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45 minutos
Chegou 45 minutos adiantada.
“Boa”, pensou. “Agora vou apanhar uma seca”. Dirigiu um olhar horrorizado à fila para os bilhetes que se estendia ao comprido numa atitude, a seu ver, extremamente tortuosa. Com um suspiro resignado, juntou-se a ela.
40 minutos
Um homem tocou-lhe no cotovelo, sobressaltando-a. Num português mal pronunciado – estrangeiro, com certeza – perguntou-lhe se era aquela a fila para comprar os bilhetes de comboio para Lisboa. Assegurou-lhe que sim, para pouco depois se dar conta de que não só não era aquela a fila pretendida pelo estrangeiro como também não a pretendida por si mesma.
“Típico”
Apressou-se a notificar o engano ao homem e mudou para a fila correcta, com o humor ligeiramente mais elevado: apenas uma pessoa se encontrava à sua frente. Comprou o bilhete. Oito Euros. Porquê que insistia em não ter Cartão Jovem? Colocou-se em frente aos painéis que indicavam o comboio, a linha e o horário da partida.
35 minutos
Enfiou a mão nas profundezas da mala, procurou incessantemente o que queria, irritou-se por lhe vir tudo à mão excepto o pretendido e, finalmente, num acto extremamente vitorioso, alcançou o pacote com 5 bolachas Maria que trouxera para o lanche. Saboreou-o, fazendo tempo. Amassou o plástico e deitou-o ao lixo, sem nunca tirar os olhos da malinha de rodas.
“E agora que vou fazer?”, pensou com enfado. Detestava chegar tanto atrasada como adiantada.
30 minutos
A última vez que ali fora, ou seja, no fim-de-semana passado, chegara em cima da hora porque se enganara e entrara numa capela ao lado, pensando ser uma das entradas laterais da Estação… Eram realmente bonitos os azulejos que se podiam observar no interior da Estação… Gostava principalmente do que representava três mulheres e um bebe numa barca no rio Douro. Cativava-a as formas.
25 minutos
Um homem com uma daquelas máquinas fotográficas apoiadas em três longas “pernas” fazia da Estação o seu modelo fotográfico. Era uma boa escolha. Ficou a olhá-lo durante uns segundos, antes de um grupo relativamente numeroso de turistas japoneses lhe inundarem a visão. “Turistas nesta altura do ano? Bem, espreita o Sol e vêm em magotes!”
20 minutos
Começavam a chegar pessoas para o mesmo comboio que ela. Reconheceu alguns jovens que tinham andado com ela na mesma escola do secundário. Gostaria de ter tido mais contacto com eles naquela altura, tal serviria para fazer passar melhor o tempo naquele momento…
15 minutos
Mas claro que eles não a conheciam a ela. Ou então não se lembravam. Só travava conhecimento com os colegas de turma. Não participava em actividades extracurriculares, raramente saía e tinha uma dificuldade de morte para começar (e manter!) uma conversa. Mas isso era agora passado. Porque tudo muda, nada fica igual. E não queria perder mais tempo.
10 minutos
Sentiu alivio quando apareceu a linha do seu comboio nos painéis. Pegou na mala e dirigiu-se para uma das carruagens. Procurar um lugar naqueles “corredores” estreito era uma tarefa heróica. Porquê que aquele comboio era sempre o mais velho da Estação? É verdade que há quem goste de manter tradições, mas aquilo já era um exagero!
5 minutos
Deixou-se cair no assento, depois de ter feito trinta por uma linha para colocar a mala no seu local por cima do banco.
O comboio seria assim tão pouco moderno com a intenção de proporcionar um passeio diferente aos turistas? Claro que não, não havia assim tantos turistas! E isso apenas os afastaria, era mesmo falta de dinheiro… Ou falta de vontade de o inovar.
0 minutos
“Quando chego em cima da hora ou atrasada, ele parte sempre na hora prevista”.
Agora, claro, ia partir atrasado. Dez minutos de atraso.