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Não sei como fui ali parar, depois de tudo o que aconteceu, todavia, ali me encontrava, rodeada de jornalistas famosos, a aguardar a conferência de imprensa de Rushil Rune Kateb, que viria apresentar o seu livro mais recente. Fora lançado nessa mesma manhã, mas Kateb disponibilizara aos media uma cópia, anteriormente, para que pudéssemos saber sobre o que questionar.
The Daily Mail escolhera-me, duas semanas antes, depois de o meu chefe de redacção me ter visto a folhear o penúltimo best-seller de Rushil, para assistir à conferência. Contudo, eu não era mais do que uma jornalista estagiária, ainda ia buscar o café a algum veterano assim que este manifestasse necessidade, e ainda me mantinha nas sobras no bar.
De repente o burburinho que se ouvia na sala cessou, sendo substituído por flashes e por microfones a serem ligados. Rushil Kateb entrara na sala. Levantei-me por momentos, como todos os outros, e estiquei-me, tentando visualizar o escritor entre o repórter da BBC e o do The Times. A minha tentativa mostrou-se vã, embora a repórter ao meu lado tivesse, certamente, achado o contrário, pois abafou uma gargalhada com a mão carregada de joalharia.
Sentei-me sem a olhar, puxando do meu bloco de apontamentos enquanto a minha colega de reportagem, Gail Newton, se remexia na cadeira, de gravador na mão esquerda.
- É agora, Tati, a tua primeira grande reportagem está a começar. – sussurrou-me Gail, dando-me um ligeiro apertão no braço, antes de voltar toda a sua atenção para o palco.
Agora que todos se haviam sentado conseguia observar Rushil, sentado no centro da mesa, intimidado por meia dezena de microfones que se amontoavam à sua frente, cada um ostentando o nome do seu media.
- Boa tarde, senhoras e senhores.
Arranhei o papel com a ponta do lápis, não querendo perder pitada.
- Estamos aqui hoje para marcar o lançamento oficial da minha obra mais recente, “Luar sem ti”. Erg... Talvez queiram fazer algumas perguntas?
Tinha feito a proposta derradeira. Será que o fazem de propósito?
Gerou-se um reboliço, ouvindo-se as cadeiras a serem arrastadas para trás, as vozes apressadas dos jornalistas, os flashes das câmaras e os folheares dos blocos de apontamentos em busca de perguntas.
- Por favor, um de cada vez. Comecemos pela frente. – Rushil apontou para um homem nervoso, na primeira fila, que ia dando saltinhos enquanto tentava colocar a sua pergunta sob o barulho. – Repita, por favor, a sua pergunta, para que todos a possamos escutar.
- Boa tarde, o London Review of Books gostaria de saber se a história se inspira em factos reais ou se é apenas ficção.
- Erg...
Rushil parecia nervoso. Rodava nervosamente os dedos sobre a mesa, agitava-se na cadeira e, em cada 10 segundos, passava a mão pelo cabelo. Seria assim tão difícil falar sobre a sua própria obra?
Kateb tinha 50 anos embora aparentasse pouco mais de 40, tinha o cabelo ainda preto, e olhos escuros como a noite. Vestia fato e gravata, ambos em tons escuros, contrastando com a imaculada camisa branca. Não me parecia muito alto, com a sua cara redonda e o início de um segundo-queixo.
- Completamente ficção, completamente ficção. Alguma relação com factos reais é pura coincidência, pura coincidência. Mais alguma questão? Então, Mrs, poderia colocar a sua pergunta agora, por favor?
Assim que a jornalista do The Mirror se ergueu deixei de seguir a conversação, limitando-me a copiar aquilo que ouvia como que mecanicamente. Um homem do lado direito do palco, encostado à parede e escondido pelas sobras observava a cena, movimentando a cabeça antes mesmo de Rushil dar uma resposta.
Parecia alto, com ombros largos e muito direito. Não conseguia vê-lo completamente e, se não fosse o olhar do escritor que se desviara para lá por questão de segundos antes de responder à primeira questão, nem teria dado por ele.
Procurei o olhar de Gail, para lhe apontar o vulto, mas esta havia-se inclinado para o fotografo que nos acompanhava, pedindo-lhe alguma fotografia em especial. Esperei que ela acabasse, mas, pelas suas gargalhadas abafadas e pela mão que passava no cabelo loiro, percebi que era melhor desistir. A Gail e o Richard? Impossível! Ele era casado! E a Gail tinha quase idade para ser mãe dele!
Entre rabiscos e frases inacabadas – incrível como o ser humano consegue falar tão rápido – a conferencia terminou e Rushil saiu da sala, apressado, murmurando para o vulto que se afastou antes do escritor chegar perto dele. Seria aquele o seu agente? Talvez fosse útil ao jornal se eu o conseguisse apanhar e colocar algumas questões.
- Tatiana, vens? – perguntou Gail, tocando-me no ombro.
A maior parte dos jornalistas já tinha abandonado a sala.
- Sabes, eu acho que o agente do Kateb está cá. Não seria bom encontra-lo? – perguntei, mais pela curiosidade de ver quem se encontrava escondido do que pelo jornal.
- Tati, os agentes estão sempre cá. Mas se os quiséssemos entrevistar teríamos de marcar com ele, e não creio que ele tenha muita coisa para nos dizer.
- E também não me parece que ficasse muito bem na primeira página – comentou Richard, retirando a objectiva da câmara.
Aquiesci, resignada, e segui os profissionais para o exterior. Guiada por Gail segui até ao carro do jornal e deixei que Richard me abrisse a porta de trás, ainda a pensar em quem estaria escondido a servir de ponto.
- Sabes, Tati, estás a precisar de mudar de cor de cabelo! Essa faz-te parecer tão pálida! – opinou Gail, olhando-me pelo espelho retrovisor.
- Está óptimo, Gail, e é a minha cor natural, não o vou estragar com tintas. – repostei, passando os dedos pelo cabelo. O meu cabelo preto! Por muito que se embaraçasse e por muito que as cabeleireiras reclamassem, não iria deixar que estragassem o meu cabelo. Era meu!
- Mas, querida, pareces mais branca do que a parede. Se calhar é da maquilhagem. Já experimentaste por um pouco mais de blush? – insistiu, enquanto se virava para trás constantemente, numa tentativa falhada de uma marcha atrás perfeita.
Não lhe respondi, olhando pela janela.
Podia jurar que, quando olhei, alguém parecido com o vulto que vira na sala de conferencias caminhava ao lado de Rushil, batendo-lhe calorosamente nas costas enquanto se ria, escondendo a cara na mão livre. Foi apenas um vislumbre, mas vi os olhos mais bonitos que alguma vez tinha visto na vida. Eram azuis, profundos, brilhantes.
- Gail, conheces o homem que acompanha Rushil, à direita?
- Quem, querida? – perguntou Gail, olhando para o Rushil a entrar na sua limusina.
- Hum... Ninguém.
- E então, Tatiana, que achaste da conferencia? – continuou Gail, como se eu nunca lhe tivesse apontado alguém que não existia.
- Rushil pareceu-me um bocado nervoso. Ele tem medo da audiência?
- Completamente paralisado de medo, diria eu. Será que podemos inserir isso na reportagem? Creio ter conseguido capturar o movimento frenético que fazia com as mãos e ter mais de trinta fotos dele a beber água. Deve ter sido por isso que saiu da sala a correr.
Ri-me com Gail, esquecendo por completo o homem misterioso.
- Não sei, Richard, isso não o tornaria demasiado parecido com o Paul?
Gail riu-se, desta vez sozinha, enquanto eu e Richard nos olhávamos pelo espelho retrovisor.
Paul era um dos jornalistas do nosso piso. Recentemente fora operado à bexiga e precisava de ir à casa-de-banho de dez em dez minutos. Quando tal foi notado, houve os mexericos de sempre, mas ninguém sabia que Paul fora operado. Tais mexericos desapareceram assim que Paul deixou escapar, em conversa com o seu estagiário, Kevin, que fora operado. Desde então que a única pessoa que se ria sobre o problema de Paul era Gail, muitas vezes acompanhada de Christina, a sua melhor amiga.
Enquanto entravamos em Londres, começou a chover. Felizmente estava no carro do jornal, ou teria de andar à chuva desde o metro até à redacção.
- Boa tarde, Tatiana. – cumprimentou-me Michael quando me viu a sair do elevador.
O seu cabelo loiro e encaracolado fazia-me lembrar o menino Jesus, mas o seu rosto tinha linhas rectas e tais pensamentos eram afastados quando o olhava duas vezes. Com mais de 30 centímetros de diferença de mim, nariz adunco e embrulhado em cachecois, Michael era o outro estagiário do meu piso.
Acenei-lhe, vendo Gail saltar sobre o seu computador, começando a escrever a sua reportagem.
- Gail? Gostarias de dar uma vista de olhos no que recolhi? – perguntei inibida.
Já sabia que era assim que funcionava quando trabalhava com Gail. Ambas nos deslocávamos ao local, assistíamos às mesmas coisas, cada uma fazia a sua recolha, e Gail escrevia o artigo sem pedir a minha opinião sequer.
- Claro, querida, claro. Deixa-os aqui na minha secretária, por favor.
Sentei-me no meu cubículo, abri o meu computador e digitei tudo o que tinha conseguido apanhar durante a conferencia.
- Deves já ter recebido o ficheiro – informei, baixando o ecrã do computador e fixando Gail a trabalhar, com uma ponta de ciúme.
- Ei, Tati, gostarias de ir comigo até à sala escura? – perguntou Richard, depois de descarregar as fotografias para o seu computador e de as partilhar com Gail.
- Tens a certeza? – perguntei incrédula. Sempre quisera ir lá a baixo, conhecer a mítica sala escura, onde todos os nossos fotógrafos revelavam as suas obras de arte. – Adoraria!
A sala ficava na cave, onde não havia problemas com as janelas, e era o único sitio interdito até mesmo à limpeza, quando não “fiscalizada” por um dos fotógrafos.
- É em alturas como esta que eu não gosto de estar casado – brincou Richard, apagando as luzes da sala.
Olhei à minha volta, adaptando os olhos à pouca luz vermelha.
Atrás de mim, como num estendal, secavam cerca de 20 fotografias, algumas delas repetidas. À minha frente a máquina de projecção e na mesa ao seu lado as bacias com os líquidos reveladores.
Conhecia os todos, e sabia como revelar uma fotografia, mas estar naquela sala fazia-me sentir pequenina – ainda mais do que na realidade – e insignificante.
- Surpresa, hem? – perguntou Richard, retirando do bolso interior do seu casaco cabedal castanho um rolo. – Que tal me ajudares a revelar este filme?
- Posso? – sorri como uma criança a quem dão um doce. Eu iria revelar um filme ali?! Naquela sala?! Era mais do que eu podia pedir.
- Claro. Clica só aí nesse botão para acender a luz lá fora, para que não abram a porta.
Fiz o que Richard me pediu e voltei para o pé dele.
O fotógrafo pegou no rolo com delicadeza e preparou-se para o abrir, arrependendo-se e colocando-mo nas mãos com um sorriso travesso.
- Vamos ver o que fazes.
Comecei o trabalho a tremer, mas assim que o filme fixou e o pude colocar no projector acalmei. Já não podia estragar tudo.
- A Joane está grávida! – exclamei ao ver a primeira foto.
Tirada num belo pôr-do-sol, Joane, de lado, exibia a forma de uma barriga cada vez mais redonda. Os seus cabelos claros, delicados, caiam-lhe pelas costas numa cascata e, embora fosse impossível ver, tinha a certeza que os seus olhos brilhavam e que sorria, olhando para o marido.
- É uma menina, sabes. Vamos chama-la de Anne Rose. – contou-me Richard, sorrindo-me. – A minha primeira filha.
- Estou tão feliz por vocês, Richard! – sorri.
Continuei a revelar fotos cada vez mais bonitas. Numas Key, o labrador de Richard, noutras paisagens que eu não acreditava pertencerem a Inglaterra, e ainda algumas fotos de desconhecidos.
- Da próxima vez que tiver de vir revelar uma foto peço-te a ti – riu-se Richard, quando eu dei o trabalho por terminado. – Consegues ser ainda mais rápida do que eu!
- Não digas isso. Apenas estava curiosa para ver as obras-primas que tinhas capturado com essa tua câmara mágica!
Richard abriu-me a porta e, já no elevador, propôs que eu fosse a casa dele jantar. Na noite seguinte já teriam ecografias mais pormenorizadas de Anne Rose.
- Que honra, ser convidada para jantar com os papás babados. – ri-me, passando pelas portas do elevador.
- Tu sabes que a Joane te adora, és como a irmãzinha mais nova que ela nunca teve. E tu és boa a ouvir piadas – piscou-me o olho. – Conto contigo?
- Eu adorava, mas se Stephenie resolver ficar em casa, tenho de lhe perguntar primeiro.
- A tua irmã mais parece tua mãe – comentou Richard. – Não a apresentes aos teus namorados ou os coitados morrem de susto quando perceberem que têm duas sogras pelo preço de uma.
Ri-me, voltando ao meu compartimento.