Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » Romance » A Comoda font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Romance - Reviews: 5 - Published: 02-14-07 - Updated: 02-14-07 - Complete - id:2319690

A Cómoda, por Elyon Somniare


Guardo segredos e escondo suspiros. A mim nada me escapa, mas por mim nada se sabe. Numa gaveta tenho documentos formais, identificadores de vínculos jurídicos. Noutra contenho desses livros escolares já velhos, riscados e rasgados, de cuja existência nem memória ainda resta. Numa outra jaz em paz e sossego uma boneca sem braço, antiga delícia de menina e face apaziguada de anjo caído.

Mas o molho de cartas atadas por um vermelho cordel de cetim e o diário de páginas coloridas, histórias iguais e desiguais de senhora do passado e menina do presente, são aquelas que mais carinhosamente acolho no meu corpo e alma de madeira linchada. O que contêm não digo, que é segredo. Mas isto sei que posso dizer: são histórias de amor. Uma de uma senhora que se vê nos rodopios e espirais de um amor proibido. A letra, cuidada, delicada e inclinada, escreve belas frases, sentidas e eloquentes, desejando o que não pode ter, suspirando pelo desgraçado momento em que os seus olhos pousaram no objecto do seu amor e salpicando o papel com as lágrimas salgadas que lhe brotavam dos tristes olhos dourados... Mas não havia dor alguma de paixão que a fizesse erguer-se contra a vontade dos pais ou revoltar-se contra o que a sociedade lhe impunha, a ela e a tantas outras. O que era ordenado era feito. As consequências, sabia-o, não seriam suportáveis. Não para ela. Talvez, no fundo, gostasse daquela relação. Daquele fruto proibido que a retirava da rotina e a lançava num redemoinho de sentimentos e sensações, repletos de adrenalina.

A segunda ainda está por terminar. Não existiria se a primeira tivesse terminado como nos contos de fadas. É fruto do casamento sem amor, combinado e delineado pelos pais, que a senhora acabou por conceber na vida. Um fruto de várias gerações depois. Não fala de amores proibidos ou casamentos de obrigações. Esta, suponho, não terá o fim que os de veia romântica tanto apreciam. É uma escrita leve, um amor leve de criança que não sabe o que é amar, mas julga já o saber. Naquelas páginas coloridas de diário escorrem suspiros pelo herói da escola, o tal que nunca saberá da sua existência... Até ao dia em que ela decidir que quer que ele saiba da sua existência. Ou que ele não é assim tão importante na vida dela. Tantos enredos e finais que esta história poderá dar... Um dia, talvez, a possa contar. Não tudo, porque é preciso guardar segredo. Mas talvez não faça mal contar um bocadinho... Um bocadinho suficiente para saberem. Um bocadinho que não quebre o segredo, porque sabem, eu ouço tudo e tudo sei. Mas nada traio e pouco revelo. Sou aquela que guarda no seu ser as felicidades e infelicidades de senhoras e meninas. Os segredos mais íntimos e os objectos mais esquecidos. As memórias que foram feitas e as que ainda estão por fazer. Eu sou a cómoda. A cómoda de madeira de mogno.



Return to Top