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Fiction » General » Caso Refugado font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Suspense - Reviews: 8 - Published: 10-27-06 - Updated: 10-27-06 - id:2267307

Capítulo 4 – Deric

Tinha olhos castanhos. Vinte e tantos anos. Vestia-se como um cara normal da sua idade. Trabalhava no escritório de uma empresa respeitada. As garotas por quem ele se interessava preferiam olhos claros, vinte e poucos ou trinta e poucos anos e queriam uma certa dose de aventura e romantismo no emprego dos maridos em potencial, o que desqualificava Deric sob todos os aspectos. Ah sim, elas preferiam guarda-roupas mais despojados.

No fundo ele sabia que mais cedo ou mais tarde conseguiria alguém. Só que o mais tarde estava ficando cada vez mais evidente. E cada vez ainda mais tarde... Ele não era da cidade, morava no último andar de um pequeno prédio num bairro calmo, que tinha um café no térreo. Não tinha carro, não vinha de família tradicional. Um completo esquecido nos círculos que o interessavam. Em quase dois anos, não fez amigos no trabalho, sequer inimigos. Era invisível, insípido, apático. Poucos sabiam o seu nome. Deric era um cara sozinho.

Um dia ele chegou em casa e largou a maleta. Ligou a televisão, desligou, escolheu um CD, trocou, trocou por outro, voltou ao primeiro e ouviu apenas a primeira música. Não gostou. Ligou a televisão de novo, nem olhou para a tela. Desceu para o café no térreo e pediu um salgado. Comeu subindo as escadas. Abriu a porta pela segunda vez em menos de uma hora. Largou a chave sobre a mesa e decidiu tomar um banho, desistindo da televisão que deixara ligada. Pensou na vizinha, a dona do outro apartamento no mesmo andar. Mulher linda, um sorriso que encantava. Por uma estranha razão ela estava sempre sozinha, como ele, nunca recebia visitas. “Somos parecidos” ele disse uma vez. Ela sorriu como sempre e fechou a porta. Simpática. E nada mais. Talvez um dia tivesse chance com ela. Ficou pensando nisso e foi para o quarto, pegar uma toalha limpa. Deixou o chuveiro ligado, mal olhou para o armário e para a estante onde guardava livros que nunca leria. Quase tudo normal.

Desligou o chuveiro e ligou para a delegacia. Queria saber como registrar uma ocorrência. Fora roubado. Ficou sabendo que receberia um policial na manhã seguinte. “Idiotas”, pensou. Se viessem imediatamente talvez houvesse chance de recuperar alguma coisa, mas é claro que não fariam isso. Sentou no sofá, abriu uma cerveja e assistiu futebol na televisão. Essa era a sua vida. Uma vida miserável e comum.

Apenas antes de dormir ele se deu conta da impossibilidade de entrarem em sua casa. As trancas da porta eram seguras e não tinham sinal de arrombamento. As janelas eram altas o suficiente para que ninguém fosse capaz de pular, ainda mais portanto os frutos do roubo. Mistério.

Mesmo assim ele dormiu. Não era seu trabalho investigar aquilo. Que a polícia fizesse o que tinha de fazer.



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