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Porfiria
Tic…
… tac.
Tic…
… tac.
Tic…
… tac
E Kevin Dubrow queria matar o relógio. Dar um belo tiro naquele cuzinho minúsculo, estilhaçar-lhe os ponteiros antes que estes o perfurassem. Porque o relógio estava-o matando.
Como se a maldita folha de papel à sua frente não fosse o suficiente. O exame final encarava-o ignobilmente, desafiadoramente, e Kevin também queria rasgá-lo em pedacinhos. Deflorar a virgindade do papel com um fôlego e uma desenvoltura que também matariam a prova, mas o máximo que podia fazer era perfurá-la lentamente com uma ponta esferográfica e acariciá-la de azul. Ou seria cicatrizá-la? Feri-la?
Decifra-me ou te devoro.
E o silêncio…! Aquele sepulcro desprezível, aquela sala de aula néfia que seria sua tumba acadêmica. Cada tic-tac do relógio era um pulso de seu coração estacionante.
Ofegante, derrotado, Kevin chamou o examinador, entregou-lhe a prova e saiu cambaleante da sala de exame.
Aquilo não poderia estar acontecendo. Deveria ter mijado ou cagado na cruz na encarnação passada. Ou Deus era um hipócrita e possuía um senso de humor negro, esquisito.
Tinha raiva do alfa, aquele cuzinho amarrado. E do beta, aquele falo com as gônadas grotescas. O ômega, aquela bundinha horrorosa. E o sigma era uma buceta quadrada e mal-lavada.
Olhou pela janela, olhou o pátio e olhou o relógio da torre. Via o rosto de Justin em cada ponteiro, em cada vidro, gargalhando-se dele, em sua vingança póstuma, in memoriam.
Lógico, era tudo culpa dele.
Que merda. Tudo um monte de merda.
— E então, está indo bem?
Kevin virou-se e deparou-se com um borrão cor-de-pele, enfeitado com dois pontos brilhantes. Tudo isso flutuando num corredor embaçado.
— Olá, Nigel.
— Como está indo? Foi uma perda e tanto.
Voltou-se para a janela, embora não olhasse para nada. Realmente, brindo aos vermes que roem minhas entranhas.
— Foi mesmo.
— Especialmente após… aquela situação. Todos sentiremos muita falta dele.
Não cabia. Decifra-me ou te devoro.
— Também…
— Você tem certeza de que ficará bem?
— Tenho. — Desinfeta, seu monte de estrume.
A criatura sem-rosto-mas-com-nome obedeceu ao comando telecinético e afastou-se, não antes de um sorriso esdrúxulo. Kevin deu graças a Deus e titubeou até a Eton High Street.
Não era exatamente Oxford ou Cambridge, mas ainda era uma universidade conceituada. Kevin conseguira uma bolsa por jogar futebol — sendo que sua família não possui condições para pagar algo daquele porte. Aliás, era o primeiro Dubrow a chegar a entrar na faculdade.
O mesmíssimo Dubrow que agora derretia sobre as pedras seculares da rua, sua cabeça uma bola de boliche sobre o corpo, gelatina pura. E isso porque não havia bebido nada — ainda.
Pois era exatamente do que estava precisando.
Apenas a obedecer seus instintos mais carnais e suas necessidades básicas, desceu a rua. Um carro passou e quase levou-o junto. Praguejou.
Dong! A torre berrou.
A bola de boliche explodiu. A gelatina fundiu.
Dong! Justin
Dong! Justin
Kevin berrou.
Ele estava morto. Pior, estava fodido.
Era uma vergonha para Eton College. Pior, era uma vergonha para a família.
Não adiantava em nada ter sido o primeiro da classe no colégio agora. Não adiantava em nada. Sequer poderia voltar para casa no Natal. Trancar-se-ia ali — já que o quarto era só dele — e não sairia nunca mais. Que os Patrulheiros do Inferno viessem buscá-lo, jogá-lo na neve ou no Lago Maidenhead.
Abriu o frigobar, pegou uma garrafa de Sky e pulou com ela na única cama utilizável de duas no quarto. Tinha um estoque de vodka, cerveja Corr e rum — não passaria necessidade. Comeria Mayfair e Marlboro, já que também mantinha estoque; tinha maços de dez e vinte.
Tudo isso porque suas notas caíram estrambolicamente em queda livre, de excelente a sofrível, agudamente assobiando. O pior é que nessa queda não teria uma pára-quedas — estatelar-se-ia no chão, tal qual tomate atirado, e explodiria tal qual um gato no microondas.
A boca da garrafa beijou a outra. A lava lambeu o céu da boca sem nuvens e escorreu pelo esôfago, queimando lenta e deliciosamente o tecido muscular até a sublimação. A energia térmica atravessou o tecido adiposo e cálcico até chegar aos dedos dos pés. Em seguida, para misturar-se ao etanol, foi a vez do trio alcatrão-nicotina-monóxido-de-carbono invadir-lhe o sistema respiratório. O monóxido de carbono atravessou seus alvéolos, enquanto o cheiro-gosto agridoce do alcatrão inebriava-o; o primeiro paquerou e deu em cima das hemácias, até que estas, derretidas e apaixonadas, largaram os pobres oxigênios para coabitar com seus novos amantes. As mulheres sempre têm mais afinidades pelos cafajestes — e o próprio Kevin não era diferente.
O objetivo indesejável dos ébrios atingiu-o, o néctar proibido dos maometanos invadiu seus poros e Kevin afundou no mórbido torpor alcatronizado.
Era tudo culpa dele.
Justin. Vou matá-lo de novo!
— Isso é tudo? — indagou a abestada.
— Não, quero mais duzentos pacotes.
— Quantos anos você tem?
— Dezessete — ele se inclinou para frente, os lábios quase colados aos dela — Acontece de eu ter uma vida sexual extremamente ativa, e estou evitando ser regalado com dezoito anos de responsabilidade. Alguma coisa contra? — um sorriso sarcástico — Ou quer tornar minha vida sexual ainda mais ativa?
A atendente enrubesceu e nada respondeu.
Kevin, um tailandês baixinho, magricela e muito fofo, saiu da farmácia assobiando e balançando a sacola inchada de um lado para o outro.
A morte enrolada num cilindro.
Realmente, não lhe importava. Era muito divertido.
Ele podia sentir que aquele seria o ano. Deixara a cidade de Deus-Me-Livre com seus porquinhos e vaquinhas e viera se aventurar na selva de pedra. Aquela era sua chance.
Ao varar a porta de seu dormitório, verificou que havia alguma coisa errada. Bem, não errada, mas diferente. Diferente como uma enorme cruz negra pendurada sobre a cabeceira da cama outrora inutilizada. Diferente como um candelabro em forma de caveira sobre o criado-mudo. Diferente como pôsteres do Black Sabbath, Iron Maiden, Billy Idol, Sisters of Mercy e The Kovenant. Diferente como um loiríssimo alto encarapitado em cima da cama, num sobretudo negro em plenas calendas de setembro e colando um pôster do Deathstars.
— Você deve ser Kevin, certo? — A coisa desceu da cama e estendeu-lhe a mão, revelando anéis e munhequeiras de couro negro com protuberâncias metalizadas. Também reparou num pentagrama — estrela de cinco pontas virada para baixo e inscrita num círculo — que ele pendurava no pescoço. — Justin Usher, um dos Poetas dos Mortos e seu novo companheiro de quarto.
Kevin arqueou as sobrancelhas, sem apertar a mão. — Poeta dos Mortos?
— Byron, Poe, Alex Nox, Lovecraft…
— Hum… — Que ótimo, haviam-no posto com um lunático. Ao menos não era um chaveiro… — ou ao menos que ele estivesse vendo…
— O que está cursando?
— Administração — largou a sacola de compras sobre sua cama, na parte pelada do recinto.
— Eu faço Inglês e Línguas Extrangeiras — acrescentou desnecessariamente.
— Vamos combinar uma coisa, OK? — disse Kevin, sentando-se na cama e tirando suas botas. — Este é o meu lado do quarto e esse é o seu. A fronteira entre os dois só será ultrapassada quando muito necessária e um ignorará o outro.
— Como assim?
— Você não entendeu? — jocoso — Nós moramos sob o mesmo teto mas cada um na sua, como se não fosse. Como se não nos conhecêssemos.
Justin coçou a cabeça, a pele anormal e incomumente pálida — Mas você é meu amigo…
Oh, Céus! Aquele seria um longo dia…
Já era a terceira transferência que pedia — e a terceira a ser negada. Aparentemente, teria que viver sob o mesmo teto daquela aberração até o fim da existência.
Ele não agüentava mais os gemidos de dor à noite, as reclamações, as poesias deprimentes que não queria ouvir, o rock gótico no último volume…
… e os roncos libidinosos; a pele alva de seu pescoço, especialmente quando parecia que não usava nada mais sob o sobretudo negro; o andar rebolante e felino; as mãos pálidas, com os dedos longos e finos; os olhos azuis, os lábios cheios, os dentes brancos, o nariz redondo…
… às vezes insistia em se trocar na sua frente, revelando o corpo magérrimo e frágil, mas ainda assim perfeito; os mamilos enormes e róseos, a penugem loira deslizando e acariciando desde o meio do peito até o umbigo e além; as partes impúberes e salientes olhando-o e desafiando-o, chamando-o, querendo-o; as coxas alvas e os pés; e as vezes que ele irritantemente tomava banho com a porta aberta, deixando-o ver os cabelos molhados e rompendo as ligações peptídicas, a pele virando água enquanto ele a secava, depois as mãos massageando maciamente schlap-schlop, o sabão embranquecedor, borbulhando albino, ocupando a limpeza ocultando schlap-schlop, e ele fechava a torneira, schlap-schlop, e ele saía do box schlap-schlop, e ele se enxugava schlap-schlop, a toalha acariciando surdamente a água, schlap-schlop…
O barulho mais irritante do mundo.
Schlap-schlop.
Aquilo era absurdamente irritante e enervante — a cada vez queria agarrar-lhe o pescocinho, apertar-lhe, puxar-lhe, arrancar-lhe…
Triiim!
— O tempo de prova acabou. Permaneçam em seus lugares que o inspetor passará recolhendo as avaliações.
Kevin ouviu o baque, o pára-quedas caiu sobre ele, acariciou o cóccix e olhou inconsolavelmente para sua prova, na qual a única coisa escrita à mão era seu nome.
Não era o primeiro de muitos zeros.
E era tudo culpa dele.
— Ouch!
Escuro.
— Puta merda!
A luz acendeu. Justin estava com a cara virada para o chão, cuspindo sangue que voltava a manchar seu rosto e a borbulhar.
— Eu odeio você, mas não morra em cima de mim…
Kevin se ajoelhou e levantou o loiro, tentando virá-lo para cima, quando se afastou horrorizado. Toda a macarronada caiu pela cratera que havia em seu ventre; as lingüiças deslizaram pelo carpete, banhadas pelo molho de tomate, enfeitado ainda com almôndegas e afins.
Em seguida, sentiu a calça do seu pijama se inundar. Ao olhar para baixo, constatou, horrorizado, que ela estava manchada de azul.
Não podia acreditar naquilo. Era só o que faltava. Como ele ousara realizar tamanha sem-vergonhice ao seu lado, debaixo de seu nariz?! Mas que horror! Que nojo! Como ele poderia traí-lo daquela forma? Sentia seu sangue borbulhar e sua pele esquentar diante de tanta perfídia! Seus olhos inchavam grotescamente diante da cena imoral que estava pausada ante a ele, como uma fotografia grotesca, sodomita e hedonista. Desilusão. Decepção. Surpresa. Raiva. Ojeriza. Medo. Protesto.
Justin deitado de bruços, com um emo magérrimo sob ele. As pernas de um entrelaçadas nas do outro, e os dois estavam mais do que nus — estavam unidos.
Lençóis no carpete. Boca pasmática aberta. Traição. Sedução. Pernas para o ar — cabeça no carpete.
E o filme saiu da fotografia, da câmera lenta.
— Saia daqui, agora! Entrarei com o pedido de remoção amanha mesmo e mesmo se não sair, você vai janela afora!
— Kevin, apenas escute…
— Já escutei gemidos e foi mais do que demais!
— Kevin, nós…
— Eu sei o que vocês estavam fazendo! Eu vi! Eu ouvi! Saia daqui, agora!
Dito isso, ele próprio se virou e voou porta afora, o pijama esvoaçante e as pantufas deslizantes.
— Não era para você ir embora?
— Espere aí, bebê…
— Esperar para quê? Você não vai voltar mesmo…
Bam!
A precipitação frigélia podia ainda não cair, mas já endurecia seus bráquios. Afinal, qual proteção contra as intempéries climáticas noturnas podia lhe oferecer um parco pedaço de flanela? Sentado no banco da Praça da Biblioteca, com o nada e seu sentimento indescritível, inominável e inefável, angústia inexplicável.
Maldita hora que fôra acordar! Talvez permanecer nos braços de Morfeu teria sido melhor do que ver Justin nos de… argh!
— Eu não entendo você.
Justi havia calmamente aparatado a seu lado, sentado no banco. Todavia, a reação de Kevin foi longe de ser calma: ele pulou e afastou-se correndo do outro.
— Afaste-se de mim! Que nojo! Yuck!
Justin suspirou. Estava exclusivamente enrolado com o lençol. — Eu realmente não entendo você…
— Como você pôde me trair desse jeito? Só pensa em você mesmo!
— Espere um pouco! — o outro se levantou — Como assim, traí você? Não nos olhávamos, sequer tomávamos conhecimento um do outro, como você queria!
— E ainda quero! Nunca mais quero olhar na sua cara, seu… seu…
— Então você é tão nojento quanto eu!
— Que quer dizer com isso?
— Pensa que não reparo em você babando quando estou nu na sua frente? Como agora, aliás?
— Você está louco! — e só tinha olhos para o lençol caindo.
Decifra-me, ou te devoro…
— Agora mesmo está me comendo com os olhos!
— Não sou viado!
— Pois parece!
— Você que rebola e trepa com um cara do meu lado e eu que pareço?
— Sabe de uma coisa? Não sei por que estou tendo essa conversa. Amanhã, sou eu quem pedirá para trocar de dormitório e você estará livre de mim…
Dito isso, virou-se para ir embora.
Tum, e a melancolia bateu de novo. Desilusão. Destino.
Como assim, ele iria traí-lo de novo?
Seu braço agarrou o dele, suas mãos viraram-no, seu corpo se inclinou para frente e seus lábios se grudaram aos dele.
A percepção do que havia feito atingiu-o microssegundos antes da de que havia gostado. Oh, e como havia!
A consciência de Kevin se esvaiu e o cérebro derreteu-se-lhe pela boca. A toalha foi arrancada pelo vento.
Que ótimo, haviam-no posto com um lunático…
E se você acha que está sozinho
Acabou de se encontrar
E se você acha que não terá um fim mesquinho
Acabou de se enganar
Quem disse que o amor não pode acabar?
Quem disse que a felicidade não pode enganar?
Talvez o problema fosse ele.
O humor, a auto-estima, o positivismo do companheiro de quarto caíam proporcionalmente às suas notas. Estava prestes a virar um vegetal, uma geléia de ectoplasma e neurônios estéreis. Vez ou outra gemia seus poemas, que tornaram-se demasiado abstratos para o cérebro brobdingnaguiano de Kevin, mas pelo visto não era para os neurônios em extinção do parceiro. A situação tornava-se de tal modo insustentável que ele evitava voltar e até mesmo dormir no dormitório, tamanho o pessimismo do outro que não conseguia se concentrar nem estudar. Grotesco; desejava seu corpo, mas não sua consciência — sua presença.
O ápice da autodestruição foi dada noite de Novembro, na qual permanecera estudando — infrutiferamente — no Salão Comunal — não havia condições de fazê-lo assombrado por Justin e Marilyn Manson no último volume — e extremamente hesitante em voltar para dormir. Era capaz de passar a noite em claro, pois durante esta provavelmente migraria para a cama do outro, que gemeria suas lamentações e odes profanos no ouvido até acordar. Com estes pensamentos a cabeça foi cair sobre seus livros, estrondo e testa sangrenta, e só se ergueria novamente ao despontar da madrugada.
Não acredito no amor, e ele não acredita em mim.
Por desencargo de consciência, ergueu-se e zumbinolento seus pés tartamudearam até o dormitório. Quando seus dedos do pé ultrapassaram o limiar da porta, tocaram um rio rubro.
Ai, um morcego pousou no meu ombro!
Justin estava ali, isto era fato. Se realmente estava ali, já não lhe competia. Pendendo, quase caindo da cama, o braço esticado imberbe, mais pálido que pálido, com uma cratera no pulso que quase tornava o fim do braço inexistente, uma madeira arrancada, grotesca e farpada, nascente do ribeirão caudaloso que achara foz aos pés do outro.
Kevin soltou um berro. Estava livre!…
…
… e agarrou-se freneticamente ao morto, tentando ressuscitá-lo, chacoalhando-lhe as espáduas, a cabeça dançando no pescoço, os dentes batendo…
— Não, não… Filhadaputa!
Não adiantava. Não havia pulso. Tum-tum.
Ou havia?
Agarrou-se a ele e deitou-se pela derradeira vez com ele, abraçando-o, beijando-o, lambuzando-se de sangue…
… e empesteando a cama e os lençóis de anil, enquanto caía num sono convulsivo e molhado.
O Rio Vermelho deslizou pelo carpete até atingir e acariciar os degraus da escada, inaugurando uma catarata.
Sua visão dançava, diluía, como um ectoplasma borbulhento. As moléculas ópticas valsavam alegremente enquanto a visão enfocava. Quando a geléia tomou forma e cor, a primeira coisa que percebeu foi que estava em sua cama, seca e limpa. A segunda coisa que entrou em foco foi que o chão também estava seco. Morcegou-se em pé e até o banheiro. Ao levantar a tampa, pôr o júnior para fora e começar a urinar, verificou que a água sanitária tornou-se azul de bromotimol.
Ao voltar para o quarto, verificou que estava tudo ali, a cidade e as serras, em seu caos sistemático habitual. Exceto…
— Querido, já acordou?
Estaria delirando, ou aquele seria o Dia dos Mortos e ele um malfadado psíquico? Definitivamente não — a deslumbrante beleza nua que se levantava e caminhava em direção a ele era muito sólida — além de dura e ereta.
Kevin correu em direção a Justin, pulando e pendurando-se no pescoço, joelhos dobrando para prender os pés entre as pernas do outro.
— Você não morreu!!
A velocidade e a massa de Kevin colidiram de tal modo com a massa de Justin que gerou uma quantidade de movimento tal que os dois despencaram juntos no chão e Justin gemeu.
— Eu morro um pouco a cada dia…
Kevin imediatamente buscou pelo pulso esquerdo de Justin: a pele pálida e macia estava incólume, lisa, sem um arranhão.
Agarava-o sufocantemente, sorrindo um sorriso besta em seu rosto.
— Sabe, adoro ter você em cima de mim, mas o chão não está muito confortável…
Imediatamente se levantou, satisfeito apenas de ter o cheiro dele marcado em sua pele.
— Não deveríamos estar em aula?
— Milagre você não estar… já passa de meio-dia.
— E você, não vai?
— Estou muito mais a fim de fazer um menáge a trois com o Sr. Toco e a Sra. Vodka. Não estou com humor para assistir aula… — Seu rosto se fechou.
Kevin colou seu rosto no do outro e roçou sua língua em seus lábios.
— Pode ser um menáge a quatre?
Sorriso maroto. — Ótima idéia.
— Deixe-me só tomar um banho, então.
Kevin virou-se e estava quase voltando ao banheiro quando uma mão agarrou seu braço. — Por um momento, pensei que houvesse me deixado.
As palavras que chegaram à sua língua, mas não foram articuladas: E por um momento, eu havia.
Ao trancar-se no banheiro, a torneira foi aberta e seu rosto mergulhado na água corrente. Um momento de alegria, ofuscado pelas palavras recordantes de tudo o que tornava sua vida um inferno. O pessimismo, o goticismo, o schopenhauerismo, o emismo que o contaminava, inebriava e sufocava como um negro monóxido de carbono, intoxicando sua funções vitais e impedindo-o de viver.
Tentava amá-lo sem odiá-lo, pura e simplesmente, mas tudo o que ecoava em sua mente naquele momento era My Immortal.
E ao erguer a manga esquerda da camisa, seus olhos encontraram vária veias vermelhas e pulsantes, entrecruzantes e finas. O mais importante era que elas cresciam e escorriam por seu braço.
O que está acontecendo?
E ao erguer o rosto e encarar seus olhos vermelhos e mórbidos no espelho, tomou sua decisão.
And though you’re still with me
I’ve been alone all along
Ao sair do quarto, encontrou Justin deitado folgadamente na cama, abraçado a uma garrafa de Absolut e um maço de Mayfair, curtindo a fossa de viver. Kevin deitou-se sobre ele e deixou-o despi-lo, para depois pegar a garrafa e colar seu gargalo nos lábios do outro. O líquido queimante sublimou seu sistema digestório até ele engasgar, cuspir e inundar a cama de vodka. Kevin tomou um gole e depois colou sua língua na garganta do outro, lambendo a água da vida que escorria pela pele quente e pálida. Justin gemeu.
— Nunca fizemos esse tipo de coisa… pervertida antes. — murmurou em êxtase.
— Está na hora, não acha? — e emborcou a garrafa sua goela abaixo.
I’m so tired of being here
Supressed by all my childish fears
And if you have to leave
I wish that you would just leave
‘Cause your presence still lingers here
Duas, três garrafas jogadas marotamente pelo chão, e ele ainda mal falava impropérios. Evanescence ecoava pelo quarto. Merda, vou acabar com o estoque.
— Está tentando me embebedar, é? — um sorriso sôfrego.
— Não seria má idéia — murmúrio orgástico no ouvido.
— Mas, e você?
— Estou bem, obrigado — Bem até demais…
Virou-se de bruços e arregaçou os dois lábios gordos. — Coma-me…
Um sorriso amargo. Uma última vez…
And you won’t leave me alone
These wounds don’t seem to heal
This pain is just too real
There’s just too much that time cannot erase
Após a quinta garrafa estava inebriado, extasiado com serotonina e etanol. Tentava estapeá-lo, berrando que era tudo culpa dele, mas apenas conseguia amassar seu rosto para o lado e derreter sua mão sobre ele numa máscara estética.
— Cale a boca — murmurou Kevin ríspido.
You cried
I’d wipe away all of your tears
You screamed
I’d fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
And you still heave all of me…
Justin pendeu a cabeça para o lado e espetou sua língua para fora. Era hora.
De um salto pegou uma gilete no banheiro e de outro estava em cima dele novamente. Justin mal percebeu sua ausência.
Eu sou gilete.
— Aaaaaah…
Num átimo, a lâmina penetrava causticamente na pele do outro e perfurava suas veias, fazendo verter o líquido da vida. Os sensores nervosos de dor apenas perceberam que havia alguma coisa errada quando o corpo já estava quase sem a mão esquerda. O pulso dobrava para trás num ângulo bizarro, revelando os rasgos slash-slash puídos e fiapados da derme, as farpas dos ossos quebrados penetrando no tecido muscular e, slash-slash, causando mais hemorragia.
Com tudo isso, Justin gemeu baixo.
You used to captivate me
by your resignated mind
Now I’m bound by the life you’ve left behind
Your face is gone
My voice splattered all my dreams
Your voice chased away all the sanity in me
Então, tudo começou a ocorrer por si só. A garganta tingiu-se de vermelho, os olhos esbugalharam-se e explodiram, seu peito estriou, partiu e derreteu como uma geleira, os dedos das mãos e dos pés pularam e sumiram, deixando crateras que mangueiraram sangue. Logo, Kevin estava montado sobre uma massa uniforme de carne, osso e sangue que empapava os lençóis de plasma, pus, fleuma, depois hemácias borbulharam, depois leucócitos borbulharam…
Kevin caiu para o lado, pernas arqueadas ainda cavalgantes, e bateu a cabeça na outra cama, amassando o braço grotesco e arrombado. Do meio da ferradura, houve uma precipitação azul.
These wounds don’t seem to heal
This pain is just too real
There’s just too much that time cannot erase
De casaco de caça, gorro vermelho de lã que apenas revelava seus olhos, saco de batata nas costas, Kevin titubeava à margem de um afluente inominável do Tâmisa. As botas de escalada acariciavam a neve fofa, deixando sua marca indelével para a história, ou ao menos até a próxima nevasca.
Sobre uma ponte de pedra salpicada pela caspa celeste, apoiou o saco de batata na amurada, e ao abri-lo revelou o rosto ligado ao corpo inteiro de Justin. Encostou os lábios nos do outro, num último adeus. O morto correspondeu ao beijo e penetrou a boca do outro com a língua semi-congelada. Após livrar-se dificultosamente do último embrace — porque, afinal, não queria deixá-lo ir — escondeu o rosto do amante e deixou o saco de batata afundar e congelar no peróxido de hidrogênio natural.
You cried
I’d wipe away all of your tears
You screamed
I’d fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
And you still remain all of me…
… I tried so hard to tell myself they are gone
But though you’re still with me
I’ve been alone all along
Ofegante, derrotado, Kevin se ergueu de seu finado companheiro-de-quarto-amante-antagonista-fonte-de-sofrimento, deixando o pulso flamejante e vertente, pulou e abriu a porta.
— Socorro, alguém me ajude!
Mas quem iriam ajudar, o suicida jateando escarlate ou o homicida jateando anil?
You cried
I’d wipe away all of your tears
You screamed
I’d fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
And you still remain all of me…
Os dois rugiam Veni, vidi, vici.
E o que diabos aquilo tinha a ver com cigarro??
O maço de Marlboro voou pelo quarto enquanto a dor de cabeça ressáquico-ébrio-tabagiabstinente invadiu seu encéfalo. E o mais surpreendente de tudo era o fato de ainda estar bêbado.
Após o quase mês de pseudo-coma alcóolico-nicotinóico, em seu retiro torpe e fatigado de fuma-bebe-dorme, revolveu-lhe a lembrança de que estava fodido. Ao erguer o braço sofregamente e verificar que já havia passado do Ano Novo, emergiu-lhe o pensamento de que suas notas chegariam a qualquer momento. E a qualquer momento as férias de inverno terminariam — se já não o haviam — significando que o arrombamento e invasão de seu covil e sua subseqüente expulsão deste eram iminentes.
Mas a culpa era deles. A morte de Justin. Sua subseqüente humilhação. Se o maldito Departamento de Acomodação e Bem-Estar houvesse substituído-o em tempo, Justin, suas notas e sua vaga teriam sido salvos. Não estaria voltando para Deus-Me-Livre e seus porquinhos e vaquinhas com as mãos abanando.
Tinha que contra-atacar antes que fosse tarde demais. Tinha que mijar e cagar em cima deles, mostrar que ainda valia alguma coisa.
Com a urgência formigando em sua pele, emergiu de seu Kevin covil, sua visão uma tela multicolorida e desfocada roubada da Tate Gallery. As cores fúlvias do corredor estreito inundavam e irritavam os olhos encarnados. Desceu a estreita escada de madeira do dormitório, residência estudantil ou o que quer que fosse e aterrissou na Sala Comunal, agora tremendamente deturpada em cores vibrantes e surrealistas, às vezes quase em negativo. Vazia, todos em férias. Titubeou até a porta, desceu os degraus até a calçada, e de algum modo achou seu caminho por travessas e ruelas até a Eton High Street. Subiu a rua deserta, carros passando, o céu laranja com nuvens rosa, os prédios oitocentistas tortos e caindo…
A praça da biblioteca.
Mestres e pupilos singrando o lugar e passando indiferentemente pelo zumbi babão boquiaberto.
O monumento de Sir Winston Churchill. Olhando desafiadora e pomposamente, de cima para ele.
Havia achado seu bode expiatório.
Titubeou lentamente até o monumento, passando pela pequena multidão que o ignorava. Até quando pôs o pé, subiu no pedestal e ficou frente a frente com o desafeto de Hitler não foi percebido ou então impercepção fingida. Abaixou as calças e então as pessoas começaram a olhar. Quando seu púbis foi exposto iniciaram-se os gritos de choque e revolta. Enquanto Church era pintado de azul, ecoavam berros para ele parar ou para tirá-lo dali. Alguns até perguntaram — retoricamente — o que diabos ele estava fazendo. Mas ele não ouvia ruído algum, estava surdo. A urina azul escorria pelo mármore e pelo concreto e se espalhava ao doce som do cinema mudo.
Após a cascata anil cessar, ele se virou e abaixou a parte de trás de suas calças, apenas para aumentar a comoção e tirá-los do choque inerte e iniciar alguma atitude. Entretanto, o esfíncter já havia relaxado e despejava montanha de fezes sobre o antigo primeiro-ministro.
Num berro ele foi arrancado de sua latrina pública, coberta de azul e marrom.
Lá estava ele, subindo os degraus para adentrar na residência deserta. Lá estava um envelope pardo com o brasão de Eton College entrouxado na abertura de correspondência perto do chão.
Ali estava, o ápice de sua derrota, enfiado na porta da casa que antes fôra sua. A prova-mor de toda sua incompetência tamborilando em seus dedos e dando ínfimos eletrochoques. Apesar de não precisar abrir para saber suas notas, queria sentir um prazer quase masoquista em esfregar a prova sólida de seu fracasso em sua cara.
Não. Aquilo não podia estar acontecendo. Depois de tudo o que passara, era aquilo que acontecia? O maldito pedaço de papel encarava-o tanto ameaçadora quanto jocosamente, abrindo sua dentição celulóide para abocanhá-lo.
Decifra-me ou te devoro.
Kevin urrou e arrebentou sua cabeça repetidas vezes na porta até explodir em sangue, enquanto a folha de papel dançava até o chão. A folha de papel que não continha nenhuma nota além de DEZ.
Gotas azuis espirraram sobre ela.