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Fiction » Young Adult » Ilusão font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: T - Portuguese - Romance/General - Reviews: 6 - Published: 02-11-07 - Updated: 02-11-07 - Complete - id:2318210

Ilusão, por Elyon Somniare


- É aquele.

- Aquele? Não o acho nada parecido.

- Mas…?

- É giro.

- É muito giro.

Quanto tempo depois disso, dessa apresentação à distância? Dois anos?... Talvez menos. Não me lembro de ter ficado tanto tempo nesse engano doce e amargo. Talvez ano e meio. É o mais provável. Estranho viver na ilusão durante tanto tempo, não é? Mas é tão fácil para mim deixar-me arrastar pelo mundo dos sonhos… Não foi amor à primeira vista, acredita. E agora penso se sei sequer o significado dessa palavra. Não se pode definir, pois não? Apenas o conhecemos quando o sentimos. Como sabemos que é aquilo?

- Estão aqui – respondeu o amigo, entregando-lhe uma máquina fotográfica descartável. Parecia divertido.

- Obrigada.

Sorriu. Era uma coisa infantil, sabia-o. Mas seria óptimo poder olhar para ele sempre que quisesse… E quem já não tinha procurado ter uma ou outra foto de quem gostava? Já não era próprio para a idade dela. Já devia ter ultrapassado essa fase. Mas nunca antes ela o tinha feito. Que se dane. Também tinha direito a fazer aquelas coisas estúpidas, mesmo que as fizesse com um ou dois anos de atrasado. Ao menos não o fizera às escondidas.

Ele sabia que estava a ser fotografado, como provavam as fotos em que o amigo não fora suficientemente rápido e lhe dera tempo para esconder a cara. E não seria difícil para ele deduzir quem estava por trás daquilo. Ela não fazia segredo… Ao menos essa fase dos amores secretos estava ultrapassada há já muito tempo…

Não admira que a noite tenha fama de conselheira. Rejuvenesce, recobra-nos as forças… E deixa-nos pensar. Sinto-me como se tivesse a oportunidade de me virar para mim mesma. De procurar o que está escondido no interior do meu ser, de rebuscar os meus pensamentos e encontrar uma lógica perceptível. Uma explicação simples… Tão simples que nem consigo perceber como não o entendi antes. Talvez não estivesse preparada. Talvez ainda não quisesse estar preparada. Sim, era isso. Não queria estar preparada. Gostava daquilo. Pensar que amamos alguém é uma sensação boa.

Não vejo nada. Só escuridão. Será por isso que fica tão mais fácil para mim desligar-me do corpo para me concentrar na alma, essência, força vital, pensamento ou seja lá o que for que reside dentro de mim, que me dá vida? No entanto não deixo de sentir, de cheirar, de ouvir e de ver, mesmo que seja só a escuridão. Então, porquê?

- Namorada?

- Sim.

- A miúda é anoréctica? E que idade tem?

- Mais nova que nós um ano – respondeu, olhando de esguelha para amiga. Já sabia o que se seguiria. Uma carraga de insultos dirigidos à pobre rapariga. – E é bonita.

- Mesmo assim parece um palito. Que é que ele vê nela?

- Parece ser muito simpática…

- Mas tu gostas dele ou não? Ela roubou-to mesmo debaixo do teu nariz!

Não respondeu. Esse tipo de infantilidades já ultrapassara. Que mal fizera a outra rapariga? Também gostava dele. Ele gostara dela. Conclusões tiradas, quem estava a mais era ela, não a “anoréctica”. Não estava contente, como poderia estar? Mas a rapariga era mesmo bonita e parecia mesmo simpática. Que ganharia em procurar-lhe defeitos ou lançar-lhe um mau-olhado?

Talvez já nessa altura o soubesse. Talvez já o soubesse mas ainda não o tivesse percebido. Ou não quisera descobrir. Sinceramente, não me lembro do que senti quando me disseram que tinham acabado. Nessa altura já tinha começado a entender; a querer entender. Não me lembro de ter sentido alegria, tristeza ou mesmo indiferença. A parte de mim que trata do Arquivo das Memórias deve ter decidido que não era importante. E não foi, de facto, importante, não é? Pelo menos essa parte. Porque o que aprendi ficou. Fica quase sempre. Ás vezes fica gravado de forma vívida, como uma das marcas a ferro quente que os proprietários faziam nos seus escravos nos tempos idos da escravatura. Essas recordações ficam lá, lembrando-nos constantemente do nosso erro, ou da nossa vitória, dependendo da recordação.

Outras vezes ficam gravadas de forma menos visível, esperando pelo momento certo para aparecerem com a sabedoria ganha de experiências anteriores. Esta foi uma memória vivida. Porque não quero voltar a cair no mesmo erro. Nunca mais.

- Tenho um fraco, só isso.

- Deixa-te de cenas; gostas dele. Sempre gostaste! Como podes deixar de gostar de um momento para o outro? E logo agora que ele está outra vez livre…

Evitou rir-se na cara da “amiga”. Primeiro porque a outra parecia não perceber que o facto de lhe estar a contar naquele momento o que sentia, não queria dizer que já não viesse a senti-lo há uns dias… Usualmente as pessoas comunicam as suas decisões quando estas já estão tomadas e não quando estão a ser tomadas. Naqueles casos era o mesmo. Qual era a dificuldade em chegar a essa conclusão? Claro que não deixara de gostar dele de um momento para o outro!… E segundo, porque ele já não estava, realmente, livre. Mas isso poucos sabiam.

- É o meu Físico- Químico – respondera. – Um rapaz por quem sinto uma química pelo seu físico, mas que não quer dizer que goste dele. Posso ter vários Físico-Químicos.

- Pois… – respondeu a outra, revirando os olhos. – Vou fingir que acredito…

É uma coisa que sempre me aborreceu um bocado. A reacção das amigas. Conseguem ser quase sempre pior que a amiga apaixonada. Não percebo porque é que apreendem a informação tão depressa quando lhes dizemos que gostamos de um rapaz, mas já não ficam tão convencidas quando dizemos que não gostamos… Especialmente quando não há um substituto para a vaga que seria deixada no “coração”.

E os empurrões no corredor? Nas escadas? Lembro-me de ter sido empurrada quando ele ia a descer a escadas à minha frente. Foi uma ginástica para me agarrar ao corrimão e conseguir não dar um trambolhão por ali abaixo, arrastando-o comigo e mais qualquer outro desgraçado que estivesse no caminho. Logo eu, que não sou ginasta de coisa nenhuma.

Mas e depois? Quando, ironia, vieste parar de pára-quedas às minhas aulas, à minha turma… Os risinhos, os olhares cúmplices… E agora não eram só as amigas. Eram também os bilhetinhos dos engraçadinhos…

Ainda gostas do ….?”

Sim, claro. Se ele estiver interessado, podemos ir já para a Igreja mais próxima”

O sarcasmo não correu propriamente como o esperado. Ainda me custa a acreditar que o tenhas levado a sério… Ou talvez não tenhas sido tu mas sim os outros. Era difícil saber o que achavas. Sabia muito bem o que eu achava, o que as minhas amigas achavam e o que praticamente toda a turma achava. Mas tu? Tu nunca falavas. Nunca expressavas nada. Suponho que não era, nem sou, o tipo de pessoa que arranca rapidamente uma boa e agradável conversa de um grão de areia. E por isso… percebi. Como poderia amar uma pessoa que não conhecia? Não era possível, pelo menos não para mim. Então, o que eu sentia… Não era falso. Não podia ser falso. Mas também não era verdadeiro. Era algo tão simples, tão obvio… É fácil amar um desconhecido quando passamos tempo suficiente para lhe desenhar uma personalidade. Imaginar um feitio. E acredita, eu tinha tempo para isso. Tempo de sobra. E depois disso? Fácil, tão fácil… Já o percebera… já o queria perceber. O resto foi inevitável. Nada que valha a pena recordar. O essencial estava já feito. Libertara-me da ilusão. Da tua ilusão. Obrigada por não a teres nunca, em nenhuma altura, alimentado. Não sei quais as razões, se as houve ou se deixaram de haver. Não o fizeste e isso é o que me interessa agora.

Galhofa. Era isso o que acontecia quando o professor deixava a sala por uns minutos.

- A sério que já não gostas do…?

Olhou para o colega que lhe fizera a pergunta. Como é que a conversa chegara aquele assunto? Mais, como é que ele sabia do assunto? Riu-se. Isso importava?

- A sério, não gosto.

E era melhor deixar as coisas bem claras. Como é que os rapazes podiam ter tal ego para acharem que uma rapariga ficaria para sempre apaixonada por eles? Virou-se para trás, ligeiramente para o lado, ficando de frente para o rapaz, que ouvira a conversa. Falar dele mesmo à sua frente? O que é que o colega tinha em mente?

- É verdade que gostei de ti no ano passado. Já não gosto.

Simples. Directo. Parece uma frase realmente estúpida. Foi, sem dúvida, uma situação estúpida. Mas tinha de serfeita, não era? Parecia não haver outra maneira de acabar com a dúvidas… Não sei se com as tuas, se as tinhas, se com as dos colegas. Adoraria saber o que estavas a pensar na altura. Foi estranho, porque quem estava corado eras tu. E a olhar para os sapatos. Enquanto eu falava directamente para ti e, pareceu-me, sem corar. Não deveria ser ao contrário? Parece mais lógico… Sem dúvida é o mais comum. Como definirias comum? Ah… gostava mesmo de saber o que te estava a passar na cabeça por essa altura… Se tiver coragem, pergunto-te. Assim que te voltar a encontrar. Pouco provável, eu sei, afinal, nunca mais te vi depois desse ano. O número de telemóvel que tinha, apaguei-o. Para que me serviria? Agora tenho as fotos. Não, não as vou queimar. Nem ficar a contemplá-las, desejando ter algo que não conheço. Mas são parte daquele erro. Aquele erro que não posso voltar a cometer. Nunca, nunca mais serei levada pelo meu mundo de encantar, pela minha terra de fantasia… Porque é sempre isto que acontece nesse mundo. A realidade não coincide com ele. E ficamos a viver na sua ilusão, deixando passar o que é real e o que podemos alcançar.

- Tem uma namorada no Porto. E há umas colegas minhas que gostam dele.

Sorriu. Outra vez. Aquelas raparigas estavam a cair no mesmo erro em que ela tinha caído… Quantas delas aperceber-se-iam do que acontecera de verdade? Quantas deixariam de gostar dele quando trocasse a escola pela faculdade? Quantas deixariam de gostar quando começassem a gostar de um outro qualquer?

- Vai vê-la todos os fins-de-semana.

- Isso é querido.

E a conversa prosseguiu com outro assunto qualquer. Era bom que pelo menos aquela amiga compreendesse que era possível deixar de gostar de alguém, sem ter um substituto pronto a usar. Ladybird...

Não me lembro, sinceramente, da última vez que te vi. Provavelmente foi nos exames. Mas estava demasiado ocupada comigo mesma para prestar atenção. Porque é isso que acontece quando encontramos a resposta ao nosso problema. O problema deixa de ter interesse. Deixa de ser um problema. E passa a ser uma coisa do passado, apenas mantida viva nas memórias e fotografias… Ambas passíveis de desaparecerem. Pergunto-me durante quanto tempo a memória daquela ilusão permanecerá vívida… O suficiente, suponho. Apenas o suficiente.



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