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Assassinato na Rua Melvin
I
Uma noite, eu me encontrava com meu grande amigo, o detetive Luck Fallstone Medison, em sua casa na cidade de Oakland, Califórnia.
O ano era 1974, e o mundo sofria com a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Eu e Medison, sentados na sala de estar da casa, conversávamos sobre política:
“Você acha que o comunismo é bom ou ruim?” – perguntei.
“Nem bom, nem ruim, caro Peterson” – respondeu o detetive, bebendo uísque escocês. – “Até hoje o comunismo propriamente dito não foi implantado em nenhuma nação”.
“Mas e a União Soviética?”.
“Você chama aquilo de comunismo?”.
Sempre tentava deixar Medison sem saída, o que era, praticamente, impossível.
De repente, a porta da casa se abriu e entrou um homem de terno, gravata e chapéu, que, olhando para mim e para Medison, saudou:
“Boa noite, senhores”.
“Boa noite, senhor Terrance” – disse Medison, com o copo de uísque na mão. – “Creio que conhece o senhor John Terrance, do FBI, senhor Peterson”.
“Lembro-me que o vi aqui há dois meses, mas já estava de saída” – disse eu, servindo-me da bebida que Medison tomava.
“Sim, de fato, lembro-me do senhor Peterson” – disse Terrance, sentando-se numa poltrona.
“O que deseja?” – perguntou o dono da casa.
“Preciso de sua ajuda num caso de extrema importância, Luck”.
“Explique-me tudo”.
“Acontece que, na rua Melvin, a uns cinco quarteirões daqui, vivia um homem chamado John Markinson. Velho e ranzinza, era proprietário daquela bela casa que vimos há cerca de seis meses. Pois bem. Cheio de manias, o senhor Markinson fez vários inimigos na vizinhança. Primeiramente, brigou com a senhora Dora Vickers, proprietária da casa à esquerda, mulher que perdeu o marido na Segunda Guerra Mundial e o filho no Vietnã. Segundo ela, o senhor Markinson jogava lixo em seu quintal e isso a irritava profundamente. Depois, brigou com o senhor Peter Grant, vizinho da direita, que reclamava da música ouvida por Markinson no volume máximo, incômodo diário. Vale lembrar que Grant é um ex-presidiário, condenado por ter tentado matar uma vizinha em Chicago há alguns anos. O senhor Grant, como a senhora Vickers, vive sozinho”.
“OK. E o que aconteceu?”.
“Há três dias, às três horas da tarde, o senhor Markinson saiu para comprar comida num mercadinho próximo, localizado a dois quarteirões da casa. Voltou às três e trinta e cinco. Quando faltavam dez minutos para as quatro horas, o senhor Maxwell Parker, proprietário da casa em frente à de Markinson e único amigo dele na vizinhança, foi visitá-lo, trazendo um alicate que ele pedira emprestado. Entrando na casa, encontrou Markinson caído na cozinha, morto, sem nenhum ferimento ou escoriação. Não havia sinais de luta na casa. Foi realizada uma autópsia, mas não conseguimos encontrar nada que informasse a causa da morte. O FBI foi contatado e estou cuidando do caso”.
“Quero uma lista de todas as pessoas residentes nas três casas localizadas do outro lado da rua, em frente às de Markinson e os vizinhos suspeitos. Também desejo uma lista das pessoas que estiveram nessa parte da rua entre as três e trinta e cinco e as três e cinqüenta da tarde”.
“Providenciarei tudo em, no máximo, dois dias”.
“Está bem”.
II
Em frente à casa de Markinson vivia Maxwell Parker, como Terrance já informara. Ele apenas se esquecera de Raul Gonzáles, estudante espanhol intercambiário, que vivia na mesma casa provisoriamente. Na casa à esquerda desta, em frente à de Peter Grant, vivia Thomas Wilson, engenheiro e excelente pai de família. Sua mulher era professora e sua filha estudava na universidade local. Nunca haviam demonstrado descontentamento em relação a Markinson.
Na casa à direita da de Parker, em frente à de Dora Vickers, vivia Paul Adams, veterano da Segunda Guerra Mundial, surdo e praticamente cego. Recebia cuidados diários vindos da sua sobrinha, Mary Jones, que ficava com o tio das sete da manhã até as oito e meia da noite, quando este ia dormir.
Veio, então, a lista de pessoas que estiveram naquela parte da rua durante os quinze minutos nos quais John Markinson morrera. A primeira pessoa interrogada por Medison na casa do detetive, saboreando uma deliciosa refeição vespertina, foi Sarah Wilson, mulher de Thomas Wilson. Esta estivera na rua das três e trinta e cinco até as três e quarenta, esperando o marido voltar do trabalho. Vira Markinson entrar na casa e Gonzáles e Jones conversando na calçada, mas estava bastante atarefada e não prestou muita atenção naquele momento. Vendo que o marido não chegaria tão cedo, Sarah voltou para dentro da casa.
Depois foi a vez de Mary Jones. Jovem simpática e amável, contou tudo a Medison sem qualquer inibição. Esta confirmou o que a senhora Wilson dissera. Confessou estar interessada em Gonzáles e que todos os dias conversava com o espanhol naquele horário, enquanto seu tio repousava. Informou que Raul freqüentava aulas de flauta diariamente, das quatro horas até as cinco. Notou que o paquera tinha certa pressa em entrar na casa de Parker. Voltou para a residência às três e quarenta, percebendo que o tio a chamava.
A terceira pessoa interrogada foi Maxwell Parker. Este afirmou ter permanecido em sua casa das três e quinze até as três e cinqüenta, assistindo seu programa favorito na TV. Disse também que Gonzáles saíra um tanto agitado às três e meia da tarde e que, por volta das três e quarenta, entrou na casa como um furacão, subindo até seu quarto e saindo pouco depois, carregando sua flauta e as partituras que costumava usar. Às três e cinqüenta, Maxwell se dirigiu até a casa de Markinson, encontrando-o morto. Por fim, mencionou o fato de nunca ter ouvido Raul praticar o que aprendia nas aulas em casa.
A última pessoa que estivera na rua a ser interrogada foi Raul Gonzáles. Bebendo o uísque de Medison, o espanhol confirmou que Sarah Wilson estivera na rua das três e trinta e cinco até as três e quarenta, além de confirmar a conversa com Mary Jones, que durara até a mesma hora. Depois, entrou rapidamente em casa, pois estava atrasado para sua aula de flauta, que teria início às quatro horas e, como a casa do professor está localizada numa área um tanto longe dali, talvez não chegasse a tempo. Antes de se retirar, mencionou o fato de ter visto, pela janela, quando foi pegar suas coisas no quarto, o senhor Peter Grant no quintal de Markinson.
Após essa primeira etapa, o detetive interrogou os dois vizinhos suspeitos. Dora Vickers foi a primeira e mencionou ter dormido, na tarde do crime, das duas horas até as quatro e quinze da tarde. Mencionou que Markinson sempre deixava uma janela da casa aberta. Além de demonstrar ser uma pessoa extremamente bondosa, ofereceu uma torta de maçã ao detetive, que, agradecido, presenteou-a com uma garrafa do melhor uísque escocês.
Peter Grant foi interrogado num restaurante no centro da cidade. Não confirmou nada dito por Sarah Wilson e Mary Jones, afirmando ter permanecido nos fundos de sua casa das três e meia até as três e quarenta e cinco. Sobre o fato de ter sido visto nos fundos da casa de Markinson, disse, com grande tranqüilidade, que apenas fora apanhar suas ferramentas que Markinson pegara sem autorização na noite anterior, pulando a cerca que separava as duas propriedades, entre três e quarenta e três e quarenta e cinco da tarde. Antes de ir embora, mencionou que Markinson sempre ouvia uma irritante música numa língua incompreensível.
Por fim, Medison resolveu dar uma olhada na casa de Markinson, na qual apenas Parker entrava, ainda raramente. Na frente da residência, havia um bocal de flauta em meio à grama. Numa estante na sala de estar, o detetive encontrou vários livros de química e biologia, contendo teses que apenas um grande profissional na área entenderia. No quarto de Markinson, Medison encontrou um pôster de Nijinski, além de vários discos com temas dos mais aplaudidos espetáculos do artista.
III
Na noite daquele dia, Medison me convidou para jantar em sua casa. Lá encontrei John Terrance, que, após o jantar, perguntou ao astuto detetive:
“E então? Já solucionou o caso?”.
“Sim, senhor Terrance”.
“Quem matou o senhor Markinson?” – perguntei, curioso.
“Foi um crime político, meus caros”.
“O quê?” – surpreendeu-se o homem do FBI.
“Isso mesmo. John Markinson era, na verdade, Alexander Petrovich, conhecido bioquímico soviético. Fugiu da Rússia há alguns anos, ameaçando revelar segredos a nós, mas foi assassinado antes que as autoridades tomassem conhecimento de sua verdadeira identidade”.
“Como descobriu isso?” – perguntei, espantado.
“Primeiramente, suspeitei da música que ele ouvia. Segundo Peter Grant, era incompreensível. Uma língua bastante complicada, com certeza, é o russo. Minhas suspeitas se confirmaram quando encontrei discos e um pôster de Nijinski na residência da vítima, além de vários livros complicados sobre química e biologia, que apenas um bioquímico conceituado poderia ler”.
“Já entendi, mas quem o matou?”.
“Comecei a suspeitar de Raul Gonzáles quando este mencionou estar, na tarde do crime, com bastante pressa para chegar na sua aula de flauta. Ora, todos sabem que a casa do professor fica a poucos quarteirões da rua Melvin e que, saindo de casa às três e quarenta, o espanhol levaria cerca de quinze minutos até chegar ao local, ou seja, chegaria antes das quatro horas, horário em que se inicia a aula. Outra coisa que me intrigou foi uma afirmação do senhor Parker. Ele disse que nunca ouvira Raul praticando em casa o que aprendia nas aulas. Além disso, encontrei um bocal de flauta na grama em frente à casa da vítima, o que é um tanto estranho”.
“Onde quer chegar?” – perguntou o senhor Terrance.
“Raul Gonzáles tem dezoito anos e, devido a algumas repetências, ainda cursa o colegial. Naquele dia, não foi à aula. Saiu de casa às três e meia, agitado. Cinco minutos depois, viu Markinson entrar na casa. Aflito, não teve outra opção a não ser conversar com Mary Jones, que se aproximava, para não levantar suspeitas. Porém, não conseguiu ocultar seu nervosismo. Às três e quarenta, entrou na casa de Maxwell como um furacão, subiu as escadas, e, apanhando sua flauta e as partituras, observou, através da janela, que Peter Grant se encontrava nos fundos da casa da vítima. Isso facilitaria tudo, mas, ao mesmo tempo, dificultaria as coisas para o espanhol. Saindo da casa tão rápido como entrou, ganhou a rua. Nervoso, atravessou-a. Certificando-se que ninguém o observava, arrancou o bocal da flauta e jogou-o na grama. Entrou na casa por uma janela que Markinson deixava sempre aberta, silenciosamente. Preocupava-se com o fato de Grant estar nos fundos da casa, porém, sabia que ele seria o principal suspeito depois de cometido o crime. Ganhou a cozinha e, antes que a vítima pudesse gritar, descarregou, através da flauta, na verdade um cilindro mortal, uma certa quantidade de ácido prússico no rosto do russo, que caiu morto. Todos sabem que o ácido prússico é uma arma que não deixa vestígios e que também é muito usado por agentes comunistas em missões de extermínio. Rapidamente, Raul saiu pela mesma janela sem causar ruído e, aliviado, desapareceu dali. Consultando certas fontes, descobri que Raul Gonzáles faz parte da Juventude Marxista, grupo extremista espanhol que prega uma revolução no país. Também descobri que, recentemente, Gonzáles foi recrutado pelo tão temido Comitê de Segurança do Estado soviético”.
“KGB?”.
“Exatamente. A missão de Gonzáles era eliminar Petrovich antes que ele abrisse o bico”.
“Estupendo, Medison” – disse Terrance. – “Vou ordenar a prisão de Gonzáles imediatamente”.
“Como quiser, caro amigo”.
O homem do FBI saiu, enquanto o detetive, com classe digna dos monarcas britânicos, bebia seu uísque diário.
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Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – “Goldfield”.