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Clavis di Fatum - Capítulo cinco
“Acorda..."
Niya escutou alguém sussurrar em seu ouvido, quando abriu os olhos vagarosamente. Franziu o cenho, sentindo um vento frio passar por sua pele descoberta. Seus dedos logo reconheceram aquilo em que estava deitado sobre...seus olhos arregalaram-se e ao mover-se o mínimo, ainda pode sentir parte do outro em si, corando completamente. Quase que num pulo levantou-se, buscando sua roupa.
Shido sentiu a perda de calor rapidamente e abriu os olhos, vendo o outro assustado e trocando-se. Como num flash, tudo voltou a sua mente e ele arregalou os olhos.
- Niya...eu... – disse, sem saber o que falar ao certo, erguendo-se também, arrumando sua roupa. Uma fisgada na sua perna fez ele franzir o cenho em dor e voltar a sentar-se.
Niya evitou olhar para o outro, morrendo de vergonha pelo que tinha acontecido, ainda que não lembrasse exatamente tudo o que tinha feito. Entretanto assim que escutou o outro voltar a sentar-se, voltou-lhe o olhar.
- Shido-san...está tudo bem? - se aproximou minimamente.
- Minha perna...acho que ela não se recuperou por inteiro. – disse. Ele levantou a calça e viu que uma enorme mancha roxa se estendia por toda região inferior - Droga...
Os olhos claros miraram aquela mancha roxa e logo voltou os olhos para os de Shido, preocupado.
- Isso é culpa minha, não é? – franziu o cenho se aproximando mais, olhando aquela mancha novamente – Me perdoa...Shido-san...
- Já disse pra não se culpar Niya. – falou, passando os dedos no rosto do jovem, sem evitar. Então sorriu levemente – Anda..me ajuda a levantar, seu avô pode dar um jeito nisso.
O garoto fechou os olhos por um momento ao ser tocado e suspirou longamente, levando sua mão a que tocava a sua face, se aproximou mais e o olhou novamente, passando os seus dedos pelas coxas do outro, sentindo seus dedos queimarem, parecendo sugar todas as feridas do corpo do outro.
- É...ele pode... – franziu o cenho, sua mãos pareciam queimar quando foi fazendo a perna do outro tornar-se apenas uma ferida superficial.
Shido ergueu-se, não com tanta dificuldade dessa vez e fez o outro levantar-se também.
- Vamos indo, seu avô deve estar surtando com a sua ausência agora. – ele sorriu marotamente ao falar isso.
Niya não notou quando a ponta de seus dedos pareciam acizentar. Moveu a cabeça num breve sim e pegou suas coisas, seguindo para fora do local junto com o outro. Shido foi caminhando ao lado do jovem, seus instintos dizendo que havia algo errado. Subitamente ele falou:
- Niya, estenda sua mão pra mim por favor.
Niya parou de andar, voltando os olhos para o outro e estendeu sua mão, a ponta dos dedos ainda acizentadas, mas agora parecia clarear mais.
- Que foi?
Ele tocou na ponta dos dedos do outro e sentiu-os frios.
- Onde você fez isso com seus dedos? – seus instintos agora gritavam que havia algo errado.
Niya olhou seus dedos e franziu o cenho pensativo.
- Não sei...
O cinza parecia sumir aos poucos, ficando mais claro. O garoto levou um susto quando escutou a voz atrás de si.
- Finalmente vocês voltaram... – era o avô do jovem.
Shido apenas largou da mão dele e virou-se para o velho, que os observava.
- Quanto tempo ficamos sumidos? – não sabia dizer quanto tempo passara naquela casa. Ou se aquele tempo realmente acontecera.
O senhor continuou, ainda os observando.
- Uhm... – ele não parecia exatamanete preocupado – Dois dias... – ele se aproximou de seu neto e pareceu fcar um pouco mais sério – Ahn...então já começou...eu imaginei...
Pegou uma das mãos de Shido, passando o dedo pelas costas das mãos, onde o kanji de "guardião" surgiu num leve tom prateado. O senhor deu um sorrisinho safado.
- Você nunca prestou mesmo, Shido-kun! Meu netinho é tão novinho pra essas coisas... – balançou a cabeça num breve não e seguiu andando pra dentro de casa – Entrem...
Shido arqueou a sobrancelha e disse:
- Se eu não presto não deveria ter dito que eu fui o escolhido para ser o guardião dele. – não que ele não o faria da qualquer maneira, porque Niya era seu para proteger. Ele parou quando sentiu aquele pensamento surgir. De onde viera?
- Apenas te avisei, garoto...não fui eu quem te escolheu... – o senhor sorriu e olhou para seu neto que encolheu os ombros corando ainda mais.
- Dois dias? – disse Niya, olhando para o seu avô e seguindo para dentro da casa.
Shido seguiu-o e não caminhou muito, logo sentando-se no sofá.
- Não vou conseguir protege-lo com isto! – o velho sabia muito bem das suas habilidades de cura. Mas pelo jeito seu sangue não estava adiantando.
O velho se sentou e Niya se sentou também ali na sala, antes de se levantar a pedido de seu avô e ir preparar algo para eles comerem. Assim o senhor voltou os olhos para Shido.
- Ahn... realmente isso vai começar a não ser o suficiente, agora que Niya está tomando consciência do que ele tem que fazer aqui. Seres muito mais poderosos surgiram...mas não há porque você ficar preocupado... – apontou a outra mão que ele não tocou - Já viu que simbolo é esse?
Estava escrito "imortal”.
- Niya não é um menino bobo, Shido-kun, ele sabe que não pode ficar procurando por um guardião sempre. Ele precisa de um apenas, aquele que foi predestinado a quebrar o selo e a servi-lo... – olhou para a cozinha por um momento e voltou a olha-lo – De qualquer forma, ele sabe que se ele quiser ser protegido ele vai ter que te dar mais créditos...não espere que Niya faça algo para se proteger sozinho. Você sabe que ele não está aqui para proteger ou destruir, ele está aqui para julgar...
Shido suspirou profundamente, encostando a cabeça na parte alta do sofá, fechando os olhos azuis.
- Eu sei disso. Mas essa ferida na minha perna...é diferente. Tenho a impressão de que ela foi causada por alguém que anularia o meu sangue. Um anjo... – ele voltou a encarar o senhor – Só um anjo anularia o poder que o meu sangue tem...o sangue de Yuura.
O senhor olhou-o e suspirou pesadamente.
- Um anjo? Hm... – cruzou os braços – E está achando que um anjo o atacou...?
- Foram dois gollens de gelo...mas tenho quase certeza que foi um anjo que os conjurou. – respondeu, suspirando e cruzando os braços.
O senhor franziu o cenho, pensativo, quando Niya voltou da cozinha com bolo e café, colocando sobre a mesinha de centro.
- Prontinho! – falou, sorrindo levemente e voltou a se sentar, olhando os dois e achando aquele clima chato demais – Nee, Shido-san... gostaria de dormir aqui hoje?
- Claro...porque não? – disse, voltando seu olhar divertido para o velho, querendo ver qual seria a reação dele.
O homem por sua vez apenas observava o seu neto e por fim suspirou, levantando-se.
- Vou preparar mais uma cama então...
- Obrigado! – agradeceu o garoto e logo voltou os olhos para Shido, após voltar sua atenção para o bolo, pegando um pedaço – Sobre o que estavam falando?
- Sobre você. Sobre o que lhe aguarda. – disse sem rodeios. Ele pegou o pedaço de bolo oferecido por Niya e começou a come-lo.
- Sobre o que nos aguarda...Shido-san... – sorriu de maneira infantil e se apoiou no braço do sofá – Está comigo agora...não? – perguntou num tom preocupado.
- Foi isso que eu quis dizer. – respondeu com um leve sorriso, ainda comendo o bolo, olhando-o de canto de olho.
Seus olhos pareciam sérios, analiticos.
- Imaginei... – mas logo voltou a sorrir e voltou os olhos para onde seu avô havia ido – Você sabe...tenho impressão que ele vai nos deixar. Eu sei que cada um tem sua missão...acho que ele já completou a dele aqui...
- Eu tenho certeza que ele vai sumir. – disse – Ele só esperava...por achar seu guardião.
Niya olhou novamente o outro e suspirou longamente sem gostar do tom usado por ele ao se autointitular guardião. Se levantou e se sentou mais próximo.
- Você não está feliz não é?
Ele deixou o prato de lado e então, num gesto rápido, puxou-o em seu colo, fazendo-o encarar de frente.
- Nunca diga isso novamente. – seu tom ficou suave enquanto seus dedos inconscientemente passeavam pela boca entreaberta de Niya – Só tenho...medo. Que não consiga te proteger como devo.
Niya o olhou diretamente nos olhos. Segurou a mãos que passava por seus lábios e a segurou em seu colo.
- Você vai...eu não erro...nunca errei... – passou seus dedos pela face do outro e o fez fechar os olhos, seus dedos passando por toda a face, até chegar aos lábios. Aos poucos aproximou os seus – Você é o predestinado para mim...eu sinto...
Shido abriu os olhos, as íris azuis parecendo serem multicoloridas como as águas do mar.
- Niya... – sussurrou e alcançou os lábios deles, beijando-os calidamente, mas intensamente.
Niya respondeu ao beijo que logo foi perdendo o mesmo ânimo que parecia ter assim que recebeu-o primeiramente e logo abre os olhos, ainda corado com aquele beijo, que foi se desfazendo.
- Está tudo muito silencioso...
Shido arqueou a sobrancelha, estranhando também.
- Seu avô demora assim para arrumar uma cama?
- Não... – olhou para a escada que dava para o segundo andar, e nunca havia sentido aquela casa tão fria como naquele momento. Franziu as sombrancelhas de maneira preocupada e num pulo deixou o colo de Shido correndo em direção do segundo andar.
O moreno seguiu logo atrás e ouviu o grito de horror do jovem. Ele foi mais rápido e parou na porta do quarto de Niya, a tempo de segurar o jovem que tremia de raiva. Kirai sorriu levemente, sua mão saindo pelo peito do velho, segurando seu coração. Suas asas negras estavam abertas e seus olhos violetas miravam o jovem.
- Ele não vai ser mais de serventia alguma. E coisa inúteis merecem ser descartadas.
Niya não conseguia tirar os olhos do corpo de su avô. Algumas lágrimas escorreram, e seu corpo pesou, se ajoelhando. Logo um corte fino surgiu na face de Kirai, um vendo que parecia fraco, foi tomando conta do local e antes que pudessem fazer algo, Niya fechou os punhos, sendo consumido pela raiva que sentia, o assoalho e a parede desgrudavam pelo vento, alguns móveis quebrando-se. Seus olhos miraram o demonio, olhos frios. Kirai sentia a ardência dos cortes que se cicatrizavam logo em seguida, mas sorria triunfante.
- Isso...sua missão aqui...é destruir tudo. – ele encarou Shido – Quero ver você conseguir tira-lo do estado de fúria cega em que ele se encontra...guardião. – rindo baixo, ele sumiu, o corpo sem vida do velho caindo com um baque no chão. O moreno fechou os punhos e foi até Niya, que não ouvia nada a sua volta*/
Niya sorriu de canto de lábio, seus olhos brilharam mais.
- Não vai fugir, demônio...vamos brincar mais... – antes que Kirai pudesse sumir completamente, Niya fez alguns tentáculos brotarem, quebrando os assoalhos da casa e segurando o demônio pelas pernas. O jovem levntou-se, esquecido de onde estva e foi se aproximando do demônio, parecendo diabolico.
Shido respirou fundo e então, sabendo que provavelmente era suicida da sua parte, ele segurou o outro por trás, pelos braços.
- Pare com isso Niya! – disse num tom firme.
O jovem franziu o cenho e aumentou mais o vento a sua volta, empurrando Shido para longe.
- Me larga! – seus olhos voltaram-se para Shido – Quem pensa que é para me dar ordens, eu faço o que eu quero! – olhou o demônio segurando algumas penas daquelas asas negras, antes de puxa-las com força.
Kirai o encarava, sem demonstrar dor alguma, apesar dela ser imensa. Shido levantou-se e deu um sorriso de escárnio.
- Eu sou mais velho que você e você vai ter que me escutar! – ele se aproximou novamente, segurando-o. O pentagrama em seu peito começou a brilhar.
Niya voltou os olhos novamnte para Shido.
- Humano idiota! Acha que é mesmo mais velho que eu? – riu baixinho – Tenho uma péssima noticia pra você...guardião, está me irritando! – puxou o demônio pela asa e jogou contra o corpo de Shido. Niya pisou no pulso de Kirai e pegando um dos espinhos da planta, fincou na mão do demônio. Olhou para Shido – Aprecie...parece que nosso demônio não tem mais utilidade também...
Shido cruzou os braços e encarou-o, arqueando a sobrancelha diante do demônio prostrado a seus pés. Nunca tivera medo de anjo ou demônio, não era agora que teria.
- Seu avô iria ficar decepcionado. – disse apenas. Sabia que tinha enfiado o dedo na ferida ao ver a expressão do jovem.
Niya olhou de maneira séria para o moreno e foi caminhando em direção de Shido.
- Você acha que sabe muito, não é? – olhou o corpo de seu avô e olhou para seu guardião – Você não sabe de nada... – sentiu algumas lágrimas caírem.
Shido descruzou os braços e segurou o outro, encarando-o seriamente.
- Por ser um anjo...e um demônio..sei que tem mais anos do que eu Niya. Mas aqui na Terra eu tenho mais experiência do que você...e acredite. Eu sei. – ele passou os dedos pelo rosto do outro, limpando suas lágrimas – Seu avô iria detestar que você se deixasse levar por essa raiva que está bloqueando seu bom senso.
O jovem franziu o cenho, olhando baixo, voltando aquele olhar inocente. Respirou pesadamente, antes de esconder a face da blusa do outro, caindo no choro. Shido abraçou o outro com carinho, deixando-o desabafar em seu corpo, em sua blusa. Então mirou o demônio os encarando de volta, um sorrisinho no lábios.
- Você é mais habilidoso do que eu pensei...Shido. - Kirai desapareceu, de vez.
Pouco tempo passou quando afastou sua face do peito do outro. Seus olhos passaram tímidos pelo local, até achar o corpo de seu avô.
- Vamos sair daqui...
- Espera. – ele soltou o outro e sorriu. Então andou até o corpo do senhor, ajoelhando-se diante dele. Seus dedos pousaram na testa dele e então uma luz prateada invadiu o corpo, se dissipando logo em seguida. Ele ergueu-se e encarou o jovem – Agora podemos ir.
Niya apenas observou a cena de longe, não queria se aproximar e logo saiu do local e da casa, apenas levando a roupa do corpo. Assim que puseram o ultimo pé para fora daquela casa, um pequeno terremoto se fez presente naquela área. Um terremoto sobrenatural Shido apenas sentiu o tremor e então pegou na mão do jovem.
- Venha. Você vai ficar a salvo comigo. Prometo.
Niya segurou firme a mão do outro, ainda com o olhar longe, entristecido.
- Obrigado... - não olhou pra trás, quando, tempo depois, a casa foi ao chão.
Continua...