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Fiction » Fable » Abr'olhos! font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Alex Nox
Fiction Rated: K+ - Portuguese - General/Drama - Reviews: 3 - Published: 10-16-07 - Updated: 10-16-07 - Complete - id:2427178
Minha cor d’ouro, brilhando e flamejando. Minha penugem tornava-se fogo, enquanto uma pletora de almas saía pela boca, unindo-se a mim em uníssono. Varava a selva de chamas, árvores despencavam, minhas pernas agora negras e fumacentas procurando saída que não havia.

Não adiantavam macaquices — meu corpo, meu lar sucumbiam à força de Deus. Ou seria a força do Homem? Não fiz nada para merecer isso! Como pôde acontecer comigo?! Por que paguei o preço pelos erros de outrem?!

Enquanto meus olhos amendoados buscavam desesperadamente a sobrevivência, recordei a gênese de nosso malfadado destino. Mais do que isso, as imagens passavam vivamente pelos meus olhos, dançando nas chamas e em meus nervos ópticos. Alegrei-me quando meus parentes vieram — não os conhecia, mas alegrei-me mesmo assim. Eram diferentes, enormes, gigantes, pelados (minto: tinha pêlo na cabeça e na cara) e falavam estranho. Pareciam usar peles de outros seres que nunca havia visto, cores multifacetadas. E índoles idem. Ah, se tivessem a consciência de que éramos aparentados! Primos distantes, mas ainda como todos e cada pedaço de mundo, somos. Mas eles só viam verde-amarelo. Verde-grana e amarelo-ouro. Macaco Simão bem dissera que eram perigosos os estrangeiros — os parasitas, como os chamava. Possuíam o comportamento virótico de invadir uma área, multiplicarem-se e multiplicarem-se extorquir todos os recursos até destruí-la, para em seguida buscarem outro lar. Era o que dizia o sábio, que era o prenúncio do fim. Já acontecera em outras áreas, para depois do terreno ser aplanado virem os quadrúpedes marrons mu-mu, de chifre. Esses eu já havia visto — e dos quais não gostava nem um pouco. Os mu-mus dominariam nosso lar, após a chuva de fogo, e que não seria mais lar.

Um raio de fogo, e vi Macaco Simão cair desfalecido. Corri até ele, rabo em pé, juba incandescente, mas não me importava — talvez pudesse salvar alguém.

— Abr’olhos! Abr’olhos!

Mas de nada adiantou. Já era negro e fétido, como as árvores, como os outros, como nosso ex-lar. Logo viriam os mu-mus de chifre e pisariam sobre ele, sem nem ao menos saber que o pó preto fôra alguém.

Então, paulatinamente, cansei. Caí no chão fervente, as brasas comendo meu sangue em ebulição. Tum-tum, tum-tum. Os olhos caem, junto com a noite. Tum… Tum… a língua estiquei, procurando ar inexistente. Tum. Sem ATP.

Silêncio…

… e uma miríade de verde, não da grana, mas do meu lar. Do meu paraíso perdido.

Abr’olhos, meus parentes! Eu sou você! Você sou eu!

Mas ninguém me escuta…

Ah, se eu falasse a língua dos homens…



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