|
|
| Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search | Login Register Extras |
Oito Estações
Por Sara Lecter
Prólogo
Éramos como qualquer um daqueles pequenos grupos de amigos que se conheceram na adolescência e nunca mais se separaram. Estudamos juntos no secundário em um colégio moderadamente religioso e freqüentemente provinciano demais para as nossas idéias que acabamos nunca pondo em prática. Até aqui, uma descrição genérica que abarca mais da metade dos garotos e garotas da nossa geração, talvez quase todos eles. Normais. A outra grande expressão de como éramos comuns - longe do sentido pejorativo que essa palavra possa ter - residia no modo como nos organizávamos: a maioria dos grupos como o nosso orbitam uma figura central, como se apenas uma pessoa sintetizasse a alma de todos. Desde os meus quinze anos essa pessoa era Alicia, minha melhor amiga.
Alicia era unanimemente a garota mais linda da cidade, bem relacionada, esperta e dedicada na arte de manter um ar despojado que insinuava despreocupação. Para os menos íntimos, era alguém sem qualquer problema. Para mim, que a conhecia bem, era o mais perfeito exemplo de força escondida por um rosto exótico e mesmo assim angelical, que apesar dos problemas - que sim, ela tinha - guardava a chave do segredo com a solução de todos eles. Alicia protegia e era protegida por Gustavo, seu irmão gêmeo com quem cheguei a namorar entre os dezesseis e dezessete anos, igualmente lindo, quase andrógino, um gênio das ciências exatas, metódico beirando a chatice mas divertido como ninguém depois de poucos drinks.
O melhor amigo de Alicia, e também o meu, era um menino socialmente discreto, baterista de uma banda de rock adolescente que tinha tudo para dar errado mas que nunca acabava. Com freqüência Alicia substituía a vocalista, vários anos mais velha que nós e infelizmente desde cedo viciada em drogas pesadas. Carlos, o músico, foi o responsável por um dos maiores choques da minha vida ao assumir sua homossexualidade na época do vestibular. Juro que não fazia idéia. Alicia também não, e me arrisco a dizer que a revelação a abalou mais do que a mim, já que sempre desconfiei que ela nutria por ele um pouco mais do que amizade.
A despeito disso, havia Rodrigo, o mais sério e responsável de nós, estudante aplicado, filho dedicado, sóbrio e equilibrado, o cara que mandou cinco ramos de flores no mesmo dia só para conquistar a garota por quem estava apaixonado. Conseguiu. Alicia e ele namoravam desde os dezesseis, com raras crises nada duradouras, exceto uma, quando passaram três meses brigados enquanto ele estudava dia e noite para ser aprovado na melhor faculdade de medicina do país. Se eu tivesse de escolher entre nós cinco aquele que tinha mais chances de se dar bem na vida, apontaria o Rodrigo sem precisar pensar muito.
Por último, eu. Letícia. Alguém que nunca soube muito bem o que fazer sendo filha de pais que se separaram antes do meu nascimento e tendo avós - maternos e paternos - que achavam que dinheiro em grandes quantidades substituía carinho. Alicia, Gustavo, Carlos e Rodrigo foram a única família que conheci, e os relatos que seguem narram tendenciosa e arrogantemente os detalhes que permearam nossa trágica ascensão à idade adulta, repleta de risos e momentos inesquecíveis, mas também de traumas e perdas que fizeram da “tribo” mais invejada do colégio um grupo conflituoso e heterogêneo de adultos que perderam os melhores anos de suas vidas por crer que é possível ser jovem para sempre sem perder inconseqüência dos vinte e poucos anos.
Nota 2: seguindo o conselho dos amigos mais próximos de mim, Szin e Lu, aventuro-me a partir de agora a escrever dramas, portanto, caros amigos que já me conhecem do fictionpress, não estranhem se não houver mistérios e detetives nessa história. Garanto que o esforço para tornar esse texto digno de sua leitura foi o mesmo.
Nota 3: reviews!!