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Fiction » General » Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Mystery - Reviews: 22 - Published: 02-17-07 - Updated: 06-16-07 - Complete - id:2321570

Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor


Nota da Autora: “corsário” é uma elegante expressão para designar certos tipos refinados de Pirata. Esta é a terceira, e talvez a última, parte da história da melhor equipe de caçadores de lendas do mundo. A primeira foi calcada na heroína título, a segunda mais centrada no mocinho-herói; a terceira, portanto, é sobre o vilão...


Prólogo

O inverno britânico era uma das coisas que Julie mais adorava. Em certa medida lhe fazia lembrar a infância e os melhores momentos que passara com o avô. Estar em Londres à trabalho era conciliar duas paixões. Há menos de um mês a equipe entrara em acordo sobre o novo trabalho, e desde então ela não parara. Robert, dessa vez mais perto de casa, continuava sendo o mais solícito de todos, tendo grande responsabilidade sobre os principais avanços da pesquisa. Clark ficara em Paris e eventualmente se encontrava com Paul em Marselha, no sul da França, onde progressos importantes também eram assinalados. Jessica estava em Amsterdã, mas o seu desconhecimento da língua local prejudicava a busca por pistas, a maioria documentadas em holandês. Os outros, incluindo Bianca, ainda estavam de férias.

A idéia era antiga, um velho sonho da maioria deles. A pirataria fora um negócio de lucros monumentais do século XV ao XVIII, especialmente. E praticamente todas as nações européias modernas estiveram envolvidas. A princípio todos se emprenharam num levantamento geral de informações que pudessem resultar num trabalho. Julie, no entanto, tinha em mente um caso bem específico. As informações sobre ele eram parcas e repletas de contradições. Esse foi um dos motivos que a fizeram revelar suas verdadeiras intenções somente a Robert, o qual a esperava naquele dia.

– E então? – ele perguntou, enquanto ela ainda pendurava o casaco no cabide do hall.

– Adivinhe... – o sorriso em sua face era vitorioso.

– Quais são as novidades?

– Consegui informações valiosíssimas sobre o capitão do navio. Estávamos certos sobre a sua identidade. Não conseguíamos informações sobre Mortmer Hunt porque ele passou a usar o nome de Mortmer Casser no mesmo período em que provavelmente seus negócios escusos envolveram também a poderosa Coroa Francesa.

– “Casser” não é o nome do pirata cujos documentos lhe interessaram, naquele arquivo próximo ao Parlamento?

– Isso mesmo, Rob. Voltei lá hoje mesmo. Já temos os dados necessários para o próximo passo.

– São oito horas da noite, Julie. O departamento de arquivo fecha às cinco. – observou Robert, intrigado.

– Por que você acha que eu demorei tanto?

– Como assim? Você não...

– Não se preocupe, foi fácil, parece que não perdi a forma.

– Poderão perceber, amanhã. Céus, você se arriscou demais. São documentos sigilosos!

– Relaxe, Rob. – Julie sorriu. – Está tudo exatamente igual a quando entrei. A exceção, é claro, disto aqui. – ela tirou do bolso da calça um chip semelhante aos de celular. – Estes circuitos carregam cópias e informações que nos levarão direto ao Crête du Coq.

Robert estava estupefato.

“E então, vamos comemorar?

– Alguma sugestão, doutora Franklin?

– Podemos aproveitar que estamos na casa do papai e fazermos uma rápida visita à adega. Sei que ele guarda verdadeiros tesouros aqui em Londres.

Durante o jantar, Julie contou em detalhes os seus passos naquele dia. Robert absorvia cada informação com um misto de surpresa e euforia. A conversa era regada a uma garrafa de Chatêau Petrus, safra 1947, um dos vinhos mais raros da Europa, adquirido por Peter Harold Franklin na ocasião em que o Duque de Barclays leiloara alguns de seus bens para honrar dívidas. A princípio Robert hesitara em abri-la, mas Julie o convencera de que a ocasião valia a pena. Como a bebida se esgotou antes do jantar, abriram o exemplar de 1945 – menos raro, mas tão saboroso quanto o anterior.

– Quando é que contaremos aos outros?

– Só amanhã. Meus planos são chamar todos de volta, nos dividirmos entre Londres, Sauthampton e Marselha e, quem sabe, mandar alguém para o Caribe.

– Caio?

– Provavelmente. Ou você gostaria de ir?

– Bem, eu não... não sei. Estamos próximos do aniversário da Dauren, pensei em ficar por perto.

Robert raramente falava da filha. Ninguém da equipe sequer conhecia a garotinha.

– Claro, compreendo. E como ela está?

– Aprendendo a escrever cartas. – Robert sorriu timidamente.

– E Claire?

– O de sempre, imagino. – ele percebeu que Julie o encarava com um sorriso cúmplice. – Que foi?

– Nada, Rob. Eu sinto muito. Sei que trabalhar conosco te faz ficar longe delas.

– A escolha foi minha e Dauren compreende isso muito bem.

– Mas não a Claire.

– Claire e eu não temos mais nada há muito tempo. Percebemos que não daria certo quando Dauren era um bebê, ainda.

– No entanto vocês insistem...

– Julie, eu-

– Sinto, ao tive a intenção de lhe invadir a privacidade.

– É isso mesmo que vocês pensam?

Julie confirmou acenando com a cabeça.

– E sabemos que é verdade.

Robert preferiu não responder e logo o assunto voltou a ser o trabalho. Embora tenha tentado disfarçar, Julie notou que ele estava desconfortável; não pela última conversa, mas desde que chegara a Londres. Talvez fosse algo que ele sabia e não queria contar – essa era sua maior desconfiança – ou talvez, também, fosse fruto do “mal entendido” nos últimos dias de investigação do tesouro de Flavio Creto. Meses haviam se passado e nenhum dos dois voltara ao tema.

A certa altura da noite Robert realimentou a lareira e se sentou diante dela, introspectivo. Julie se levantou na intenção de se juntar a ele e foi nesse momento que notou estar mais embriagada do que supunha. Era fraca para o álcool e sabia disso. Robert, por outro lado, continuou bebendo.

– Quer conversar? - ela tocou amigavelmente o ombro esquerdo dele.

– Sobre...?

– Não sei. Quem sabe a respeito do lugar onde está a sua cabeça agora...

– Desculpe. Estava pensando em algumas coisas. – ele justificou, sorvendo o último gole da terceira garrafa. – Trabalharemos em um lugar diferente dessa vez, não?

– Sim, será bom dar um tempo longe da Europa. Sempre quis conhecer o Caribe, mas você não me convenceu de que era nisso que estava pensando.

Ele sorriu timidamente.

– Estava só... apenas pensando. Nada de mais.

– O que tanto verificava no celular, depois da sobremesa? Ligou para Nothing Hill? - Julie se referia à casa de Claire.

– Não.

– Hum. Não me convenceu de novo. Vou verificar.

Julie apoiou os braços no chão para se levantar, já que o aparelho estava sobre o oratório, na sala de jantar. Robert a deteve imediatamente.

– Não faça isso!

– Nossa, eu estava apenas brincando, Rob, mas a julgar pela sua reação, tem algo naquele aparelho que eu não posso ver.

– Bobagem.

– Você me conhece... quando coloco algo na cabeça...

– Já disse que não tem nada. – ele reafirmou, sério.

– Então não há problema de eu checar. Já volto!

Robert segurou com força o ombro dela. Julie teria julgado a atitude violenta, mas suas reações estavam confusas por causa do vinho. Aguardou um ou dois segundos e tentou de novo. Robert empregou mais força.

“Está me machucando, Rob.

– Esqueça o meu telefone.

– De modo algum. Perdi toda a culpa por estar invadindo sua privacidade. Você está muito estranho!

Num movimento rápido ele prendeu o braço dela nas costas, firmemente.

– Nem pense em levantar daqui. – dessa vez ele usou um tom bem mais brando.

– Não seja tolo, sabe perfeitamente bem que eu posso me soltar.

– Ah é? - ele riu, desafiador. – Bêbada?

– Estou sóbria.

– Desde quando você enrola a língua para falar?

– Veremos...

Com destreza ela se livrou da chave de braço e estava quase em pé quando Robert a derrubou, de costas para o chão.

– Pode fazer melhor que isso, Julie.

– Não quis te humilhar...

Julie sorriu, esperou uma efêmera distração dele para tentar de novo, mas não aconteceu. Robert prendeu os braços dela acima da cabeça, também contra o chão, esperando que ela dissesse alguma coisa. Julie continuou calada, vendo Robert procurar seus olhos. Ele não estava mais se divertindo, também não demonstrava medo de ela levantar... o que Julie viu na expressão dele não era, tampouco, seriedade; a única palavra que explicava o que a face de Robert denotava naquele momento era desejo, e para sua própria surpresa, Julie não lutou e nem resistiu.


Robert levantara no meio da madrugada e pusera o celular no móvel de cabeceira. Esse foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu quando despertou sobressaltado pelo ruído de uma chamada. Abriu os olhos, já era dia.

– Wace.

Bom dia, Robert! – ele ouviu a voz entusiasmada de um amigo.

– Caio?

Ih, vejo que lhe acordei. Desculpe-me, mas é por uma boa causa.

– Onde você está?

Onde? Não sei ao certo... em algum lugar à oeste de Cesena, no Mar Mediterrâneo. – disse Caio, eufórico.

– O que faz num barco?

Acabo de sair em lua-de-mel.

– Ahn?

Felicia e eu nos casamos ontem à noite.

– Não creio! Por que não nos avisaram?

Decidimos meio que por impulso. – ele justificou.

– Puxa, eu... nem sei o que dizer. Parabéns!

Obrigada! E você, tudo bem?

– Am... é...

Tem certeza? Sua voz está estranha, está falando baixo.

– Não é nada. Ligo mais tarde. Transmita meus cumprimentos à Felicia.

Pode deixar. Até.

– Tchau, Caio.

Julie se mexeu e resmungou alguma coisa, mas não chegou a acordar. Estava deitada sobre o ombro direito de Robert, que a olhou por alguns instantes depois de desligar o telefone. Não pôde deixar de sorrir, afagou as costas nuas dela e adormeceu novamente.


N/A 2: faz mais ou menos dois anos que escrevi esse prólogo, foi uma das primeiras cenas de toda a série que me veio a mente. Espero ter conseguido transmitir o que queria. O capítulo 1 está pronto, publico em breve, vocês sabem, estou viajando.

Sara Clarice Lecter.



© Copyright 2007 Sara Lecter (FictionPress ID:456660).


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