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Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Fantasy - Reviews: 8 - Published: 11-07-06 - Updated: 11-07-06 - Complete - id:2272871

Vassilissa, por Elyon Somniare


No vilarejo conheciam-no como o velho Olavo. Era um homem de feições duras, mãos grandes, queixo rude e olhos profundos. Em tempos, fora um pescador. Agora, passava os dias sentado no banco de pedra à entrada do casinhoto onde vivia, observando as vagas para lá do horizonte, recordando as aventuras que em jovem ali passara, na sua batalha constante contra as ondas e marés. Eram muitos, dizia, os feitos que poderia contar.

“Que feitos?”, perguntava a garotada do aldeia.

“Muitos”, limitava-se a responder o velho Olavo. Era um homem calado, de poucas palavras e frases curtas. Mas não há noite. Há noite não. Quando a Lua subia no céu, o velho Olavo via-se rodado tanto pelos mais novos como pelos mais velhos habitantes do vilarejo, dispostos em circulo à sua volta, esperando pela história dessa noite. E o velho Olavo não os desapontava, ora fazendo-os rir com histórias como a do homem que tentou ser mais esperto que os duendes ou como a do lenhador que obteve três desejos e acabou apenas com uma chouriça, ora fazendo-os chorar com histórias como a do velho burro preguiçoso, ora comovendo-os com histórias como a da menina vestida de estrelas…

Nessa noite, uma noite límpida sem Lua e povoada de estrelas, o velho Olavo esperou que os sussurros diminuíssem até se extinguirem. Era algo mágico de se ver: a respiração era em uníssono e extremamente leve, como se os que ali se encontravam receassem partir o ténue ambiente de cristal que o velho Olavo exigia para aquela história. Já sabiam qual seria. Era sempre a mesma na primeira noite de Lua Nova… Era algo de importância extrema para o velho Olavo e também a mais bela de todas as suas histórias. E quem ali se encontrava sabia disso… Então, olhando fixando um ponto brilhante no céu escuro, o velho Olavo começou, numa voz grave e profunda. Numa voz carregada de sentimento.

«Esta história, já o sabeis, é mais do que pura fantasia de um velho pois, digo-vos eu, aconteceu. E aconteceu com um homem, um pescador honesto e honrado desta nossa terra. Ouvi, então, a sua história:

«Antes de se fazer ao mar, a mulher pedira-lhe que não fosse, afagando o ventre ainda não muito volumoso que albergava o filho de ambos. Mas Elias, o pescador robusto e teimoso e primeira personagem desta nossa história, limitou-se a tranquilizá-la, sorrindo, pois era apenas mais uma noite amena como a de hoje. De nada valeram lamúrias, pedidos e maus pressentimentos. Que julgava a mulher que poderia acontecer? E nessa noite, Elias partiu, vendo a esposa a acenar-lhe do cais com lágrimas no rosto e uma mão no ventre.»

Fez uma pausa, olhando para as faces ansiosas que o rodeavam. Não era a primeira vez que ouviam aquela história nem, julgavam, seria a última. Mas a sensação de fascínio que ela exercia, sabiam, era eterna, e, por inúmeras vezes que Olavo a narrasse, a magia nunca largaria as suas palavras.

- E depois? – perguntou uma rapariga de rosto moreno e enormes olhos castanhos. Era Catarina, a filha do Estalajadeiro. – Que aconteceu depois?

- Depois? – repetiu Olavo. E recomeçou a narrativa

«Não se sabe ao certo quantos dias Elias esteve no mar antes de aquela tempestade cair implacável sobre o mar e sobre a embarcação. Talvez dois, talvez três. Impossível de se saber. Era o último dia no alto mar e o regresso previa-se breve. Aquilo fora não só uma batalha mortífera contra as fúrias de Vassilissa, mas essencialmente um desgosto pelo medo de nunca mais rever aqueles que lhes eram queridos. Gritos com ordens e contra ordens ecoavam no navio de pescadores que, nem pequeno nem grande, mas forte e artesanal, perfurava as águas que insistiam em o engolir. Ah!, o alívio que foi quando a alvorada chegou, trazendo consigo não só a luz mas também o amainar dos ventos, da chuva e das ondas! As preces agradecidas deslizaram pelos fios do ar em direcção aos céus, aos mares e à terra. Eram os sobreviventes, meus filhos, que agradeciam a graça de estarem vivos, a oportunidade de reverem, mais uma vez, esposa, filho ou filha e, talvez, quem sabe, uma mãe ou pai já envelhecidos.»

Fez uma nova pausa. Desta vez, não para olhar a assistência, mas sim para perder o olhar no vasto azul. O hábito que lhe era conhecido aquando se encontrava na luz do Sol cada vez mais se tornava também num hábito à luz da Lua… ou à luz das estrelas, como era o caso. Os mais velhos tossicaram ligeiramente. Desconfiavam daquele olhar vago e indistinto que nada de bom augurava. Era, consideravam, o “olhar do chamamento”. Um chamamento a que poucos poderiam resistir… Um chamamento do desconhecido…

Todavia, nada disseram. Olavo retomara a sua história.

«Mas esses… Esses eram os vivos. Pois havia também os mortos que ainda teriam de ser chorados, seriam aqueles a quem se entregariam velas flutuantes ao mar em sua memória e em sua honra. Eram aqueles cujos corpos e almas haviam dedicado toda vida ao Grande Azul… Permanecendo nele depois da morte.

«Mas, escutem-me! Que isto que vos contei já vocês o sabiam. Falei-vos na tempestade, nos vivos e nos mortos. Mas falta algo. Algo importante, necessário.»

- Falta o Elias! – interrompeu um adolescente de rosto sardento e membros desengonçados. Sabia, desde há muito, que era essa a sua deixa, o seu papel, de cada vez que Olavo contava a história. Ele era o espectador que notava a ausência de Elias. Era essa a sua missão nessas noites e era esse o seu orgulho.

- Pois falta – concordou Olavo, seguindo a deixa. – Elias, o pescador que iniciou esta história… Estaria entre as preces dos vivos ou entre o silêncio dos mortos?

Olhou novamente em redor, para os rostos ansiosos. Decidiu não os deixar demasiado tempo em espera. Era uma história longa para uma longa noite… mas aquela noite não seria tão longa como eles julgavam. Seria a noite de…

- Que aconteceu a Elias? – perguntou a voz roufenha da Dona Maria.

- Elias não pertencia nem aos vivos nem aos mortos – respondeu Olavo com um suspiro. - Nem a uns nem a outros…

«Quando Elias acordou, viu-se num pátio branco como a neve, rodeado por jardins esplendorosos como nunca vira. Julgou, claro, como vocês teriam julgado, que tinha morrido na tormenta e que se encontrava agora nas graças do Paraíso. Com uma rapidez surpreendente para quem acabara de acordar, levantou-se e encaminhou-se pelos jardins, sem rumo certo. Que mais poderia fazer para além de ficar deitado no local onde acordara? E se espantado estava já com o pátio e os jardins, imaginem como ficou quando se deparou com um palácio!»

- Um palácio? – A voz de Catarina soou novamente.

- Um palácio, sim. Um palácio de mármore, tão belo e magnífico como nunca se tinha construído outro igual! Elias olhou-o longamente, incapaz de retirar de lá os olhos. Poder-se-ia dizer… posso-vos dizer que estava enfeitiçado. Enredado naquelas visões.

Interrompeu novamente a própria narrativa, lançando um novo olhar para o mar onde as estrelas se reflectiam. Não era, agora, um olhar contemplativo nem “chamativo”. Era um olhar de tristeza, desgosto e mágoa. Um olhar que durou apenas uma fracção de segundos.

«Já seria de prever, pensam vocês, o que aconteceria a seguir. Também eu partilho dessa opinião. Mas Elias não conseguiu prever o que se sucederia ao pátio, aos jardins e ao palácio. E, assim, podemos afirmar com toda a certeza que foi no auge máximo da estupefacção humana que o robusto pescador viu surgir doze donzelas, todos belas como o Sol e todas trajando vestimentas da cor da Lua. Pararam a poucos passos do nosso primeiro herói e riram, num risinho abafado de quem sabe algo que mais ninguém sabe. Depois, a mais bela e formosa das doze donzelas destacou-se do grupo, caminhando na sua direcção. O vestido que envergava não diferia do das restantes, contudo, a fina linha prateada que lhe repousava da cabeça delicada indicava-a como sendo uma Rainha. Na mão esquerda transportava uma bola de fumo dourado que, embora se reformula-se conforme os movimentos da donzela, nunca se desfazia nem desaparecia. Na mão direita envergava um pequeno espelho de rosto prateado. Quando falou, fê-lo num tom tão suave e embriagante que Elias se perguntou como seria possível uma voz tão bela ser tão real.

«- Sou Vassilissa, Senhora dos Mares e Rainha dos Oceanos. Chamei-te ao meu reino para me servires. Não admito erros nem falhanços. Fá-lo-ás?

«Pobre Elias! Que outra opção teria ele? Sabia, ouvira já falar de Vassilissa! Se recusasse seria morte certa! Se aceitasse tornar-se-ia num prisioneiro entre tantos outros! Perderia tudo: esposa, filho, liberdade e felicidade. Que fazer? Que responder? Com a cabeça curvada e os olhos cravados no chão, atreveu-se a pedir, numa voz submissa, que Sua Alteza lhe concedesse algum tempo, “pouco”, para pensar no assunto. Vassilissa concedeu-lhe uma noite, nem mais, nem menos.»

- Que escolheu ele? – murmurou uma mulher gorda de meia idade. Olavo ignorou-a.

«Foi uma noite dolorosa para Elias. Passou-a num estábulo que uma das damas-de-companhia de Vassilissa lhe indicara. Naquela noite, pareceu um local a horrível a Elias, não pelo sítio em si, mas pelo conflito interior que ali vivia. Sabia qual a decisão que queria tomar, mas sabia igualmente que não era essa a decisão que a Rainha dos Mares queria que ele tomasse. E sabia quais as consequências disso. Finalmente, quando já se encontrava a desesperar, a porta dos estábulos abriu-se e uma das donzelas de Vassilissa entrou, levando o dedo aos lábios e indicando-lhe silêncio. Não amanhecera ainda e o pescador alertou-se com a visita. Desconfiava de uma ratoeira, de uma qualquer partida ou armadilha de Vassilissa, que por tais coisas era muito conhecida pela sua gente.

«- Não vos apoquentais mais, Elias, pois vim aqui propor-vos um acordo – sussurrou a donzela. – Vassilissa não sabe que estou aqui nem deve saber. Sei que a vossa decisão está já tomada…

«Elias abriu a boca para protestar, mas a donzela mandou-o calar.

«- Sei, e vós também sabeis, o que quereis. Apenas não sabeis como realizar o vosso desejo. Mas eu sei-o. Estais disposto a ouvir-me?

«Elias estava. Queria saber o que podia a jovem donzela fazer para o ajudar… Como o poderia fazer uma serva de alguém tão poderoso? E, principalmente, o porquê. Porquê o faria? Que desejaria em troca? A donzela não perdeu tempo a elucidá-lo.

«- Só vos peço que me dês em troca aquilo que tendes em casa e que não sabeis. O que tendes e não sabeis.»

Um suspiro quase colectivo percorreu os ouvintes. Sabiam já o que se seguiria. Olavo sorriu. Um sorriso que não se saberia dizer se era triste, se melancólico, se de resignação. E prosseguiu.

«O pedido não deixou de colocar Elias num estado de pura perplexidade, como me poria a mim ou a vocês. Que poderia haver em sua casa que desconhecesse? Que poderia ter que não soubesse? Pensou um pouco no assunto. Não muito longamente, pois faltava já pouco para a aurora. Por fim, decidiu que se tivesse algo que não sabia que tinha, então era porque esse algo não seria nada de grande importância. E aceitou a oferta da donzela.

«Deveria, diriam vocês, ter ficado de pé atrás com o sorriso de vitória que se formou nos lábios da donzela. E, de facto, ficou desconfiado. Muito desconfiado. Mas nessa altura, meu amigos, era já tarde. Nessa altura, já os estábulos e a donzela tinham desaparecido, dissolvendo-se no ar e dado lugar a uma rua de casinhas de pedra. Á rua onde Elias habitava com a esposa.

«Imaginem, agora, o espanto da mulher quando viu o marido entrar pela porta adentro como se tivesse estado fora apenas um dia ou dois. E imaginem o espanto de Elias ao descobrir que a noite que passara no Reino de Vassilissa tinha sido, na realidade, um ano e três meses. A aventura de Elias correu célere pela aldeia e a esposa largou o luto. Vinha gente de todas as vilas e aldeias mais próximas para ouvir contar a história da boca do próprio Elias. O pescador tornara-se um ícone da zona piscatória. Fora o primeiro a escapar de Vassilissa sem quaisquer danos físicos ou psicológicos. Mas Elias não participava da alegria e boa-disposição geral. Perguntariam agora vocês a razão disso. Não havia conseguido escapar incólume a Vassilissa? Não conseguira rever a mulher, a família e os amigos? Não recuperara a liberdade? É que Elias descobrira, ou melhor dizendo, percebera o que tinha em casa sem saber. A promessa feita à donzela não lhe poderia ter causado maior dor… O filho! O filho que deixara ainda no ventre da mulher era o que tinha em casa sem saber! Como poderia imaginar, julgando que se tinham passado apenas alguns dias, que a criança que deixara em terra antes de sequer ver o mundo, havia já nascido? Foi um choque para Elias chegar a casa e ver a criança já com um ano, a brincar na sua inocência, desconhecendo que fora vendida pelo pai…»

Alguém fungou no círculo de ouvintes.

«Quando a criança fez quatro anos, Elias não conseguiu guardar mais o segredo para si e contou à esposa o que verdadeiramente se passara naquela noite nos estábulos de Vassilissa. Se por um lado a mulher sentiu alivio por saber finalmente o que tanto atormentava o pescador, por outro, a dor que sentiu não se equiparava à de nenhum ser ainda vivo. Passou também ela a viver com o receio de um dia ver a donzela do mar aparecer das águas para cobrar a promessa que lhe fora feita. Mas nada aconteceu durante mais catorze anos. Nessa altura, já Elias e a mulher se haviam convencido de que a donzela se havia esquecido do que lhe era devido e as esperanças de que a promessa ficaria por saldar eram já certas... Mas ah bem! Que quem faz um acordo com uma donzela de Vassilissa nunca poderá faltar ao prometido! E assim foi, no dia dos dezoito anos do rapaz a donzela surgiu das águas exigindo-o como seu. De nada valeram pedidos ou promessas e nesse dia o filho de Elias desapareceu nas águas do Grande Azul…»

Olavo parou a narrativa como se a história acabasse ali. Observou os rostos ansiosos dos presentes. Já sabiam, claro, que a história não acabava ali. Mas teriam a mínima ideia de qual o verdadeiro fim da história? Saberiam de que esse fim não existia ainda?

«O filho de Elias… chamemos-lhe João, já que ainda hoje ninguém sabe o nome do rapaz. João não sabia, claro, da promessa que o pai fizera. Mas era um rapaz esperto e não demorou muito a juntar os factos e a retirar as suas próprias conclusões. Começou imediatamente a pensar em alguma maneira de quebrar o acordo… Uma maneira em que não fosse obrigado a aceitar as condições daquela ou de qualquer outra donzela do mar. E como quem procura sempre alcança, sabia já o que fazer quando a donzela o deixou nos mesmos estábulos em que Elias passara a sua noite de indecisão.

«- Vassilissa ainda não sabe que estás aqui – começou a donzela. – Não sabe também como escapou o teu pai. Ficou furiosa nesse dia mas não tinha como descobrir o que se passara. Agora houve. O que a minha Senhora pretendia do teu pai eram três tarefas que eu sabia não as poder ele cumprir. Por isso o ajudei a regressar, pois não tinha utilidade para a minha Senhora. Contigo é diferente, escuta-me então. Nos jardins encontra-se um colar de prata há muito perdido. Já foi procurado por todos os súbditos de Vassilissa e nunca encontrado. Tens até à aurora para o encontrar.

«E saiu sem mais uma palavra, deixando João com a sua difícil tarefa. Não era a primeira vez que o rapaz se deparava com um cenário assim, a diferença é que as outras vezes haviam sido histórias contadas pela mãe quando ele era uma criança. Nessas histórias de tarefas impossíveis, havia sempre alguém ou algum animal que tinha uma divida para com o herói e que lhe realizava a tarefa como paga dessa divida enquanto o herói dormia descansado o sono dos justos. Mas não existia nenhum animal que se encontrasse em divida para com João e, assim, o rapaz viu-se apenas com uma solução: a de usar a cabeça. Calculava que cada um dos arbustos e canteiros dos jardins de Vassilissa haviam já sido mexidos e remexidos em busca do colar. Sendo assim, não precisaria de se dar a esse trabalho. Se outros haviam falhado com aquele método porque haveria ele de ser diferente? Por fim resolveu sair dos estábulos e dar uma volta pelos jardins, quem sabe não encontraria por acaso a resposta ao seu problema? E assim foi, pois durante a caminhada João reparou num brilho no cimo de uma árvore. Não demorou muito a perceber do que se tratava e do que havia acontecido ao colar. O ninho de uma pega! Não era pois de admirar que brilhasse tanto com o reflexo da Lua. Ainda com um sorriso ao canto do lábio, o nosso rapaz subiu à árvore e recuperou o colar perdido, deixando o resto dos tesouros ao cuidado da pega. Não lhe havia sido exigido nada mais para além do colar.»

- A pega não estava no ninho? – interrompeu o filho mais novo da padeira. Não eram poucas as vezes que fazia perguntas aparentemente triviais durante uma história. Gostava desses pormenores.

- Estava – respondeu Olavo. – E João não se livrou de umas boas bicadas. Mas encontrava-se determinado a recuperar o colar.

«O resto da noite passou-a João a dormir o dito sono dos justos e com os primeiros raios da aurora veio também a donzela, que não escondeu um sorriso de satisfação ao ver o colar. Não pareceu, contudo, muito admirada, pois não esperava menos. Guardando o colar de Vassilissa entre as suas vestes, indicou-lhe a segunda tarefa:

«- Se seguires para Este encontrarás um lago imenso. Dentro desse algo encontra-se uma pulseira de ouro que Vassilissa perdeu num passeio de barco. Encontra-o. Tens até ao pôr-do-sol.

«E preparava-se já para fazer a mesma saída que da última vez quando João a agarrou por um braço e colocou, num gesto que seria considerado de coragem por uns e de loucura por outros, as suas próprias exigências.

«- Consegui cumprir a primeira tarefa. Quando tiver cumprido as outras duas, entregar-me-eis de novo à minha terra?

«Se é verdade que tal coisa apanhou a donzela de surpresa, também é verdade que se recompôs muito depressa.

«- Como ousais fazer exigências aos termos de Vassilissa? Ela mata-vos pelo vosso descaramento!

«- E pensais que me interessa agora se estou vivo ou morto? Não cairei no mesmo erro de meu pai, que temia a escolha entre a morte e a escravidão. Para mim estas palavras são significados. Entre ficar aqui preso ou morrer tanto se me faz.

«- Cumpri esta tarefa e logo vos trarei a resposta da minha Senhora.

«- E posso confiar na sua resposta?

«- A sua palavra é a sua honra – limitou-se a responder com um encolher de ombros. Quando se viu novamente sozinho, João começou a pensar numa maneira de recuperar a pulseira. Não duvidava que também o lago tivesse sido passado minuciosamente a pente fino pelos seres do mar. E se eles não haviam encontrado o ornamento de Vassilissa no seu elemento que era a água, quais as suas hipóteses? Por fim, resolveu ir ver o lago em questão. Quem sabe não se lembraria de alguma coisa quando lá estivesse? E, de facto, assim aconteceu. O lago, afinal, não era a imensidão que a donzela fizera crer – ou, quem sabe, na perspectiva de João não o fosse –, e, para mais, as águas eram de uma translucidez inimaginável! Não era difícil verificar que a pulseira não se encontrava em nenhum local à vista. Onde poderia então estar?»

Uma nova pausa interrompeu a narrativa. Desta vez, Olavo fizera-a para recuperar a respiração. Desde há uns tempos que tinha uma certa dificuldade em a controlar. Ninguém falou até que retomasse a narrativa.

«A resposta chegou a João quando pousou os olhos numa concha que se fechava sobre si, como se tivesse medo que lhe roubassem alguma coisa. Lembrava-se de ter perguntado ao pai sobre aquelas conchas quando era criança e de o pai lhe ter respondido que guardavam dentro de si um tesouro que queriam manter escondido. Mas, dissera o pai a rir, quase nunca o conseguiam fazer quando tinham o homem como inimigo. Certo de que era aquilo a resposta para a sua missão, João mergulhou no lago, trazendo pouco depois consigo a concha a que chamamos nós de ostra. Procurou uma pedra pontiaguda e em alguns minutos tinha-a forçado a abrir. Um novo sorriso aflorou-lhe os lábios ao ver a pulseira de oiro abandonar o seu antigo cofre. Com a segunda tarefa cumprida, regressou aos estábulos e esperou pelo pôr-do-sol que, como acontece sempre, acabou por chegar, trazendo consigo a donzela. João exigiu saber a resposta de Vassilissa antes de entregar a pulseira.

«- Vassilissa deu a sua palavra – confirmou a donzela, pegando na pulseira e guardando-a entre as vestes com um ar de intensa satisfação. – Ouve agora a terceira tarefa. Há uns anos, Vassilissa foi enganada e roubada por um ser a que damos o nome de Monstrengo. Chama-o, e ele virá ao som do nome. Recupera o anel de diamantes, e terás a tua liberdade de volta. Acaba a tarefa antes do raiar do Sol.

«- Antes? – estranhou João.

«- Antes – confirmou a donzela. E saiu. Novamente sozinho, João suspirou. Que mais havia a fazer para além de começar a tarefa o quanto antes? Seguindo as instruções da donzela, chamou por Monstrengo três vezes e por três segundos esperou a resposta. Devo acrescentar que, tal como eu ou vocês, João não estava muito convencido de que aquilo funcionasse. Mas funcionou e Monstrengo apareceu, atarantado e confuso, como vocês ficariam se vos chamassem de repente para um estábulo.

«- Que queres? – perguntou num tom um tanto ou quanto brusco quando se apercebeu da presença de João. Este encontrava-se igualmente a recuperar do espanto, não da aparição repentina de Monstrengo, mas sim pela aparência perfeitamente humana e banal deste. Que poderia ter que suscitasse o nome que lhe davam? Contudo, respondeu imediatamente à pergunta.

«- O anel de diamantes que roubaste a Vassilissa.

«- Porque haveria de to dar?

«- Porque to peço e porque não te pertence.

«As respostas directas de João pareciam deixar o Monstrengo confuso. Percebia-se que já antes lhe haviam tentado tirar o anel de todas as formas e mais algumas, mas sem dúvida que nunca aquela técnica fora usada.

«- Não és um dos súbditos dela. Para que o queres?

«- Para sair daqui. Porque lho roubaste?

«- Gosto de a aborrecer.

«- Ela estabeleceu-me um prazo irrisório para conseguir o anel. Deu-me a sua palavra de que me libertaria se o conseguisse, mas não o quer fazer. Se for obrigada a cumprir a sua promessa, ficara ainda mais aborrecido do que quando lhe roubaste o anel.

«Monstrengo, que como já devem ter percebido não primava pela inteligência, pensou um bocado naquela conclusão. O rapaz parecia estar certo… com certeza que estava certo! Oh! Que aborrecida que Vassilissa ficaria! Não é pois de admirar que quando a donzela regressou com o nascer do Sol, João lhe apresentasse o anel com um sorriso de triunfo.

«- Muito bem – limitou-se a responder a donzela. E, tal como acontecera com o pai, João viu os estábulos do reino de Vassilissa dissolverem-se para dar lugar às casinhas de pedra da sua rua. A incredulidade voltara a percorrer as ruas da aldeia. Que alegria a de Elias e da mulher quando tiveram o filho novamente nos braços! Que se passara? Como escapara? Que fizera durante aquelas três noites – três anos e nove meses pelo tempo que se passara na aldeia –? Mas ao contrário do pai, que não hesitara em contar a sua história, João preferiu manter o silêncio, limitando-se apenas a descansar os pais no referente aos acordos, ou, no caso, à falta deles.»

Naquela altura já as cabeças dos mais novinhos cambaleavam de sono. A noite ia já avançada, era verdade…

«Passaram-se anos. João cresceu, tornou-se pescador mas nunca, nunca mais foi o mesmo homem. Não sofrera os danos psicológicos que tantos outros haviam sofrido nas mãos de Vassilissa, não. Tornou-se num homem calado, metido consigo mesmo… porque sabem, mesmo que o seu desejo fosse o de regressar à sua terra e aos seus, João não pode evitar uma certa nostalgia da donzela que naqueles três dias fora a porta-voz entre ele e Vassilissa…»

Acabara. E acabando a história, o grupo de pessoas dispersou, alguns a bocejar, outros de olhos bem despertos. Mas nem um com a mais ínfima desconfiança de que aquela fora a última história contada por Olavo. Naquela noite, o velho Olavo respondeu ao chamamento e regressou para junto da donzela das águas. Porque sabem, “João” nunca chegara a esquece-la.


N/A: Em pequena adorava um livro de nome "Os mais belos contos russos", em que, como o nome indica, se reuniam alguns contos russos (obviamente traduzidos). Há 1s semanas estive a relê-lo (sim, sim, é 1 livro feito para crianças, e dp?) e resolvi escrever alguma em memoria desses tempos. Vassilissa era um nome que aparecia em quase todos os contos (normalmente era uma mulher mais boazinha que a deste conto, mas enfim) e, de facto, havia sempre 1a sitiação em que o pai (normalmente o rei) precisava da ajuda de um ser mitico que lhe pedia, em troca, o que ele tinha em casa sem saber. Os reis lixavam-se sp pk diziam k sim e dp xegavam a casa e descobriam k a mulher tinha dado à luz (na altura ainda nao me apercebia, mas agora nao consigo deixar de pensar como é que as mulheres davam à luz sem os maridos sequer saberem que elas estavam grávidas. Estranho...). O rapaz (o filho era sp 1 rapaz...) era entao reclamado kd atingia a maioridd, davam-lhe 3 tarefas impoxiveis de realizar e desesperava. Para sorte do jovme principe, haviam sp animais k estavam em divida de gratidao para com ele (ajudar os animais conpensa) e k lhe realizavam as tarefas, ou entao, a filha mais velha do ser mitico que o aprisionou apaixonava-se por ele... Enfim, o tipo acabava por nc fazer o k devia fazer e safava-se sp. Um tributo a esses contos.

Bjs



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