Demiris e Chernov com a Mafiya russa, concluímos que todo o genocídio se tratou nada mais do que uma atitude de retaliação do grupo criminoso.
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