Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » Thriller » Noites Silenciosas font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Jubbles Bubbles
Fiction Rated: M - Portuguese - Mystery - Reviews: 1 - Published: 03-16-07 - Updated: 03-16-07 - Complete - id:2334414

Noites Silenciosas

As nuvens bloqueando a lua cheia daquela noite davam uma falsa impressão de nevoeiro por sobre a cidade negra, porém brilhante com seus pequenos pontos de luzes interminantes.

Pessoas povoavam as ruelas daquela cidade, seus murmúrios ecoavam nas paredes, e vez ou outra se ouvia um som. Um som que denunciava o sentimento penetrante, o pensamento ardente.

Para a jovem que andava na calçada, perdida entre a multidão, aquela cidade que ela passaria a conhecer tinha um aspecto novo, totalmente diferente para ela.

Ali a garota era uma estranha, uma pessoa qualquer que não merecia a atenção de ninguém, mas ela não ligava, não mais, nem olhava para o lugar que daqui para frente iria ser o seu lar, só caminhava por entre as pessoas que talvez nunca soubessem o que estava acontecendo com ela, que talvez nem soubessem que o choro que ouviam era dela. Olhando para o céu, a garota pensava que aquele nevoeiro era causado por uma fraca chuva que caía. Ela não queria acreditar que na verdade, eram lágrimas que molhavam seu rosto.

Os homens que estavam ao seu lado a impedia de ter qualquer chance de fugir, todas suas idéias morriam quando ela percebia que eles estavam ali, e que estavam conduzindo-a a uma parte escondida da cidade. E no pouco tempo que restava até chegar ao local, a garota imaginava que tipo de vida teria, agora que seus pais estavam mortos. Assassinados, e ela sabia por quem, por aqueles que a estavam levando, talvez tenham sido eles, ela pensava, mas eles só cumpriam ordens, a verdadeira ameaça não estava na força visível dos músculos dos homens, nem talvez na desconhecida cidade. Ela sabia que sua vida estava nas mãos de outros, pessoas que talvez nem conheça. Fantasmas para ela.

Fantasmas, sim. Ela podia ver agora como as pessoas daquele lugar podiam ser monstruosas. Não por causa do aparente sorriso malicioso que aparecia nos seus rostos, ou a cobiça que se mostrava em seus olhos. Mas por causa de sua apatia, de sua maneira de andar pela cidade, até mesmo da maneira que olhavam uns para os outros, um olhar frio, sem reconhecimento, sem nada.

Pareceu a ela que estava caminhando por uma cidade fantasma, e talvez estivesse, mas só teve sua confirmação quando entrou numa sala de um prédio qualquer e viu moças com aproximadamente sua idade, algumas pareciam estar ali há algum tempo, outras pareciam que chegaram há pouco, mas todas a olharam do mesmo jeito, com um misto de raiva e superioridade. Mal sabia ela, que aqueles olhares serviam para encobrir o sentimento de culpa e de pena que se apossaram das outras quando a viram entrar.

É, sempre foi assim, elas sempre se cumprimentavam assim, temendo falar algo para não provocarem as sombras que sempre rondavam aquele quarto, ficando para sempre quietas, sem vida.

Por várias noites seguidas foi forçada a encarar a solidão, sem a companhia das outras, não sabendo o que tinha feito de errado, já que se comportara tão bem quanto qualquer uma outra. Mas olhando em volta, para o quarto ricamente decorado e perfumado e vendo sua própria roupa, a garota percebeu que eles não deviam estar com raiva. Se não, eles não a deixariam com uma aparência tão agradável e nem a teriam tirado do quarto opressor.

Mas então, quando a porta lentamente foi aberta, e um robusto homem apareceu, a garota percebeu que nunca mais poderia voltar atrás, iria acontecer exatamente o que ela não gostaria. Aquele homem ganancioso com um charuto na boca a olhava atentamente, inspecionando-a, deixando que a fumaça de seu charuto fizesse pequenas linhas cinzentas até o teto. Seu coração palpitava, de alguma forma ela sabia quem aquele homem era. Mas não pôde fazer nada ou dizer, só pôde até que ele acabasse de fazer o que queria e ela fosse deixada no quarto, novamente com as outras.

Ela não sabia quanto tempo passara sem dar sinal de vida, e as outras sabiam o motivo, elas mesmas passaram pela mesma situação e todas elas, juntas se uniam e suportavam aquela vida.

Tinham permissão para saírem apenas quando tinham clientes, e às vezes iam juntas, não demonstravam mais seus sentimentos para as pessoas em volta. Era muito óbvio para elas que ninguém se importava, naquele momento, a garota já não sabia mais quem eram os fantasmas. Elas que passavam sem serem vistas, ou os outros que apenas faziam o que queriam, sem se importarem com regras, sem ligarem para o fato de que elas sofriam com seus atos, mas atos que nunca eram descobertos por outros, apenas por elas, que como regra ficavam caladas e quietas, submissas.

Numa noite, não importava qual, pois todas eram iguais, as garotas foram levadas a um clube para divertir um grupo de pessoas, seus rostos permaneciam impassíveis diante dos atos rudes, mas após um tempo nenhuma agüentava mais a humilhação, era demais. Insuportável, e se deixarem que percebessem isso, seria pior, seriam trancadas no quarto e seriam oprimidas pelas sombras, por sombras que xingavam, batiam e riam delas, humilhando-as ainda mais, e em diversas ocasiões, isso acontecia em público.

Aquela noite seria longa, e nenhuma agüentava mais, muitas delas já tinham se entregado para drogas e bebidas, esperando que assim acabasse mais rápido. Elas pensaram errado, como a garota pôde comprovar por si mesma. A garota tinha engolido uma pílula e bebera do copo do homem a sua frente e o efeito deles a deixou fraca e sonolenta, mas para seu azar, ainda consciente. Ela sabia que seu corpo estava sendo usado como um objeto por aqueles animais, sabia que sombras a observavam enquanto outros riam dela. Ela estava sorrindo, apesar de tudo, se sentia feliz por não poder sentir algo, por achar que aquilo estava acontecendo com outra pessoa, como se não fosse ela que estivesse naquele inferno sem volta.

Mas enquanto manteve-se consciente, percebeu que era muito fácil controlá-los. Antes pensava ela que aquelas sombras tinham poder sobre ela, mas agora descobriu que apesar de não ser tão forte como eles, era mais resistente, podia agüentar mais que eles e poderia até mesmo lutar pela sua vida. Esse pensamento foi deixado para trás, quando percebeu que mesmo que fizesse algo, não adiantaria, só sofreria mais, e não poderia fugir nunca.

Mas uma imagem ficou na sua mente, a do quarto onde encontrara o homem com charuto. Lembrava-se claramente dele, pois o homem sempre a chamava, ela sempre se encontrava com ele, e constantemente sentia cheiro de sangue quando ficava com ele. Isso a deixava enojada, mas não adiantava dizer, ela poderia apanhar ou até mesmo ser morta se ele se irritasse. Aquela imagem não saía de sua cabeça e quanto mais ela pensava, mais raiva sentia daquele homem, mais enojada, ficava cada vez mais indignada.

Percebi isso na noite seguinte, quando pude ver o ódio formado em seus olhos, mesmo quando ela mostrava um sorriso para o alvo de seu sentimento, cada vez mais ela se revoltava contra ele, e não tinha mais medo dele, não importando o quanto ele a batesse, ela continuaria rindo, continuaria a irritá-lo, e a felicidade que sentia quando o fazia permitia que ela visse com clareza as sombras à sua volta. Agora ela compreendia que aquelas sombras não podiam mais assusta-la e que o frio que sentia no quarto à noite era por minha causa.

São raras as meninas que conseguem me ver, ou mesmo me entender, todas me sentem, mas poucas realmente me chamam a atenção. Mas como tudo, depois de um tempo, a história ficava meio monótona.

Sussurros são ouvidos no quarto onde as garotas eram deixadas, todas me conheciam é claro, a garota que tivera coragem de matar seus clientes, mas que um dia finalmente foi pega e morta cruelmente pelas sombras que as vigiavam. Não me sinto morta na verdade, até que gosto da sensação e posso comprovar que é bem melhor do que aquele inferno em que elas vivem.

A garota abria um sorriso genuíno sempre que ouvia minha história, sempre pensava que poderia fazer o que eu tinha feito várias e várias vezes. Por isso sempre perguntava como eu os matava, mas ninguém conseguia responder. Claro, ninguém nunca soube. Mas mesmo assim a garota não desistia, e eu até que gostava dela, se ela tivesse sucesso, faria algo pelo qual me arrependo de não poder mais fazer, pelo menos com a mesma freqüência de antes, e seria algo que nunca outras fizeram.

O dia enfim chegou. Assim como ela eu estava ansiosa, mal poderia esperar pela noite em que seria chamada.

Quando chegou no quarto teve a chance de se preparar. Nada de mais na verdade, ela apenas queimou mais incensos na esperança de que assim o homem ficasse tonto; até que foi uma boa idéia, suspeita, mas mesmo assim uma boa idéia. Aquela garota estava indo bem. Ela não levava mais nada exceto a roupa no seu corpo, mas tinha certeza que na roupa do homem teria alguma arma para ela poder usar, infelizmente, a garota só contava com isso, e se algo desse errado... Bem, não se poderia fazer mais nada então. A única coisa que eu não gosto é que a garota pensa que quando o fizer, vai acabar com todo aquele sentimento que guardou por tanto tempo.

Que seja, é a vida dela, não a minha.

O homem entrou e, como sempre, exalava o cheiro de sangue. Ah! Doce aroma como eu sinto sua falta! A garota no entanto, se encolheu quando viu que ele acabara de matar, as manchas no seu terno o denunciavam. Quando o homem conseguiu ver onde ela estava foi até a cama onde ela estava encolhida, tossindo um pouco pelo forte cheiro do incenso. Ele viu que ela não tentava acabar com sua paciência e achou graça disso. Patético, verdade. A pessoa se intimidar pelo simples cheiro de sangue. Tudo bem que aquele cara a fez sangrar muitas vezes e provavelmente muitos outros antes dela, mas isso não é motivo para temer o homem.

Não havia dúvidas de que ela não iria irritá-lo, pelo menos não naquela noite, e o homem percebeu que estava cansado depois de ter agüentado um devedor falar besteiras.

Quando eu pensava que a garota ia desistir ela desabou. Gritou tudo que queria, falou tudo que engolira, e enquanto isso batia no peito do homem com seus punhos, tentava arranhá-lo com suas unhas e pegar a arma que ele tinha.

Finalmente.

Ela o insultava por ser um brutamonte rude, imbecil, que batia em mulheres, gritava na mesma hora em que batia violentamente nele, embora o peso de seu corpo não fosse nada comparado com o dele. No final, quando não tinha mais consciência do que estava falando, tudo finalmente fez sentido para ela. Aquele rosto, aquele cheiro, aquela sensação de reconhecimento que acontecia sempre que ela o encontrava enfim, tudo foi explicado. linhas cinzentasat olhava atentamente, inspecionando-a deixando que a fumaça de seu charuto fizesse pequenasEla lembrou da noite que preferia esquecer, da noite em que seus pais foram mortos.

Ela sempre fora quieta, calma, e amável com seus pais. Aquela noite não foi diferente. A família estava reunida na sala, ela sentada no tapete, olhando para os pais abraçados no sofá. Desde pequena sabia que o pai tinha negócios com pessoas, com todo tipo de pessoa. Ela tinha se acostumado com isso, e mesmo depois de ter ouvido histórias horríveis sobre o que acontece com pessoas de negócios como seu pai ela não se desesperou, porque ele, assim como sua mãe, a tinha prometido de que tudo ficaria bem, não tinha nada com que se preocupar. Quando cresceu descobriu que os negócios de seu pai envolviam dinheiro, muito dinheiro e com as piores espécies de pessoas, ela não gostou de saber disso, mas se lembrou da promessa. Quando chegou na adolescência entendeu porque a casa em que moravam era tão bonita. Não se importava mais como conseguiam aquele dinheiro, até ouvir um barulho na porta. Seus pais também ficaram atentos e só se levantaram quando seu pai a disse para ficar no quarto até eles a chamarem de volta. Novamente a batida na porta. A garota foi para o quarto e ficou vendo o que acontecia pela fresta da porta. Um homem robusto entrou na casa, falou algo sobre o dinheiro e quando o pai da garota disse não ter nenhum, ele olhou para o dono da casa e lentamente, como se fosse algo normal tirou a arma do seu paletó. Sem hesitar, atirou na cabeça do pai e caminhou em direção à mãe histérica. Com paciência colocou a mão na boca da mulher, fazendo-a parar com seus gritos. Com muita ousadia falou que não tinha mulher para passar a noite e já que ela não tinha mais marido... A mulher levantou sua mão e bateu no rosto do homem com indignação, sabendo que logo em seguida seria morta e foi isso que aconteceu. O homem xingou algo que a garota em estado de choque não entendeu e ele já iria sair quando ouviu soluços. O que aconteceu a seguir foi algo confuso, a garota ainda não tinha aceitado a morte dos pais e assim que conseguiu raciocinar estava no quarto com outras garotas.

As lágrimas rolavam por seu rosto enquanto a lembrança voltava, e por apenas um momento, ela esqueceu de que estava prestes a se vingar do assassinato de seus pais, ela conseguira pegar a arma e depois de muitos chutes o homem se contorcia. Mas nesse pequeno instante, o homem a agarrou com força pelos punhos, fazendo-a gritar de dor e soltar a arma, o homem não precisou da arma para matá-la, apenas bateu muito forte nela. O soco acertou sua cabeça com bastante força até ela não sentir mais nada e o quarto ficar em silêncio.

Aquela idiota. Se ela tivesse prestado mais atenção ao homem que iria matar em vez de lembrar do mesmo homem matando seus pais ela teria conseguido. Ela teria se vingado. Bem, ela não conseguiu, mas pôde ter algo que pensava ser impossível, sair de um beco sem saída. Pena que ela só tenha conseguido com sua morte. Mas não há nada mais que se possa fazer. Apesar de não ter conseguido o que queria, eu gostei daquela garota. Ela teve coragem para levantar sua voz, mostrar sua força, acabar com sua submissão... Mas ela não foi tão forte assim, ela sucumbiu.

Fazer o quê agora? Não há mais nada a fazer. Pelo menos não por ela, a não ser é claro, fazer o que ela queria tanto. Matar o homem.

Apesar do esforço enorme que ela fez para machucar o homem, ela não foi muito bem, claro que o homem estava machucado, mas os arranhões foram apenas superficiais e os socos, se é que podemos chamá-los assim, apenas feriram seu orgulho, acho que os únicos golpes que deram certo foram seus chutes. Quando entrei no quarto pude ver tudo isso, e a idéia que ela teve do incenso foi realmente muito boa, assim que entrei pude sentir o forte aroma entrando por minhas narinas e me deixando um pouco tonta e até mesmo um pouco calma, acho que foi por isso que o homem não se irritou por vê-la se escondendo dele.

Mas após alguns segundos pude sentir perfeitamente o aroma de sangue. Quase pude sentir seu gosto, e caminhando lentamente até a cama vi o homem fumando seu tão querido charuto, pena, este seria seu último. Silenciosamente fiquei junto a ele e mesmo assim não fiz nada, até ele perceber que eu estava ali e arregalar seus olhos. Ah! Você não sabe como foi engraçado quando vi o medo em seus olhos, o mesmo medo que ele tinha visto nos olhos da garota que jazia ao seu lado. Deixei-o tragar um pouco mais de seu charuto enquanto ele aceitava e me reconhecia. Sim, ele sabia quem eu era, acho que todos sabem. Perguntei então se ele terminou e mesmo antes que ele me respondesse me inclinei e dei um leve beijo no seu pescoço com linhas vermelhas dos arranhões, depois disso enfiei a agulha no mesmo lugar que deixei meus lábios. A agulha estava escondida nas minhas costas, fiz isso rápido para que ele não pudesse fazer nada contra mim, apesar de saber que era pouco provável, afinal agüentar duas lutas corporais cansa uma pessoa, não importe o quão forte ela seja. Mesmo que a pessoa seja fraca como a garota. Falando nisso, olhei para ela, deitada na cama. Se ela não estivesse morta não iria sobreviver por muito tempo.

E enquanto via seu rosto suavizar como se ele estivesse dormindo lembrando seu semblante ao da garota adormecida, um sorriso brotava dos meus lábios. Ah! Doce aroma da morte, tão bom senti-la. Deixei os dois dormindo em paz no quarto para sair pela noite.

Não sei se estou morta ou viva, para falar a verdade, nem me importo mais. Gosto da sensação que sinto, gosto de poder fazer o que quero, sem nenhuma sombra para me perturbar. Gosto de me sentir livre. Mas gosto ainda mais do fato de que posso continuar a fazer o que quero, ou pelo menos me aperfeiçoar mais um pouco. Sentir o gosto de sangue nos lábios, seu aroma adocicado, o medo nos olhos arregalados... Por isso continuo caminhando.

Nas noites silenciosas, caminho sem destino, sendo levada apenas pela brisa da noite e meu caminho sendo iluminado apenas pelo brilho do luar.


Return to Top