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Author: Van87
Fiction Rated: K - Portuguese - Humor/Romance - Reviews: 9 - Published: 03-01-07 - Updated: 07-02-07 - id:2327280

Capitulo X

A vida está repleta de períodos indefinidos de tempo, em que nos apercebemos que o caminho que tomámos, não tem mais como voltar atrás. Prevejo a chegada de um desses momentos, como uma fatalidade prestes a acontecer. Eu sei que são nesses momentos que nós, incapacitados pelas forças presentes, abandonamos de vez algumas de pessoas que amamos, amámos ou esperávamos amar.

Momentos na vida, em que somos invadidos pela certeza de que o rumo dos acontecimentos irá mudar. Algo no ar nos diz que aquele segundo será gravado na nossa memória como o ultimo de um ciclo de inúmeros outros.

Eu sinto um desses momentos aproximar-se. Enquanto a Madalena paga a nossa conta, eu perco-me na racionalização daquilo que sinto.

Será a brisa que se levanta no ar? Será o tom resplandecente da luz? Será o timbre diferente dos sons do quotidiano?

A certeza é tão profunda que se mistura com uma leve sensação de déjà vu e deixa-nos momentaneamente estáticos. Daquele momento em diante, o vento soprará noutro sentido, o caminho tomará um sentido diferente e nós não seremos mais os mesmos.

Aquele momento torna-se o início de um novo sonho. Das cinzas do anteriormente construído, elevam-se pequenas partículas brilhantes com as quais construímos de novo. Desejamos que esta construção iluminada dure mais tempo, seja mais resistente aos fogos ardentes das constantes mudanças e contrariedades.

Este novo sonho, exibimos descaradamente a todos, queremos sentir os seus pequenos passos para a concretização e somos assombrados com o imenso desejo que ele nunca se afaste do nosso pensamento.

Com este novo castelo de sonho construído, sentimos a brisa da mudança ruçar-nos nas asas e levantamos voo rumo ao nosso novo objectivo.

Gostava de poder dizer, que esses, são momentos de exclusiva alegria, momentos de reflexão e de quietude em que crescemos e evoluímos. Gostava de poder, mais uma vez, mentir a mim mesma e transformar todos estes assuntos, em tardes de Outono, jardins de jasmim e violeta, borboletas e sons de pássaros mas já nem esse breve consolo me resta.

A certeza de que nunca mais teremos a nossa segunda hipótese, parece querer consumir os restos de pó brilhante e confettis, que os sonhos antigos deixaram dentro da minha alma. Impossibilita-me de avançar, torna-me impossível construir um novo castelo para me abrigar. Estou de frente para um beco sem saída mas recuso-me a voltar para trás.

Pudesse eu ao menos explicar como chegámos a este ponto, como nos deixámos afastar pelo tempo e pelas circunstâncias até não existir mais solução para o nosso problema, talvez assim conseguisse levantar voo e voar para um novo sonho.

Mas nem após estes anos de dolorosas reflexões eu consegui encontrar essas explicações e respostas que permitiriam aos nossos corações algumas noites de descanso e lucidez.

As pessoas dizem que é apenas um estado de alma, que acontece a todos pelo menos uma vez na vida mas esqueceram à muito como dói a certeza de que o amor fracassou.

Eu não possuo essas respostas. Tenho apenas comigo as memórias dos agradáveis momentos que passámos juntos, de como rimos e chorámos, sem sairmos do mesmo sítio ou trocarmos uma só palavra. Memórias da nossas ligação transcendental que nos unia, de uma forma quase assustadora e que acabou por nos separar.

Assim, neste momento da minha vida em que pressinto o nosso derradeiro e último adeus, consigo ainda imaginar-nos dançando nos braços um do outro, sem lágrimas ou tristeza num ritmo rápido e intenso…. A nossa ultima dança!

O ritmo estonteante da nossa dança parece não querer abrandar, até que sentindo os pés elevarem-se do solo, pairo sobre o ar em plena harmonia de sentidos. Tu, agora estático no solo, agarras suavemente a minha mão. “Deixa-me ir.” – peço-te num sussurro. A tua mão larga a minha e eu afasto-me, subo no céu, até não seres mais que uma pintinha na paisagem longínqua.

Terá sido um sonho? Produto da imaginação ou o murmúrio da saudade que já quer partir? Afasto estes pensamentos da minha mente, é necessário continuar mais um dia, é necessário colocar a mascara e representar o papel mais uma vez. Longe de mim, querer desapontar os espectadores deste triste circo. Para eles, não passo de um mero fantoche nas irritantes peças, que aqueles que amo parecem dirigir.

Puxam as cordas, que me prendem os vários membros, consoante as suas vontades e eu, sempre sorridente, devo estar feliz por fazer parte das suas grandes criações.

Eles não me conhecem, não sabem quem eu sou, quem eu quero ser, quais são os meus maiores segredos e desejos. Eles que valiam o Mundo para mim, não são capazes de reconhecer a minha verdadeira essência. Estão cegos perante as imagens que criaram sobre mim. Estáticos no tempo. Perdidos para mim, tornam a minha solidão ainda maior, aumentam a tristeza que existe em mim.

A culpa deve ser minha, porque não consigo faze-los ver a realidade, porque na realidade preciso mais do que nunca deles. Mesmo que já só restem as suas sombras, eu necessito loucamente de me agarrar a elas.



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