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Fiction » General » 7 Mulheres e meia font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 31 - Published: 05-27-07 - Updated: 10-24-09 - Complete - id:2367630

De onde venho


A vida tem uma história muito comprida, mas cada indivíduo tem um começo muito preciso: o momento da sua concepção.

(Jérôme Lejeune)


Perguntem-me de onde eu venho, e a resposta outra não poderá ser que a sempre dada. Há vários locais de que eu venho, locais belos, locais inóspitos, locais simples e locais modernos. Há uma pequena aldeia à beira-mar, cujos jovens cresceram e se afastaram. Já pouco mais havia que velhos e velhinhas, pelas ruas envelhecidas, quando a sua natureza reviveu. Era bela, era à beira-mar. “É tradicional” haviam dito. E chegou o turismo, com as suas lojas e hotéis, pessoas jovens e casadoiras, e a aldeia reviveu. Dessa aldeia, venho eu.

Havia uma quinta pelas terras lá do Douro, uma quinta grande e produtiva, de bom e velho vinho, de bons e afáveis produtos. Haviam criados e haviam trabalhadores, caseiros e seus senhores, até uma revolução, sem sangue nem senão. Gritavam por igualdade, democracia e liberdade, e ainda hoje as pessoas se recordam, de tal revolução, esquecendo o negro, a face sombria, que logo ali se sucedeu, com roubos, pancadaria, até abusos por quem não devia. Nessa quinta houve medo, como em todas as quintas em desvelo. Que fazer, como agir? Talvez fugir para o Brasil? Mas nada ocorreu, nada passou, e a quinta continuou, nos seus produtos, nos seus lagares, desafogada na sua quietude. Dessa quinta, venho eu.

Havia uma cidade. Grande, brilhante, barulhenta. Tinha prédios e tinha entulho. Tinha antigo e tinha novo. Era uma bela cidade, de misturas e controvérsias, de novidades e igualdades. A sua história, essa, vem de longe, de outros séculos, intricando-se no tempo, nas gerações se emaranhando. Teve tempos bons e tempos maus, tempos prósperos e lastimosos, nunca estável, nunca igual, é essa a bela, grande capital. E dessa cidade, venho eu.

Havia um homem, havia um rapaz, já adulto, ainda criança, de gostos e mente assaz, com família e sem dizer, com talento e sem dever. Era aluado, era um amor, era já um homem sem pudor.

Havia uma mulher, havia uma jovem, doce, ingénua e generosa, em toda a sua mocidade, era faminta de ilusão. Nunca soube os motivos de quanto quisera o capricho ou lhe dissera o coração. Desse rapaz, dessa jovem, venho eu.

De tudo isto eu venho e de nada disto eu vim, porque não o quiseram porque não o deixaram. Uma dor excruciante, um pavor sem igual, e num minuto me formava, no outro me esfarelava. Quis nascer e quis viver, mas não era certo, não era a altura. A jovem não poderia ser mãe; o jovem não poderia ser pai. E nesse dia em que morri, chorei lágrimas que não brotaram, pela minha vida perdida, agora para sempre esquecida.


N/A: Finalmente, a meia mulher que completa este conjunto de one-shots e a única que se encontrava planejada desde o início. Trata-se de um assunto delicado e não sabia muito bem como o abordar, daí a demora, extremamente extensa. Sim, o narrador é uma criança, uma menina, que por ainda não ter nascido não é considerada como pessoa por muita gente e pelo ordenamento jurídico português, e que foi vítima de aborto. Há situações que eu acho que é desculpável e até justificável que uma situação destas ocorra, mas adolescentes que por próprio descuido engravidaram ou mulheres adultas que consideram que um bebe será apenas um estorvo… Isso para mim já é assassínio. E sim, claro, as adolescentes normalmente não estão prontas para serem mães e tal… Pensassem nisso antes, não digo abstinência mas o que não falta por aí são meios contraceptivos, assim como informação.

Bjs

Ely



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