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Fiction » General » Rádio font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Xamblu
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 1 - Published: 09-28-07 - Updated: 09-28-07 - Complete - id:2419994

O rádio e o papagaio eram as suas únicas companhias enquanto ele andava pelas ruas movimentadas de São Paulo. O rádio de pilha fora um presente dos pais, quando ele decidira tentar a sorte na capital e deixar a pequena Pneumonópolis para trás. O papagaio era fruto de um furto. Quando estava saindo da cidade, a caminho da rodoviária, viu o papagaio espremido em uma gaiola, no muro de uma casa. O rapaz não pensou duas vezes, pegou-o logo para si.

Agora ele não sabia quem fazia mais barulho: se era o rádio ou o papagaio, os dois tagarelando a bordo da carroça para recolher lixo.

Quando chegara a São Paulo, ele percebeu que a cidade era um pouco diferente do que imaginava, mas o rádio soube consolá-lo. De manhã até a noite, ele o ouvia. Das notícias (por vezes alarmantes) até a música clássica na hora de dormir, tudo acompanhado pelo papagaio, que repetia tudo o que escutava.

Com isso, a sua vida era mais feliz. Enquanto saía para catar lixo, os três (ele, o papagaio e o rádio) cantavam juntos a plenos pulmões, o que chamava a atenção das pessoas e até gerava algum dinheiro, pois as pessoas gostavam e achavam tudo aquilo muito curioso ou odiavam e pagavam para que eles se afastassem. Desse modo, ele começou a ganhar mais dinheiro cantando do que catando lixo e decidiu se dedicar somente à música.

O problema é que, um dia, um vizinho, incomodado com o barulho constante do rádio, invadiu a casa do rapaz e quebrou o aparelho a pancadas. Para o rapaz, foi como se tivesse matado um amigo. Ele passou a se sentir muito triste e solitário sem a caixinha mágica que continha as vozes das pessoas que ele sentia conhecer tão bem, embora não soubesse nem como eram as suas feições, e as melodias a que ele já se acostumara. Até o papagaio emudeceu e com isso não houve mais cantoria.

Em um domingo de manhã, enquanto andava pela rua, o rapaz viu duas crianças brincando, ouvindo um velho rádio de pilha.

O papagaio foi quem agiu primeiro. Subitamente voltou a cantar e se aproximou do rádio. As crianças, encantadas, tentaram pegá-lo. Ele levantou vôo e, pousando em um lugar ou outro, foi se distanciando, sendo seguido pelas crianças.

O rapaz caminhou discretamente para o rádio que as crianças tinham abandonado, pegou-o e saiu correndo de lá, reencontrando o papagaio em casa, alguns minutos depois.

Após essa pequena aventura, ele tomou uma decisão: voltaria para Pneumonópolis, onde tinha certeza de que sua arte seria mais bem apreciada e onde ele poderia dormir tranqüilo sob um céu estrelado, embalado por um papagaio e uma sonata de Beethoven no volume máximo.



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