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Uma Vida Nos Salões
Ah, os bailes, as grandes festas juvenis onde encontramos as peças mais belas de todo o mundo!
Os sorrisos mais doces, as roupas mais exóticas, as pessoas mais interessantes...
Os salões cheios...
Todo jovem tem que conhecer a sociedade, não que eu esteja reclamando, eu adoro ver as novatas chegando. São as mais fáceis de brincar, mas é claro sempre tem aquelas sérias ou antipáticas, ou até mesmo algumas que simplesmente não caem.
Sério! Qual a graça de conhecer a sociedade, a nobreza se vai se esconder todo tempo e não vai se divertir? Não tem graça... nenhuma.
Verdade que não sou mais tão jovem, e realmente nunca fui um dos mais famosos ou notados, mas pude perceber todos, conheço todos. Ou pelo menos conheço seus costumes, o que para mim, não faz diferença. Acho que é possível conhecer alguém pela sua aparência. Não!, recuso-me a deixar que vocês pensem que sou superficial, au contraire, acredito que o melhor da pessoa está em seu íntimo, debaixo de todas as camadas, debaixo de tudo. Mas, infelizmente, o que eu mais gosto nas pessoas deve ser escondido, então tenho que me contentar com a superficialidade que me mostram. Mas paciência! Só porque me mostram algo não quer dizer que não consiga ver algo além.
Acho que é por isso que se surpreendem comigo. Acham que sou vidente por saber dos seus hábitos e segredos mais profundos... Eles vêm até mim com aquele olhar desesperado implorando por silêncio, implorando para que eu os impeça de sofrer tremenda humilhação...
Você não acha que eles ficam patéticos quando fazem isso? Eu adoro, é extremamente satisfatório ver todas as camadas caindo, e eles me mostrarem, todo o seu interior. Infelizmente, esse tipo de pessoa me enoja, fariam de tudo para que eu continuasse no anonimato como sempre estive, para que durante um dos meus delírios não abrisse a boca e falasse demais.
Não, eu não faria isso, embora deles eu sinta nojo, meu ódio por eles pode ser completamente libertado; eles são tão facilmente manipulados... Não é minha culpa se não conseguem se conter.
Mas deixemos de falar sobre eles, não são realmente eles que ocupam minha cabeça.
Nos salões, como já disse, aparecem seres fascinantes, que me atraem e me levam a observá-los. Não são os primeiros e nem serão os últimos a se incomodarem com minha inspeção, mas são educados o suficiente, ou medrosos o suficiente, para não fazerem escândalos e se conterem. O que deixa a observação ainda mais interessante, obviamente! Alguns deles se esforçam tanto que é hilário poder ver seus rostos se modificando pouco a pouco.
Os cavalheiros são extremamente perfeitos para esse papel. Principalmente os rapazes, e de preferência os novos ou inexperientes. Eles se esforçam tanto para serem bem sucedidos, que é gratificante, até mesmo prazeroso, poder acompanhar isso de perto, sendo um obstáculo para eles, pelo menos é assim que eles pensam, mas na verdade eu estou simplesmente lá para ajudá-los, pena que eles não escutam...
Eles são muito temperamentais, rústicos, e extremamente atraentes por terem tantos defeitos. Não conseguem falar nada que não seja algo já há muito delicadamente introduzido em seus cérebros e que darão a eles, sem dúvida alguma, o sucesso na sociedade. Acho muito divertido vê-los se confundirem entre palavras e frases, ver seus rostos simples e juvenis mudarem de cor pela confusão, ver seus gestos, cuidadosamente, preparados para qualquer situação perderem toda sua gracilidade, ou ainda melhor, quando eles não agüentam minha presença, e não suportam meu olhar assim baixando os seus e me ignorando. Ignorando, mas que coisa mais feia, mas quando não me ignoram eles tentam me evitar. O que é meio impossível.
Toda e qualquer pessoa que queira pertencer à sociedade tem que primeiro me encarar, eu não quero me gabar, mas sou muito importante. Bem, não sou tão importante assim, mas meu nome com certeza o é. Então, eu me divirto, e bastante, quando uma das minhas vítimas tenta me ignorar e logo vê que não pode. Eles me acham, como é mesmo a palavra? Sinistro, estranho; sim acho que era isso mesmo. Mas o que tem de tão assustador em olhar as pessoas?
O bom, é que mesmo que não gostem, nada podem fazer. O máximo que podem é me ignorar, o que me deixa completamente frustrado e triste. Como posso ser amigo se não falam comigo? Isso é irritante...
As damas não fazem isso... Elas não me ignoram, na verdade, elas adoram a minha presença, gostam de saber das coisas, e por isso me procuram, são, me desculpem, um bando de curiosas.
Nada contra a curiosidade humana, seria muito tedioso sem o descobrimento de nada. Seria muito tedioso se não pudesse descobrir todos os segredos dos salões.
Elas acreditam que eu seja uma companhia agradável, que eu não sou como um daqueles rapazes, falando com elas apenas por causa de seus dotes. E assim ficamos, conversando e nos divertindo, e o mais engraçado, é que isso chama a atenção de vários dos garotos mais divertidos, não preciso nem procurar junto dessas garotas, todas tão bobas e adoráveis, sempre pensando no seu belo príncipe encantado que chegará a qualquer momento, dizendo belas frases românticas e levando-as até seu maravilhoso castelo. Claro, não vamos esquecer do grande pedido de casamento com direito a uma bela pedra brilhante em seu dedo, depois do jantar à luz de velas, ou um passeio ao redor do lago, ou enquanto vêem a lua e as estrelas da varanda da sala.
Apesar de tudo elas ficam extremamente tímidas ao me contarem essas coisas, acho que pelo fato de eu ser um desses potenciais príncipes. Certo, sei que disse que não era muito famoso ou notado, mas nunca disse que não era charmoso e bonito. Mas também tem o fato de que eu posso, a qualquer momento, esmagar suas pequeninas mentes e seus grandes e apaixonados corações ao contar para um dos rapazes.
Triste, não?
Mas não se preocupem minhas queridas, são de muita importância para mim, nunca faria algo assim para vocês. Além do mais, minhas experiências anteriores com esse acontecimento me lembram de que não foi tão agradável quanto eu pensaria que iria ser, ou quando sabia que o iria, ao deixar rubros dois pombinhos que observei cuidadosamente por meses.
Pensando bem, coitados deles, eram realmente uma réplica de Romeu e Julieta, mas pensando ainda melhor, ainda bem que falei, Romeu deveria morrer antes de conhecer Julieta.
Essas lembranças adoram me levar novamente para o passado, e até gosto delas, até essa garota aparecer e deixar bem claro e transparente, que o único motivo dela era deixar-me louco.