Share/Save/Bookmark
Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » Romance » Sara font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Van87
Fiction Rated: K - Portuguese - Humor/Romance - Reviews: 9 - Published: 03-01-07 - Updated: 07-02-07 - id:2327280

Capitulo I

Sentada em frente da minha secretária de estudo permito que os meus dedos carreguem nas teclas de forma rápida e furiosa. A única luz de toda a divisão, a luz do candeeiro de leitura, incide directamente nos meus dedos e o restante compartimento encontra-se mergulhado na profunda escuridão. Do lado de fora oiço o som agitado dos gatos, os barulhos duram apenas alguns segundos, pouco depois o pesado silêncio instala-se novamente. “A estas horas a vila inteira deve estar a dormir”, centenas de pessoas permitem-se a algumas horas de descanso e repouso.

Em momentos como este amaldiçoo mentalmente a comunicação online, desprezo o seu silêncio e os relacionamentos frios que ela parece construir e destruir. A conversação que eu estou a ter de momento devia ser tudo menos silenciosa, na realidade deveria ser ruidosa e o facto de não o estar a ser parece irritar todos os meus sentidos. Carrego com brusquidão no Enter e durante os segundos em que espero pela resposta pergunto-me como foi que chegámos a esta situação. Quando é que eu me permiti a mim mesma discutir estes assuntos num espaço tão impróprio numa situação tão desprovida de qualquer sentido de realidade.

A resposta surge no meu ecrã, três linhas que leio em segundos e sem pestanejar. Quando por fim termino tenho um sorriso involuntário de desdém nos lábios. Na minha mente surgem as palavras de um famoso dramaturgo “Há sempre qualquer coisa de ridículo nas emoções das pessoas que deixámos de amar”, neste momento a ideia parece adaptar-se também as pessoas que nunca amámos e nunca iremos amar. Qualquer tentativa por parte do meu parceiro de conversa vai ser sempre ridícula aos meus olhos, seja qual for a profundidade dos seus sentimentos, estes vão ser sempre um fragmento risível na minha opinião. Mas apesar de já lhe ter confessado tudo isto, em parte por pena, em parte na esperança de terminar toda esta situação, ele insiste. Está longe de compreender que cada vez que se atira contra as minhas elevadas defesas apenas as tornas mais sólidas, mais impenetráveis.

Cansada de discutir o assunto vezes sem conta, termino rapidamente a conversação. Eu sei perfeitamente que toda esta confusão me deixa mais frágil por dentro e mais sólida por fora. Um coração partido não quer a força de um amor violento, quer a calma e a segurança de uma amizade sólida e mesmo sem pensar dirijo-me para outra divisão. Hesito por instantes, a minha mão fixa no ar sobre o telefone. São três da manha, não são horas para acordar um amigo com inseguranças emocionais. Uma voz dentro de mim assegura-me que as minhas dúvidas terão de esperar pelo dia de amanha.

De repente apercebo-me do cansaço que perece ter-se apoderado do meu do corpo, a névoa pesada sobre os meus olhos, a tensão nos músculos dos meus ombros, a dor latejante dos meus pés. Arrasto-me até ao meu quarto onde as luzes parecem cegar-me por segundos. O espelho, colocado exactamente em minha frente, parece reflectir a imagem de uma perfeita desconhecida. A rapariga na minha frente, apesar de jovem reflecte em si um profundo cansaço, o seu cabelo castanho desalinhado e as suas olheiras completam o look mas são os seus olhos verdes que reflectem uma solidão que me impede de continuar a olhar. Dispo-me rapidamente, evitando olhar novamente para o espelho e em minutos estou entre os lençóis da minha cama. No entanto, mesmo antes de adormecer não consigo parar de pensar que a esta desconhecida no espelho não há nada que eu possa dizer que a vá reconfortar. A rapariga do espelho… A quem por vezes penso conhecer, a quem eu desejava realmente conseguir compreender



Return to Top