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Fiction » Fable » Quatro Sardinhas Assadas font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 5 - Published: 11-13-06 - Updated: 11-13-06 - Complete - id:2275882

Quatro sardinhas assadas, por Elyon Somniare


Há muito, muito, muito tempo atrás, antes de o Homem ter de recomeçar do zero a sua história, houve uma altura em que de vez em quando aparecia uma criança mais curiosa do que as outras. Todas as crianças são curiosas, claro, porque ainda estão a explorar o mundo à sua volta, mas, normalmente, aceitam as respostas que os pais lhes dão como certas. Estas crianças “aparecidas”, como eram chamadas, queriam saber mais do que lhes conseguiam explicar e era muito comum que quando atingiam uma determinada idade, partissem em busca da resposta para a sua pergunta, porque, como todos naquela época sabiam, uma criança “aparecida” normalmente só se fixava numa perguntava e numa resposta. O que era a Vida? O que acontece depois da morte? Primeiro surgiu a fala ou foi o pensamento? Porquê que há línguas diferentes? Como funciona a mente? Porquê que os humanos evoluíram mais depressa que os outros animais? Quem tem todo o conhecimento do Mundo? Qual é todo o conhecimento do Mundo?

Edgar era uma dessas crianças “aparecidas”. Quando perguntou aos pais o que era a felicidade, estes limitaram-se a responder que era tudo aquilo que nos fazia felizes e não deram muita importância, afinal, as crianças estavam sempre a fazer perguntas desse género. A preocupação começou quando se aperceberam de que Edgar não ficara satisfeito com a resposta. Na verdade, o rapaz não só andara a perguntar a toda a gente que encontrava na rua o que era a felicidade, como também andara a procurar a resposta em livros grossos e decididamente nada apropriados para a sua tenra idade. De nada valeram psicólogos e filósofos. Edgar não se satisfazia com nenhuma resposta, nada era, parecia-lhe, a definição exacta da felicidade. E, assim, aconteceu o que teria de acontecer: quando atingiu os 12 anos, considerados naquela altura uma semi-maioridade, Edgar saiu de casa em busca da resposta para a sua pergunta.

Viajou pela Rússia, por Cuba e pela República Checa. Visitou França, Inglaterra e a América. Foi até ao Egipto e à Biblioteca de Alexandria. Procurou por África, pela Ásia e pela Oceânia. Conversou com portugueses, espanhóis, suíços e alemães. Estudou os gregos e os brasileiros. Pesquisou com os habitantes da Atlântida, de Mu e de Lémure. Mergulhou no Oceano Atlântico, Pacífico, Antárctico e Índico. Fez excursões à Antárctica e à Antártida. Alugou um foguetão e foi até à Lua. Mas nunca encontrou uma resposta que o satisfizesse. Nenhum povo, nenhuma nação e nenhuma civilização conseguia explicar-lhe o que era a felicidade no seu todo.

Finalmente, exausto, cansado e já no fim da vida, Edgar regressou ao local de origem e à casa dos pais. Era uma coisa rara nos “aparecidos”, aquela, de desistir de uma demandada e regressar. Talvez fosse uma força maior que lhe indicava aquele caminho, mas, o que é certo, é que Edgar regressou. Os pais, soube ele, haviam já falecido há muito. A irmã casara e dera à luz três filhos: dois rapazes e uma menina, a quem deram o nome, imagine-se!, de Felicidade! Edgar não pode deixar de esboçar um sorriso triste ao ser apresentado à sobrinha, moça nos seus 16 anos. Era uma rapariga alegre, amiga das danças e da boa disposição. Foi ela, espevitada, quem convencera o tio a acompanhá-la à festa.

- Uma festa popular? – argumentara Edgar. – Já não tenho idade para isso.

- Tio – respondera a moça. – Quando tinha, desperdiçou-a. Porquê não há-de a ter agora?

E assim Edgar, que viajara por todos os cantos do Mundo e não só, viu-se naquele ambiente em que nunca antes se imaginara. E ali, no meio do cheiro das sardinhas assadas e do odor da água-ardente, Edgar viu Felicidade rodopiar no meio da música alta, e percebeu, finalmente, o que era a felicidade…

- Tio! – exclamou Felicidade, deixando de dançar e vindo ter com ele assim que lhe notou o ar de satisfação. – Consegui dar a resposta à sua pergunta?

- Uma vida inteira de busca… – respondeu Edgar. - E a primeira resposta que os meus pais me haviam dado estava certa…

Felicidade riu-se, bem disposta, e deu-lhe dois beijos em cada face, porque, como lá diz a canção:

Quatro sardinhas assadas

E um copo d´água ardente!

Quatro beijos de uma moça

Deixam o velho contente!


N/A: Este texto também se encontra no blog Os Vencidos da Vida.



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