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Author: Alex Nox
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 1 - Published: 10-10-06 - Updated: 10-19-07 - id:2260244

1

Gotas vermelhas.

Gotas de sangue, pingando no carpete do quarto, próximas à poltrona.

Um olho. Um olho humano.

Aquilo estava ficando demais para Sarah Polley.

Eu estaria muito melhor se não tivesse vindo para cá — mas como eu poderia adivinhar?

Sarah Polley, caucasiana, 22 anos, olhos pretos, cabelos lisos originalmente cor de mel mas agora com mechas loiras saiu do banheiro, enrolada em sua toalha e com os cabelos molhados presos num coque no alto da cabeça, e encarou o olho mergulhado numa piscina de sangue seco no tapete, próximo à poltrona.

— Susan, você já pode usar o banh… — A frase já havia saído de sua boca quando seus olhos pousaram na coisa perto do pé da poltrona.

— Susan, onde está você? — perguntou Sarah com a voz calma — quase calma, com um ligeiro tremor.

Assim, ela se ajoelhou no chão e pegou o olho, encarando-o.

O olho a encarou de volta.

A íris acastanhada de Susan.

O pesadelo chegou ao fim quando uma mão enluvada saiu debaixo da poltrona e agarrou o pulso de Sarah, que soltou um grito e deixou o olho cair no chão e virar uma pasta com o impacto.

Sarah tentou recuar, no entanto a mão continuou agarrada a seu braço, revelando outro braço com uma capa de chuva sendo puxado debaixo da poltrona.

A loira oxigenada soltou outro grito, e escorregou no tapete sujo de sangue — seus pés ainda estavam molhados do banho — e olhou prostrada, para a outra mão enluvada que surgia — agarrando uma faca de cabo preto e lâmina brilhante.

A mão enluvada com a faca arrebentou o tórax de Sarah Polley, prostrada no chão, e sangue explodiu, manchando a toalha branca de banho e lambuzando as mãos enluvadas do líquido quente vermelho.

O pesadelo chegou ao fim — ao menos para Sarah.

Vivian ensaboava-se com tranqüilidade. Mantinha os lábios cheios fechados, tentando respirar pelo nariz, enquanto a água corria por seus cabelos ondulados. Odiava engolir shampoo.

De qualquer modo, aquele shampoo fedia. Fedia a…

Terra molhada.

Oh, não, aquilo estava acontecendo de novo!

A terra molhada de noite, caindo-lhe no rosto cada vez mais intensamente, abafando seus gritos…

Por que diabo ela estava tendo aquelas sensações? E cada vez mais freqüentes?

Foi ainda sentindo o cheiro da terra molhada que as cortinas de plástico, brancas do Box foram abertas com violência, e uma mão enluvada de couro preto procurou-lhe o meio dos seios para enfiar a faca brilhante que estava em suas mãos. A mão pertencia a um vulto de capa preta de chuva, cujo capuz ocultava-lhe todo o rosto — exceto os olhos.

Olhos frios, entretanto incandescentes e flamejantes, em chamas, preparados para furar a carne com raios laser.

Vivian gritou e suas mãos ensaboadas agarraram a mão enluvada. Teve força suficiente para parar a mão e seu peito permaneceu incólume. A mão soltou um rugido de raiva e soltou-se, prestes a outro golpe…

… quando Vivian agarrou o vidro de shampoo cheiro de terra molhada — e quebrou-o no capuz negro. O capuz soltou outro rugido — quase inumano — enquanto o shampoo com cheiro de terra molhada — fedorento espalhava-se por sua capa de chuva e ele caía na inconsciência.

Vivian saiu correndo do Box e vestiu-se rapidamente, deixando as roupas ainda molhadas, enquanto seu olhar se fixava no vulto negro derrubado sobre os ladrilhos brancos do banheiro, com medo de que o capuz despertasse a qualquer momento ­— ou suas mãos enluvadas, o que era pior.

Poderia levantar o capuz e ver quem era o assassino de seus amigos?

Dane-se, depois você descobre isso, CORRA!

Vivian abriu a porta do banheiro e saiu correndo.

E afinal, onde estava Rod?

A mala foi posta sobre a cama e foi aberta: roupas femininas começaram a sair dela enquanto Susan Fletcher conversava.

A mala podia dizer muitas coisas sobre sua dona. Ela gostava de roupas casuais na moda, principalmente batas e saias de meio centímetro de comprimento, gostava de prender seus cabelos pretos com um laço rosa e carregava uma foto de suas irmãs gêmeas mais novas, Joan e Jane Fletcher.

A mala olhava para sua dona com orgulho, pois ela era muito eficiente em seu trabalho.

— Afinal, de quem foi a maldita idéia de passar a noite da casa dos Hatchet? — perguntou Sarah Polley, pendurando suas roupas nos cabides e os cabides no armário do quarto. Roupas de muito mau gosto, diria a mala.

— Parece que Rod acha que a casa poderia ter alguma pista sobre o assassinato dos Hatchet — explicou Susan, enquanto a mala ejetava suas roupas. — Mesmo assim, quem inventou a desculpa para a central foi o Ronald, que disse que nós estávamos envolvidos com alguma pesquisa sobre insônia, ou algo parecido.

— Insônia! — disse Sarah, com desprezo — Ronald poderia ter inventado algo melhor… Ele é muito mais esperto do que isso!

— De qualquer modo, funcionou — disse Susan, com um sorriso — Mesmo assim, ele nunca seria mais esperto que Vivian ou Rod.

— Ah, esses dois — Sarah começou a se despir — Se alguém poderia se meter a detetive, esse seria Rod. E se alguém poderia se meter junto com ele, seria Vivian.

— Claro, os dois são gênios.

— O par perfeito.

— Sozinhos, ele são um sucesso. Quando decidiram se juntar, está claro que eles vão conseguir o mundo.

— Se juntar? — perguntou Sarah, pegando sua toalha com um ar de dúvida — O que você quer dizer com isso?

Susan olhou para ela, depois murmurou em tom de segredo:

— Não era para ninguém saber, mas Rod vai pedi-la em casamento.

— Que bom! — disse Sarah, sorrindo — Só acho que eles deveriam esperar terminar a faculdade.

— Eu amo esses dois!

— Eu também. Bem, fique viva aí que eu vou tomar banho — e Sarah desapareceu da vista da mala.

Susan terminou de tirar as roupas da mala e sentou-se na poltrona. Ela parecia a fim de descansar. Então, a porta rangeu nas dobradiças e Susan gritou. Se levantou e tentou fugir, no entanto a mão enluvada agarrou-a pelo pescoço, enquanto a outra — portando uma faca brilhante e de cabo preto, precipitou-se sobre o rosto de Susan. A mulher gritou, e um dos olhos voou para dentro da mala, com respingos de sangue. O outro rolou no chão e parou ao lado do pé da poltrona onde Susan estivera sentada.

Em seguida, com a trilha de fundo dos gritos neuróticos de Susan, a capa de chuva serrilhou-lhe a garganta — e lá vai mais sangue. Depois, a capa carregou o corpo até a mala e amassou-o para caber dentro dela. O zíper foi fechado.

A mala estava orgulhosa de servir sua dona mesmo na morte.

— Onde está Ronald? — perguntou Vivian, entrando na sala de estar.

— Não sei — respondeu Rod, deitado folgadamente no sofá de couro da sala.

Os Hatchet deveriam ter tido mais gosto, pensou Rod. Cortinas rosa são realmente cafonas — ainda mais com paredes pintadas de vermelho-escuro. Francamente!

— Sarah está procurando por ele — esclareceu Vivian, deitando-se sobre Rod e beijando-o.

— Preferia que você estivesse procurando por mim — disse Rod com um muxoxo, e um mal-disfarçado ciúme.

— E você deveria estar procurando por Patrick — contrapôs Vivian — Ele disse que ia ver o problema dos fusíveis e até agora não voltou.

— Claro que sim, futura Sra. Rod Tucker — e beijou-a novamente.

A respiração ofegante.

Ele estava ouvindo aquilo mais uma vez, como se viesse do interior das paredes. Como se a casa estivesse respirando.

Aquele bafo, assoprando nos ouvidos dele, num frio gélido e ártico.

Rod Tucker, caucasiano, 22 anos, olhos castanhos e cabelos loiro de tom médio cortado à altura das orelhas, perdeu todo o humor.

— Escute — disse Rod, sério, sentando-se no sofá e sentando Vivian ao lado dele — Este negócio está ficando cada vez mais sério. Se alguma coisa acontecer com você, eu nunca me perdoaria. Seria culpa minha. Eu pus você e todos os outros nesse negócio.

— Eu sou grandinha o suficiente para cuidar de mim mesma — disse Vivian, sorrindo, cruzando os braços.

Mas Vivian Trembly, caucasiana, 22 anos, olhos verde-escuro e cabelos ondulados cor de mel, não deixou de sentir uma pontada no coração ao dizer isso. Mesmo assim, tirou um papel do bolso e olhou para Rod divertida:

Eu sou um menino mau. Você é um menino mau, Rod?

Rod não sorriu.

— Jo e Jan também eram bem grandinhas. Assim como Mika, Yoko e todos os outros.

Vivian encostou a testa na do namorado e beijou-lhe os lábios repetidas vezes.

— Fique tranqüilo, tá?

Depois olhou para o papel atentamente.

— Quem diabo teria escrito isso?

— A mesma pessoa que escreveria Aqueles que possuem o entendimento reconhecem o Número da Besta, pois ele é um número humano. Seu número é seiscentos e sessenta e seis.

A mesma pessoa que estava ofegando e murmurando em seu ouvido.

— Onde você achou essa? — perguntou Vivian, surpresa.

Rod tirou outro papel do bolso ­— tinto de sangue.

— Estava na máquina de lavar roupa — em uma parte de Joan Fletcher que você provavelmente não quer saber onde.

Vivian olhou para ele incrédula.

— Você não…?

— Eu sei que este negócio de bancar o detetive pode ser meio nojento às vezes, mas não. Esse papel eu achei com o Detetive Moretti.

Vivian suspirou — e logo em seguida iniciaram batidas desesperadas no carpete de madeira.

— O que é isso?

Rod agachou-se e encostou o ouvido no chão.

— Está vindo do porão…

— Patrick!

Rod se levantou e encarou o teto. O teto o encarou de volta.

— Vou ver o que está acontecendo com ele.

— Ótimo — disse Vivian, se levantando também. — Eu vou tomar banho.

A respiração estava cada vez mais ofegante.

Linha de pensamento 4.

Ronald Clifford, afro-britânico, 23 anos, olhos negros e enormes, cabelo raspado máquina 2, nariz pequeno e achatado e lábios cheios.

Tentando estabelecer conexão…

Ronald atravessou o limiar da porta do porão. Seu vulto enorme quase bloqueava a porta e a luz que lhe emoldurava o corpo apenas distinguia seu vulto no alto da escada.

O porão o chamava.

Venha, Ronald, venha…

A escada de madeira que descia para a escuridão, apesar de escura e aterradora, naquele momento parecia convidativa. Muito convidativa.

Ronald encarou a escuridão.

A escuridão o encarou de volta, com seus olhos invisíveis e gélidos. Olhos assassinos.

A grande verdade de nossa vida é que ela é governada por pessoas mortas.

Merda de papeizinhos.

Eu vou matar Patrick por querer brincar de esconde-esconde numa hora dessas. E Rod por ter metido todo mundo nessa.

Finalmente, evitando ao máximo o desejo de descer a escada, mais pela cautela racional do que pela intuição:

— Patrick, você está aí?

A escuridão respondeu para ele. A escuridão, olhando-o com seus olhos gélidos. Se ele tivesse certeza de que não estava ficando louco, poderia ter jurado que a fumaça negra da escuridão havia esboçado um sorriso. Um sorriso cretino — hipócrita.

A grande verdade de nossa vida é que ela é governada por pessoas mortas.

Da próxima vez que visse um daqueles papeizinhos, o amassaria e esmagaria até virar polpa em sua mão.

Se chegasse a ver mais um.

A escuridão esboçando seu sorriso, um gracejo.

A escuridão ofegando, respirando, cada vez mais rapidamente, como se… como se… COMO SE ESTIVESSE COM ASMA OU FALTA DE AR!

Então o som de alguém… vomitando? Babando? Tendo um ataque epiléptico?

— Patrick, você precisa de ajuda?

Um gemido, quase um sussurro…

Ronald… estou morrendo…

Não vá, Ronald! Isto é uma armadilha da escuridão! Uma emboscada!

Chega de paranóia e vá salvar o seu amigo!!!

A escuridão o chamando…

Ronald… estou morrendo…

O porão era tão atraente…

— Patrick, estou indo!

Esbaforido, Ronald Clifford desceu as escadas e encontrou a Morte.

Patrick, ganindo, estava se arrastando no chão de terra. Estava com o rosto enfiado no chão, babando, vomitando, ou tendo um ataque epiléptico. Gemia e bufava.

Patrick Heinemann, ariano, 22 anos, olhos azuis e vivos, cabelos lisos e loiros de comprimento médio, pálido como a Morte, estava vomitando a gosma branca no chão de terra, enquanto sobre ele, estava pregado na parede do porão um enorme corpo em decomposição de anos, embora os olhos ainda estivessem arregalados e suspensos nas órbitas vazias, a língua roxa para fora e a expressão de pavor.

O lugar cheirava a sangue coagulado.

Mesmo assim, o porão ainda era atraente.

A gosma branca.

Ronald se aproximou e se ajoelhou ao lado do amigo.

— Patrick, você está bem?

Ronald… estou morrendo…

Foi quando Ronald Clifford olhou para o canto e viu. No meio do monte de terra. Uma capa de chuva negra, como a capa da Morte. Luvas de couro negro. E uma faca de cabo preto, com a lâmina brilhante ensangüentada.

— Patrick, o que?

Ele está por aí! Mate ele!

E Patrick mergulhou a cabeça na gosma branca (vômito? Baba?) para nunca mais levantar.

— Filho duma puta! — berrou Ronald a plenos pulmões.

Sem sequer pensar em pegar a faca, Ronald entrou na escuridão do porão, entre as colunas que sustentavam a casa.

Logo após ele sair, a capa de chuva foi levantada por uma mão enluvada em couro negro, enquanto a outra pegava a faca ensangüentada no chão.

Ronald Clifford procurava pelo assassino de seu amigo, entre as colunas de madeira — e a escuridão.

A escuridão ofegava em seu ouvido, como um sussurro, cada vez mais rápido

— Apareça, seu covarde! — berrou Ronald a plenos pulmões.

Ronald caminhou por entre as colunas, procurando pelo algoz de Patrick. A escuridão olhava para ele, de uma de suas inúmeras dobras. Apenas esperava ver seu sangue jorrar, silenciosa e paciente.

— Apareça, seu bos…!

Ronald foi interrompido por uma punhalada nas costas. Clifford cambaleou, enquanto o sangue jorrava de suas costas, da facada brilhante, executada pela mão enluvada.

Ronald caiu no chão, prostrado, e cuspiu sangue, manchando a terra de vermelho. Depois foi chutado e se virou encarando o teto negro de madeira, enquanto a faca afundava ainda mais em suas costas. Ronald gritou, e o teto gritou para ele de volta.

Teve um vislumbre da Morte, com sua capa de chuva negra, com o capuz ocultando seu rosto — a não ser por seus olhos, frios e gélidos de fúria e fogo, queimando ardentemente…

Ronald tentou se levantar, mas o capuz arrancou-lhe a faca das costas, e o negro caiu no chão com outro espasmo de dor. Cuspiu mais sangue.

Tentou se levantar novamente, enquanto as mãos enluvadas contorciam seus dedos de prazer, gargalhando terrivelmente do sofrimento alheio. Ronald se levantou, e cambaleou até a escada que levava para a porta exterior, subindo com dificuldade os degraus. A capa de chuva o seguiu, subindo calma e silenciosamente os degraus, como se tivesse todo o tempo do mundo. Ronald estendeu a mão para abrir a porta que levava pra fora da casa — e sua mão foi brutalmente cortada pela faca brilhante. Sua mão ensangüentada rolou degraus abaixo.

Ronald soltou outro berro e levou a mão sadia ao braço cortado, que ejetava desesperadamente sangue. Fazendo isso, Ronald se virou desesperadamente e caiu deitado na escada, o pulso a espirrar sangue nos olhos gélidos da Morte, que pareceram ainda mais ardentes e excitados. Ronald berrava desesperadamente.

A faca desceu rapidamente e entrou na boca de Ronald, que ainda berrava. Os berros tornaram-se urros, depois murmúrios desesperados, enquanto Clifford vomitava sangue, e a faca esfaqueava, esfaqueava, esfaqueava, calando sua boca para sempre.

Os olhos arregalados e a faca enfiada na boca sangrenta.

Conexão perdida… Fonte desejada não encontrada.

Vivian saiu do banheiro berrando. Sua primeira atitude foi verificar se os outros estavam bem. Assim, saiu de seu quarto para o corredor sombrio. As cortinas esvoaçavam e luzes tremiam. Luzes negras, luzes roxas, luzes amarelas, luzes vermelhas como o sangue… Um raio varou o céu e Vivian soltou um berro curto.

Onde está Rod? Onde está Rod? Onde está Rod? Onde está Rod?

A garota saiu correndo pelo corredor e atingiu o quarto de Susan e Sarah. Abriu a porta com estrondo e já foi dizendo:

— Oh, vocês não imaginam o alívio saber que vocês estão bem…

Vermelho-escuro.

O jato de vermelho-escuro foi fulminante em seu rosto, e o líquido quente grudou e escorreu pelo rosto de Vivian. A garota esfregou os olhos tentando ver — e viu o que não queria.

Vermelho-escuro.

O vermelho-escuro do sangue saindo em jatos do cadáver de Sarah Polley, prostrado no chão, com o tórax dilacerado e a cascata de sangue voando sobre o quarto…

Eu tenho insônia.

Vivian gritou desesperadamente e passou as mãos pelo rosto, desesperada, arrancando os cabelos, tentando tirar o sangue vermelho-escuro que grudara em seu rosto.

Berrando esbaforidamente e ainda tentando tirar o sangue da cara, Vivian saiu do quarto e correu o resto do corredor até escada. Agarrando o corrimão para não cair, e berrando e chorando e apertando os olhos e desesperando, Vivian berrou:

— Onde está você, Rod?

Assim, ela correu até a sala.

Rod Tucker passou as mãos pelos livros da prateleira, procurando a chave.

Deve haver alguma coisa aqui.

Seus dedos passavam pelas encadernações em couro envelhecidas e cobertas de pó — muitos dos livros possuíam colônias de cupins vivendo e passeando por eles.

Uma casa sem livros é um corpo sem alma.

Rod olhou para o papelzinho que tinha na mão. Não poderia haver erro. Andrea Nicolodi só poderia estar dizendo a verdade, mesmo na morte.

Acho que é isto.

Rod tirou um pequeno exemplar da prateleira, chamado Tenebre, e esta se abriu — e os olhos mortos de um cadáver em decomposição ficaram a centímetros do rosto do garoto, que recuou dois passos.

O cadáver estava suspenso na passagem pelos pulsos, por enormes correntes presas nos cantos superiores. Ele volvia seus olhos mortos e malévolos para Rod.

Bobagem, é só um cadáver.

um cadáver.

Rod afastou o corpo e penetrou na passagem secreta que era impedida pelo mesmo corpo.

Oh, não, a escuridão de novo.

A escuridão ofegando, cada vez mais alto, irritantemente, nos ouvidos…

Rod desceu na completa escuridão uma escada de pedra, até que sentiu terra sob seus tênis.

Será que saí da casa? Não é possível, pois ainda está completamente escuro.

Rod seguiu pela passagem, tateando pelas paredes, até que tocou uma viga de madeira, e pôde ver a penumbra do porão.

Avançou pelas colunas — e o cadáver de Ronald Clifford atravessou seu caminho, rolando da escada que levava para fora.

Oh, céus!

Rod avançou, tremendo um pouco, e encontrou Patrick no chão, com o rosto mergulhado na sua poça de coisa branca. Na parede atrás dele, outro cadáver horripilante.

Rod se ajoelhou e tocou os cabelos loiros do amigo.

— Patrick, por quê?

Ele sabe de algo que ignoramos.

— Rod, onde diabo está você?

Vivian atravessou o hall da casa, em completo desespero, arrancando os cabelos, a face sangrenta e os cabelos cor de mel desgrenhados.

Água, água em todo lado, e todas as tábuas encolheram.

Água, água por todo lado, nenhuma gota para beber!

Ela enforcaria a Morte e seus malditos papeizinhos.

A escuridão ofegante, e terra molhada.

Maldita terra molhada!

A voz, ofegando em seus ouvidos, cada vez mais próxima, enlouquecedora…

A porta.

A porta da frente, com sua janela de vidro fosco, olhava para Vivian, rindo-se dela com gosto, no entanto tinha olhos ameaçadores, olhando para ela…

Ora, foda-se a porta!

O vidro da porta se quebrou com um soco, a maçaneta foi aberta e Vivian saiu correndo, gritando, berrando, surtando, desesperando.

Vivian correu pela frente de terra da casa dos Hatchet, e chegou num carro. Um Fiat vermelho. Cor conveniente.

De qualquer modo, era o Fiat do Detetive Michele Moretti.

— Oh, que alívio! O Detetive Moretti vai nos ajudar!

Vivian abriu a porta do Fiat vermelho.

— Detetive Moretti, por favor, tem um assassino na casa…

Que havia um assassino na casa, o Detetive Moretti já sabia. Já havia encontrado com ele. Estava com um rombo ensangüentado na garganta, os olhos esbugalhados e a bocarra aberta num grito mudo.

Vivian gritou e saiu correndo, largando a porta do Fiat aberta.

Correu, correu, e tanto correu, que chegou à estrada.

Uma buzina — e ela quase foi atropelada por um táxi.

— Tome cuidado, signora! — disse o motorista, através da janela do veículo negro — Poderia ter sido morta!

— Me leve para a Via dei Baigni — disse Vivian, entrando no banco de trás do carro — Imediatamente.

O táxi começou a andar pela rua negra. A escuridão.

O motorista falava, mas parecia uma voz completamente distante. Vivian apenas pensava. Eu vou buscar por ajuda, Rod. Por mim, por favor, fique bem.

Se alguma coisa acontecer com você, eu nunca vou me perdoar, Rod.

Então lhe caiu a ficha: fôra Rod quem sugerira passar a noite na casa dos Hatchet. Rod convencera Ronald a inventar alguma desculpa para a central do STB. Rod que inventara toda esta história de brincar de detetive.

Se alguma coisa acontecer com você, eu nunca vou me perdoar.

Rod, do sorriso meigo e gentil. Rod, dos olhos castanhos que olhavam para ela com tanto amor. Rod, dos cabelos loiros em tom médio, do sorriso sincero, do toque gentil e quente.

Direção errada, minha filha. Pensei que você fosse mais esperta. Um gênio, não é?

Rod, o homem que ela amava.

Ou era apenas uma brincadeira? Se fosse, ele pagaria caro por aquela brincadeira — e tinha um senso de humor idiota.

E o motorista do táxi se virou para trás com um sorriso assassino e tentou espetar-lhe a barriga com uma faca afiada tirada sabe-se-lá-de-onde.

Vivian rugiu, com raiva. Ela estava pensando. Ninguém a interrompia quando ela estava pensando.

Eu estava pensando, seu idiota! Ninguém me interrompe enquanto eu estou pensando!

Vivian agarrou a faca e, com prazer, apunhalou o peito gordo do taxista. Este vomitou sangue, com uma expressão de surpresa, e mais sangue jorrou de sua ferida, explodindo e manchando o vidro da frente.

O carro arriou, e no frenesi louco, onde Vivian apunhalava e apunhalava o taxista maluco, o carro brecou, virou e deu um baque surdo, um som amassado.

O carro havia batido numa árvore.

Vivian saiu do carro, com a faca em punho, e correu pela rua de volta à casa dos Hatchet.

Eu vou te matar, Rod Tucker!



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