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JULIE FRANKLIN e o Naufrágio do Corsário Traidor
Epílogo
Lyon, França, quinze de junho de 2007, dias depois do incidente no forte abandonado. O guarda responsável pela portaria arregalou os olhos ao ver quem acabara de entrar no quartel general do ICPD. O elevador parou no último andar. Ninguém ousou fazer qualquer pergunta ou exigir um crachá de identificação. A reação era sempre a mesma: espanto e mudez.
A secretária da alta comissária da Interpol piscou demoradamente, confusa.
– Ela está? - perguntou simplesmente.
– V... você marcou uma... uma entrevista?
A reação de foi de impaciência. Dês segundos depois a porta do escritório central foi aberta devagar. Suzanne Lachaise se levantou indignada, mas abrandou a expressão assim que encontrou os olhos da visitante.
– Doutora Franklin...
Julie a encarou demoradamente, impassível. Olhar para aquele rosto lhe dava a sensação de estar em frente a um espelho.
“Não tive tempo de ir ao Caribe encontrar você e seus amigos.
– Não me recordo de ter ido ao Caribe recentemente.
Suzanne sorriu.
– Sempre apagando suas provas. Mas não durará muito, um dia você vai falhar, Franklin, e eu estarei muito perto para finalmente pegar você.
Julie não respondeu.
“A não ser que você tenha vindo até aqui para se entregar...
– Não conte com isso.
O peso do cargo que Suzanne Lachaise ocupava há cinco anos ia um pouco além de ser a alta comissária da Interpol. Sobre os seus ombros pousava a responsabilidade de investigar e capturar os criminosos mais perigosos do mundo sem ferir as regras diplomáticas e ao mesmo tempo sem se subordinar a quaisquer outros órgãos policiais. Mais do que forte, Suzanne tinha de se mostrar hábil. Fora essa rara combinação ardilosa que conduzira sua carreira brilhante. Isso e também uma pequena mentira, mas pessoas que escondem o próprio passado não são raras no ICPD.
– Pergunto-me, então, a razão de sua inesperada presença.
– Talvez eu também não saiba. Acho que só queria mesmo olhar para você. Uma vez na vida, enfim.
Lachaise se sentou devagar, pensando muito bem antes da próxima frase.
– Você acha que tem o mundo aos seus pés, Franklin, mas não passa de uma criancinha mimada tentando chamar atenção.
– Pense como quiser, já fiz o que tinha de fazer. Com licença.
Ela andou até a porta.
– Julienne... - o tom de voz de Suzanne mudou completamente. - Eu... eu tinha dezessete anos.
– Não me interessa, não perguntei nada.
– Peter insistiu muito e acabei levando a gravidez até o fim. Foi um erro. - Julie continuava de costas quando ela terminou a frase. - Célinne LeMans morreu quando você veio ao mundo.
– Não vim aqui para ouvir explicações. Poupe o seu discurso, ele não pode mudar três décadas de silêncio.
– Por vezes desconfiei que você soubesse. Eu sou a razão do que você tem feito desde que entrou para a lista de vigiados da Interpol?
– Suzanne Lachaise é só mais um nome para mim, que guardo na lista dos detestáveis. Você não é a razão de coisa alguma para mim.
– Isso inclui ter enganado seu amante e o jogado na prisão só para não se sentir responsável por ninguém?
– Não sei do que você está falando.
– Tenho observado você, Franklin, alguns arriscam dizer que o seu caso é um dos maiores da história do ICPD. Um currículo criminal irrepreensível, não fosse por um detalhe.
– Qual? - Julie não conteve a pergunta.
– Jack Hellfeld, naturalmente. Você percebeu que não conseguiria enganar a polícia por muito tempo se continuasse fascinada com o romance que mantinha com ele. Então tirou da cabeça dele a idéia de se separar de sua prima Jessica, pois para você era muito mais seguro ter apenas um “caso”, não é?
Julie ouviu em silêncio.
“Mas seu irmão caçula entrou em cena e lhe obrigou a mudar seus planos. Jessica pediu o divórcio e Jack teve de aceitar. Você não teve escolha, ele faria de tudo por você, arriscaria a própria vida... Não foi difícil encontrar quem fizesse o serviço, tendo Kevin Steward na equipe. Jack levou a culpa pelo golpe financeiro nos Franklin e você ganhou um ótimo pretexto para entrega-lo a nós.
– Está na profissão errada, Lachaise. Deveria ser roteirista em Hollywood.
– O único problema é que mesmo acuado, traído, enganada, Jack não mudava, continuava disposto a lhe proteger, e você não conseguia esquece-lo por nada. Surgiu o advogado de defesa, não por coincidência, o melhor amigo de Jack. Você se envolveu com ele, trouxe-o para o seu lado e se livrou da única coisa que poderia lhe deter.
Julie riu, nervosa, enquanto a outra continuava expondo sua visão dos fatos.
“Então você passou a se incomodar com o fato de Michael insistir para que largasse o crime. Você mesma sabotou o carro, mas achou estranha a atitude de um homem que se aproximou logo depois e guardou na mente a insígnia chinesa que o homem trazia na mão, e erroneamente o ligou ao Hellfeld. Quando o veículo perdeu o controle, você saltou do carro em movimento e explodiu a bomba que você mesma instalara, cujo detonador deveria estar no seu relógio de pulso, como de costume. Para dramatizar ainda mais, feriu-se de propósito e pagou uma bela quantia para algum médico em Denver simular que seu caso era grave. Você nunca perdeu o rim, fabricou a cicatriz e é exatamente por isso que nunca permite que Felicia Adam lhe examine direito. Foi por isso que conseguiu sair tão cedo do hospital.
“Com a morte de Michael você tinha um motivo realmente substancial para justificar seu ódio por Jack, e pôde finalmente assumir a equipe que era dele e se tornar a ladra tão famosa que é gora. Em outras palavras, você deu um jeito de exigir a minha atenção.
Julie aplaudiu a explicação.
– Seria realmente incrível... uma pena que não é verdade.
– Eu sei que é.
– Como supõe que fiz tudo isso?
– Conheço você. Não pode e nem deve se ligar a ninguém se quiser continuar com a fama de implacável. Só que você andou falhando de novo, Franklin. Wace me disse que seu plano era matar o Hellfeld para recuperar a prata e você não apenas o deixou vivo como foi ele quem lhe salvou. A partir de agora, deve um grande favor à única pessoa que pode lhe desestabilizar de verdade.
– Arrisquei minha vida perseguindo o homem que de fato sabotou o carro.
– Para saber se o seu golpe fora descoberto. - justificou Lachaise.
– Seu raciocínio tem buracos negros do tamanho do Mediterrâneo. Aguardei tanto tempo para encontrar uma grande decepção. Não tenho mais nada a fazer aqui.
Ela já estava novamente na porta quando Lachaise respondeu.
– Vai durar para sempre se você continuar agindo assim. Quando entregou as provas contra o Jack, tomou o cuidado de destruir as mais graves. Ele passou apenas alguns anos na prisão e saiu com a ficha limpa, quando poderia estar cumprindo a pena perpétua. Não temos mais respaldo para persegui-lo agora.
– O que está tentando me dizer?
– Que você o protege. Sempre protegeu.
– Besteira. Mesmo que fosse verdade, não seria da sua conta, comissária.
– Talvez não da comissária, mas... Você pode ter o poder de ignorar o que sente e viver com isso, mas já parou para pensar se tem esse direito?
– Por que eu tenho a impressão de que você não fala de Jack e eu, mas de Célinne?
Lachaise virou o rosto rapidamente, como se procurasse resposta.
– Você estava de saída, Franklin.
Julie sorriu cinicamente.
“E se acha que deixando claro o que sabe me fará desistir de pega-la, devo dizer que se enganou completamente.
– Pelo contrário. Dê-me o seu melhor, comissária. Não esperaria outra coisa de uma adversária. E é só isso que sempre fomos. A notável semelhança física é mera ironia da vida.
– Você tem o gênio podre dos Franklin, doutora. Nos vemos em breve, com uma grade confortavelmente me separando de você.
Julie saiu do ICPD, novamente causando espanto nos funcionários. Tomou um táxi até o aeroporto e deixou a Europa após uma rápida escala em Londres. Ficara sabendo que Desmond a substituíra na equipe, mas não se deteve em pensar naquilo. Acabara. O único sinal que seus amigos tiveram de que continuava viva fora um cartão sem pistas acompanhando as flores que enviou à Felicia quando Timoty nasceu.
FIM
precedida por
JULIE FRANKLIN e o Mistério do Falso Conde
e
JULIE FRANKLIN e o Tesouro de Flávio Creto
16 de junho de 2007. Santa Maria, RS, 15:30hs.
Sara Clarice Lecter