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Fiction » Young Adult » My own FAIRY tale font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sofia Lemos da Costa
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Romance - Reviews: 36 - Published: 10-21-06 - Updated: 06-04-07 - id:2264318

Natal

O Inverno chegou repentinamente; frio e chuvoso como sempre, tornando a minha rotina com Elmer impossível.

Claro que Elmer não demorou muito tempo a arranjar algo para fazermos à tarde. Lembrou-se, infelizmente, de que me havia prometido ensinar tudo quanto possível sobre a família real e sobre como me comportar perante esta.

- Se te perguntarem o que fazes – informou-me ele, - tenta sair daí o mais rapidamente possível. E nunca digas que és jornalista. Muitos membros da minha família têm fobia a essa palavra. Diz antes algo sobre seres estagiária ou escreveres. Geralmente isso chega.

Anuí, voltando a concentrar-me na reportagem que tinha à minha frente: coubera-me a mim, nesse dia, confirmar a reportagem principal do número desse fim-de-semana.

Elmer encontrava-se sentado ao meu lado, na mesa rectangular do meu apartamento, trabalhando no seu portátil.

Risquei uma repetição e olhei-o.

- O que escreves? – perguntei, tentando espreitar o seu trabalho.

Desde de que me havia contado toda a verdade, que eu tentava arrancar dele o seu próximo livro. Mas Elmer desviava sempre a conversa, dizendo que eu me esquecia de que o escritor era Rushil Kateb e não ele. E eu não namorava com Rushil, mas sim com ele, Elmer Hagan. Quando me dizia tal coisa usava sempre a sua expressão mais séria, tão séria que quase me assustava, mas, com a última palavra, já vinha um ataque de cócegas ou de beijos.

- Hum… acho que já tivemos esta conversa – brincou, afastando um cabelo da minha cara com a mão direita, deixando a esquerda poisada no rato.

- Oh, vá lá! – pedi, fazendo uma careta. – Dá-me uma pista!

- Só uma. E não me chateias mais com os livros, ok?

Rodei os olhos e anuí, embora Elmer soubesse perfeitamente que eu não lhe estava exactamente a prometer nada.

- Passa-se em Espanha – acabou por dizer, baixando o ecrã. – Agora vá, já deves ter acabado isso. Pensei que os estagiários não traziam trabalho para casa, sequer…

Não tinha terminado, mas isso não lhe pareceu importar. Levantou-se e esticou-me a mão.

- Aceita esta dança? – com a mão livre reparei que ligava a música.

Os primeiros acordes tocaram entre o nosso silêncio, mas acabei por me deixar levar pelo seu sorriso e pelo azul dos seus olhos e ergui-me, dando-lhe a mão.

Levou-me até ao centro da sala, não desviando os seus olhos dos meus. Rodou-me então ligeiramente, colocando a mão livre nas minhas costas, depois de colocar a minha no seu ombro.

Baixei os olhos para os nossos pés, tentando não o pisar. Elmer empurrou-me gentilmente a mão mostrando-me para onde havia de recuar primeiro. Pé direito passo atrás, pé esquerdo para o lado, junta. Pé direito para a frente…

- Desculpa! – pedi, trocando os pés rapidamente.

Havia-me trocado novamente. Quando avançava começava sempre com o pé esquerdo e quando retrocedia fazia-o com o pé direito, de modo a poder dar um passo para o lado.

- Não faz mal, Fairy – parecia falar a verdade. Voltou a tentar.

Os meus olhos tentavam, forçosamente, seguir os pés.

- Olha para mim – pediu. – Sente a música sem pensar nos pés.

Tentei olhá-lo, deixando de pensar no que fazia. Ao início a tarefa mostrou-se árdua e, por mais de duas vezes me enganei com os passos, mas, aos poucos, fui descontraindo. Não consegui acreditar o quão fácil a valsa se tornou, quando eu me perdia no seu olhar.

Não sei por quanto tempo fizemos aquele quadrado no chão da sala, sem trocar uma palavra.

- Estás a tornar-te muito boa nisto – afirmou, quando a música acabou. – Amanhã complicamos um bocadinho.

Suspirei e deixei-me cair no sofá.

- Ainda complica mais? – queixei-me, embora sorrisse. – Agora, posso voltar ao meu trabalho?

Elmer fez-me uma careta e tentou agarrar-me quando me levantei, mas consegui chegar até à mesa, arrastando-o atrás de mim.

Mordisquei a caneta, tentando concentrar-me. O estágio acabava no dia seguinte, dia antes do Natal, e eu ainda não tinha ouvido quaisquer rumores sobre quem ficaria com um posto no jornal e quem seria obrigado a partir.

No entanto, assim que trespassei as portas do edifício, na manhã seguinte, comecei a ouvir boatos. Não se falava sobre mais nada em todos os lugares do jornal! Era no elevador, nos corredores e nas casas-de-banho. Em todo o lado havia alguém a murmurar sobre o facto de ainda não se saber se o Philip do terceiro andar iria ficar, ou se, finalmente, a Sarah do quinto era pedida para sair. Contudo, nenhum dos murmúrios continha o meu nome, e isso deixou-me preocupada.

Gail comentou, quando regressou ao seu cubículo, depois da hora de almoço, que eu não estava bem, ao que a sua amiga perua anuiu, demarcando a sua posição com vigorosos movimentos de cabeça e afirmando, por entre risos, que eu devia estar a ficar preocupada com o fim do estágio.

Dez minutos antes das quatro, hora a que o director marcara a reunião com os estagiários, Elmer telefonou-me.

- Olá, Fairy – reconheci-o imediatamente, não só pela voz, mas também pela alcunha.

- Olá – suspirei, tentando parecer o mais alegre possível.

- Ei, anima-te! – imaginei que sorrisse. – Respira fundo. Vai tudo correr bem!

Respirei fundo como me mandou e sorri para o meu reflexo no ecrã, tentando afastar a expressão séria que me olhava de volta.

- Estarei aí para te ir buscar – despediu-se.

Consultei o relógio de parede do jornal e levantei-me, recolhendo a minha pasta e indo buscar o meu casaco pesado que estava pendurado perto do elevador.

Enquanto esperava, alterando o peso do corpo de um pé para o outro, Michael e Kevin juntaram-se a mim. Ambos me lançaram um sorriso rápido antes de se voltarem novamente para as portas prateadas do elevador, balançando-se também eles de um pé para o outro.

- Viva – murmurou Daniel, quando as portas se abriram, chegando-se para o fundo.

Daniel rodava a objectiva da câmara que trazia ao pescoço, num gesto nervoso. Era da minha altura e ainda parecia um teenager, de sardas e roupas largas.

Enquanto subíamos até ao décimo andar foram entrando no elevador mais estagiários, por vezes mais do que dois por piso.

Chegámos ao andar do local de reunião no limite dos passageiros: éramos doze, e nem mais uma mosca lá cabia.

- Ouch – gemi, quando Philip me pisou ao sairmos do elevador.

Lamentou mas não me olhou quando o fez, não desviando os olhos do seu alvo: a porta da sala de reuniões.

Michael segurou-me a porta e, uma vez lá entro, apontou-me uma cadeira entre ele e Kevin. Afundei-me no meu lugar.

George Vancleave, o nosso chefe, apareceu no preciso momento em que o relógio rodou para as quatro horas. Essa era uma das suas muito faladas qualidades: nunca chegava um minuto depois nem um minuto antes. Vancleave era calvo e tinha uma cara arredondada. A barba branca estava sempre com o aspecto de quem não a fazia há dois dias. Usava óculos sem armação e ninguém o esperava ver sorrir, embora os boatos de que ele era o espírito das festas do jornal não faltassem.

Sentou-se à cabeceira, de frente para a porta de vidro.

Peter Bond e Ann Tabucchi entraram nesse momento, cheios de risinhos e muito vermelhos.

- Oh – disse Ann, quando reparou em Vancleave.

- Desculpem-nos – pediu Peter, sentando-se à minha frente.

George Vancleave pigarreou, reavendo a nossa atenção.

- Agora que estamos todos, podemos começar?

Ninguém respondeu, mas reparei que muitos, incluindo eu, se afundaram um pouco mais nos lugares. Vancleave bateu os papeis, para os alinhar, e voltou a pigarrear.

- Quero agradecer-vos a todos pelo tempo que dedicaram a jornal – retirou vários envelopes de dentro da sua pasta e olhou-os, como quem estuda uma tese. – Espero que tenham aprendido muito com os nossos jornalistas e que não vos tenhamos decepcionado.

Esticou os envelopes a Sarah que procurou um e passou o resto a Michael.

- Esta reunião é mais formal do que propriamente útil – reparou nos envelopes, que já haviam chegado a Ivan Defoe, no fim da mesa, e que os passava a Ronald Silk, à sua frente. – Os vossos resultados pessoais estão nos envelopes que vos foram entregues, e as vossas apreciações serão enviadas às vossas universidades. No entanto, como já vos havia sido dito no início do vosso estágio, só temos oito lugares vazios no jornal e, por isso, não obstante das vossas notas, teremos de dizer adeus a muitos de vocês.

Philip recebeu o seu envelope e George Vancleave mudou de folha, procurando uma que, pelo que eu pude reparar, tinha uma listagem.

- Miss. Altmann, lamentamos mas o seu lugar já foi preenxido. Miss. Barrow, havia apenas uma vaga para o seu departamento e, sendo que essa vaga foi atribuída a outro concorrente, lamentamos mas não precisamos das suas funções. O mesmo se aplica a Mr. Bond, Mr. Defoe e a Miss. Tabucchi – voltou a trocar de folhas, concentrando-se na seguinte. – Ah, Mr. Heinemann, o senhor é um caso especial. Soubemos da sua proposta de emprego por um jornal da concorrência e, sabendo que já o tinha aceite para quando terminasse o caso, decidimos não contar consigo para o nosso quadro de pessoal. Miss. Crook, Mr. Hapetian, Mr. Hughes, Mr. Pennac, Mr. Silk, Miss. Tien, Mr. Vinall-cox e Miss. Walter, bem-vindos.

Eu nem podia acreditar. Eu tinha ficado no jornal! Eu estava entre os oito que ficavam a trabalhar no jornal! E parecia-me que os jornalistas mais antigos também ficariam contentes, visto que Philip Hughes sempre ficara no jornal, e que Sarah Altmann saíra.

Sorri, como reparei que muitos outros faziam. Abri a carta e li as primeiras linhas. A minha carteira de jornalista. Agora eu era jornalista. Finalmente.

Saí do elevador, ainda com a carta na mão, e corri ao encontro de Elmer. Queria partilhar com ele a minha felicidade. Queria que ele soubesse que eu era, agora, jornalista. Saltei para o seu pescoço quando o vi, como sempre, dentro do seu casaco preto, comprido, envolto em cachecóis escuros, sorrindo para mim.

- Parabéns, Fairy – congratulou-me, abraçando-me. – Fico muito orgulhoso!

Indicou-me que devia entrar no carro, o que eu fiz de bom agrado. Estava mesmo frio na rua.

Abrimos caminho por entre as ruas inundadas por trabalhadores agasalhados, que deixavam os empregos à hora de ponta.

Viajámos em silêncio, ouvindo os barulhos mundanos, deixando-nos arrastar pelos nossos pensamentos. A sua mão esquerda escorregou do manipulo das mudanças para o meu joelho.

- Os meus pais querem conhecer-te, sabes – acabou por dizer, olhando para a direita, para virar.

Fiz um barulho qualquer, como para lhe dizer para continuar.

- A minha avó também… - olhou para mim, esperando uma reacção.

- A Rainha? – perguntei, surpreendida. – A Rainha quer conhecer-me?!

- Não, Fairy, não é a rainha – os seus olhos sorriam – É a minha avó. Só isso.

- Sim, claro, só isso. Mas a tua avó é a minha Rainha!

Tínhamos chegado ao meu prédio e Elmer parou o carro, mas não abriu a porta.

- Não podes ver as coisas assim, Tatiana. Eu sou só o Elmer, não é?

Desviei o olhar para o prédio, para não me perder no azul dos seus olhos. Claro que ele era só o Elmer. Mas ele era apenas o Elmer quando estava comigo! Não era o Elmer quando entrava no palácio. Não era o Elmer quando ia ao parlamento. Ele não era o Elmer. E a sua família nunca iria ser a sua família! Seria sempre a Família Real.

A sua mão tocou-me no queixo, movendo-a de frente para a dele gentilmente.

- Vamos Fairy, tu consegues – aproximou-se perigosamente de mim. – Nós precisamos que consigas.

E então deixei-me levar, como tantas vezes antes o tinha feito. Não reclamei quando me tirou do carro, não reclamei quando me arrastou até ao meu apartamento, não reclamei quando me sentou numa das cadeiras e se sentou à minha frente.

- Mas, embora eles sejam a minha família, há algumas coisas de que temos de tratar antes de ires ao palácio… - sorriu-me.

Engasguei-me e olhei-o de esgueira.

- Até há dois minutos atrás eram a tua família – lembrei-o. – E até há bem pouco tempo, achei que estava bem como sou…

Riu-se como se estivesse a gozar uma piada que só ele conhecia.

- E estás bem como és. Na realidade, és perfeita como és, Fairy. Mas… A minha família, embora seja só a minha família, não gosta muito de “estranhos”.

Deixei que os meus ombros relaxassem e afundei-me na cadeira.

- Tudo bem, eu faço o que quiseres.

- Vais ver que não te vais arrepender. Obrigado.

Sorria como uma criança a quem tivessem dado uma prenda no dia antes do Natal.

- Para começar, não te tens de preocupar com roupa, sabes, porque já tens vários vestidos prontos à tua espera no palácio – tentei assimilar a informação ao mesmo tempo que lhe acompanhava a velocidade de discurso. – Assim que a Lara soube que eu tencionava levar-te ao palácio e depois ao Baile, ela encarregou-se de te fazer vários vestidos, depois de me inquirir sobre os teus gostos. Talvez não te assentem na perfeição, mas ela dá um retoque quando os vestires. A Lara é a nossa costureira, é claro. Espero que não te importes… E, tanto quanto sei, também não tens muitas preferências em relação a marcas, por isso deixei isso ao gosto de Lara. Ela tem bom gosto, não te preocupes.

Parou de repente, esperando a minha resposta.

- Erg… - tentei descobrir uma resposta decente. – Parece bem.

- Ainda bem. Passando a parte da roupa… - levantou-se e rodou a mesa, parando atrás de mim. – Tens de andar sempre assim… - puxou os meus ombros para trás enquanto me erguia na cadeira. – Direita. E ajuda se andares sempre de cabeça erguida – sorriu-me. – Eu sei que no início custa, mas vais habituar-te… E deves sentar-te assim – exemplificou, sentando-se de joelhos juntos, com os pés cruzados, na cadeira à minha frente. Depois fez uma careta e mudou rapidamente de posição. – Às de reparar que ninguém mexe as mãos enquanto fala, mas pessoalmente, eu prefiro quando o fazem. Por isso, decides tu o que queres fazer. Quando caminharmos não podemos dar as mãos… Temos de ir de braço dado. Manias.

Levantou-se, foi até à cozinha e voltou com um copo de água, do qual bebia.

- Hum, falta-nos… - parou para pensar, bebendo mais um gole. – A forma de te dirigires aos outros membros da realeza… Embora eu acredite que alguns dos meus parentes te peçam para que os trates pelos nomes próprios ou assim, é melhor que te dirijas a eles formalmente da primeira vez – passou-me a mão pelos cabelos. – Eu faço-te uma cábula; foi assim que aprendi.

Correu ao meu quarto para ir buscar uma folha de papel e uma caneta e depois debruçou-se sobre ela. No fim passou-ma sem uma palavra.

Rei/Rainha ----- Vossa Majestade

Príncipe/Princesa ----- Vossa Alteza Real

Sobrinhos/Primos dos Reis ----- Vossa Alteza

Duque/Duquesa ----- Vossa Graça

Condes/Marqueses/Viscondes/Barões ---- Senhor/Senhora

Baronete/Cavaleiro ----- Dom/Dona

- Não são muitos, e os dois primeiro, pelo menos, tenho a certeza de que já sabias… - murmurou.

- Claro, Vossa Alteza. E agora, que acheis mais que deva eu, plebeia, saber? – brinquei.

Atacou-me com cócegas, esquecendo completamente a lição que me estava a tentar dar e, por algum tempo, ficámos ali agarrados, a rir-nos de nós mesmos.

- Sabes fazer uma vénia? – perguntou, tentando parar de se rir.

Levantei-me, adoptando imediatamente a expressão mais séria de que me consegui lembrar e demonstrei-lhe uma vénia perfeita. Elmer aplaudiu e depois levou-me até ao sofá, recomeçando o ataque de cócegas.

De repente parou e ergueu a cabeça, olhando para mim com interesse.

- Esqueci-me de te dizer, mas a Stephenie também está convidada para o Baile de Natal. – sorriu-me. - Os meus primos mais novos precisam de companhia de alguém diferente dos amigos deles.

N/A:

Yey, outro capítulo!!!!

Ok, esclarecimentos que eu acho que ficaram por dar… o Elmer chama-se mesmo Elmer. “Earl of Ulster” é apenas o nome dado ao… pensa sobrinho da Rainha (mais ou menos). Imaginem o príncipe Harry. O Elmer seria o seu primo direito. Assim torna-se mais fácil.

E sim:D Ele é um verdadeiro príncipe! Ou melhor, algo que se aproxima a ele :P Mas a vida não é exactamente um conto de fadas… “Tem cuidado com o que desejas”

O próximo capítulo é Natalício!!! Não acham que é mesmo isso que faz falta nesta altura do ano? X)



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