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Reveillon
Tudo começou no dia um de janeiro, à meia noite. Era o primeiro dia do ano. Na verdade, era o primeiro segundo do ano e as coisas já pareciam estar indo bem. Afinal, não era qualquer garota que ganhava um beijo do garoto mais bonito do condomínio e essa era a sorte que Letícia estava tendo naquele momento. Mesmo que tivesse sido um beijo por engano, já que ele provavelmente tinha tentado beijar a melhor amiga dela.
Mauricio abriu os olhos no décimo segundo do ano e aquele par de olhos verdes, como azeitonas; arregalou-se em surpresa. É, ele definitivamente tinha pensado que iria beijar a Priscila, a qual estava muito ocupada numa troca intensa de saliva com o filho de algum amigo dos pais dela. O garoto tinha o mesmo corte de cabelo que o Keanu Reeves, em um dos filmes que o ator fez nos anos noventa e gritava algo sobre prostitutas de dez mil dólares enquanto andava no topo de uma montanha de lixo.
Num instante, os braços de Mauricio a soltaram e ele estava a quase meio metro de distância, um fato notável se considerando que, numa média, tinham umas oito pessoas por metro quadrado no salão naquele momento. Os fogos de artifício ainda estouravam do lado de fora, o som era alto o suficiente para ser ouvido, mesmo com a música tocando e a gritaria em volta. A luz dos fogos se misturava à luz das lâmpadas da cidade. Era um cenário lindo visto da cobertura.
Letícia sorriu sem graça enquanto ajeitava a calça jeans amassada de tanto dançar e fingiu observar as pessoas à sua volta, sem encarar Mauricio. O garoto, por sua vez, não conseguia tirar os olhos da garota com bochechas vermelhas. Devia ser o choque da descoberta que tinha beijado a pessoa errada. Não dava para culpá-lo.
Priscila era simplesmente linda. Não era alta nem baixa, tinha a altura ideal. Era magra, mas não tão magra que parecesse uma daquelas modelos anoréxicas. Tinha olhos castanhos que eram emoldurados por cílios longos. Qualquer garota mataria para ter os cílios dela. E a pele? A pele da Priscila era lisa e brilhante, naturalmente bronzeada – parecia chocolate ao leite. O toque final ficava por conta dos cabelos ondulados que iam até o meio das costas.
Letícia era o oposto da amiga: alta e desengonçada, às vezes não sabia bem o que fazer com os braços compridos. Era branquela e, quando tomava sol, o máximo que conseguia era ficar com a cor de um camarão. A única coisa que gostava em si mesma era os olhos azulados – se bem que se ela ficasse muito tempo sem piscar corria o risco de parecer uma assassina psicótica de cabelos loiros sem graça.
Alguém deu uma taça de champagne à garota. Ela nem viu quem foi, mas pensou em seu irmão – Caio adorava se exibir com bebidas; ele achava que champagne era coisa de adolescente e dizia preferir whiskey ou rum. Não era nenhuma surpresa vê-lo caído pelos cantos de festas, sempre super bêbado. Era realmente patético quando acontecia. Caio era um daqueles bêbados que ficam alegres nos primeiros trinta minutos de porre e depois começam a chorar, inconformados com as injustiças do mundo.
Uma garrafa surgiu nas mãos de Mauricio, mas ele nem olhou para ela, porque continuava observando Letícia. A garota ficou nervosa com aquilo e a falta de qualquer reação ou palavra por parte do garoto, então começou a andar. Empurrou algumas pessoas para conseguir passar e abrir caminho ate a saída do salão. A sorte da garota é que ninguém parecia se preocupar com ela e nenhuma pessoa lá tentou pará-la.
Pelo menos até Letícia alcançar a porta que levava para o terraço e uma sorridente e descabelada Priscila aparecer de repente. Ela estava muito bonita com uma saia branca com detalhes prateados de lantejoula e uma blusinha de algodão com estampa colorida. A maquiagem dela ainda estava intacta, como se ela tivesse acabado de fazer – exceto o batom, que já tinha sido gasto com o falso Keanu Reeves.
- Lê! – ela disse bem alto, embora as duas estivessem frente a frente. – Você viu? Você me viu?
- Claro, Pri. – Letícia sorriu, meio que rindo da amiga e de seu entusiasmo exagerado. – Quem era aquele cara?
- Ah! – Priscila fez cara de indignada. – Ele não era um cara. Ele é o Rafael. Que nome lindo, não? Ra-fa-el. R, A, F...
- Obrigada, Priscila, mas eu sei como se soletra o nome.
A morena apenas riu e terminou de soletrar o nome do tal Rafael antes de contar a Letícia como os dois acabaram se beijando. O garoto era filho do melhor amigo do pai de Priscila, então eles já se conheciam há muito tempo. O detalhe era que Rafael adorava irritar a Priscila, fazendo com que ela tivesse pensamentos que envolviam o rapaz e cerca de dezessete maneiras diferentes de se matar alguém.
Tudo tinha mudado ali, na festa. Rafael tinha se portado como um verdadeiro cavalheiro, pedido desculpas por agir como um idiota por cerca de dez anos e confessado que sempre tinha gostado de Priscila, mas não sabia como atrair a atenção dela. Aparentemente, a lógica dele era a mesma do que a de um garoto de dez anos.
A garota nem ligou para o comentário maldoso da melhor amiga e ainda falou do Ra-fa-el por mais cinco minutos até mudar de assunto sem nenhum aviso. Priscila comentou algo sobre a decoração, a falta de comida e o excesso de bebidas antes de olhar bem para Letícia. Era como se ela tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa realmente incrível. Ela sorriu, mostrando quase todos os dentes brancos.
- Eu vi você! Nem tenta esconder. O Mauricio te beijou!
- Ah... É. – foi só o que Letícia disse, ficando sem graça de novo e mexendo no cabelo.
- Ai, Lê! Não vai me dizer que você não gostou!
- Não é isso... É que...
Letícia não terminou de falar. Como poderia dizer que, a realidade, quem deveria ter beijado o Mauricio era Priscila e não ela? Soaria como algo estúpido e sua amiga diria ser loucura o fato de alguém querer beijá-la ao invés de Letícia. Essa era a melhor qualidade da morena: não era nem um pouco exibida nem orgulhosa.
Ela tentou adivinhar o motivo da amiga não estar animada por ter beijado Mauricio, mas logo se lembrou de que tinha deixado o Rafael sozinho por muito tempo, já que tinha dito que só ia falar com a loira rapidamente. Priscila deu um beijo estalado na bochecha da garota e saiu, dizendo que voltaria logo que tivesse chance para que pudessem terminar de conversar.
Letícia só fingiu concordar antes de abrir a porta de vidro escurecido e postar-se do lado de fora. Ela fechou a porta e sentiu um arrepio. Lá estava um pouco frio, mas era só porque ela tinha acabado de sair da agitação e calor da festa. O céu estava escuro, mas não era azul e as estrelas não apareciam tanto. A poluição da cidade grande era a culpada.
A jovem andou até o fim do terraço, que mais parecia um jardim de inverno com tantos vasos de flores espalhados por lá, e apoiou os braços na grade de proteção. Nem precisou ficar na ponta dos pés para enxergar a rua movimentada lá embaixo. Era quase interessante pensar que aqueles que viam os fogos das ruas queriam estar na festa da cobertura e Letícia só queria sair de lá. Não queria encontrar com Mauricio depois do beijo acidental.
A música continuava tocando e as pessoas dançavam animadamente. O DJ contratado tocava de tudo, desde música eletrônica a hip hop ou os sucessos das rádios. How come everytime you come around my London, London bridge wanna fall down? Quase quinze minutos do novo ano já tinham se passado e só então os fogos começaram a diminuir. Não tinha problema, ela nem estava prestando atenção porque não conseguia parar de pensar em como queria que Mauricio desejasse beijá-la.
Letícia estava distraída com seus pensamentos, mas percebeu quando alguém abriu a porta do terraço. O volume da música aumentou consideravelmente por um momento ou dois antes de voltar ao normal, indicando que a porta tinha sido fechada novamente. Só poderia ser a Priscila, querendo ter a tal conversa. Ninguém mais abandonaria a melhor festa de Ano Novo da cidade. Letícia se virou com um sorriso, mas ficou séria ao notar que não era uma garota de pele bronzeada quem estava ali.
- Oi. – disse Mauricio.
Era até engraçado pensar naquilo, mas ele parecia estar sem jeito e não saber o que fazer, parado com as mãos enfiadas nos bolsos da bermuda e o cabelo cacheado sendo despenteado pelo vento fraco. O garoto ruivo andou até a grade de proteção e também apoiou seus braços nela, sem parecer notar que Letícia prendeu a respiração quando seus braços se tocaram. Ela sentiu um outro arrepio, mas daquela vez não foi por causa do frio.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo. A garota não sabia o que falar e não queria correr o risco de dizer alguma coisa idiota. Ela não era uma pessoa que conseguia controlar o que dizia quando ficava nervosa, então achou melhor ficar calada. E o tempo foi passando, até que Mauricio perguntou se ela já tinha se cansado da festa.
- Não, não. A festa está legal, apesar de eu ser a única pessoa usando calças por aqui.
- Acho que você está bonita assim. – ele falou. – Quer dizer, você não gosta de saias mesmo.
- É... É verdade. – Letícia tentou não se importar com o fato de que Mauricio nunca a elogiaria. – Já falou com a Priscila?
Foi a única maneira que Letícia achou para mudar de assunto. Não era nada original e nem sutil, mas ela não se importou. Só queria ficar sozinha ali no terraço. Não era fácil ficar ao lado do garoto por quem ela era apaixonada sabendo que ele só tinha olhos para outra pessoa e nunca a notaria. Mauricio virou a cabeça para olhar a garota a seu lado, parecendo confuso por ela ter feito tal pergunta.
- Sim, falei. Ela me apresentou ao Rafael. Aposto que até o fim do mês eles começam a namorar.
- Ah... – ela não soube como responder. – Sinto muito.
- Por quê, Letícia?
Ela suspirou. Na opinião da garota era óbvio que ela sentia muito por Mauricio saber que a pessoa de quem ele gostava tinha olhos para outro; ela sabia bem o que era isso já que passava por aquela situação todos os dias. O mais difícil seria explicar isso a ele, então ela só disse que sentia muito porque ele gostava da Priscila, mas quem tinha ficado com ela era o Rafael.
Mauricio pareceu concordar com o pensamento, mas não disse nada e Letícia ficou quieta, sentindo uma angústia no peito. O céu agora estava todo escuro e os fogos já tinham parado há algum tempo. Ela ficou olhando lá para baixo; se a garota se dobrasse mais um pouco acabaria por cair do terraço. E foi o que quase aconteceu quando ela perdeu o equilíbrio, não estava acostumada a usar salto fino. Por sorte, Mauricio tinha reflexos rápidos e segurou a garota pela cintura. Dizer que foi eletrizante seria ridículo e um total clichê, mas a única maneira plausível de descrever o momento.
- Obrigada. – ela falou depois de um tempo. – Nunca mais vou usar salto alto.
- Sabe, Letícia, sobre o be...
- Não precisa falar nada, Mauricio.
- Não? – ele repetiu.
- Não. Eu sei que você pensou que ia beijar a Priscila. – Letícia falou rapidamente, ele quase não entendeu. – E estava escuro, então não foi sua culpa.
- Na verdade, não era bem isso que eu ia falar.
- Não? – foi a vez dela repetir.
- Não.
Ela olhou para ele sem entender. Se ele não pretendia pedir desculpas pelo beijo, o que falaria dele então? Ela realmente não tinha idéia do que poderia ser. Talvez ele quisesse dizer que o beijo tinha sido tão horrível que seria melhor se ela nunca mais beijasse ninguém na vida dela. Aquele comentário seria o fim para Letícia. O golpe certeiro na completa humilhação de qualquer garota.
Letícia ficou lá, sem dizer nada, criando coragem de olhar nos olhos dele. Mesmo sendo alta, Mauricio ainda era uns cinco centímetros maior do que ela. A diference é que Mauricio não era nem um pouco desengonçado e andava quase como se estivesse num desfile de alta costura. Ele bem que poderia ser modelo se quisesse seguir a carreira, só tinha vinte anos – ainda estava em tempo.
A garota sentiu a mão dele tocar de leve a sua bochecha esquerda e ela nem precisou se olhar no espelho para saber que tinha ficado vermelha. Ele fez com que ela levantasse a cabeça para que pudessem se olhar e a garota sentiu os joelhos enfraquecerem por um momento. Chegava a ser ridícula a facilidade com a qual ela podia chegar à conclusão de que a maioria dos sintomas de amor já mencionados em livros ou filmes era real – pernas moles, borboletas no estomago, etc.
E então, bem lentamente, Mauricio fechou seus olhos verde-azeitona e inclinou o corpo em direção a Letícia. Ela fechou os olhos também e ficou esperando, com a respiração meio suspensa. Era difícil se concentrar em respirar com a iminência de ganhar um beijo do Mauricio, sendo que, daquela vez, ele sabia que quem ele iria beijar era a Letícia e não a Priscila!
Aqueles dez segundos exatamente antes dos lábios dele encostarem-se aos dela pareceram durar muito mais de tanta expectativa. Mas, quando finalmente aconteceu, foi incrível e Letícia ficaria em dúvida sobre qual adjetivo usar quando contasse sobre o beijo para Priscila – era claro que ela teria que dividir aquilo com a melhor amiga.
- Isso quer dizer que você gosta de mim?
- Não, eu apenas tenho o hábito de beijar as pessoas sem motivo aparente. – ele respondeu com um sorriso besta e Letícia deu um tapa leve no braço dele. – Ai, isso doeu!
- Fica quieto, seu exagerado! – ela falou com um sorriso cheio de si e puxou o garoto para mais um beijo.
¬ O filme mencionado com o ator Keanu Reeves é Johnny Mnemonic - O Fugitivo Do Futuro (1995).
¬ O verso de música que tem na estória é London Bridge da Fergie.