Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » Play » Um Estranho no Ninho font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Goldfield
Fiction Rated: K - Portuguese - Humor - Reviews: 3 - Published: 10-27-06 - Updated: 10-28-06 - Complete - id:2267446

Um Estranho no Ninho

Comédia em dois atos.

Personagens:

ZULMIRA, dona de casa, mãe de três filhos.

MARCOS, filho mais velho de Zulmira, estudante de Direito.

JOCA, filho do meio de Zulmira, camelô, dito.

ÂNGELA, filha mais nova de Zulmira, catorze anos.

JOANA, vizinha de Zulmira, desocupada e fofoqueira.

GERALDO, marido de Joana.

MADALENA, filha de Joana.

HARRY WILLIAM, primo de Zulmira, inglês, vinte e cinco anos.

AROLDO, dono do bar.

Um policial.

Um delegado.

Um escrivão da polícia.

Um funcionário de alfândega.

A cena se passa no sobrado em que Zulmira mora com seus filhos e num bar próximo, na cidade de São Paulo.

Ato I

Sala do sobrado em que Zulmira mora com seus três filhos. Vêem-se duas poltronas, cortinas vermelhas repletas de bolinhas brancas e uma janela, ao fundo.

Cena I

ZULMIRA, só, de avental da cor das cortinas, com uma colher de pau na mão – Ah, Santo Antônio! Valei-me, Santo Agostinho! Protegei-me, São Jorge! Dê-me a benção, São Francisco! Onde estarão os meus três filhos? Já está na hora do almoço... Será que eles não vão vir? Pelo menos, hoje ninguém está aqui para me atazanar enquanto eu faço o meu estrogonofe... Principalmente a Joana, aquela fofoqueira...

JOANA, entrando rapidamente – Vizinha! Você já sabe da última?

ZULMIRA, à parte – Falou no diabo, aparece o rabo... (Alto:) Qual é a última, Joana?

JOANA – Você soube que os dois aí da esquina mal casaram e já se separaram?

ZULMIRA, à parte – Urubu! (Alto:) Não, cara vizinha...

JOANA – Ora essa, vizinha... Tu estás muito desatualizada! Ultimamente você não fica sabendo de nada antes que eu lhe conte...

ZULMIRA, à parte – Pra que bisbilhotar a vida dos outros? (Alto:) São as preocupações, Joana...

JOANA – Seus filhos?

ZULMIRA – Como sempre, sim, cara vizinha. (À parte:) Que intrometida... (Alto:) Só o Marcos parece ser um filho responsável...Você sabe que a Ângela não vai bem na escola, e o Joca, nem se fala... Só vende muamba do Paraguai, e ainda sem licença... A polícia quase o prendeu uma vez, mas ele nunca aprende...

JOANA – Eu compreendo, vizinha... O filho do vizinho do meu outro vizinho era do mesmo jeito... A gente escutava cada coisa... E pensar que tem gente que espalha coisas da vida dos outros por aí...

ZULMIRA, à parte – Uma delas está bem na minha frente... (Alto:) É... Tem muita gente ruim neste mundo...

JOANA, à parte – O que será que ela quis dizer com isso? (Alto:) Bem, já está na hora de eu ir embora, Zulmira, pois tenho que fazer o almoço para o Geraldo. (Sai).

ZULMIRA, à parte – Já vai tarde! (Alto:) Até logo, Joana.

Cena II

ZULMIRA, – É... Tem mesmo muita gente ruim neste mundo... Uma delas é o meu marido, que me deixou sem me dar um tostão. Hoje deve estar na farra, cercado de mulheres... É outro que já vai tarde e, se voltar aqui, é bom que tenha um bom plano de saúde, pois a minha colher de pau quer amaciar o couro daquele malandro...

Cena III

Entra Joca, correndo. Depois o policial.

ZULMIRA – Que é isso, meu filho?

JOCA, bufando – Mãe! Por favor, me esconda!

ZULMIRA – Por quê?

JOCA – Não dá pra explicar agora! (Se esconde atrás de uma das poltronas).

POLICIAL, entrando rapidamente – Onde está aquele camelô? Eu vi ele entrar aqui!

ZULMIRA, à parte – Eu já entendi tudo. (Alto:) O que o senhor deseja na casa desta pobre mulher, caro policial?

POLICIAL – Estou perseguindo um pivete que estava vendendo muamba do Paraguai sem licença! Ele entrou aqui, minha senhora! (Joca levanta a cabeça para ver o que está acontecendo e a abaixa imediatamente).

ZULMIRA – Eu não vi ninguém entrar aqui, caro senhor.

JOCA, levantando a cabeça, falando baixo, à parte – Que mentira...

ZULMIRA – Por que o senhor não vem comigo até a cozinha para tomar uma xícara de café?

POLICIAL – Mas, senhora, eu estou no encalço de um malandro...

ZULMIRA – Por favor, seu guarda, aceite o meu convite.

POLICIAL – Está bem...

ZULMIRA – É por aqui. Venha comigo. (Saem os dois pela esquerda).

JOCA, saindo de trás da poltrona – Ufa! Esta foi por pouco! Espere aí! Alguém se aproxima! Quem será? (Esconde-se novamente atrás da poltrona).

Cena IV

Entram Marcos e Ângela, ambos carregando cadernos e livros debaixo do braço.

MARCOS – Eu não acredito que isso aconteceu! A mamãe não vai acreditar...

ÂNGELA – Ora essa, mano! Vê se desencana! Não foi nada grave!

MARCOS – Ser suspensa, pra você, não é nada grave?

ÂNGELA – É só uma semana...

MARCOS – E eu posso saber por que a senhorita foi suspensa?

ÂNGELA – É que lá no colégio é proibido usar piercing... Principalmente no umbigo...

MARCOS – Claro, pois aquele é um colégio tradicional... Apesar de ser estadual...

ÂNGELA – Mas quase que aqueles quadrados não viram... Foi descuido meu! (Joga os seus livros em cima da poltrona onde Joca está escondido atrás).

MARCOS – Bem, é melhor só contarmos isso para a mamãe se ela estiver de bom humor.

ÂNGELA – A coroa nunca está dez...

JOCA, saindo de trás da poltrona e se levantando – Oi, pessoal!

MARCOS – O que você estava fazendo aí, escondido, como um ladrão? Ouvindo a conversa dos outros?

JOCA – Olhe lá! Eu sou camelô, mas sou honrado!

ÂNGELA – Tu é muito careta mesmo! Fica por aí, vendendo muamba, cabeça de geléia! Vê se arranja coisa melhor pra fazer!

MARCOS – Espreitando os outros assim, o Joca está bom é para ser espião!

JOCA – Tu fica quieto, Marcos! Não estou pra brincadeira!

MARCOS – Eu quero é almoçar, pois estou com fome. Cadê o rango?

JOCA, fungando – Pelo cheiro, a mamãe deve ter feito estrogonofe.

ÂNGELA – Estrogonofe? De novo? Eu odeio estrogonofe! Querem saber? Eu vou com a turma almoçar na lanchonete lá da esquina!

MARCOS – A mamãe não vai gostar...

ÂNGELA – Pouco me importa! (Sai).

JOCA – Quer saber? Eu também vou me mandar, pois tem um polícia atrás de mim aí na cozinha e logo ele vai descobrir que estou aqui. Fui! (Sai).

MARCOS – Que família desunida...

Cena V

MARCOS, – Infelizmente, esta é a realidade. (Coloca seus livros sobre uma das poltronas). – Nenhuma família se reúne mais para almoçar, principalmente a nossa! Será que ninguém mais reconhece o valor da família brasileira? Isso me esquenta os miolos... Miolos... Eu tenho que fazer aquela pesquisa sobre a “Origem das Leis”. Pior é que o livro é em inglês. Se eu tivesse um britânico para me ajudar... Aqueles sim são uns gênios da ciência, da matemática, da língua... Ah, se eu tivesse um britânico para me ajudar... (Sai).

Cena VI

Entram Zulmira e o policial pela esquerda. Depois Marcos.

ZULMIRA – O senhor policial gostou do café?

POLICIAL – Sim, e estou muito grato, cara senhora. Eu só me desculpo por ter lhe incomodado na hora do almoço em vão, pois agora tenho certeza de que aquele meliante não entrou aqui. Acho que minha vista acabou por me enganar.

ZULMIRA – Não faz mal... (Olha rapidamente atrás da poltrona onde Joca estava escondido). – O senhor é um exemplo de que ainda existem policiais competentes.

POLICIAL – Obrigado, minha senhora. Já vou indo. Até logo. (Sai).

MARCOS, entrando – O que aquele policial fazia aqui, mamãe?

ZULMIRA – Encrencas de seu irmão... Por falar nele, onde foi parar aquele malandro?

MARCOS – Ele saiu há pouco, junto com a Ângela, que foi almoçar fora, naquela lanchonete da esquina, para variar...

ZULMIRA – Você sabe como foi o dia dela na escola?

MARCOS, à parte – E agora, José? (Alto:) Ela... Ela... Bem, ela... Tirou nove em Estudos Sociais!

ZULMIRA – Nove? Que alegria! Que alegria! Vamos festejar!

MARCOS, à parte – Meu Deus, o que fiz? (Alto:) Por que festejar, mamãe? Foi só um nove...

ZULMIRA – Foi, sim, um nove, mas pra quem só tirou três e quatro desde o primário... Ainda bem que os governantes são bonzinhos, pois não é preciso tirar boas notas para que se passe de ano. Se não fosse assim, sua irmã ainda estaria no primeiro ou no segundo ano!

MARCOS, sorrindo cinicamente – É, mamãe...

ZULMIRA – A caçulinha tirou nove... Que alegria!

MARCOS – É... Que bom...

ZULMIRA – Vou terminar o almoço! Não saia!

MARCOS, à parte – Eu tenho vontade de sumir! (Alto:) Pode deixar, mamãe. Ficarei aqui.

ZULMIRA, cantarolando – A caçulinha tirou nove! A caçulinha tirou nove! A caçulinha tirou nove... (Sai pela esquerda).

Cena VII

MARCOS, – Agora me lasquei! Como pude mentir para a mamãe? O que farei agora? Oh, vida... Oh, céus... Oh, trabalho da faculdade... Trabalho da faculdade... Oh, porcaria! Tenho que começar aquele maldito trabalho... Bem, aos livros! (Senta-se numa das poltronas e começa a ler um de seus livros).

Cena VIII

Entra Joca, pé ante pé. Depois Zulmira.

MARCOS – Por onde esteve, malandro?

JOCA – O polícia já foi embora?

MARCOS – Já... Eu estou encrencado.

JOCA – Mais do que eu? Duvido...

MARCOS – Você não está sabendo de nada, está?

JOCA – A suspensão da Ângela? Já estou sabendo...

MARCOS – Eu não me refiro a isso.

JOCA – Então está falando da mentira sobre a Ângela que contou à velha?

MARCOS – Como sabe?

JOCA – Ouvi tudo lá de fora.

MARCOS – É... Parece que agora você deu mesmo para ouvir a conversa dos outros...

JOCA – São táticas de sobrevivência de um camelô: sempre atento e avante!

MARCOS – Você é um grande biltre, isso sim!

JOCA – O que é isso? É de comer?

MARCOS – Você não sabe o que é biltre?

JOCA – É a esposa do filtro?

MARCOS – Santa ignorância...

JOCA – Nunca soube que a ignorância era uma santa... Tem igreja?

MARCOS – Deus! Eu não agüento! Chega! Vou-me embora deste ninho de cobras! (Sai).

JOCA – Meu Deus... O que foi que eu disse de errado?

ZULMIRA, entrando pela esquerda – O almoço está pronto, Marcos... Onde está seu irmão?

JOCA – Sei lá... Saiu... Irrita-se sem nenhum motivo... Precisa tomar calmante natural...

ZULMIRA – Bem, vamos almoçar, com ou sem o seu irmão!

JOCA – Eu já sinto o cheiro da bóia... Vamos, mama! (Saem os dois pela esquerda).

Cena IX

Entra Harry William, de chapéu e casaco, carregando duas malas. Depois Ângela.

HARRY WILLIAM: Será que é aqui? Este lugarzinho ser muito receptivo... (Olha em volta). Yes... Yes... Como li na Barsa, esta cidade ser muito quente... Deve ser poluição... (Começa a se abanar com um lenço). Boy, I’m tired... God... How hot... Ser quente demais aqui... Fog de Londres ser bem melhor... Oh, Dear Lord... (Senta-se numa das poltronas). Será casa de minha prima aqui mesmo? Well... I think so... Lugarzinho ser bastante receptivo...

ÂNGELA, entrando – Foi um rango bom... Meio superficial, mas vá lá... Hei! Quem é o senhor?

HARRY WILLIAM – Hello, miss. Qual ser o seu nome?

ÂNGELA, à parte – Deus... O cara é gringo... Ainda bem que eu prestei atenção nas aulas de inglês! (Alto:) Sorry sir, I don’t speak English!

HARRY WILLIAM, à parte – Como os brasileiros demonstram descontentamento mesmo... Lembrei-me! (Alto:) Porcaria, Dear Lord...

ÂNGELA – Quem é esse tal de lorde “Dear”?

HARRY WILLIAM – Sorry, miss, but I não entender patavina...

ÂNGELA – Se tá parecendo sabe quem? Aqueles caras do estrangeiro falando, gringo!

HARRY WILLIAM – Yes, miss! Eu ser da Inglaterra, terra do chá das cinco, da Rainha, dos Beatles...

ÂNGELA – Tu é inglês...

HARRY WILLIAM – Exatamente, miss. Eu ser inglês.

ÂNGELA – Por que está aqui?

HARRY WILLIAM – Eu procurar minha prima, Zulmira.

ÂNGELA – A velha é tua prima?

HARRY WILLIAM – Ela já ser de idade? Oh, Dear Lord...

ÂNGELA – Eles devem estar almoçando aí na cozinha... (Olha para o lado da cozinha, esticando o pescoço). – Sim, de fato eles estão aí...

HARRY WILLIAM – Miss, please, leve-me até sua mother!

ÂNGELA – Wait a minute, gringo! Let’s talk a little bit!

HARRY WILLIAM – So miss estava mentindo, pois sabe falar inglês?

ÂNGELA – Um pouquinho...

HARRY WILLIAM – Oh, I see... Oh, Dear Lord...

ÂNGELA – Vê se desenrosca o disco, gringo... Quer dizer, primo distante...

HARRY WILLIAM, à parte – O que será isso? (Alto:) Não vai me levar à sua mãe?

ÂNGELA – Espere aí... Você não vai me falar nada sobre a Inglaterra?

HARRY WILLIAM – Falar o quê?

ÂNGELA – Sobre a Rainha, sobre o Big-Ben...

HARRY WILLIAM – Sorry, mas eu não poder...

ÂNGELA – Pode sim! Vamos até o bar lá da outra esquina tomar um “refri”!

HARRY WILLIAM – But, miss... Oh, Dear Lord... (Ângela sai puxando Harry William pelo braço).

Cena X

Entram Zulmira e Joca pela esquerda. Este último palita os dentes.

ZULMIRA, olhando ao redor – Estranho... Eu posso jurar que ouvi vozes vindas da sala...

JOCA – Não esquenta a cabeça, mama! O almoço estava uma gostosura!

ZULMIRA – Fico feliz por você ter gostado... Mas onde estarão seus irmãos? Já vai passando a hora do almoço...

JOCA – O Marcos anda muito esquentado pro meu gosto... Você já comprou aquele calmante que o doutor Rubens receitou?

ZULMIRA – Esqueci... Que cabeça a minha... Mas, bem, deixe-me voltar para a cozinha, pois tenho de lavar a louça...

JOCA – Pode ir. Eu vou voltar ao trabalho...

ZULMIRA – Tome cuidado, meu filho...

JOCA – Fique fria... Eu sei me cuidar!

ZULMIRA – Olhe que eu não vou mais deixar você se esconder aqui...

JOCA – Não há problema. O Aroldo lá do bar sempre deixa eu me esconder lá!

ZULMIRA – Tome cuidado... (Faz o Sinal da Cruz). – Pronto! Pode ir trabalhar!

JOCA – So long, baby! (Sai, rapidamente).

Cena XI

ZULMIRA, – É... A vida continua... Mas onde estarão aqueles meus dois filhos? Desta maneira eu vou envelhecer muito mais rápido... Logo o Marcos, que é o mais responsável do trio, desaparecer desta maneira... Bem, acho melhor eu ir lavar logo a louça se quiser assistir à novela das três... Hoje é o penúltimo capítulo... O que será que vai acontecer? (Sai).

Continua...



Return to Top