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A Casa no Cimo do Monte
MuzzyDreamer
Sempre me perguntara quem viveria naquela casa no cimo do monte, virada para toda a aldeia. Se, por acaso, por lá passares, ainda a podes ver; e, se tal acontecer numa noite de Lua Cheia, na qual gotas chicoteiem as vidraças, então poderás dizer que nos viste.
Nunca se ouvira falar de alguém que da casa no cimo do monte tivesse descido, e, se alguém, alguma vez, lá tivesse subido, então não voltara para contar a história.
Quando eu era novo, os adultos contavam-nos que a casa era assombrada pelos fantasmas mais malvados de todos os tempos; era a única maneira de nos manterem fora da propriedade. O senhor Anselmo, proprietário da mesma, raramente saía à rua e, sempre que o fazia, parecia que não dormia havia muitas noites e a sua roupa estava sempre desengonçada e suja. Nunca duvidámos que a culpa fosse toda dos fantasmas.
Mesmo assim, nas noites chuvosas, eu sentava-me à janela do meu quarto e, através das gotas que caíam, observava aquela casa caiada de branco, de janelas esquecidas pelo tempo.
- E se lá viver alguém? – perguntava eu aos adultos.
Eles sorriam-me condescendentemente e passavam-me a mão pelos rebeldes cabelos cor de trigo.
- E se lá viver alguém e precisar da nossa ajuda? – insistia eu, tentando que me levassem lá acima.
Mas nunca me deram uma resposta e, enquanto cresci, os sorrisos condescendentes e os cabelos afagados acompanharam-me. E a casa no cimo do monte continuava lá, como se o tempo não a afectasse.
Pouco depois de me tornar homem, numa noite chuvosa, voltei a ouvir aquelas perguntas, sussurradas ao meu ouvido, enquanto repousava a cabeça para dormir. Era como se o menino aventureiro que eu havia sido na infância, escondido sob a barba rala que me crescera nos últimos tempos, lutasse, agora, para viver a aventura que nunca tinha vivido.
Por algum tempo tentei ignorar tal chamamento, mas a sede de aventura acabou por levar a melhor e, pouco depois do sol se pôr, numa noite de Lua Cheia, saí de casa sorrateiramente.
As nuvens haviam coberto o céu. Eram negras como breu e já se sentia o cheiro a chuva e terra molhada – presságio de trovoada. No entanto, sabia que não podia voltar atrás: aquela seria a noite em que eu iria descobrir todos os segredos da casa no cimo do monte.
Desbravei caminho por propriedades alheias, sem pensar nos seus donos, ou nas colheitas que poderia estragar; naquela noite eu tinha um objectivo. Sentia as minhas calças a ficarem pesadas com a cacimba que já caía, algumas ervas a golpearem-me as pernas e a noite a fechar-se sobre mim.
Durante todo o percurso, mantive o olhar preso nas janelas escuras que me esperavam, por detrás das quais eu ansiava por encontrar uma aventura nova. Talvez tenha sido uma ilusão, talvez os meus olhos cansados e um reflexo da Lua o tenham causado, mas pareceu-me, durante a subida, que uma vela se acendera, para lá das janelas empoeiradas.
Bati à porta levemente, não fosse viver lá alguém de quem nunca se tivesse falado, mas não obtive resposta. No cimo do monte o vento chiava aos meus ouvidos, as ervas açoitavam-me e a luz lunar parecia ter diminuído. Voltei a bater, mas a resposta continuou a não chegar. Tentei, então, a maçaneta, mas a porta não se moveu.
Dei a volta à casa em poucos passos, tentando encontrar outra entrada. A minha aventura não ficaria por ali, nem que tivesse de forçar a porta! Sendo que a minha procura se mostrou infrutífera, forcei-a: primeiro, apenas com a força do ombro, depois, com a ajuda da navalha que trazia presa à perna.
O trinco deu de si e empurrei a porta ligeiramente. As dobradiças antigas chiaram, enchendo a casa com um som arrepiante. Uma nuvem de pó ergueu-se, causando-me um ardor nos olhos e escondendo-me o interior da habitação por instantes.
- Olá!? – chamei, avançando lentamente.
À minha esquerda, na parede, havia uma vela, há muito arrefecida, e fósforos. Acendi a vela de costas para o interior da casa, depois de fechar a porta. Deixei que os meus olhos se habituassem à luz, e então voltei-me para o interior.
Penso que tenha gritado, mas talvez o grito se tenha perdido na minha garganta, logo que nasceu. Na cama, a poucos passos de mim, encostada à janela, repousava o corpo branco de uma jovem morena. Ao seu lado, sentada numa pequena cadeira de pau encontrava-se a mesma rapariga, com o mesmo vestido de linho branco, e a olhar para mim com um sorriso.
A vela apagou-se e eu fiquei no escuro a tremer. Procurei desajeitadamente os fósforos e voltei a iluminar a casa.
O cadáver escanzelado continuava lá, mas a outra rapariga havia desaparecido. Afastei-a rapidamente do pensamento, jurando a mim mesmo que fora mera ilusão.
Com o passo entorpecido, aproximei-me da cama. Os lençóis eram velhos e estavam cobertos de pó. O corpo sobre eles, envergando um vestido de linho branco, também sob uma camada de poeira, estava frio.
- Morri há alguns meses – murmurou uma voz ao meu lado.
Assustei-me com o murmúrio, arrepiando-me aterrorizado.
Olhei o cadáver pelo canto do olho e voltei a olhar a jovem morena que me falara. Nunca a tinha visto antes. Era a mais bela das raparigas que eu alguma vez conhecera – o seu corpo torneado tinha curvas nos locais perfeitos, dando forma ao simples vestido de linho, os seus olhos eram grandes, cor de café, e a sua pele branca como o leite. No entanto, havia algo de inumano nela, para além da beleza aterradora.
- Sou eu – disse ela, apontando para o corpo sobre a cama. – Não tenhas medo, por favor, Cristóvão.
Ouvi um trovão e a chuva começou a apedrejar as janelas. Esfreguei os olhos com a mão livre, mas a jovem continuava lá, com o seu sorriso triste.
- Quem és tu? –consegui perguntar, poisando a vela na única mesa da divisão.
- O meu nome é Constança – contou-me. – Desde há muito tempo que vivo aqui, entre estas paredes.
Com um gesto largo, abrangendo toda a casa, passou o braço sobre a chama da vela, fazendo-a tremer. Os meus olhos abriram-se ao reparar que Constança nem encolhera o braço que passara na chama.
- Tu… tu és mesmo um fantasma! – exclamei sem me conseguir conter.
Os seus olhos castanhos entristeceram-se e desviou-os dos meus para o chão.
- Desculpa – apressei-me a dizer.
- Ainda não me habituei à ideia…
Fiquei em silêncio, à espera que ela continuasse, mas não o fez.
- Posso saber… como morreste?
Por momentos, achei que não fosse responder, mas depois rodopiou pela casa, rodando o seu vestido branco e os cabelos castanhos, aliviando o ambiente, e os seus lábios cheios abriram-se, começando a sua história num murmúrio quase inaudível sob a chuva forte.
- Esperei por ti durante muito tempo – murmurou. – Vi-te nos meus sonhos quando ainda era pequena, visitando o exterior desta casa através dos teus olhos.
E então, enquanto eu a fitava perplexo, Constança contou-me a sua história.
Nascera numa noite de trovoada, como a presente, e a mãe não sobrevivera ao parto. Os seus pais tinham vivido um para o outro. E o seu pai culpara Constança pela morte da mãe, rejeitando-a, entregando-a a uma velha camponesa, para que esta a criasse. Mas o tempo também apanhou a senhora que, antevendo os seus últimos suspiros, a devolveu ao pai.
- Meu pai julgou estar a ser visitado pela alma da minha falecida mãe – confidenciou-me. – Gritou, enquanto me arrastou monte acima, que a minha beleza era idêntica à de minha mãe, e que nenhum homem, excepto ele, me poderia, jamais, ver.
Trancou-a, então, na pequena casa no cimo do monte, e visitava-a de tempos a tempos, levando-lhe alguns alimentos. Constança cresceu, assim, afastada do mundo real, presa nas quatro paredes frias da pequena casa, habitando na solidão.
À medida que me contava a sua história, senti-me preso às suas palavras aveludadas e dei por mim mais perto dela do que alguma vez me sentira de qualquer outro ser humano.
- Há uns tempos, quando meu pai cá veio, perto do meu décimo oitavo aniversário, voltou a surpreender-se com o meu aspecto.
Suspirou e rodopiou novamente, desta vez passando tão perto de mim que senti um calafrio.
- Desfez-se em lágrimas, o pobre homem que já enlouquecera, gritou que eu seria a sua ruína, por lhe trazer recordações tão penosas e – aproximou-se do seu cadáver e afastou-lhe os cabelos do rosto, num sobro terno, – atacou-me.
Um trovão rebentou ali perto, fazendo os alicerces da pequena habitação estremecerem.
- Isto não pode ficar assim! – gritei, erguendo-me.
- E que podes tu fazer? – questionaram os seus grandes olhos húmidos.
Não me conseguindo manter quieto, acompanhei Constança no seu rodopio em redor da casa, demarcando o meu caminho num círculo vazio de poeira.
- Tenho uma ideia – informei-a. – Desce à aldeia e trá-lo até aqui. Eu tratarei do resto.
O seu olhar desafiou-me e, por momentos, pensei que se recusasse a fazê-lo. No entanto, quando eu estava quase a desistir, murmurou:
- Tem de haver alguma razão para que eu te tenha visto nos meus sonhos.
Depois, atravessou a parede e entregou-se à trovoada.
Sem a sua presença luminosa, o casebre era tão sombrio que me fazia tremer. O cadáver de Constança, no entanto, parecia-me menos aterrorizante, agora, mas a sua visão despoletava em mim um sentimento de vingança incontrolável.
Esperei durante o que me pareceu ser mais de três horas, escutando a batida violenta da chuva contra os vidros e vendo a luz da vela tremer com a minha respiração.
Interroguei-me sobre o significado de tudo aquilo. Perguntei-me se era possível sonhar com alguém que nunca se vira. Questionei a presença da alma de Constança ali, na terra, onde os vivos habitam. As respostas não chegaram logo e, quando vieram, eram pouco claras, no entanto, percebi, quando um relâmpago rebentou ali perto, que, afinal, sempre havia alguém na casa no cimo do monte; alguém que precisava de ajuda. E eu era o único que a podia salvar.
Senti Constança perto de mim e virei-me para a encarar. Ela não sorria, antes pelo contrário: parecia triste, como se achasse que o que eu fazia era errado.
- Está a chegar – informou-me. – Achou que eu voltara para o assombrar. Crê estar duplamente assombrado.
Anuí.
- Mas tem cuidado, por favor, Cristóvão – pediu-me, os seus olhos abrindo-se numa súplica. – Ele vem armado.
A porta cedeu sobre a força da pancada a que fora submetida e caiu por terra, erguendo uma nuvem de poeira. Um relâmpago rebentou por trás dela, recortando na noite a silhueta à porta.
Anselmo, pai de Constança, surpreendeu-se com a minha presença, mas surpreendeu-se ainda mais com a navalha que eu empunhava, como arma de ataque.
Toldado pela loucura, o velho homem avançou para mim, com a sua própria navalha estendida.
Tentou atacar-me directamente no coração, mas defendi o golpe. Aí percebeu que eu era tão real quanto ele e usou a mão esquerda para me esmurrar a cara. Caí, apanhado desprevenido pela pancada, e Anselmo tombou sobre mim, de navalha apontada à minha garganta. Rolámos pelo chão, entre golpes e socos, erguendo de novo a poeira da casa, que se condensou numa nuvem sobre nós.
O pó ardia nos meus olhos e, por segundos, desconcentrei-me. Um reflexo demasiado lento, e a sua navalha trespassava a minha garganta.
Senti o folgo fugir-me e tentei engolir várias golfadas de ar, no entanto, apenas conseguia ingerir mais sangue. Anselmo ergueu-se e fugiu, enlouquecido e ao mesmo tempo assustado, deixando a navalha para trás.
Virei a cara procurando Constança. Ela estava sentada ao meu lado, as suas mãos frias penteavam os meus cabelos e sorriu-me. Era o mais belo sorriso de sempre.
As minhas pálpebras fecharam-se lentamente. Tentei inspirar uma última vez, em vão. Senti-me cair no vazio, desligando-me da realidade, quando algo me segurou firme a este mundo, segurando-me tão firmemente que a dor passou e tudo se tornou mais claro. As mãos de Constança não soltaram as minhas e eu soube que ficaríamos assim, para toda a eternidade.