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Não adiantavam macaquices — meu corpo, meu lar sucumbiam à força de Deus. Ou seria a força do Homem? Não fiz nada para merecer isso! Como pôde acontecer comigo?! Por que paguei o preço pelos erros de outrem?!
Enquanto meus olhos amendoados buscavam desesperadamente a sobrevivência, recordei a gênese de nosso malfadado destino. Mais do que isso, as imagens passavam vivamente pelos meus olhos, dançando nas chamas e em meus nervos ópticos. Alegrei-me quando meus parentes vieram — não os conhecia, mas alegrei-me mesmo assim. Eram diferentes, enormes, gigantes, pelados (minto: tinha pêlo na cabeça e na cara) e falavam estranho. Pareciam usar peles de outros seres que nunca havia visto, cores multifacetadas. E índoles idem. Ah, se tivessem a consciência de que éramos aparentados! Primos distantes, mas ainda como todos e cada pedaço de mundo, somos. Mas eles só viam verde-amarelo. Verde-grana e amarelo-ouro. Macaco Simão bem dissera que eram perigosos os estrangeiros — os parasitas, como os chamava. Possuíam o comportamento virótico de invadir uma área, multiplicarem-se e multiplicarem-se extorquir todos os recursos até destruí-la, para em seguida buscarem outro lar. Era o que dizia o sábio, que era o prenúncio do fim. Já acontecera em outras áreas, para depois do terreno ser aplanado virem os quadrúpedes marrons mu-mu, de chifre. Esses eu já havia visto — e dos quais não gostava nem um pouco. Os mu-mus dominariam nosso lar, após a chuva de fogo, e que não seria mais lar.
Um raio de fogo, e vi Macaco Simão cair desfalecido. Corri até ele, rabo em pé, juba incandescente, mas não me importava — talvez pudesse salvar alguém.
— Abr’olhos! Abr’olhos!
Mas de nada adiantou. Já era negro e fétido, como as árvores, como os outros, como nosso ex-lar. Logo viriam os mu-mus de chifre e pisariam sobre ele, sem nem ao menos saber que o pó preto fôra alguém.
Então, paulatinamente, cansei. Caí no chão fervente, as brasas comendo meu sangue em ebulição. Tum-tum, tum-tum. Os olhos caem, junto com a noite. Tum… Tum… a língua estiquei, procurando ar inexistente. Tum. Sem ATP.
Silêncio…
… e uma miríade de verde, não da grana, mas do meu lar. Do meu paraíso perdido.
…
Abr’olhos, meus parentes! Eu sou você! Você sou eu!
…
Mas ninguém me escuta…
Ah, se eu falasse a língua dos homens…