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Chuva de Inverno
Era uma tarde de chuva. As gotas translúcidas escorriam pela vidraça da varanda, num barulho aconchegante.
Gabriel estava deitado na cama de casal, com apenas um lençol cobrindo seu corpo pálido. Seus cabelos negros e cacheados, ainda úmidos do banho, emolduravam o rosto pensativo. Seus dedos passeavam distraidamente entre os lábios entreabertos e uma única palavra rodava sua mente.
Ricardo.
Ricardo, Ricardo, Ricardo. Sua mente repetia aquele nome com ardor enquanto os dedos em sua boca tentavam capturar a textura daqueles lábios que agora não passavam de uma mera sensação.
Gabriel conhecera o guitarrista numa casa de shows. Ele sempre tivera uma ‘queda’ por músicos e naquela noite saíra com os amigos para a tal casa, ver a banda que estava se tornando a sensação da cidade: The Jokers. Lógico que com um nome desse o moreno não botava muita fé.
Até ver Ricardo no palco. Pareceu-lhe um daqueles momentos em filmes que sua mãe, já falecida, tanto gostava: quando o tempo congela e o coração dispara.
O guitarrista tinha os cabelos ruivos e compridos, como um mar de fogo cascateando pelas costa. Não usava nada mais do que uma calça de couro preta e seu instrumento no palco. Deixava todo o corpo, com uma tatuagem em volta do umbigo a mostra.
E que corpo! Era do jeito que Gabriel amava: esguio e perfeito, sem ser muito musculoso. O jovem sabia que ficara todo o show encarando fixamente o outro, devorando-o com os olhos.
Mas uma coisa era olhar, outra coisa era tocar. Certamente aquele deus grego não seria gay, era sorte demais para um pobre mortal como o moreno. Isso até o músico o encarar.
Quando aqueles olhos cor de mel se chocaram com o seu, borboletas criaram vida em seu estômago. O par de íris o atravessara como laser, analisando-o por inteiro. Pela primeira vez Gabriel sentiu a caça, ao invés do caçador. E o sorriso leve e provocativo que surgiu logo depois fez todo seu corpo formigar.
Foi quando ele prometeu algo a si mesmo. Antes da noite acabar, teria aquele ruivo em seus braços, nem que para um mero beijo. Tiraria aquele sorriso da cara do outro e o faria pedir por mais, muito mais.
- Eu sou um tonto. – sussurrou para si divertido.
Certamente um dos dois pedira por mais. Mas não o esperado. Quando aquela boca grudara-se na sua, Gabriel afogou-se no mar de sensações com intensidade que aquele ato único proporcionara. Ricardo sabia beijar e muito bem!
Pela primeira vez ele levara alguém para sua casa. Pela primeira vez dormia com alguém na primeira noite. Pela primeira vez...se deixara ser possuído por outro homem. Não que houvesse outra alternativa com o guitarrista, a aura dominadora que ele tinha o fizera se entregar sem pestanejar.
Ele se lembrava dos gemidos, dos sussurros, das mordidas, dos beijos, de cada detalhe como se fossem jóias únicas.
E na manhã seguinte, com as nuvens carregadas cobrindo a cidade, o ruivo se despedira do moreno com os beijos e promessas quentes de voltar.
E lá estava ele, deitado na cama, revivendo cada segundo como um bobo apaixonado, revivendo os momentos.
Era ridículo, ele mal conhecia o ruivo! Mas mesmo assim...sentia que nenhum outro teria graça.
Gabriel ergueu-se da cama e dirigiu-se até o closet, resolvendo se vestir. Uma calça de moletom cinza, uma camiseta preta, e pronto. Foi andando vagarosamente pelo chão acarpetado, em direção a cozinha, para fazer algo de comestível. Não que estivesse com fome.
Após preparar um rápido miojo, foi até a sala assistir um pouco de tevê. Domingos chuvosos como aquele tiravam todo seu ânimo. E ele sentia falta do corpo quente de Ricardo bem perto do seu.
Novamente o músico invadira seus pensamentos. Isso já estava ficando ridículo! Gabriel ergueu-se com mais força que o necessário do sofá e foi até a cozinha, despejando o prato na pia com estrondo.
Foi quando a batida forte e ritmada na porta o assustou. O trovão que clareou o céu também não ajudou em nada. Resmungando para si, o moreno foi até o hall e abriu a porta.
A visão do ruivo ensopado lhe tirou o fôlego por meros segundos, antes de exclamar:
- Ricardo, o que faz aqui, debaixo dessa chuva?
O guitarrista apenas avançou para dentro do hall e beijou-o com sofreguidão, enlaçando-o pela cintura.
Gabriel gemeu dentro do beijo, sentindo o cheiro másculo e forte do outro, misturado ao da chuva, entorpecer seus sentidos. Ele envolveu o pescoço do ruivo com os braços, devolvendo o beijo em igual intensidade.
Eles rodaram pela sala, entrando no corredor em direção ao quarto, as roupas secas e úmidas sendo descartadas igualmente pelo chão. A chuva rugia lá fora, abafando em parte os gemidos lânguidos e as respirações pesadas e densas.
Nem aquela tempestade poderia apagar o fogo da paixão que nascia.
Fim