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Fiction » Thriller » Rose of Pain font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Aluada22
Fiction Rated: M - Portuguese - Suspense/Tragedy - Reviews: 1 - Published: 05-26-07 - Updated: 05-26-07 - Complete - id:2367257

O primeiro beijo de muitos não demorou a vir. Todos eles eram muito quietos, silenciosos, calavam as já escassas palavras trocadas pelo casal. Cada vez mais, Toshi podia sentir a felicidade que corria em sua pele e na dela, refletida por arrepios e calafrios divertidos. Estavam envolvidos como jamais, como ninguém.

“Kazuo deve estar morto”, pensava Toshi.

“Morto de inveja”.

— Quero lhe fazer uma surpresa, hoje.

Estavam voltando juntos da escola, como sempre. Andavam de mãos dadas, prendendo entre os dedos um botão de rosa branco. Era ele quem normalmente quebrava o silêncio. Mas, naquele dia, foi diferente.

— Vou te mostrar meu ateliê — Yoko continuou, alargando os lábios.

Avançaram adiante no caminho de sua casa, passaram por algumas outras, por carros, por pessoas – até que as ruas pavimentadas enfim acabassem e o campo aberto se estendesse perante seus olhos. Era outono. Tudo era amarelo e tons pastéis.

Perdida no meio da vegetação seca e fria, havia uma construção acinzentada. Uma fábrica antiga, pequena, talvez um galpão. Parecia abandonada. Mas Yoko tinha a chave de lá, e a usou antes de empurrar a pesada porta de metal que fechava o local.

Ela bateu com um estrondo às suas costas.

Mergulharam no escuro.

— Vá mais pra frente. Faz parte da surpresa.

Surpresa? Mas que tipo de — ?

Acenderam-se as luzes.

O grito de horror de Toshi encheu o recinto quando o jovem se viu cara a cara com o cadáver de Kazuo Kojiro, pendurado no teto. Seus narizes gelados se encostavam, suas expressões de pavor complementavam uma à outra.

Kuroi hitomi no oku shinbi ni michita hohoemi o ukaberu

Himei to tomo ni nagareru kurushimi o mitsumete

Profundamente nos olhos negros cheios de mistério de encontro com a sua face

Contemple os gritos que fluem com a dor

Por trás, Yoko o acertava com um bastão metálico na sua cabeça.

Perdeu os sentidos.

A música alta explodiu em seus ouvidos.

Ao seu redor, tudo era mescla de preto e cinza, roxo de hematomas e vermelho de sangue. Seis corpos pendiam do teto, seis meninos lindos e desfigurados, seis vidas despedaçadas por cortes e machucados expostos.

Toshi tentou levantar, mas suas pernas não mais respondiam aos seus comandos. Procurou-as com o olhar, mas não pôde achá-las; haviam sido substituídas por figuras disformes e retorcidas, quebradas em diversos ângulos, cobertas por vermelho escuro. Logo a seus pés, Yoko Ashida se contorcia de prazer.

Explícita insanidade.

Shiroi suhada ni shikyuu no kubi-kazari o yosooi

Kyouki no chi to ta tawamure, odori-hajimeru

Use um colar de pérolas em sua pele branca

Paquerando o sangue gritante, você começa a dançar

Esfregava sua cabeça nas poças de sangue, rindo.

Parou ao perceber que estava sendo vigiada de perto.

— O quê? Você não queria me ver bonita? Não era isso que queria ver?

— Todos... — ele apontou com a cabeça para os cadáveres pendurados — todos concordaram... em lhe embelezar?

— Todos disseram que me amavam. Que queria me ver mais alegre, mais viva.

Ela se aproximou dele, comprimindo suas bochechas, cortando-as com um canivete. Lambeu seu rosto.

— E é a morte que permite a vida.

Pavorosamente, mas ainda que de forma delicada, ela passava a faca sobre sua pele pálida. Coletava o fino risco de sangue com a ponta dos dedos e os emendava por entre os cabelos, trazendo de volta a cor de fogo. Tingia-os.

Sua pintura. Sua arte.

Ai o nakushita kokoro satsuriku no yorokobi ni moeru

She will kill to make herself more beautiful

Gisei o houseki ni kaete mo

Um coração que é amor perdido

enquanto queimado com alegria do massacre

Ela matará pra se tornar mais bela

Mesmo se o sacrifício a transformar em uma jóia

E então, bateu-lhe a consciência. Era o fim, era a morte. Toshi tentou erguer-se usando apenas os braços, mas descobriu-os atados a cordas vindas do escuro. De qualquer modo, eles já estavam fracos demais; urgiam de dor a cada facada que recebiam, empalideciam, desfaleciam.

Prendeu a respiração. Quem sabe a dor parasse também.

Dor. Dor. Dor.

Não sentia mais os membros. Era apenas dor. Somente lhe restava a garganta.

Gritou, gritou com todas as suas forças, até sentir sua voz abandonando-lhe.

Higeki no subete o, iki o koroshite mitsumeru

Olhe fixamente para a tragédia em sua totalidade prendendo o fôlego

Yoko deu uma gargalhada descontrolada. O sofrimento era sua diversão, seu prazer, sua loucura. O ápice estava chegando, e ela não queria parar. Desferia golpes, socos facadas. Esfregava o sangue no rosto, nos cabelos, no corpo.

Sangue. Ah, sangue...

Aumentou ainda mais a música, movimentando-se mais voraz a cada verso.

Slice them ! Slice them till they're running in blood

nige-mawaru onna o

Tear up ! tear up till their blood runs dry

hadaka no karada o tsurushi-agete

Nikushimi ni koroshi-au toki no nagare no naka de

chi de arau karada no kagayaki motomete

yokubou ni dakareta kokoro ikiba o mi-ushinai

ai no subete o hiki-saku namida sae misezu ni

Corte-os! Corte-os! Até que eles estejam correndo em sangue

a mulher que tenta fugir

Rasgue! Rasgue até que suas veias de sangue vermelho estejam secas

e pendure os corpos deles nus

Mate um ao outro com ódio no transcurso do tempo

Eu procuro a luz do corpo lavado com sangue

O coração perdido em desejo perde seu chão, dividindo a totalidade do amor

Sem lhes mostrar um sinal de lágrimas

Rosa de dor, olhe para tudo em terror

Rosa de dor

A visão de Toshi escurecia.

Ainda assim, pôde enxergar o pequeno botão de rosa caído no chão, o mesmo que traziam entrelaçado em suas mãos dadas. Não era mais branco. Estava vermelho.

E foi escurecendo...

Dor. Dor. Dor...

The castle became a violent sea of blood

The blood covers the flower, dying it deep red

O castelo se tornou um mar violento de sangue

O sangue cobre a flor, tingindo-a profundamente em vermelho

Até que não pôde mais.

A música silenciou. Num fio de voz, ele murmurou:

Stop ! Stop dying me red

I can't take anymore

You are too cruel!

Stop ! Please stop!

Pare! Pare de me pintar de vermelho!

Eu não posso suportar mais

Você é muito cruel!

Pare! Por favor, Pare!

Peça. Implore.

Yoko tirou de dentro da roupa uma nova faca, como se esta tivesse sido reservada para o momento especial. Era maior, mais fina, brilhante. Assustadora.

Piscou.

No momento seguinte, sangue jogava pela jugular de um Toshi inconsciente. Morto.

O corpo de Yoko foi tomado por calafrios por inteiro, até que ela também caiu. De êxtase.

motome-ai kizutsuku ai o azakeri-warai

soita karada no uruoi-motomete

Kill them all chi-mamire no kokoro subete o mi-ushinai

ikiru zangyaku no naka de namida sae misezu ni

Desdenhosamente, ria de um amor ferido pelo desejo que sentimos um pelo outro

Procure a umidade de um corpo seco

Mate todos, coração sangrento, perca a visão de tudo

Na crueldade de viver, não lhes mostre um sinal de lágrimas

Rastejou-se até o canto oposto do galpão. Empurrou violentamente a porta de um antigo banheiro, minúsculo e sujo. Apoiou-se na pia para poder se ver melhor no espelho.

Vermelha dos pés a cabeça. O sangue escorria-lhe pelos cabelos, como se ainda corresse pelas veias de seu dono. Estava suja em algumas partes, machucada em outras. Contudo, o sorriso permanecia branco.

De repente bateu-lhe o desespero.

Não. Não podia ser.

Matara outro? Era verdade?

Voltou seu olhar sobre o ombro. O corpo de Toshi estatelado no chão era o suficiente para contar-lhe a verdade.

Rose of pain, I don't want to see

Rose of pain, kurushii

Rose of pain

Rosa de dor, eu não quero ver

Rosa de dor, você me dói

Rosa de dor

Empurrando-a vagarosamente, trancou a porta do banheiro. Ajoelhou-se no chão, pensando, lembrando, sofrendo, chorando.

Dor. Dor. Dor.

Ah, dor...

Ficaria ali, como das outras vezes, até que o sangue todo secasse em seu corpo.

Seus cabelos ficariam marcados.

Até a próxima vítima.

In eternal madness we live

Even if it was just a dream

now pain, nothing but PAIN !

Em loucura eterna vivemos nós,

Mesmo se isso fosse apenas um sonho

Agora, dor... nada mais que dor


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