| Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search | Login Register Extras |
Avenida das Acácias, Número 22
Quando eu e minha prima descemos do táxi, já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.
— É sinistro.
Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão das redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes.
Procurei uma campainha — em vão. A prima bateu na porta. A casa nos olhava, com seus olhos zangados, e tive a nítida sensação de que, se varássemos o batente da porta, a casa nos vomitaria de volta à rua.
Minha companheira bateu de novo, sem sucesso.
— Vamos embora, não tem ninguém aqui — disse ela, se virando para partir, porém segurei-lhe o braço.
— Espere, deve ter alguém aí — e bati palmas — Olá, tem alguém aí?
Uma sombra apareceu na janela quebrada — ou mais provavelmente estava lá há tempos e só havia notado-a naquele momento.
— Hey, você aí em cima!! — gritou minha prima — pode abrir a porta para nós?
Quem quer que fosse, nem tomou conhecimento de nós. Sequer moveu um músculo.
—
Ah, tô cansada disso tudo — afirmei, fazendo menção de abrir a porta.
— NÃO!!! — berrou minha prima, em vão.
Abri a porta e entrei na casa.
O cômodo o qual entrei estava mal-cuidado, o piso de madeira riscado, a bancada da recepção, outrora de um mogno lustroso e imperioso, estava toda estragada e comida por cupins.
A prima entrou, parou ao meu lado, me puxou pelo braço e disse: “Vamos embora daqui, a casa está abandonada!”
— Tem certeza? — Uma voz veio da escada, no fundo da sala, que levava aos andares superiores. Havia um garoto ali — garoto, devia ter acabado de fazer vinte anos! E era um poste, não era um garoto, pois deveria ter dois metros e tanto, e pesar dois quilos, com uma cintura de dez centímetros de circunferência. Tinha cabelos lisos, curtos e pretos, mas desgrenhados e arrepiados e o rosto comprido e espinhento. — Quem são vocês?
— Nós ligamos ontem à tarde, pedindo um quarto para duas — respondi, encarando de volta o poste topetudo.
— Ligaram? — volveu ele — Não me lembro de ninguém ter ligado… — o tipo estranho desceu o resto da escada até o chão — De qualquer modo, todos os quartos estão vazios.
— Nós tocamos a campainha mas ninguém atendeu… — espetou de volta minha prima.
— Oh, desculpe, eu não ouvi, tava lá em cima conversando com a minha mãe — respondeu o poste — Sabe, ela é inválida, então não sai do quarto dela lá em cima.
— Você pode dar pra gente a chave do quarto? — pedi.
— Oh, sim, claro — respondeu o garoto, indo para trás do balcão. De baixo deste, puxou o livro de registro, de uma capa de couro verde surrada e rasgada. Bem no meio dela, havia uma mancha de vermelho escuro que não quis pensar no que talvez fosse. Abri e assinei meu nome, dando o livro à prima.
Quando terminamos, o nerdezinho pegou o livro de volta e olhou-o atentamente.
— Jordana, hein? — disse ele, olhando com o olhar vidrado para a prima — Nome bonito.
O rosto de Jordana ficou vermelho como um pimentão e sua boca ejetou as palavras de agradecimento: “Obrigada.” E depois de uma pausa: “E qual é o seu?”
— Heitor — respondeu o poste, ainda mais tímido ainda — Eu sabia que você seria tão bonita assim quando telefonou ontem à noite.
— Mas você disse que ninguém telefonou ontem à noite! — indaguei, espantada.
Subitamente Heitor pareceu desconcertado.
— Disse mesmo? Oh, desculpe, eu…
— Pode nos levar ao nosso quarto? — perguntou Jordana, procurando ocultar o erro do garoto.
— Oh, sim, claro — respondeu Heitor, voltando para baixo do balcão para pegar o molho de chaves.
Então reboou-se a voz, mortífera, aguda, grasnenta, irritante, cheia de rabugentice, apunhalando nossos ouvidos com prazer: “JÚNIOR!!!”
Heitor se contorceu, arrepiou-se e tornou-se pálido. Seu rosto fechou-se, prevendo a tempestade a vir.
— Com licença, minha mãe está me chamando…
Com passos curtos e rápidos, ele subiu a escada e dirigiu-se à primeira porta do andar de cima. Logo que ele entrou, subi até a metade da escada para ver melhor. Vi, no final do corredor, os pés de uma porta semi aberta, e uma luz amarela, quase tão irritante quanto a voz, saí dela.
— Júnior, quem está aí em baixo?? — grasnou a velha mulher, cheia de raiva e despeito.
Logo depois, Jordana falou baixo e fez gestos para eu sair de lá imediatamente. Ignorei-a e continuei a ouvir a conversa lá de cima.
— São novos hóspedes, mamãe.
— Como novoss hósspedesss? — cuspiu de volta a velha coroca, sublinhando os esses, parecendo que tinha a língua presa — Há meia década, desde que esta porcaria de par de pernas pô-se a dar defeito, que não vêm hóspedes a essa maldita casa!
— Do jeito que o seu comportamento anda, mamãe, não duvido nad…
— COMO OUSA PROFERIR TAIS PALAVRAS CONTRA A SUA PRÓPRIA MÃE, SEU IMPRESTÁVEL???!!! EU, QUE TE DEI O LEITE DE MEUS SEIOS, A COMIDA QUE VOCÊ COMEU TODOS ESSES ANOS…
— “Se vê que não foi muita coisa…” — pensei.
— … FUI EU QUE TE PARI, SEU MONSTRO! E VOCÊ OUSA DIZER ISSO PARA A SUA MÃE?
— Desculpe, mamãe… — murmurou Heitor, resignado.
— Acho bom! E também acho bom se livrar dessas duas vadias aí em baixo, principalmente da tal da Jordana, ou dou eu mesmo cabo delas!!!
— Não, mãe, por favor…
— E se ousar me trancar naquele porão sujo, imundo e fétido de novo, não sabe o que esperará por você…
— Claro que não, mamãe…
— E, Júnior, nunca tente me abandonar outra vez, senão…
— Não se preocupe, mamãe…
Ouvi passos, e os pés de Heitor atravessaram a porta já aberta, e então o garoto apareceu no alto da escada.
— Pronto — disse ele. Seu rosto estava vermelho, não de raiva, mas do sangue que seu nariz vomitava e escorria por suas faces.
— O que aconteceu? – perguntou Jordana — Seu nariz está sangrando.
Heitor levou um susto, levou rapidamente a mão ao bolso e o cobriu com um lenço. “N-não é nada, é q-que no f-f-frio o meu nariz-z sangra me-esmo…”
Ele desceu o resto da escada, com o lenço no nariz, e disse:
— Eu carrego as malas.
Assim, em uma mão nossas malas e na outra o nariz, nós três subimos ao primeiro andar. Heitor tirou o molho de chaves do bolso e se dirigiu ao outro lado do corredor, do lado oposto ao do quarto de sua mãe. Enfiou a chave na porta do quarto nº 1, porém ficou cinco segundos ali parado, com a mão na chave e esta na fechadura, sem mover um músculo. Depois tirou a chave de lá e se dirigiu ao número dois, sem dizer qual problema havia com o número um. Eu e Jordana nos entreolhamos.
Heitor abriu a porta do número dois e disse:
— Se vocês quiserem que prepare um lanche pra vocês, eu volto em cinco minutos. — estendeu a mão para dentro do quarto — a roupa de cama está posta, e o banheiro é ali, se vocês quiserem tomar um banho.
— É melhor você trazer uns lanches para nós — disse Jordana — Estamos com fome da viagem.
Heitor saiu e fechou a porta, deixando a chave na fechadura.
— Tipinho estranho, hein? — comentei, observando o quarto atentamente. Ao fundo, uma janela circular, com o vidro opaco e riscado. Duas camas de cada lado do cômodo e uma mesa de cabeceira com um abajur no meio. À esquerda de quem entra, a porta do banheiro.
— Mas até que ele é simpático — respondeu Jordana pensativa — Só meio nocego. O maior problema ainda é a velha coroca da mãe dele, o trata feito lixo.
— Exatamente por isso que você não deveria ter pedido o lanche, a velha deve ser gagá o suficiente para envenenar os sanduíches.
— Só.
Jordana sentou-se em uma das camas, enquanto suas faces tornavam-se sombrias.
— O que será que tem no quarto número um? — perguntou, mais propriamente para si mesma do que para mim.
— Não sei, mas a atitude dele foi muito estranha — respondi.
— Você quer checar para mim? Eu vou tomar um banho.
Assim, Jordana pegou suas roupas e entrou no banheiro, fechando a porta. Logo ouvi o barulho da ducha batendo nos ladrilhos da banheira.
Ali, sem nada para fazer, decidi tentar entrar no quarto número um.
Saí do número dois, fazendo o menos de barulho possível, e tentei abrir a fechadura do número um. Ela cedeu. Logo entrei no quarto às escuras, porém, antes de acender a luz, ouvi mais passos no corredor. Eram passos enérgicos, de uma pessoa que mancava. Passei a cabeça pelo batente da porta e observei uma figura de enormes cabelos brancos, que mais pareciam uma peruca, entrar no quarto número dois, sem me ver. Ela usava chinelos vermelhos e uma camisola branca até o chão. Não consegui ver seu rosto, porque estava além do batente da porta.
Bom, Jordana poderia lidar sozinha com uma velhinha coroca e gagá — que embora fosse inválida o suficiente para sair andando pela casa e dar sermões nos hóspedes, além de enganar o filho, ainda era uma velha gagá.
Assim, me voltei para dentro do quarto e acendi a luz. Uma luminária descia do teto até mais ou menos a altura da minha cabeça, oscilando levemente, com uma lâmpada amarela iluminando o quarto. Este era pouco mobiliado, exceto por uma cama de casal logo ao lado da porta. Parecia haver alguém — ou algo — debaixo das cobertas, pois ali algo fazia volume por sob elas e um feixe de cabelos loiros saíam de baixo da colcha.
Sem medo, levantei o lençol.
Um verme passava lentamente do buraco da câmara ocular até o buraco que antes fora o nariz de uma jovem. Sua carne estava verde, putrefata, a mandíbula estava entortada para o lado e uma língua roxa, já sem o freio, despencou para babar no lençol.
Soltei um grito e, ao andar para trás, fiz a luminária balançar loucamente pelo quarto, jogando o cadáver na cama ora em luz, ora em escuridão.
Ouvi passos pesados e rápidos, como alguém correndo loucamente pelo corredor, e Heitor apareceu na porta do quarto. O garoto deixou cair no chão e sujar a passadeira do corredor com os dois mistos quentes que havia preparado.
Parei de gritar e olhei para ele. Parecia em estado de choque. Logo depois recobrou a consciência, enquanto eu parava de gritar, e perceber que havia outro grito vindo da parede de trás.
— Jordana! — berramos os dois em uníssono, e corremos de volta ao número dois. O quarto não havia sido remexido, nem nada, porém a porta do banheiro estava fechada. Heitor empurrou-a e ali estava Jordana: caída nos ladrilhos da banheira, enrolada na cortina branca do Box, com a ducha ainda correndo e o ralo sugando a água misturada com seu sangue. Haviam dois cortes hediondos em cada lado da face, e uma navalha enfiada em sua boca, que ela provavelmente mordera até expirar. Mas esse não era o pior detalhe da cena, do rosto ensangüentado: seu olho esquerdo pairava sobre o corte do lado esquerdo do rosto, com apenas um fino e frágil fio vermelho ligando-o ao globo ocular vazio.
Heitor pegou o cadáver de minha prima, pôs no ombro e disse:
— Vou jogá-lo na fornalha.
— O que você está fazendo? — berrei de volta — sua mãe é uma assassina, há dois corpos putrefatos nesta casa e você ainda encobre seus crimes?
— Você não pode entender — respondeu ele — Durante toda a minha vida tentei ser um filho dedicado e minha mãe só me devolveu tapas na cara! Então eu continuo a ser um filho dedicado para que algum dia ela me reconheça como filho, e não como animal.
— NÃO!!! — berrei, histérica, e saí correndo, passando pelo corredor descendo as escadas até me bater com a porta da frente e socá-la, berrando:
— Alguém me tire daqui! Alguém me tire daqui!
Senti Heitor correr atrás de mim, e cobrir minha boca com sua mão.
— Acalme-se! — disse ele — Esta foi a gota dágua! Vou jogar a velha na fornalha e pôr fim a tudo isso!
Sua mão foi lentamente relaxando e me soltou.
— Mas fique aqui que eu vou pegá-la.
Então subiu a escada de três em três degraus e dirigiu-se ao quarto da mãe, deixando apenas a porta entreaberta, com um vão por onde passava uma luz amarela.
— Mamãe, acabou-se! — disse Heitor — Vou trancá-la no porão.
— NEM ME TOQUE! TIRE SUAS MÃOS SUJAS DE MIM! NÃO OUSE TOCAR EM MIM! RRRARARRARRRR!!
Ouvi sinais de luta e gemidos, junto com um baque no chão.
— Prepare-se, meu caro filho, é você agora que vai para a fornalha! — grasnou a velha que provavelmente havia enlouquecido completamente.
Não! Aquilo tinha que acabar! Se Heitor não podia lidar com uma velha gagá e coroca daquelas, eu teria que acabar com a raça dela!
Assim, subi a escada de dois em dois degraus e escancarei a porta do quarto.
Havia uma cama com dossel no centro dele. Ali, havia uma marca profunda, de alguém que havia deitado ali por um longo tempo. A cama fora desfeita violentamente, os lençóis rasgados, a colcha jogada no chão. Sobre ela, um cadáver de cabelos brancos, camisola branca e chinelos vermelhos. Não um corpo recente, mas esqueleto de uma dezena de anos.
E, sobre ele, com uma faca de cozinha na mão, não havia ninguém mais do que Heitor, vestido com as roupas da mãe e com uma peruca de cabelos brancos. Seus olhos estavam vermelhos de cólera, e ele bufava.
— Agora é a sua vez, vadia, por ter corrompido o meu Júnior e o virado contra sua boa e carinhosa mãe! — cuspiu o Heitor-Mãe, fazendo a mesma voz grasnenta que havia pensado que era de sua mãe.
Soltei um grito agudo e andei para trás, no susto, quebrando o vidro da janela redonda que estava atrás de mim e caindo em cima de uma moita, próxima à rua. Caí olhando para cima, portanto vi Heitor em sua fúria assassina, pular atrás de mim para me dar o mesmo fim de Jordana.
Corri rapidamente pela rua e ouvi o berro espremido do matricida ao cair no chão. Provavelmente fora uma queda mal-calculada e ele quebrara o pescoço ou a coluna. Mas não queria virar para trás para saber, para conferir, para investigar aquela mente psicótica e descobrir o que verdadeiramente ocorrera naquela casa. Só queria correr.
9