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Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor
O inverno britânico era uma das coisas que Julie mais adorava. Em certa medida lhe fazia lembrar a infância e os melhores momentos que passara com o avô. Estar em Londres à trabalho era conciliar duas paixões. Há menos de um mês a equipe entrara em acordo sobre o novo trabalho, e desde então ela não parara. Robert, dessa vez mais perto de casa, continuava sendo o mais solícito de todos, tendo grande responsabilidade sobre os principais avanços da pesquisa. Clark ficara em Paris e eventualmente se encontrava com Paul em Marselha, no sul da França, onde progressos importantes também eram assinalados. Jessica estava em Amsterdã, mas o seu desconhecimento da língua local prejudicava a busca por pistas, a maioria documentadas em holandês. Os outros, incluindo Bianca, ainda estavam de férias.
A idéia era antiga, um velho sonho da maioria deles. A pirataria fora um negócio de lucros monumentais do século XV ao XVIII, especialmente. E praticamente todas as nações européias modernas estiveram envolvidas. A princípio todos se emprenharam num levantamento geral de informações que pudessem resultar num trabalho. Julie, no entanto, tinha em mente um caso bem específico. As informações sobre ele eram parcas e repletas de contradições. Esse foi um dos motivos que a fizeram revelar suas verdadeiras intenções somente a Robert, o qual a esperava naquele dia.
– E então? – ele perguntou, enquanto ela ainda pendurava o casaco no cabide do hall.
– Adivinhe... – o sorriso em sua face era vitorioso.
– Quais são as novidades?
– Consegui informações valiosíssimas sobre o capitão do navio. Estávamos certos sobre a sua identidade. Não conseguíamos informações sobre Mortmer Hunt porque ele passou a usar o nome de Mortmer Casser no mesmo período em que provavelmente seus negócios escusos envolveram também a poderosa Coroa Francesa.
– “Casser” não é o nome do pirata cujos documentos lhe interessaram, naquele arquivo próximo ao Parlamento?
– Isso mesmo, Rob. Voltei lá hoje mesmo. Já temos os dados necessários para o próximo passo.
– São oito horas da noite, Julie. O departamento de arquivo fecha às cinco. – observou Robert, intrigado.
– Por que você acha que eu demorei tanto?
– Como assim? Você não...
– Não se preocupe, foi fácil, parece que não perdi a forma.
– Poderão perceber, amanhã. Céus, você se arriscou demais. São documentos sigilosos!
– Relaxe, Rob. – Julie sorriu. – Está tudo exatamente igual a quando entrei. A exceção, é claro, disto aqui. – ela tirou do bolso da calça um chip semelhante aos de celular. – Estes circuitos carregam cópias e informações que nos levarão direto ao Crête du Coq.
Robert estava estupefato.
“E então, vamos comemorar?
– Alguma sugestão, doutora Franklin?
– Podemos aproveitar que estamos na casa do papai e fazermos uma rápida visita à adega. Sei que ele guarda verdadeiros tesouros aqui em Londres.
Durante o jantar, Julie contou em detalhes os seus passos naquele dia. Robert absorvia cada informação com um misto de surpresa e euforia. A conversa era regada a uma garrafa de Chatêau Petrus, safra 1947, um dos vinhos mais raros da Europa, adquirido por Peter Harold Franklin na ocasião em que o Duque de Barclays leiloara alguns de seus bens para honrar dívidas. A princípio Robert hesitara em abri-la, mas Julie o convencera de que a ocasião valia a pena. Como a bebida se esgotou antes do jantar, abriram o exemplar de 1945 – menos raro, mas tão saboroso quanto o anterior.
– Quando é que contaremos aos outros?
– Só amanhã. Meus planos são chamar todos de volta, nos dividirmos entre Londres, Sauthampton e Marselha e, quem sabe, mandar alguém para o Caribe.
– Caio?
– Provavelmente. Ou você gostaria de ir?
– Bem, eu não... não sei. Estamos próximos do aniversário da Dauren, pensei em ficar por perto.
Robert raramente falava da filha. Ninguém da equipe sequer conhecia a garotinha.
– Claro, compreendo. E como ela está?
– Aprendendo a escrever cartas. – Robert sorriu timidamente.
– E Claire?
– O de sempre, imagino. – ele percebeu que Julie o encarava com um sorriso cúmplice. – Que foi?
– Nada, Rob. Eu sinto muito. Sei que trabalhar conosco te faz ficar longe delas.
– A escolha foi minha e Dauren compreende isso muito bem.
– Mas não a Claire.
– Claire e eu não temos mais nada há muito tempo. Percebemos que não daria certo quando Dauren era um bebê, ainda.
– No entanto vocês insistem...
– Julie, eu-
– Sinto, ao tive a intenção de lhe invadir a privacidade.
– É isso mesmo que vocês pensam?
Julie confirmou acenando com a cabeça.
– E sabemos que é verdade.
Robert preferiu não responder e logo o assunto voltou a ser o trabalho. Embora tenha tentado disfarçar, Julie notou que ele estava desconfortável; não pela última conversa, mas desde que chegara a Londres. Talvez fosse algo que ele sabia e não queria contar – essa era sua maior desconfiança – ou talvez, também, fosse fruto do “mal entendido” nos últimos dias de investigação do tesouro de Flavio Creto. Meses haviam se passado e nenhum dos dois voltara ao tema.
A certa altura da noite Robert realimentou a lareira e se sentou diante dela, introspectivo. Julie se levantou na intenção de se juntar a ele e foi nesse momento que notou estar mais embriagada do que supunha. Era fraca para o álcool e sabia disso. Robert, por outro lado, continuou bebendo.
– Quer conversar? - ela tocou amigavelmente o ombro esquerdo dele.
– Sobre...?
– Não sei. Quem sabe a respeito do lugar onde está a sua cabeça agora...
– Desculpe. Estava pensando em algumas coisas. – ele justificou, sorvendo o último gole da terceira garrafa. – Trabalharemos em um lugar diferente dessa vez, não?
– Sim, será bom dar um tempo longe da Europa. Sempre quis conhecer o Caribe, mas você não me convenceu de que era nisso que estava pensando.
Ele sorriu timidamente.
– Estava só... apenas pensando. Nada de mais.
– O que tanto verificava no celular, depois da sobremesa? Ligou para Nothing Hill? - Julie se referia à casa de Claire.
– Não.
– Hum. Não me convenceu de novo. Vou verificar.
Julie apoiou os braços no chão para se levantar, já que o aparelho estava sobre o oratório, na sala de jantar. Robert a deteve imediatamente.
– Não faça isso!
– Nossa, eu estava apenas brincando, Rob, mas a julgar pela sua reação, tem algo naquele aparelho que eu não posso ver.
– Bobagem.
– Você me conhece... quando coloco algo na cabeça...
– Já disse que não tem nada. – ele reafirmou, sério.
– Então não há problema de eu checar. Já volto!
Robert segurou com força o ombro dela. Julie teria julgado a atitude violenta, mas suas reações estavam confusas por causa do vinho. Aguardou um ou dois segundos e tentou de novo. Robert empregou mais força.
“Está me machucando, Rob.
– Esqueça o meu telefone.
– De modo algum. Perdi toda a culpa por estar invadindo sua privacidade. Você está muito estranho!
Num movimento rápido ele prendeu o braço dela nas costas, firmemente.
– Nem pense em levantar daqui. – dessa vez ele usou um tom bem mais brando.
– Não seja tolo, sabe perfeitamente bem que eu posso me soltar.
– Ah é? - ele riu, desafiador. – Bêbada?
– Estou sóbria.
– Desde quando você enrola a língua para falar?
– Veremos...
Com destreza ela se livrou da chave de braço e estava quase em pé quando Robert a derrubou, de costas para o chão.
– Pode fazer melhor que isso, Julie.
– Não quis te humilhar...
Julie sorriu, esperou uma efêmera distração dele para tentar de novo, mas não aconteceu. Robert prendeu os braços dela acima da cabeça, também contra o chão, esperando que ela dissesse alguma coisa. Julie continuou calada, vendo Robert procurar seus olhos. Ele não estava mais se divertindo, também não demonstrava medo de ela levantar... o que Julie viu na expressão dele não era, tampouco, seriedade; a única palavra que explicava o que a face de Robert denotava naquele momento era desejo, e para sua própria surpresa, Julie não lutou e nem resistiu.
– Wace.
– Bom dia, Robert! – ele ouviu a voz entusiasmada de um amigo.
– Caio?
– Ih, vejo que lhe acordei. Desculpe-me, mas é por uma boa causa.
– Onde você está?
– Onde? Não sei ao certo... em algum lugar à oeste de Cesena, no Mar Mediterrâneo. – disse Caio, eufórico.
– O que faz num barco?
– Acabo de sair em lua-de-mel.
– Ahn?
– Felicia e eu nos casamos ontem à noite.
– Não creio! Por que não nos avisaram?
– Decidimos meio que por impulso. – ele justificou.
– Puxa, eu... nem sei o que dizer. Parabéns!
– Obrigada! E você, tudo bem?
– Am... é...
– Tem certeza? Sua voz está estranha, está falando baixo.
– Não é nada. Ligo mais tarde. Transmita meus cumprimentos à Felicia.
– Pode deixar. Até.
– Tchau, Caio.
Julie se mexeu e resmungou alguma coisa, mas não chegou a acordar. Estava deitada sobre o ombro direito de Robert, que a olhou por alguns instantes depois de desligar o telefone. Não pôde deixar de sorrir, afagou as costas nuas dela e adormeceu novamente.
Sara Clarice Lecter.