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Olá! Esse foi o meu projeto deste ano para o National Novel Writing Month, que falhou com sucesso! Escrevi 21.000 palavras em 4 dias (btendo o recorde e escrevendo 11k em um dia só!) e depois desisti. Estou começando a colocar os capitulos já escritos aqui. Quem sabe eu tomo coragem e continuo. Tem uns 10 capítulos por enquanto, então espero que divirtam-se.
Beijinhos!
Akari-chan
Broadside Ballad
Capítulo 1.
O Sol começava a nascer lentamente, colorindo o céu de um tom alaranjado e expulsando para longe o frio da manhã. Seus raios se espalhavam por entre as casas e as vielas previamente escuras, iluminando cada parte da cidade, derrapando-se como tinta amarelo dourada em uma tela fria de cores distantes.
Com o sol, a cidade se levantava. Eram ouvidos os primeiros ruidos do começo de um novo dia naquele lugar. Em suas casas toscas feitas de madeira e palha, os comerciantes e trabalhadores levantavam de seus colchões e metiam os pés em chinelas velhas, não se dando ao menor tempo de espreguiçar e lavar o rosto com água fria para despertar. Suas mulheres e filhas já estavam acordadas desde antes, trabalhando na cozinha silenciosamente feito criaturas da noite para que, quando os homens da família acordassem, a mesa do café da manhã estivesse pronta. Enquanto os homens comiam e se dirigiam para o trabalho, elas faziam o mesmo. Ao longo das ruas, portas começaram a se abrir. Mercearias, lojas variadas, hospedarias e bares – também já havia alguns vagabundos e bêbados nas ruas cantando e dançando melodias solitárias sobre amores perdidos. Enquanto as pessoas saiam de suas casas já arrumadas em suas vestes simples de panos puídos, o relógio da pequena igreja marcava seis horas. Os ponteiros não funcionavam e os mecanismos haviam enferrujado havia alguns anos, e os sacerdotes não haviam conseguido fundos para consertá-lo, mas todos os dias um padre empurrava o menor dos ponteiros de hora em hora. Na verdade, já passara quinze minutos das oito, mas o encarregado de mudar as horas estava roncando sonoramente em uma cadeira de balanço de madeira que balançava para frente e para trás, segurando uma garrafa de vinho debaixo do braço, com um sorriso tolo no rosto. Não sonhava com anjos, e se pensava neles, eram anjos loiros de corpos curvilíneos e feições delicadas, com lábios carnudos e cara inocente de menina, e não mulher. Os outros se encontravam em suas camas, com as mãos em suas barrigas redondas, ou dormindo na porta dos fundos de bares, junto aos mendigos, lixo e ratos.
A praça central da cudade se encontrava movimentada agora, finalmente abrigando o tráfico de pessoas que se moviam de um local para o outro. As moças se encarregavam de limpar a frente dos estabelecimentos comercias com vassouradas firmes que serviam para enxotar animais e pessoas indesejados, enquanto agumas mulheres mais velhas puxavam os filhos pequenos pelas golas das camisas e os arrastavam até os seus respectivos locais de trabalho, enquanto seguravam bebês com o outro braço, apertando-os firmemente contra o peito. Algumas tinham de parar no meio da rua para ralhar com os pequeninos quando estes chorvam ou pediam para ir brincar, já exaustas e pedindo para que eles calassem a boca e não atrapalhassem, já que não podiam ajudar. Isso só ocorria nas famílias mais pobres, claramente, já que nas casas mais abastadas haviam empregadas sérias em uniformes e de coque para cuidar das crianças, e não havia necessidade para as mulheres de família trabalharem. Quanto aos homens, estes ou estavam sentados elegantemente vestidos atrás de mesas sólidas de carvalho, atendendo a clientes importantes, ou então com as mangas da camisa arregaçadas em açougues ou padarias, trabalhando tão duro quanto qualquer outra pessoa. Apenas haviam poucos que poderiam viver como bem entendessem, gastando seu dinheiro como se moedas dessem em árvores no lugar de folhas, ignorando o fato de que havia gente cuja necessidade era maior do que possuir as vestimentas que eram a ultima moda no Império. Fora isso, não havia distinção entre homens e mulheres de classe mais baixa. “Seja honesto, trabalhe duro e não seja preguiçoso.” era o lema da pequena cidade, mas havia pessoas que o ignoravam. Uma delas estava estirada no chão de uma das ruazinhas principais.
Notas alegres acompanhavam o início da grande movimentação no local. O homem que tocava um violão possuia complexão forte e rosto duro marcado por cicatrizes e barba por fazer, e aparentava estar chegando à casa dos trinta, mas na verdade possuia vinte e quatro anos. Seu cabelo era escuro e os olhos pequenos apertados no meio do rosto, e ele seria atraente para mulheres que gostassem do tipo mais rude se cuidasse mais da aparência. Ele exibia um sorriso no rosto para quem quer que passasse por ali, e não eram poucas pessoas. Seus dedos deslizavam rápido e agilmente pelas cordas, tocando uma música desconhecida orignalmente pelos habitantes da cidade, mas já amada de tanto que ele a havia tocado nas manhãs naquele mesmo local, desde que chegara lá. Seus olhos adquiriam um brilho especial cada vez que alguém atirava uma moeda ao pote depositado em sua frente, dando um aceno encorajador para ele continuar tocando. Era o início do dia, mas ele tinha a noção de que iria poder comer algo substancial no almoço daquele dia e economizar mais um pouco. Estava louco para poder sair daquele local minúsculo, sentia que nem podia respirar ali. Mas tinha gastado todo seu dinheiro para chegar até lá, e, se quisesse continuar viajando até a capital do império, teria que continuar tocando para ganhar dinheiro ao menos para podder pagar os meios de transporte. Ouvira dizer quando era mais novo ainda, que na capital era onde toda a vida se concentrava, toda a animação. Lá havia, além do palácio do imperador, que ouvira dizer ser magnifico, várias guildas e escolas. Era lá onde magos, lutadores, alquimistas, músicos, dançarinos, e todo o tipo de profissional eram formados. Havia contantes festivais de música e shows e teatros e circos. Naquela cidade principal todos tinham a oportunidade de se tornar alguém, de ficar famoso, rico, ou de ir atrás de aventuras. Não aguentava mais aquela vida chata e pacata de locais pequenos. Se tivesse nascido em uma cidade de porto, em uma família de comerciantes... Poderia viajar pelo mundo inteiro, comprar tecidos ali, venter pedras preciosas e especiairas acolá, navegar pelos mares, enfrentar piratas! Sua imaginação voava solta e suas músicas aumentavam de velocidade toda vez que ele pensava, com o coração pulando, em como seria presenciar as maravilhas que haviam lá fora. Mas não, tudo que tinha em sua vida era um terreno que pertencera à seus pais, duas vacas meio mortas de fome e adoentadas – que ele tinha adequadamente deixado em sua cidade natal – seu violão, a roupa de corpo e seu nome, Ivo. Tinha sorte de que parecia ter um talento natural para a música. Ganhara o violão de um parente qu havia morrido e aprendera a tocar sozinho. Não sabia nada de notas musicais – tocava com o ouvido e o coração. Passara algum tempo estudando que sons o instrumento produzia, que reações ele tinha para cada maneira que ele puxava as cordas, e então pensava em que sons ficariam bons juntos e pronto. Era simples e ele não entendia como as pessoas gostavam de ouvi-lo tocar, ficando muitas vezes surpresas e dizendo que ele possuia talento, que ele deveria procurar ingressar em uma escola de música para aprimorar seu dom. Ele não acreditava em escolas para isso, afinal como poderia se ensinar para alguém como uma música era boa ou ruim? Havia de se sentir, e não aprender a música. Não acreditava que era especial, mas acreditava que só entendendo com o coração e não com os ouvidos se podia criar uma boa melodia. Era assim que ele tocava o violão, era tudo um reflexo de seus desejos e sonhos, e era assim vinha conseguindo ganhar alguns trocados e continuar sua 'viagem'. Não vendia música, vendia sua alma, e com o dinheiro que estava conseguindo, esperava poder seguir em frente até uma cidade portuária. Lá poderia entrar em um navio (mesmo que clandestinamente) e zarpar para o desconehcido, para as aventuras que tanto ouvia em canções populares e que tanto imaginava quando sentava alegremente com o seu violão no colo e se punha a tocar para as pessoas.
Perdido em seus pensamentos, em sorriso cruzou sua face, e um ladrão seu caminho. Demorou alguns segundos, confuso e tentando voltar para realidade, para perceber que seu dinheiro havia sumido, e que um rapaz correndo pelo meio das pessoas, abrindo caminho à força, era o responsável. Piscou, ainda não acreditanto no que havia acontecido, levando tempo para processar os fatos em sua cabeça, e se colocoude pé desajeitadamente. Era grande demais comparado com o moleque, e o outro era deveras mais rápido e mais esguio, conseguindo esgueirar-se facilmente pelas pessoas. Tentou correr atrás dele, mas o violão só o atrapalhava, batendo em suas costas enquanto ele tentava prendê-lo na sacola que costurara para colocar o instrumento de cordas e que costurara firmemente à uma faix que percorria e se amarrava firmemente ao seu tronco. E o que ia fazer, bater com o violão na cabeça do outro? Certamente que, quando decidira que iria se aventurar pelo mundo, tentara aprender a lutar – e eram brigas constantes com os mais fortes de sua cidade que o havia marcado com cicatrizes. Mas não era o melhor lutador que existira, e duvidava que tinha coragem para machucar alguém que não merecia (e os homens de sua cidade natal, arrogantes por causa de sua força, mereciam).
“Ladrão!” Ivo bradou com raiva. As pessoaos, que não haviam presenciado um roubo naquela cidade desde a Grande Guerra, onde até cadáveres eram roubados para se conseguir dinheiro, olhavam desorientadas, esperando pelo desenrolar e preparando-se para contar para a família que coisa emocionante havia acontecido – e tão cedo também! Não eram nem nove da manhã, e se era cedo até para os jogos de cartas em tavernas, quem diria para uma tentativa de roubo.
Ivo gritou outra vez para o rapaz parar, conseguindo apressar o passo com esforço, o que fez com que o ladrãozinho virasse para trás um mero segundo, deixando Ivo vislumbrar uma mecha de cabelos loiros quase brancos e pele dourada de sol por debaixo das roupas que o cobriam por inteiro. Sua respiração estava pesada agora, e ele se perguntava se nunca havia pensado em fazer mais alguns exercícios de corrida, que viriam bem a calhar naquele instante. Seus pais haviam avisado quando ele era muito pequeno para prestar sempre atenção, e para não se envolver caso alguém quisesse assaltá-lo, que era perigoso, e que devia-se cumprir as ordens do bandido pois poderia sair machucado, mas era só um menino!!
A distração causada pelo grito foi o bastante para que o rapaz, que possuia estatuira de criança e olhos de homem, desse de encontro a alguém na multidão e caisse sentado pesadamente no chão, espalhando as moedas brilhantes com um tilintar metálico pelo solo de terra batida e pedras. Ele ainda tentou se levantar, tomando impulso com as mãos e arranhando as palmas, mas assim que conseguiu se reerguer, uma mão se fechou ao redor de seu tornozelo e o puxou novamente para baixo. Quando Ivo chegou ao local, empurrando as pessoas que correram para se colocar ao redor dos outros dois, viu o ladrão sentado, esfregando algumas partes de seu corpo que estavam doloridas pela queda com as mãos raladas. Ele olhava irritado para a pessoa que o havia puxado, e para a multidão.
“O que vocês estão fazendo aí olhando? Por que não vão cuidar da própria vida?” Ele gritou. Sua voz era estridente, de garoto se tornando adulto, e era cheia de altos e baixos. A multidão não se dispersou. Não era como se ignorassem suas palavras, apenas estavam curiosos. Alias, era bem o oposto: cada pessoa anotava mentalmente as frases ditas pelo jovem, para contar depois em casa na hora da janta. Era melhor do que as conversas normais sobre como a bela filha de fulano casara com cicrano apenas por interesse, ou como o filhinho do casal tal, coitadinho, havia sido prejudicado pela separação dos pais. Claro que quando foram contar a história, metade das pessoas disse que o ladrão havia ameaçado de matar todos que não fossem embora e entrar na casa destas pessoas a noite para roubar suas posses.
“Mas é que... é... Você não precisa ser preso?” Uma das mulheres perguntou, sua voz demonstrando incerteza. Fazia tanto tempo que ninguém ia preso naquela cidade que a prisão havia se transformado em uma hospedaria não muito confortável e todos os vigias da cidade havia perdido o emprego. Quando havia alguma discussão ou disputa, os mais velhos levavam para um bar as duas partes com opiniões distintas sobre, vamos dizer, qual dos deuses deveria ser adorado pela igreja do local, e pagavam algumas canecas de cerveja para elas até que concordassem, no fim, de que nenhum deles era realmente muito religioso e que nenhum deus gostaria de ser idolatrádo em um templo cujo relógio velho não funcionava corretamente, e cujos sacerdotes eram meros bêbados.
Ninguém nunca havia visto aquele garoto na cidade, e o música parecia estar lá havia duas ou três semanas, ninguém sabia exatamente ao certo. Eram estrangeiros, e o povo de lá não sabia muito bem como deveriam lidar com este fato. Conversavam entre si, procurando soluções, alheios ao fato de que, se não estivesse preso pelo pé, o culpado fugiria sem pestanejar.
“Acham que deveríamos pagar uma bebida para eles?” Um homem sugeriu, e obteve um murmúrio coletivo de aprovação, embora ninguém estivesse disposto a pagar três bebidas no bar do Velho Jack. O ladrão pareceu um tanto quanto embaraçado pela hospitalidade alheia. A pessoa que havia pegado o pé dele (ele presumiu que ela tivesse caído quando eles se esbarraram) havia se agachado e recolhia as moedas caídas no chão. Quando se levantou levou os braços ao ar, espreguiçando-se. Era um jovem de cabelos pretos lisos e picados, caídos sobre os olhos, com uma mecha de cabelo tampando o olho direito, nariz arrebitado e lábios finos. Se não fosse o ar de profunda irritação e as bolsas arroxeadas embaixo de seus olhos, poderia muito bem ser confundida com uma moça se passando por homem, de tão pálida e delicada a contituição que ele possuia. Era magro e parecia um fanatsma – um homem quase invisível.
“Muito obrigado.” Ele falou sarcástico, limpando a poeira de seus trajes. Eram vestes de qualidade, de homem rico, apesar de não ser colorida ou possuir decoração e estampas exageradas como eles costumavam se vestir. Era na verdade bem simples, e só podia se deduzir que possuia dinheiro porque suas vestes não estavam deterioradas ou manchadas, e pareciam bem novas para aquelas pessoas que não podiam se dar ao luxo de comprar roupas novas quando quisessem. Além do mais suas botas eram feitas de couro de verdade, couro preto que não via um pano para polí-lo fazia alguns meses, mas ainda assim não era um tamanco feito de uma tira de pano grudada em uma sola de madeira cheia de farpas que machucavam mais que o próprio chão. Carregava nas costas uma sacola também de couro durável, que estava bem cheia. Os habitantes davam olhares cobiçosos disfarçadamente, e segundo a opinião da maioria das pessoas, deveria existir algumas moedas de ouro bem guardadas ali dentro. As moedas que ele havia catado no chão, pegou-as e colocou metade em sua própria sacola, fazendo Ivo fazer uma exclamação em forma de protesto.
As atenções se votlaram para ele novamente.
“Ei! Este dinheiro é meu!” Ele reclamou. Não era muito, mas dividido pela metade, era menos ainda, ele concluiu sabiamente.
“Claro que é.” O homem de cabelos pretos pegou o resto das moedas e colocou na mão estendida de Ivo. “Considere-se com sorte. Se não fosse por mim, você não estaria nem com metade das moedas.”
Ele virou-se para se encontrar de cara com o ladrão tentando escapar novamente, mas o círculo de pessoas não o permitiu. Logo três curiosos estranhos haviam se encontrado em uma situação um tanto quanto diferente, e eles não iam deixar que o garoto fugisse para acabar com o divertimento da cidade, que com certeza ia ficar falado por meses até algo novo aparecer.
“Mas que droga ein!” Ele se virou com vontade de esganar o menino. “Pelo menos se mostre e não fique tentando se esconder, menino!” Ele puxou os panos que cobriam o rosto dele. Era uma criança, quase, devia ter uns dezesseis anos.
“Eu não sou um menino!” O loiro respondeu como se tivesse lido os pensamentos de Ivo. “Eu já sou maior de idade! Tenho dezoito anos! E meu nome não é menino, é Gauwyn!” Ele gritou irritado por ter sido tratado como criança, mas logo após cobriu a boca. Havia acabado de dizer que poderia ser preso e arcar com a consequência de seus atos, e até dado seu nome! Não acreditava que havia feito aquilo só pela raiva. Parecia um tolo.
“Oh, que bom, agora sabemos o nome do ladrão. Agora será que vocês podem dar licença?” O rapaz pálido perguntou. Seus olhos pareciam que afundaram mais ainda, e ele parecia cansado. Sua voz era rouca de uma certa forma atraente. As pessoas automaticamente tiveram o impulso de se afastar como ele havia pedido. “Eu acabei de chegar até aqui depois de viajar a noite inteira a pé. Queria chegar a noitinha, mas parece que calculei errado.”
“Não precisamos saber de suas desculpas, eu quero é meu dinheiro!” Ivo reclamou.
“Eu já te dei seu dinheiro.”
“Eu vou ir preso?” Gauwyn perguntou, cortando os dois.
“Cale a boca.” Eles responderam irritados, ao mesmo tempo. Só perceberam que falaram em unisono depois, porque o loiro não sabia para onde olhar para dar sua resposta, e parecia um tanto quanto assustado já que eles haviam se inclinado para frente e gritado com ele.
Os habitantes se divertiam a vera, até que alguém mais racional decidiu que já estava na hora de acabar com aquela briga. Discussão demais pela manhã levava à dor de cabeça, e consequentemente a falta de disposição para o trabalho do dia. Além do mais eles já haviam perdido um bom tempo precioso, e era melhor voltar ao trabalho, antes que os deuses – ou seus patrões - se enfurecessem.
“Sentimos muito pelo inconveniente.” Um velho deu um passo a frente na multidão. Seus fíos de cabelo haviam quase todos caído, e o centro de sua cabeça jazia careca, e só havia alguns tufos de cabelos dos lados, acima das orelhas. Ele não usava bengala ou algo parecido, mas andava devagar, e quando abriu a boca, dava para se sentir o cheiro de álcool e ver alguns dentes faltando. “Eu sou o velho Jack, e sou o responsável pela principal hospedaria e taverna daqui.”
Ele parou, esperando obviamente que os outros se apresentassem propriamente. Como não o fizeram, ele continuou, pigarreando. “Quem são vocês?”
Ivo iria alegar que já o conheciam de nome, e até já o haviam convidado para jogar uma partida de dardos na qual ele perdera tragicamente uma quantia considerável de dinheiro que apostara, mas recebeu olhares feios e esperançosos das pessoas. Ele achou que era fome. Mas de qualquer forma, era um tanto quanto intimidador, estar no meio daquele círculo de gente.
“Hmmm, meu nome é Ivo e vocês já me conhecem porque que eu toco o violão na pracinha e porque eu joguei com vocês todas as sextas e sábados desde que cheguei até aqui e perdi feio.” Deu uma risadinha nervosa, e obteu alguns comentários de aprovação por parte da platéia. Isso era bastante assustador.
Jack se virou para os outros e esperou que falassem.
“Não vejo a razão pelo qual deveria me apresentar, mas meu nome é Francis. Estou de passagem, e quero só parar para dormir, se vocês me permitem. Se não, não planejo ficar nem mais um segundo aqui.” O rapaz que havia catado as moedas no chão replicou, desrespeitosamente. Ninguém gostou do seu tom, não simpatizaram por ser rico e por ser grosseiro, talvez.
“Eu acabei de dizer que meu nome é Gauwyn e eu vou embora se não me prenderem!” Gauwyn bufou, cruzando os braços. “Decidam-se logo! Não quero ficar neste lugar!”
Jack não parecia contente.
“Ora ora, os jovens de hoje em dia não aprendem boas maneiras, não é mesmo?” Ele perguntou para as pessoas, que concordaram pacificamente, mesmo porque era o Velho Jack, e era bem capaz que ele aumentasse o preço das bebidas se não gostasse da resposta que ouvisse. “Como é uma tradição do local e não vamos deixar que nnenhum jovenzinho que acha que é homem e já viu muito do mundo estragar o nosso costume, estou convidando vocês três a passarem na minha taverna agora para tomarem uma cerveja por conta da casa e discutirem o problema de vocês civilizadamente.”
“Não.” Gauwyn e Francis responderam ao velho, e Ivo ficou com vergonha de ir com a idéia contrária a dos dois, mas acabou murmurando um 'sim' baixinho. Não ia reclamar de ganhar uma cerveja de graça. Além do mais, era só tomar a cerveja e ir embora, ia eprder a hora de almoço – a mais movimentada e quando ele ganhava mais dinheiro, mas não se podia ter tudo o que queria sempre, e ele teria que lidar com aquilo. Ficaria mais alguns dias e tudo estaria certo, não? Talvez até conseguisse com que Francis lhe devolvesse o dinheiro que havia tomado como 'taxa' por ter salvado suas moedas. Alias, não entendia porque um cara aparentemente rico, com dinheiro para roupas que ainda serviam e pareciam novas, ficaria tão ansioso por pegar dinheiro de alguém que não possuia nenhum. Um colega que havia jogado dardos com ele o cutucou com o cotovelo para dizer que as pessoas endinheiradas eram assim mesmo, não via ele o exemplo do imperador, que já era rico e cobrava um absurdo de impostos? O homem continuou a usar o tempo para reclamar do governo, dizendo que até o ar que eles respiravam ia passar a ser taxado, ignorando o fato de que Ivo não prestava mais atenção à sua fala.
“Por convite,” O velho continuou. “eu quero afirmar que vocês não tem o direito de recusa.” Ele levantou o dedo indicador no ar e balançou-o acusadoramente, apontando para os três. “É sempre assim, baderneiros de outras cidades chegam e vem perturbar nossa paz e nosso trabalho e não querem assumir as consequências...”
O dono da hospedaria e taverna parou ao ouvir a palavra 'trabalho' vindo de seus próprios lábios. Ele pareceu-se lembrar de que todos deveriam estar trabalhando agora, e não observando o pequeno show na comoção que os estranhos causaram. Ele bradou para as pessoas, cuspindo por entre os lábios que pareciam pedaços de carne grudados na pele, as gengivas avermelhadas e os dentes podres a mostra, fazendo as pessoas começarem a correr para voltar aos seus lugares, os mais velhos com medo e os jovens rindo como se o Velho Jack houvesse finalmente ficado maluco de vez. As moças seguravam nas saias e aventais e saiam ao lado dos jovens se acabando de tanto gargalhar, recebendo olhares desaprovadores dos mais velhos e do próprio Jack.
“Vão trabalhar, vagabundos! Não vão ser pessoas decentes até começar a mexer esse traseiro preguiçoso, seu bando de inúteis!” Ele brandiu o punho no ar, não assustando muitas pessoas realmente. Já não fazia tanto efeito quanto antes, quando os mais novos ainda possuiam respeito por ele – ele pensava em sua cabeça calva.
Tossiu um pouco, colocando a mão na frente da boca, parecendo que ia ter uma convulsão e cospir pra fora os pulmões que já não funcionavam tão bem quanto antes por causa do tabaco. Ivo se aproximou prestativo, pronto para dar apoio, mas o velho apenas fez um gesto com a mão, mandando ele se afastar e se juntar a Francis e a Gauwyn.
“Vocês vão me acompanhar?” Ele ameaçou. Os três realmente poderiam ter ignorado e virado as costas, mas talvez haviam ficado com pena do pobre velhote, que um dia fora respeitado o bastante na cidade para ouvirem o que ele falava sem rir – ou ao menos então fingindo que não riam, contendo-o discretamente pousando a mão nos lábios. De qualquer forma, todos haviam concordado com a decisão que ele tomara, e ele era ao menos querido como alguém que estava cuidando de dois dos mais importantes estabelecimentos do local havia muitos anos. Servia bebidas e alguns petiscos fritos e gordurosos na taverna e no restaurante que ficavam dentro da hospedaria, além de tomar conta de todos os viajantes que passavam por lá. Garantia que os moradores da pacata região tivessem um jogo para se divertir a noite junto com comida e bebida – e até mesmo realizava pequenas festas quando havia o casamento de alguém ou nascia uma criança. Eram pequenas comemorações com doces caseiros cheios de açúcar feitos por sua mulher gorda e tão velha quanto ele, embora menos ranzinza. Não era grande coisa, um bolinho e um desejo de felicidades para o casal ou a criança, mas era apreciado naquele lugar sem nada.
Os rapazes assentiram com a cabeça.