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Fiction » Romance » Ligações Perigosas font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Alex Nox
Fiction Rated: M - Portuguese - Romance/Drama - Reviews: 1 - Published: 04-22-07 - Updated: 04-22-07 - Complete - id:2351242

Ligações Perigosas

Há algum tempo atrás, vivia na França um certo Conde de Lafayette Na época em que nossa história começa já idoso e cansado. Tinha vinhedos dos quais se dizia produzir o melhor vinho franco, e tal se atribuía pela paixão de Lafayette pelos vinhos. O conde tinha paixão idem em tamanho e intensidade pelas mulheres; entretanto, tinha opinião diversa sobre ambos os assuntos. Para ele, os vinhos ficavam cada vez melhores com a idade, quando envelheciam no tonel e tomavam o gosto da madeira — o que não acontecia com os membros do sexo oposto, os quais achava que, quando mais avançavam na idade, mais velhos e secos se tornavam. Como o nobre leitor pode imaginar, a Condessa de Lafayette sofria deveras com as infidelidades do marido — obviamente cometidas com mulheres na flor da idade, de formas fogosas e ainda viris.

Acontecia de Lafayette ser cliente de uma certa madame do Moulin Rouge chamada Cécile de Merteuil. A dama de muito nobre profissão estava interessada nos bolsos forrados do caro conde, entretanto não estava satisfeita em ser a rameira de Lafayette, desejando tornar-se a nova condessa. Para ter sucesso em sua empreitada, sabia que não poderia contar apenas com sua luxúria. Assim, decidiu consultar uma feiticeira que vivia nos subúrbios fétidos de Paris.

Era realmente um desperdício sujar seu vestido de rendas naquela rua malcheirosa e com esgoto a céu aberto, entretanto Cécile achava que valia a pena. Logo será a nova Condessa de Lafayette, pensava alegremente a fútil alcoviteira.

Cécile entrou no buraco que a feiticeira vivia e bateu palmas. Assustados com o súbito barulho — muito mais alto que o gorgolejo da água de esgoto — um bando de ratos saiu aparvalhado em direção à rua. A rameira berrou.

— Quem ousa espantar meus amigos? — surgiu a voz cansada, entretanto aterrorizante, do fundo do buraco.

— Sou Cécile de Merteuil, e tenho um serviço para a senhora — disse a alcoviteira, sem hesitar.

A feiticeira soltou uma gargalhada maléfica e se levantou, entrando no alcance da luz. Era corcunda, vestia trapos cinzas similares à pelagem de seus pequenos amigos nojentos, enormes olhos esbugalhados como duas maçãs e os incisivos tortos e careados tendiam a cair quando falava.

Cécile recuou subitamente, em repulsa ao hediondo ser que se apresentava, mas sua voz não fraquejou:

— Quero uma Poção do Amor para um velho no poente da idade.

A feiticeira soltou outra gargalhada estrepitosa, que fez Merteuil recuar mais alguns passos.

— Não existe tal coisa como uma Poção do Amor! O que pode fazer é rezar para os demônios do Inferno, Sucubus e Incubus, para ter sucesso em sua empreitada. Ouça minhas instruções com cuidado, tola, e terás o que deseja.

E Cécile escutou. À meia-noite da lua cheia, deveria ir à encruzilhada entre Paris e Marselha, acender velas negras, depois cortar o pescoço de um galo e derramar o sangue da ave sobre a chama das velas. Depois rezaria para Sucubus e Incubus e esperaria pelo sexto dia.

E assim a alcoviteira o fez. No sexto dia após o feitiço na encruzilhada, o Conde de Lafayette veio ao Moulin Rouge com um anel cravejado de diamantes.

— Quero desposá-la! — dissera Lafayette — Dane-se minha velha esposa, que não faz outras a não ser se lamuriar pelos cantos de ter um pescoço tal qual pé-de-galo! Quero uma Condessa jovem e cheia de viço!

Pobre da ex-Condessa de Lafayette! Foi despejada de seu castelo e de seu trabalho de crochê para voltar a morar com os pais em Toulouse. E, claro, amaldiçoou o dia em que se tornou Condessa de Lafayette.

A primeira providência de Cécile de Merteuil como condessa foi oprimir os servos de seu marido, e a segunda foi comprar lindos vestidos de fios de ouro em Paris.

Ao voltar para o castelo, ao final do dia, descobriu que seu augusto marido tinha como convidado para jantar um certo Reverendo Bontemps, o clérigo local.

— Estou aqui para dar a infortunada notícia de que o Conde de Lafayette não pode se casar novamente — disse Bontemps, durante o jantar. — Na verdade, nenhum homem pode, não pelas leis de Deus. Tampouco se separar de sua legítima esposa, a não ser em caso de viuvez. Se estiver morando com Mademoiselle Merteuil, a Condessa de Lafayette ainda é sua esposa aos olhos de Deus.

E após dizer isso deu uma piscadela velhaca para Cécile.

— Pois meu caro Bontemps, não respeito a lei de Deus e sim a lei do Amor — disse Lafayette, encolerizado — Que Deus e o mundo se movam, ainda casarei com Cécile, pois é o amor de minha vida! Eu morreria por ela!

Bontemps jogou os pratos ao chão. — Então apodreçam ambos vocês no Inferno por toda a sua vida eterna! Satanás estará espetando seus pés no fogo eterno!

Dito isso, saiu teatralmente.

Lafayette ordenou a um servo que recolhesse a sujeira que o Reverendo causara, dizendo à sua amada:

— Não se aflija, ma chérrie, nada no mundo nos impedirá de nos casarmos!

— Tenho certeza de que não, mon cher — disse Cécile, sorrindo — Apenas permita-me recolher mais cedo, estou indisposta.

Ao alcançar sua alcova, Cécile não encontrou nada mais do que uma carta de Bontemps sobre sua escrivaninha, dita nos seguintes termos:

Minha dama,

É imensurável e indescritível a sensação que passou por meu coração, quando a observei entrar no recinto de cear e tirar tua guarvaia; posso dizer que depois daquele momento nunca a vi mais bela.

Imploro que dê uma chance a este pobre clérigo que escolheu mal sua vocação, e que não deseja outra vida a não ser ao lado desta flor do lácio inculta e bela que roubou meu amor.

Cécile de Merteuil sorriu malevolamente após ler a missiva, e teve a idéia de que seria muito divertido brincar com os sentimentos do pobre clérigo.

Todavia, no dia seguinte, ao marcar encontro com o Reverendo Bontemps na cocheira do castelo, a rameira teve certeza de que finalmente havia achado o homem que roubaria seu coração. Após se amarem sobre o leito de palha e entre os relinchos dos animais eqüestres, Cécile percebeu que queria se entregar durante o resto de sua vida àquele homem. E já havia criado um de seus nefastos planos.

— Matamos o velho e ficamos com o ouro — disse Merteuil, enquanto vestia as anáguas — Nada mais simples.

— Não hesitaria em matar por você, ma chérrie — disse Bontemps — Entretanto, para termos sucesso nessa empreitada, devemos permanecer impunes.

— Há muitos modos de matar e permanecer impune — disse Cécile com um sorriso diabólico — E sequer preciso de uma feiticeira para me livrar dessa. Minha mãe era uma Mulher Sábia; ela me ensinou como preparar uma infusão de cicuta. É um veneno que não deixa seqüelas tampouco resíduos e faz aparentar uma morte natural. Lafayette simplesmente se sentirá sonolento, se deitará e não mais acordará.

— E é por isso que te amo tanto — afirmou Bontemps.

Entretanto, ocorreu algo com o qual Cécile não contava: ao sair da cocheira, um servo jovem, bom e leal admirou suas formas fogosas e logo se enamorou perdidamente. O nome do servo era Roland Danceny.

Entretanto, Danceny era muito esperto. Sabia — ou ao menos achava que sabia — o que era necessário para conquistar Cécile de Merteuil. Arranje roupas adequadas, mon ami. Amanhã será um Chevalier Danceny.

No dia seguinte, os criados acharam o corpo de Lafayette em sua cama. Aparentemente, morrera enquanto dormia.

Cécile chamou ninguém menos do que o Reverendo Bontemps para cuidar do espólio do Conde — e, obviamente, para tomar-lhe o título e a “esposa”.

Ambos estavam trabalhando com os documentos do conde, quando a porta se abriu e a idosa Condessa de Lafayette irrompeu no escritório.

— Estes gendarmes estão aqui para retirá-la da propriedade — afirmou a Condessa, com um sorriso vitorioso no rosto. Foi quando Bontemps e Cécile notaram os gendarmes que a acompanhavam.

— Não pode tirar-me daqui! — protestou Cécile — Sou a Condessa de Lafayette e legítima herdeira do conde!

— Aí que você se engana— retorquiu a Condessa — EU sou a legítima herdeira do conde, já que sou sua legítima esposa. Você não é ninguém mais do que a rameira que ele tomou como amante, e portanto não tens direito legal algum. Agora, fora de minhas vistas, devassa!

E assim o belo rosto de Cécile foi jogado contra a terra da entrada do castelo, acompanhada pelo Reverendo Bontemps.

— Que fazemos agora? — perguntou o clérigo. — Estamos paupérrimos!

— Acalme-se, mon amour — disse Cécile — Precisamos encontrar outro energúmeno para darmos o golpe do baú.

— Permita-me ajudá-la, mademoiselle.

A alcoviteira se viu auxiliada por ninguém menos do que o “Chevalier” Danceny. Cécile observou as insígnias do uniforme que ignorava ser roubado, e pensou que havia achado o energúmeno que procurava.

— Estive a observando desde que se casou com o conde — disse Danceny, beijando a mão de Merteuil.

— Tenho certeza de que com um excelente intuito — respondeu Cécile — Observe que desgraça me acometeu! Fui expulsa da propriedade por aquela megera da Condessa, e agora não tenho onde pernoitar! Pode me ajudar?

— Certamente, mademoiselle — retorquiu Danceny —Acompanhe-me, s’il vous plais.

— Podemos fazer a confissão em outro momento, padre — disse Cécile, dispensando o Reverendo e acompanhando Danceny.

O Reverendo grunhiu. Odiou o modo como Merteuil o dispensara tão facilmente. Odiou o modo como ela acompanhara o Chevalier tão facilmente. Jurou que se vingaria daquele soi-disant tão logo tivesse todo o seu ouro na palma das mãos.

Ou melhor, naquele exato momento.

Cécile acompanhou Danceny até a estalagem local. Ao chegar, o estalajadeiro piscou para ele e os guiou até o quarto especial do “Chevalier”.

— Poderá pernoitar aqui por quanto tempo quisere — disse Danceny, quando já haviam se acomodado no quarto.

— Que tal pelo resto de nossas vidas? ­— perguntou Cécile com um sorriso malicioso.

— Uma grande idéia.

Naquele momento a porta foi escancarada e ninguém mais do que o Reverendo Bontemps irrompeu no quarto irado e com uma espada na mão — uma das piores combinações.

— É hoje que verei suas tripas para fora, garoto! — ruminou o clérigo.

Danceny sacou sua espada.

— Que faz aqui, clérigo??

— Não o deixarei roubar Cécile de mim!

— Está louco, clérigo?? — indagou Cécile, fingindo surpresa.

— Ora, não seja hipócrita, Cécile! — e avançou contra Danceny. O Chevalier se defendeu, e logo arremeteu um golpe contra Bontemps.

— Afinal, por que quere me matar? — indagou Danceny.

— Ora essa, por quê? — perguntou o clérigo, jocoso, abaixando-se de um golpe do Chevalier. — Queríamos pegar todo o seu dinheiro e fugir!

— Que dinheiro? — perguntou Danceny, surpreso — Não tenho dinheiro algum! A bem verdade, sou um servo do Conde de Lafayette!

Foi a vez de Bontemps baixar a espada, surpreso.

— O quê? Não tem ouro algum?

— Fiz tudo isso apenas porque caí de amores por Cécile — disse Danceny, numa voz lamuriosa — Agora sei que é uma rameira cruel e uma assassina! Entretanto, não posso agüentar esta coita de amor!

Dito isso, Danceny ergueu a própria espada e dobrou-se em dois sobre ela.

— PARVO! — berrou Cécile — Se os gendarmes nos encontrarem aqui, seremos enforcados por assassinato!

— Temos que sair daqui! — disse Bontemps.

O casal pérfido largou Danceny sangrando até a morte e desceu as escadas. No andar inferior, conseguiram um coche e desapareceram da França.

Alguns dizem que morreram de fome em algum ponto da estrada dos Montes Urais, entretanto são os cães sem pedigree que sobrevivem mais. No desatino e desconcerto que este mundo está, é provável que realmente tenham encontrado outro velho nobre para matar e roubar o ouro. E viveram ricos, felizes e torpes até suas vidas desgraçadas terminarem.


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