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3
— Só espero que não compre nada — resmungou Rod Tucker, andando pela rua abraçado à namorada.
— Por quê? — perguntou esta, sorrindo — Não sou nem um pouco consumista!
Rod lascou-lhe um beijo no rosto.
— Tucker, você disse para ela não comprar alguma coisa? — perguntou Patrick, coçando a cabeça. — Com licença, estamos na Via Veneto!
— Pat, você sabe que odeio ser chamado de Tucker!
— Eu sei, só fiz isso para provocar mesmo…
Ao lado deles andavam Carol, Wayroad, as gêmeas Fletcher e Sarah Polley.
— Onde está Ronald? — perguntou Carol para Sarah.
— Não quis vir — respondeu a loira — Estava com gripe, ou alguma coisa parecida.
— Ah, antes que eu me esqueça — disse Rod. — Matt acompanhou Trudy e July a uma loja. Encontrar-nos-emos com eles depois na trattoria ali na esquina.
— Sabe, eu gostaria que alguma coisa acontecesse — disse Joan Fletcher — Essa viagem poderia estar mais agitada…
Mal sabia ela o que estava para acontecer.
— Não se preocupe, arranjaremos alguma balada para ir — disse Rod abraçando Vivian.
Mas não era o que Rod pensava. O garoto não cabia em si de contentamento. Aquela viagem estava sendo perfeita… Principalmente para ele e para Vivian. Andavam juntos, como sempre quiseram, dia e noite… Talvez quando voltassem para a Inglaterra fossem morar juntos.
Realmente, absolutamente nada poderia estragar aquele momento para eles.
Ou era, ao menos, o que ele pensava.
Foi quando sentiu aquela dor no peito novamente. Aquela ânsia… maligna. Perversa.
A respiração ofegante.
O cheiro de terra. Terra molhada.
Alguma coisa sinistra estava para acontecer. O sentimento era nítido, frio, enclausurado em seu peito como se estivesse numa jaula, prestes a se libertar.
— Preciso ir ao banheiro — disse Patrick subitamente.
Rod levou a mão ao peito, apertando-o.
— Vou com você.
O loiro olhou para ele com desconfiança.
— Você está bem, Rod?
Note-se: ele usou-lhe o apelido e não o sobrenome.
— É mesmo — acrescentou Wayroad — Você está um pouco pálido…
— Estou bem — disse Rod ofegante. A respiração ofegante. — Só quero tirar uma água do joelho.
— Há uma placa de banheiro no beco logo antes da gelatteria — disse Vivian — Vão lá, vocês dois.
Judy Templeton, caucasiana, 17 anos, morena, olhos castanhos, nariz fino e reto, cabelos compridos.
Trudy Eastefield, caucasiana, 17 anos, loira, olhos verdes, pálida, rosto fino.
— Como estão indo, garotas? — perguntou Matt Rosembaum, chegando por trás de Trudy e lascando-lhe um beijo no rosto.
— Não seja tão atrevido, Matt! — disse Trudy, sorrindo.
— Vocês sabem que eu amo vocês duas — respondeu Matt, um sorriso malicioso.
Os cabides viravam para deixar as moças verem as roupas. Eles eram muito eficientes em sua tarefa.
Uma vendedora se aproximou e perguntou no que poderia ajudar, em inglês.
— Por favore, cuanto cuesta? — perguntou Trudy, apontando para as roupas.
Matt soltou uma gargalhada.
— Isso é espanhol, querida.
— Está bem, quanto custa?
— 10 euros.
— Vou ao provador — disse Trudy, pegando um cabide — Esperem-me bem aí.
E a garota saiu do campo de visão dos cabides, acompanhada pela vendedora.
Matt encarou Judy com gula.
— E o que vamos fazer agora, que estamos sozinhos?
Judy estapeou-o de leve no ombro direito.
— Não se esqueça de que tenho namorado!
— Isso nunca a impediu antes… — rosto perto, sorriso malicioso.
Olhos nos olhos.
Um terceiro par de olhos, imersos na escuridão.
Uma mão saiu do meio das roupas, segurando uma faca. Fez um corte transversal no abdômen de Matt, que cuspiu sangue na outra. O líquido vermelho espirrou nas roupas, iniciando um jato intermitente.
As gotas escorreram pelo rosto da garota, tal como lágrimas, os olhos arregalados, inchados, vermelhos. Não houve grito — antes que pudesse executá-lo, a faca atingiu-a no baixo ventre, manchando o vestido de escarlate.
A mão se ergueu uma, duas vezes. Faca ensangüentada. Gotas no chão.
Ajoelhada, Judy mancha-de-sangue utilizou seus últimos esforços em abrir o espaço entre as roupas, reconhecer a pessoa entre elas e murmurar: Você.
A boca foi calada pela faca, que penetrou pelo céu da boca, rasgando o encéfalo, produzindo uma mangueira de sangue vomitado. Pequenos riachos escorriam da borda do buraco vermelho, enquanto a faca entrava e saía num movimento orgásti-sexual.
Os cabides sabiam a identidade do assassino, a mesma que tanto surpreendera a garota. Todavia, mesmo que quisessem, não podiam revelá-la.
Que bosta.
O par de pés que nos interessa atravessava o carpete vermelho sem pressa. Tênis Nike, igualmente vermelhos, com detalhes em negro.
Nome desconhecido, caucasiano ou ariano, idade indefinível, cor do cabelo? formato do rosto? qualquer informação?…
Só conseguimos obter informação dos pés.
As cortinas eram igualmente vermelhas, com mais pares de pés deixando-se entrever sob elas. Tênis Nike os perscrutava interessadamente, procurando o único que realmente lhe interessa.
Em alguma cabine desconhecida, Trudy Eastefield assobiava enquanto estendia a peça de roupa escolhida sobre o corpo jovem e delineado. O tecido acariciava sua pele deliciosamente.
Tênis Nike parou, escutando. Pés unidos em ângulo reto. Ao identificar a origem do assobio, iniciou sua Via Crucis novamente.
A cortina se abriu, dando espaço apenas para a cabeça de Trudy mostrar sua beleza.
— Matt, é você?
O silêncio a respondeu.
— Judy?
Dessa vez houve uma resposta efetiva — uma mão enluvada de negro agarrou sua garganta, prensando sua boca para que esta não se abrisse e produzisse ruído algum. A cabeça foi empurrada de volta para dentro do provador.
Miraculosamente, a mão-de-ferro enganchava a cabeça de Trudy contra o espelho. Seus olhos reviravam, olhando para todos os cantos, neuróticos, injetados de adrenalina e energia cinética. Seu braço esquerdo foi estendido num ângulo perfeito de noventa graus; a palma da mão aberta violentamente, dedo por dedo. Exatamente no centro desta, uma máquina de pregar perfurou a pele perfeita e fez verter sangue.
O grito gemeu, mas não saiu, graças à mão-de-ferro.
O outro braço foi estendido num ângulo igualmente perfeito de noventa graus, os dedos esticados, a palma revelada. A pele rasgada e manchada da poça de vermelho que se precipitou para fora.
Os pés se reviraram — o que não adiantou em nada. A outra mão-de-ferro (a primeira apertando a laringe) prendeu os dois tornozelos com um só movimento, um cruzado sobre o outro.
Prega-prega-prega.
Ferro contra derme e hemácias — e uma camada horrivelmente dura e grossa de cálcio. O sangue escorreu o suficiente para que o prego atravessasse pele-carne-sangue-osso-sangue-carne-pele pele-carne-sangue-osso-sangue-carne-pele.
Assim crucificada.
A mão-de-ferro finalmente soltou a laringe. Quando esta ia esticar todas as suas cordas vocais num grito agudo, desesperado e violento, a faca penetrou-a e pregou o encéfalo ao vidro.
O espelho se partiu em mil pedaços, revelando a escuridão por detrás de si.
— Eles estão demorando muito — disse Sarah Polley, balançando a perna excitadamente.
— Ali vem Rod — exclamou Vivian.
De fato, o loiro se aproximou, ajoelhando-se em frente às duas.
— Hey, vocês viram Patrick?
As garotas se entreolharam.
— Não. Pensei que vocês tivessem ido juntos ao banheiro.
— E fomos. Ou ao menos foi o que eu pensei.
Rod Tucker sentou-se ao lado da namorada.
— Posso jurar que ele entrou comigo no banheiro, mas no segundo seguinte não estava ali — e não saiu comigo.
— Acho que pode perguntar ao próprio — disse Vivian, inclinando a cabeça pra uma juba loira em meio à multidão. Realmente, foi Patrick que os alcançou.
— Onde você estava? — indagou Rod, erguendo uma sobrancelha.
— No banheiro, ora essa — Patrick deu de ombros, mãos nos bolsos — Desculpe, garotas, mas quando você tem que ir, você tem que ir.
— A única garota aqui, ao menos no que se refere a banheiro, é você — retrucou Rod, jocoso.
— Você precisa de um belo latte para se acalmar, querida — Patrick sorriu.
— Melhor irmos logo à trattoria — disse Sarah, levantando-se. — Matt e as garotas devem ter ido direto para lá.
Os amigos se levantaram e sumiram na multidão de pedra. O banco sentiu-se triste, abandonado por tão honrada companhia.
E a respiração ofegante. E o cheiro de terra molhada. As colunas de madeira, a pseudo-escuridão do ristorante lembrava-lhe alguma coisa do qual não se lembrava — ou talvez não fosse feita para ser lembrada. Por que, como poderia se lembra de algo que ainda não aconteceu?
Ah, minha filha, você está perdendo o jeito.
Um relance, como um raio: Patrick com a cara enfiada numa poça gosma branca.
— Viv, você está bem? — pergunta de Roderick, aparando-a.
— Estou bem.
Uma outra pontada — como um raio, uma facada!
Rod, o mesmo Rod gentil e sincero, agora a abraçando, só que com um sorriso louco, olhos esbugalhados, rosto escorrendo vermelho, e uma faca brilhante e afiada de cabo preto na mão.
Ela se apoiava no balcão de entrada, trêmula.
— Totto bene, signora?
O maître que indagava, atrás do balcão (por que um nome francês num estabelecimento italiano?).
— Si, graze. Totto bene. — suspirou Vivan, erguendo-se do balcão.
— Talvez você precise ir ao banheiro — disse Sarah, acariciando o ombro da amiga. — Sempre que estou no período, sinto tonturas horrorosas.
— Sarah, agora não é hora — ruminou Patrick, secamente.
— Uma mesa para onze, por favor — pediu Rod, em italiano, amparando a namorada.
— Fumante ou não fumante? — indagou o maître.
O garoto parou, sem saber o que responder. Não sabia se seus amigos fumavam — além de não ouvir essa pergunta há muito tempo, devido à recente lei de proibição do fumo em lugares públicos fechados na Inglaterra.
— Fumante, por via das dúvidas — Patrick interferiu.
O maître os levou a uma mesa próxima à janela, onde Roderick e Sarah sentaram uma Vivian quase desfalecida. Patrick pediu um copo de água com açúcar.
BANG!…
E a voz berrava em sua cabeça.
BANG!…
E a faca prateada pingava sangue.
E a respiração ofegante. Whisk, whisk.
E o cheiro de terra molhada.
O vidro frio tocou seus lábios trêmulos.
— Beba, far-te-á melhor.
O líquido doce desceu por sua garganta suada e nervosa, escorrendo pelo esôfago apertado até pousar no buraco muscular do estômago.
Patrick tossiu.
— Fuma, seu desgraçado! — exclamou Rod, repetindo a frase que já virara lema entre o grupo de amigos.
— Tucker, não critique os hábitos tabagistas que não tenho…
Rod mostrou-lhe a língua. — E não me chame de Tucker!
Sua namorada, alheia a tudo que acontecia, pousou a cabeça em seu ombro e desmaiou, não antes de murmurar “Rod…” e deixar uma babinha escorrer pelo canto da boca.
O loiro apenas olhou-a atentamente, deixou a baba escorrer livremente por sua camiseta, depois virou para Sarah e disse calmamente: — Acho que ela precisa de um médico…
— Você acha? Eu tenho certeza!! — exclamou Sarah exasperada — Faça-me o favor, Tucker!
Foi quando Wayroad, surgido do nada, ajoelhou-se ao lado dos dois e indagou que havia acontecido com ela. — Está bem?
— Acho que ela não parece estar bem… — foi a resposta de Patrick.
— Ela está ferida? — perguntou Jo Fletcher, ladeada pelas duas irmãs, vindo atrás de Wayroad.
— E por que estaria? — indagou Rod.
— Porque um de seus amigos foi. Três, para ser mais exato.
Um homem grisalho, em seus cinqüenta anos, barba, pés-de-galinha e todo o resto, sob uma capa bege a la Scotland Yard caminhou até eles.
— E quem seria o senhor? — perguntou Patrick, levantando-se e avançando até o recém-chegado, suspeitoso.
— Detetive Michelle Moretti, carabinieri.
Michelle Moretti, caucasiano, 53 anos, outrora ruivo, agora grisalho, alto, magro, nariz aquilino, olhos escuros, cabelo cortado rente ao estilo militar, sisudo e estranho. Não possuímos muitos detalhes sobre ele.