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Fiction » General » Julie Franklin e o Outro Lado do Crime font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Mystery - Reviews: 29 - Published: 11-11-07 - Updated: 01-02-08 - Complete - id:2437182

JULIE FRANKLIN e o Outro Lado do Crime

Autora: Sara Clarice Lecter

Categoria: Geral, Mistério.

Rating: indicado a maiores de 13 anos.

Spoilers: Julie Franklin e o Mistério do Falso Conde, Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto e Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor.

Sumário do capítulo: em diferentes partes do mundo um crime se desenha, assim como os planos para detê-lo. Na Grécia um temido terrorista se preparara para atacar a Europa; em Buenos Aires um jovem casal se envolve em um romance proibido; no quartel general da Interpol, na França, medidas são tomadas para reunir quem consiga impedir o ataque. Para quem já conhece a série, há a volta de alguns membros da equipe de Julie Franklin, a qual, conforme o esperado, continua desaparecida.

Disclaimer: as personagens são minhas, o mistério é meu, a idéia toda foi minha, só minha e ninguém há de roubá-la, ou mando Julie Franklin em pessoa atrás do infeliz. Ademais, os cenários existem e procurei ser o mais exata possível nas descrições. Antes que eu me esqueça e só recorde ao sofrer um processo: três personagens – que já apareceram antes, pelo menos um deles – são pessoas reais, que existem, que levam uma vida – pelo menos ao que se sabe – digna, mas que para o bem da minha fic, tiveram sua personalidade moldada segundo meus desejos. Dizer quem são estragaria a graça da coisa, mas se você que está lendo viu o seu nome aqui e não concorda em aparecer como ladrão, assassino, falsário ou coisa assim, sinto muito. Procure meu advogado :P


Prólogo

As frias paredes do Conservatório Nacional de Música abrigavam o silêncio de uma madrugada escura no ano que em Buenos Aires voltou a ver a neve cair sobre seus charmosos edifícios neoclássicos. Três horas e meia depois do início de uma segunda-feira, Sebastian consultou o relógio de pulso largado às pressas sobre o móvel de cabeceira. Acariciou o ombro nu da amante e hesitou em se levantar.

– Fran?

– Hum?

– Perdi a hora, tenho de ir.

– Hu-hum.

– Continue dormindo.

– ‘tá.

Ela nem chegou a acordar, pelo menos foi essa a impressão que ele teve. Sebastian se vestiu e deixou o quarto silenciosamente. Avançou com cautela pelos corredores do conservatório, com a estranha e para ele ridícula sensação de que alguém o observava, desceu pelas escadas de emergência e encontrou seu porshe negro na garagem. O vigilante não pediu explicações ao ver seu crachá. Dirigindo despreocupadamente pelas ruas da mais charmosa capital da América Latina, o empresário escolheu um CD de eletro-tango para ouvir até chegar em Puerto Madero, onde comprara recentemente uma cobertura para abrigar a mulher e o filho pequeno. Nunca se preocupava em verificar o banco de trás antes de trancar as portas. Não teve dificuldades em inventar uma boa desculpa para o atraso, o terceiro dos últimos dias. A esposa era uma jovem herdeira, filha única de um magnata da indústria cervejeira e parecia sempre muito mais interessada na cadela puddle que nos horários do marido.

Sebastian O’Higgens era amigo e braço direito do dono do Museu de Arte Latina de Buenos Aires, notório por abrigar milionárias peças raras de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Frida Kahlo, entre outros. Seu acesso irrestrito à ala domiciliar do Conservatório de Música se devia justamente ao fato de Constantini, o dono do MALBA, confiar a ele a manutenção das obras que ele guardava no porão da secular construção, contando com o fato de poucas pessoas saberem disso. O que era de conhecimento público, entretanto, era uma lenda envolvendo aquele lugar. Não eram poucos os que afirmavam que o porão era assombrado, e alguns eventos inexplicáveis, acontecidos anos atrás, apenas reforçavam os boatos.

“Fran” era a inocente professora de piano, uma francesa radicada em Buenos Aires, segundo ela, há cinco anos, que assumiu a vaga depois da inesperada morte de sua antecessora, no porão. Françoise Allegra angariara a simpatia dos alunos e dos colegas de trabalho com facilidade, dotada de uma simpatia e discrição admiráveis. Resistira por semanas ao flerte de Sebastian, até cair em seus braços numa noite de chuva e trovoadas em que o Conservatório parecia ir abaixo. O envolvimento dos dois era ocultado por ambos com maestria, ao ponto de todos com quem conviviam crerem que se conheciam apenas de vista, dos corredores da escola. Sebastian, entretanto, cometeu o grande erro em uma situação delicada como essa: estava começando a se apaixonar.


“Thales”. Era com esse nome simples e comum que todos conheciam o homem que deixou seu jato particular em um pequeno aeroporto de uma ilha remota, na Grécia. Cinco seguranças fortemente armados o seguiam onde quer que fosse. Seu rosto sério e sempre coberto pelos óculos escuros era atravessado por uma cicatriz resultante de um acidente que quase lhe privou do olho esquerdo, quando não passava ainda de um fabricante clandestino de bombas caseiras. Poucos são os que sobrevivem fazendo carreira no mundo do crime. Thales tinha nas costas o peso da morte de mais de oitenta pessoas, isso desconsiderando as baixas causadas por seus artefatos, disputados à bala no mercado negro asiático.

Ele se tornou notório quando descoberto como chefe de uma organização que fornecia instrumentos bélicos para os revolucionários separatistas chechênos, em sua guerra contra a Rússia. A partir de então, caçado como um animal raro, teve a cabeça posta a prêmio por autoridades de diversas nações, mas um homem como Thales Nassar não se deixaria apanhar tão facilmente. Principalmente porque, tendo um vista um novo e arrasador ataque terrorista, cobriu-se de toda a segurança que poderia pagar. Sendo ele um traficante de armas – a segunda atividade mais lucrativa do mundo –, foi relativamente fácil se esconder da Interpol para adiantar seu plano. O problema é que ele precisaria das pessoas certas para colocá-lo em prática e o único nome que lhe veio à mente estava fora de atividade há algum tempo. Mais do que isso; segundo seus informantes, abandonara o crime para sempre.


A professora de piano encerrou mais cedo sua aula de terça-feira. Praticamente não dormira naquela noite e alguns alunos notavam o seu cansaço. Abrigada em seu quarto, meia hora mais tarde, Françoise ouviu uma batida leve na porta e sorriu.

– Posso?

– Claro.

Sebastian trancou a porta assim que passou por ela. Não queria ter de inventar uma boa desculpa se alguma freira o visse no quarto de uma das internas do conservatório, mesmo que fosse uma professora.

– O que é isso? – ela se referia ao que ele carregava com dificuldade, um imenso pacote com a etiqueta de uma empresa de exportações.

– Um quadro vindo de Londres, acabei de buscar no porto. É de um amigo que o emprestou para Constantini. Parece que o homem está para morrer e como sabe que meu chefe aprecia muito Frida Kahlo, resolveu-

– Tudo bem, tudo bem. – ela o interrompeu. – Perguntei por perguntar, não precisa me dar tantos detalhes desse seu trabalho misterioso.

Ele riu.

– Como foi a aula? – Sebastian perguntou enquanto se sentava ao lado dela, na cama, e começava a lhe beijar o pescoço.

– Agradável, os alunos estão cada vez mais interessados.

– Eu me interessaria por qualquer coisa menos piano se tivesse uma professora assim... Aposto como todos os seus alunos estão apaixonados por você... é por isso que parecem interessados, querem chamar a sua atenção.

– Que tal acreditar que eles gostam mesmo de música? Que minhas aulas são boas?

– Eu acredito! – ele começou a tirar o casaco dela, que não ofereceu qualquer resistência. – Mas ficarei de olho nos garotos, se algum deles passar do ponto terá de se ver comigo...

– Hum, o que é isso? Ciúmes? De garotinhos?

– Prefiro não correr o risco e não descartar ninguém. – ele a beijou ardentemente, enquanto se livrava da própria roupa. – Nem mesmo essas freiras carolas que vigiam o corredor. Devem ser todas lésbicas!

Françoise gargalhou e interrompeu o beijo, mas não por muito tempo. Mais tarde, quando Sebastian deixou o Conservatório, estava feliz demais para ouvir o som discreto dos passos que o seguiam pelos corredores de pedra. E iludido demais para se dar conta que aquele era um jogo perigoso.


Uma jovem arrumou a alça da bolsa sobre o ombro, pôs os óculos escuros e deixou um requintado hotel na Cidade do Cabo. Andou algumas quadras prestando atenção nas vitrines das lojas e ignorando completamente o movimento da rua em uma manhã muito quente. Tirou do bolso o telefone celular e ligou para os pais, que moravam em um pequeno chalé, a única herança que algum dia ela receberia na vida. Filha de imigrantes, fora criada na grande comunidade britânica da cidade, mas apenas uma vez – ainda na infância – conhecera a Inglaterra, de onde seus pais partiram muito jovens para tentar fazer fortuna na ex-colônia, um plano que não dera certo sob nenhum aspecto.

Sophie tinha poucos amigos, nenhum deles muito íntimo. Saía bastante, era solteira por opção e morava sozinha há uma década, em um pequeno apartamento no centro. Sabia jogar com o fato de sua aparência chamar mais atenção que sua personalidade e se esforçava para manter jovem o belo rosto que nunca passava despercebido na multidão. Gostava de exercícios, se alimentava corretamente e dormia pelo menos oito horas por dia sempre que possível, mesmo que seu turno de trabalho fosse o da noite. Andando pelas ruas de sua cidade natal, como de costume com os pensamentos muito longe dali, não percebeu que era seguida por dois homens trajando terno e gravata. O mais alto deles trazia consigo uma página impressa com uma foto colorida - um rosto de mulher – um nome e alguns dados pessoais.

- Idênticas. – comentou com o outro, quando Sophie acabara de entrar em um prédio residencial modesto.

Na mesma hora o outro fez uma ligação internacional informando que a primeira parte de sua tarefa estava concluída.

Com seis bilhões de seres humanos no Planeta Terra não é difícil acreditar que haja duas pessoas – estranhas e sem qualquer proximidade genética – que pareçam fisicamente iguais. Foi acreditando nisso que os dois agentes da polícia internacional iniciaram sua busca, a mando da Alta Comissária do ICPO. Se a teoria estivesse certa, havia uma ou mais “cópias” de uma certa criminosa andando inocentemente por aí. Dada a delicada situação, mesmo que improvável, seria mais fácil encontrar um desses clones do que a original, famosa por despistar até mesmo os melhores agentes da Interpol.

- Ótimo – disse uma voz masculina do outro lado da linha. – Agora vem a parte complicada: precisamos fazer com que essa garota aceite se passar por ela.


A grade foi aberta e ela entrou em uma pequena sala, no prédio da administração da penitenciária onde cumpria sua longa pena. Algemada, sentou-se diante de um homem que ainda não conhecia, o cumprimentou com polidez e abriu a pasta que ele lhe entregara. Sorriu ao avistar o emblema tão conhecido: o globo terrestre representando o trabalho sem fronteiras, dois ramos brancos de oliveiras simbolizando a paz, uma espada mostrando a força do trabalho policial e uma balança cujo significado oficial era justiça. Além, é claro, do nome da instituição: Interpol.

– Obrigado por me receber, mademoiselle Jaurès.

– Não agradeça agora. Diga-me o que o ICPO quer de mim.

– Sua ajuda.

– A Interpol me esqueceu nessa prisão depois de me colocar aqui. Não consigo imaginar no que posso ser útil.

– Consegue sim. Basta lembrar que não fomos nós que lhe colocamos aqui.

– Ah sim. Fiquei sabendo do óbito do detetive Wace. Sempre desconfiei que ele trabalhava para vocês, mas deixaram a Franklin escapar de novo. Uma pena... – ela fingiu lamentar dramaticamente.

– Poupe-me, Carmen. Já leu?

– Claro que sim.

– Então? Temos um acordo?

– Não. – ela sorriu e virou o rosto, levantando discretamente a mão esquerda. – Guarda? Pode me levar de volta? Nossa conversa terminou.

– Hei hei hei! Espere! Você ficará presa pelo resto da vida. O que tem a perder? Assassinou duas pessoas a sangue frio, tem idéia de como foi difícil convencer a justiça francesa a lhe oferecer esse indulto?

– Tenho certeza que a Lachaise pode conseguir algo melhor. Ao que pude perceber, ela parece fazer questão do meu auxílio. – Carmen se curvou sobre a mesa. – Detalhes! Eu quero detalhes do que terei de fazer, só trabalho cinco dias por semana e não volto para cá em hipótese alguma.

– Você perdeu a noção da realidade?

– Duas palavras antes que eu me retire: prisão domiciliar. Até logo!


Bianca desceu as escadas apressada e num movimento rápido afastou do seu rosto a mecha de cabelos negros que charmosamente o encobria. Olhou no relógio para se certificar de que estava propositalmente atrasada. Nunca chegava no horário para nada. Esperando-a enquanto tentava se habituar ao sol de Roma, estava um inglês alto de porte atlético que terminava seu cigarro já irritado por ter de esperar.

– Mais um minuto e eu a deixaria plantada aqui. Não suporto sua irresponsabilidade.

– Bom dia para você também. – ela respondeu, divertida. Trazia no rosto um sorriso de quem acabara de receber uma ótima notícia. – Aeroporto, por favor.

– Isso não é um táxi, sabia? – devolveu Kevin.

– Estou indo para Londres, parece que o chefinho precisa de ajuda. Não quer ir comigo?

– Pode ser arriscado. Dois de nós no mesmo vôo chamará atenção.

– Tem razão. Mais do que nunca, temos de ser invisíveis.

Seguiram juntos até o aeroporto, onde se despediram brandamente. Vestiam roupas discretas e sempre agiam de modo a não despertar interesse algum. A discrição era fundamental para seus negócios.


O Quartel General da Interpol, no sul da França, estava movimentado novamente. Há meses relativamente parado, o lugar mais parecia uma feira popular, pessoas gritando de um lado para o outro, papéis se perdendo em meio aos fios cruzados de telefone, segurados por engravatados nervosos que berravam e tentavam ouvir a resposta do outro lado da linha. Quase uma dezena de monitores mostravam imagens disformes de mapas e circuitos de televisão de várias partes do mundo. Afixadas nas paredes estavam listas imensas em que cada nome era ligado por uma linha vermelha a uma foto ampliada que não raramente trazia um rosto carrancudo de alguém segurando uma placa cheia de números em frente a uma parede com uma régua. Às fotos mais importantes, estava ligado ainda um organograma com outras fotos e informações. A foto do centro era de Thales Nassar, para a qual convergiam todas as linhas, inclusive as de mapas dos principais pontos turísticos da Europa Mediterrânea.

Enquanto isso, alguns andares acima, no escritório central, uma mulher de expressão séria e compenetrada ouvia a explanação de um velho amigo, com o qual trabalhava há muito tempo.

– Essa caçada ao terrorista grego é sua nova prioridade?

Nossa nova prioridade, Ian. Os melhores detetives estão atrás dele. Recebemos informações de todos os cantos do mundo, o tempo todo.

– Algum progresso?

– Pouco, você sabe. Thales sabe mesmo como se esconder.

– E o que tem em mente?

– Por que acha que já pensei em alguma coisa?

– Porque você sempre tem uma carta na manga, Suzanne.

– Tem razão, mas só cheguei até aqui porque não precisei usar a maioria delas.

– Está sendo pressionada?

– Como nunca. – ela suspirou cansada. – Tenho certeza de que ele agirá em breve e me sinto de mãos atadas! Perdi meus melhores agentes recentemente.

– Fiquei sabendo. E a investigação na República Dominicana? Encontraram algo?

– Não, o lugar explodiu. Mais um caso arquivado, como todos os outros.

– Compreendo. Verei o que consigo na Yard.

– Não se incomode, Ian. Só quero pensar em Thales Nassar agora.

O nome que representava o ICPO na imprensa internacional era, desde 2005, Ronald Kenneth Noble, um americano com décadas de experiência na polícia internacional. Para os comuns, o subtítulo abaixo de seu nome – Secretary General – o colocava como chefe, evitando assim que o nome de Lachaise fosse exposto. Foi exatamente Mr. Noble que entrou na sala da Alta Comissária quando o diretor da Scotland Yard acabara de sair.

– Suzanne...? Ocupada?

– Não para você, Ron. Entre, por favor.

– Trouxe uma companhia. – disse ele, conduzindo pela mão uma jovem que despertou um sorriso misterioso na face de Lachaise. – Esta é Sophie Neil. Sophie, esta é Suzanne Lachaise, a alta comissária do I-

– Inacreditável. – disse Lachaise, interrompendo a apresentação. – Quantos anos você tem, Sophie?

– Trinta e um. – a jovem respondeu, nem um pouco intimidada.

– Usa drogas?

– Não.

– Já usou?

– Sim.

– Ficha policial?

– Limpa. – esclareceu Noble. – E então, o que acha, Suzanne?

– Fisicamente parecida, nem precisaremos de plástica no rosto, como eu imaginei, mas faremos algumas coisas, nada sério, uma cicatriz nas costas e... um belo banho de loja.

Sophie não gostou do comentário. Lachaise sorriu.

“Nunca deixe seu humor escancarado no rosto.

– Vá com calma, Suzanne, ela acabou de aceitar o acordo.

– Já sabe o que tem de fazer?

– Fingirei ser outra pessoa. – respondeu Sophie.

– Isso é que o você pensa... onde nasceu?

– Cidade do Cabo.

– Escolaridade?

– Direito. Nunca exerci.

– Onde trabalhou?

– Fiz de tudo um pouco.

– Por exemplo?

– Hotelaria.

– Fala francês?

– Alemão, italiano e japonês instrumental.

– Aprenda espanhol e tcheco.

– Ahn?

– Terá os melhores professores do mundo, não se preocupe. E bastante tempo para praticar. O departamento já cuidou de tudo, você foi substituída no trabalho, sua família acha que você ganhou uma bolsa de estudos e vai para a Inglaterra, seus amigos pensarão a mesma coisa. Dois de nossos agentes cuidarão para que não seja investigada.

– Estou sabendo dessa parte.

– A partir de hoje seu endereço é o centro de treinamento do ICPO. Nada de folgas, de telefonemas, muito menos internet. Você vai esquecer seu próprio nome, seus gostos, vai mudar o ritmo da sua respiração, a expressão do seu rosto, de preferência a perca; vai suprimir qualquer sotaque no francês, aprender geografia, vai assistir horas de gravações, mudar sua voz, estudar uma série de pessoas que terá de enganar...

– É trabalho duro, Sophie. – disse Noble.

– A boa notícia é que você só precisa se passar por ela por algumas horas, pessoalmente, além de fazer alguns telefonemas.

– E a má notícia, qual é?

– Todo o resto são más notícias.

Sophie respirou fundo. Quando entrou em seu novo quarto, no subsolo do QG, um dossiê com seiscentas páginas estava sobre a cama, junto com o bouquet de rosas brancas e um bilhete de Ronald Noble: “lido para amanhã, às cinco.” E assim começou seu treinamento.


Françoise usava as folgas de sábado pela manhã para deixar o Conservatório de Música. As freiras sabiam que ela usava as quatro horas que passava fora do lugar para caminhar por Buenos Aires e comprar revistas inocentes, às vezes de música, às vezes de culinária e bordados. Sabiam disso porque assim que ela atravessava a rua, entravam em seu quarto e vasculhavam cada centímetro do lugar, as malas, o armário, embaixo do colchão. Professores novos geravam desconfiança, mas elas estavam cada vez mais tentadas a acreditar que não havia nada de errado com a inocente francesa que se candidatara para a vaga aberta nas aulas de piano.

Como mantenedoras, as religiosas tinham acesso a qualquer lugar do imenso prédio histórico, exceto, é claro, o porão. As mais velhas transmitiam todos os anos às noviças a lenda de que o lugar era assombrado, de modo que depois de mais de duas décadas, todas sabiam dos fatos estranhos ali ocorridos apenas por terem ouvido falar. Constantini, o empresário que usava o local como depósito secreto, usou sua influência para que o quadro de freiras fosse renovado constantemente, assim como o de professores da escola de música que ali funcionava desde o final do século XIX. A única pessoa que trabalhava ali desde que o porão fora fechado para ser usado por ele, e que portanto poderia dar uma explicação racional para a interdição do local, era Alicia Gusman, mas ela estava morta. Morreu misteriosamente durante uma madrugada na qual resolveu desrespeitar as regras e entrar no porão.

Françoise ouvira apenas rumores sobre a morte de sua antecessora e fez questão de não se interar dos detalhes. Embora declaradamente cética, não foi difícil para as freiras perceberem que ela era facilmente abalada por histórias do tipo. Uma mulher frágil. “Medrosa”. Tanto melhor, pensaram as religiosas, ao decidir contratá-la. Uma professora assim seria manipulável. O que elas não esperavam era que seu caso secreto com o representante de Constantini fosse despertar sua curiosidade sobre o maldito porão, onde apenas Sebastian O’Higgens podia entrar.


Felicia ria de uma brincadeira de Caio com o filho no colo. Os dois estavam distraídos com sua rotina doméstica, preparando o almoço e cuidando de Timmy, em sua tranqüila residência no litoral da Itália, próxima do local onde crescera o espião e onde ainda moravam seus pais. Ao leste havia uma cadeia de montanhas que isolava a pequena cidade do resto do mundo. Também era o local onde um homem se escondia para vigiar todos os passos do casal, que acreditava estar a salvo, longe o suficiente do turbulento passado no crime através do qual se conheceram.

– O que você acha que a mamãe está preparando, hein? – perguntou Caio ao filho, que mesmo tendo apenas alguns meses de vida, pareceu entender. – Eu acho que teremos pizza no almoço...

A médica virou-se para o marido.

– Estou ficando tão previsível?

– Está com uma forma redonda nas mãos, meu amor. – respondeu ele, piscando o olho esquerdo, mas Felicia já não estava mais olhando.

– Caio, traga Timmy aqui, sim?

Ele percebeu que a expressão dela mudara completamente.

– O que houve?

– Lá! – ela apontou discretamente, tomando filho no colo e caminhando para a sala. – Não deixe que percebam, vi o reflexo de uma lente, pode ser um binóculo.

– Caçadores, meu bem. Ou algum turista, quem sabe até um fotógrafo perdido da Nacional Geographic. Não há motivo para nos assustarmos, estamos a salvo aqui.

Caio a abraçou, mas Felicia passou o resto do dia olhando discretamente pela janela da cozinha, tentando ver mais alguma coisa. O que quer que tenha sido, ou quem quer que tenha sido, escondeu-se melhor durante a tarde. À noite, depois de porem Timmy para dormir, voltaram ao assunto:

– Hei, por que não relaxa e esquece isso? Não foi nada... quem poderia estar nos vigiando?

– Quer a lista por ordem alfabética?

– Estamos a salvo aqui, eu cuidarei de você e do nosso filho, está bem? Confie em mim.

Felicia confirmou movendo a cabeça e se voltou para o outro lado da cama, como se fosse adormecer. Mas Caio foi o único a pegar no sono.


Jessica admirava os quadros que adornavam a parede oeste da grande galeria, no centro do Museu Nacional de Arte da Cidade do México. Desmond a esperava no pátio do imenso prédio neoclássico que abrigava uma das mais belas coleções do mundo, devorando um saquinho de pipocas e bebendo Pepsi.

– Que demora, pensei que teria de mandar uma equipe de busca! – disse ele, assim que ela apareceu.

– Poupe-me, Desmond.

– O que ficou fazendo lá dentro? Não me diga que o novo plano do Jack é roubar isso aqui? – ele apontou para o prédio.

– Seria divertido. – comentou Jessica. – Mas não, eu só estava me distraindo um pouco, estudando uma certa artista mexicana.

– Podemos voltar para o hotel?

– Não temos nada para fazer no hotel, essa cidade é linda, tem milênios de história, há muito o que explorar...

– Milênios? Foi descoberta no século XVI...

– Sua ignorância é admirável, Desmond. A Cidade do México era a uma das maiores do mundo no ano mil, muito antes dos europeus chegarem aqui. Foi a capital do Império Asteca.

– Andou tendo aulas com o Clark?

– Qualquer um sabe disso.

– Pra mim é besteira. Vou voltar para o hotel, três museus e dois parques são o suficiente por um dia para mim. E já que você não tem idéia do que podemos fazer em um quarto, tratarei também de arrumar companhia.

– À vontade. – respondeu Jessica, chamando um táxi e seguindo pela Alameda Central até o Castelo de Chupaltec.

Quando voltou ao hotel, já tarde da noite, Jessica encontrou Desmond dormindo seminu sobre a cama. Foi direto para o banho e teve de acordá-lo quando saiu, secando os cabelos negros com uma toalha.

– Jack ligou. – ele disse, esfregando os olhos.

– Eu sei, ligou para mim também.

– Vamos jantar? Estou morrendo de fome...

– Peça alguma coisa do serviço de quarto, eu já jantei. Mas seja rápido, nosso vôo parte no começo da madrugada.

– Ahn?

– Jack não lhe disse? Partiremos logo, ele e Bianca acabam de voltar de Londres, nos aguardam em Paris.

– Que ótimo, basta ele chamar e você volta correndo.

– Esse é o nosso trabalho. Já fiz o que tinha de fazer aqui, só gostaria de ter aproveitado melhor a cidade. Minha segunda vez aqui e novamente tenho de partir correndo.

– Segunda? Quando esteve aqui da primeira vez?

– Com Julie, Clark e Caio, há alguns anos.

– Por falar na minha irmãzinha, alguma notícia dela?

– Nenhuma. Parece que ela realmente não quer ser encontrada.

– Estive pensando em uma coisa, enquanto você não chegava.

– Continue... – disse Jessica, enquanto se vestia.

– Jack vive repetindo as regras do nosso trabalho, imagino que só para me irritar, mas uma coisa ficou na minha cabeça.

– Pare de me enrolar e vá direto ao ponto.

– A punição para traição é a morte, não é?

– Você está cansado de saber que sim. Por que, pretende tentar algo contra nós?

– Eu não. Soube que Julie se encarregava pessoalmente das execuções e que ninguém, até hoje, escapou. Nem mesmo o Wace.

Jessica finalmente se interessou pelo assunto, encarando o amante muito séria.

– Julie nunca foi de abrir exceções.

– Já sabemos que ela se contentou com apenas a prisão do Jack porque foi ela, na verdade, que simulou o desfalque, seja lá qual tenha sido o motivo disso. E a traição dele foi pessoal, não com relação à equipe.

– Sim.

– Entendeu o que quero dizer? Você estava na Gasconha, tudo o que sei vem do que me relatou, então me avise se eu estiver errado, mas Carmen Jaurès não apenas acabou com o trabalho de vocês no castelo de Beaumarchais como tentou matar Julie e Wace. Duas vezes!

Desmond sorriu ao ver que deixara Jessica muito intrigada.

– Carmen cumpre pena perpétua na Ille de France.

– Viva, de qualquer forma.

– Desmond, isso é... ela é uma arma! A razão de acabarmos com quem nos passa para trás é o fato de essas pessoas possuírem sobre nós informações que poderiam nos prejudicar. Carmen está fora há dois anos, mas sabe praticamente tudo sobre a equipe, foi a assessora direta de Jack e depois de Julie!

– Aposto o que você quiser como ela não cumprirá essa pena até o final. Se minha irmãzinha a deixou viva é porque ainda precisa dela.

– Julie estava ocupada, teve um affaire com o Conde. Carmen foi presa e deve ter recebido proteção do IPCO, por isso sobreviveu.

– Mas até hoje não contou nada, contou? Continuamos todos livres... mesmo com as tentativas do Wace, que aliás era muito mais próximo de Julie e de qualquer forma agora descansa e paz!

– Jack precisa saber disso. – disse Jessica, apanhando o telefone celular.

– Vocês não têm ninguém monitorando os passos de Carmen?

– Era Julie quem fazia isso.


Charles e Clark terminavam a terceira partida de xadrez, na sala da casa que voltara a ser a residência oficial da equipe em Paris, na Ille de la Cité. Embora a imponente residência estivesse no nome de Jack, todos ainda se referiam a ela como “a casa de Julie”. O mordomo e a cozinheira que sempre serviram ali foram autorizados por ela – através de dois telegramas – a voltar e cuidar de tudo. Vincent e Constance eram da mais irrestrita confiança da doutora Franklin, e Clark desconfiava que eles sabiam de seu paradeiro, embora fossem veementes em afirmar o contrário. Para Jack, que chegara naquele dia, ao lado de Bianca, a manutenção dos criados de confiança era a mais certeira evidência de que a dona da casa pretendia voltar. Julie fazia questão de encontrar tudo em ordem quando estivesse em Paris. E como homem esperto que sempre fora, Jack sabia que eram nas pequenas manias que as pessoas se revelavam, mesmo sem querer.

O Professor Tom largou sobre o móvel mais próximo um dos livros que apanhara na biblioteca dos Franklin. Uma das coisas que sentira falta em seus anos de reclusão fora a possibilidade de ler o que quisesse, e desde que ganhara folga, assim que Jack pôs as mãos na prata do Corsário Traidor, tratou de ler tudo que caía em suas mãos. Como ainda se readaptava ao mundo fora de Frankfurt, Jack relutou em confiar nos seus asseclas como confiava antes de ser traído por Julie, o que fez com que Tom se tornasse, a olhos vistos, seu braço direito. O esquerdo, não havia dúvidas, era Bianca. Kevin não ficou nada satisfeito...

Os novos planos da equipe estavam apenas abstratamente traçados. Uma coisa era certa, eles recomeçariam com algo menos perigoso que seus últimos trabalhos, o que significava que também renderia menos. De qualquer forma, todos naquela casa estavam ricos o suficiente para não pensar mais em cifras, mas no prazer que teriam com o novo golpe. Para a maioria deles, o clássico furto de um quadro de algum artista notório seria bastante simbólico. Quando Jessica chegou da América Latina trazendo novas informações sobre Frida Kahlo, todos ouviram com atenção, mesmo que a reunião no escritório não tivesse caráter oficial. Desmond ficara no quarto e Felicia, Caio e Timmy ainda estavam a caminho.

Assim que teve oportunidade, Jessica chamou o espião recém chegado da Itália para uma conversa reservada, onde expôs as questões levantadas por Desmond, que mesmo parecendo artificialmente conspiratórias, faziam algum sentido. Julie, onde quer que estivesse, precisaria de aliados se quisesse continuar mantendo seu meio de ganhar a vida. Como todos os seus amigos na Europa eram vigiados por Jack, como ela não voltou a falar com a equipe e como, tampouco, fora rastreada pela Interpol reunindo novos seguidores, era bastante sensato supor que mais cedo ou mais tarde ela apelaria a alguém que não se encaixasse em nenhum desses grupos. E era bem mais fácil acreditar que ela procuraria a bem treinada e antiga assessora um dia desses do que simplesmente acreditar que estava acabado. Aceitar que a maior ladra do mundo falava sério quando decretou sua aposentadoria.


Thales Nassar reuniu seus melhores homens para partir rumo ao esconderijo muito bem camuflado que mantinha em Paris. Seu novo projeto exigia, já há algum tempo, dedicação total. Ele sabia que era vigiado de perto pela Interpol e por esse motivo reforçou sua segurança pessoal, que normalmente já era cercada de cuidados.

Em Lyon, no Quartel General do ICPO, seu nome era pronunciado quase o tempo todo, e os agentes da Polícia Internacional andavam de um lado para o outro assim que cada nova pista chegava. Estavam correndo contra o tempo e tinham apenas uma vaga idéia de onde ele estava e o que pretendia. Estadistas de toda a Europa, cientes da situação, faziam pressão para que uma medida drástica fosse tomada, mas isso não agradava nem um pouco Suzanne Lachaise, e até que lhe tirassem do comando, as regras eram ditadas por ela.

Sophie entrou sem bater na sala da alta comissária. Nada em sua aparência lembrava a jovem que entrara no ICPO há três semanas.

– Sente-se. Tenho alguém para lhe apresentar.

– Ótimo. – respondeu Sophie, observando a mulher ao seu lado, um pouco mais baixa que ela, cabelos castanhos mantidos curtos e expressão muito séria.

– A semelhança é incrível. – comentou a terceira.

– Que bom que também achou. Conheceu a doutora Franklin melhor do que eu. Nós a encontramos a partir da foto em um website.

– Mas se poderia conseguir isso com uma série de plásticas. Não será a aparência física que os enganará.

– Não temos tempo para cirurgias. Leva meses para ser imperceptível, ao contrário do que pensa a maioria. – respondeu Lachaise, enquanto Sophie apenas assistia. – Ah, sim, Sophie, esta é Carmen Jaurès. Ela será sua instrutora de hoje em diante.

– Pensei que você seria.

– Precisávamos de alguém que tenha convivido com a Franklin por tempo suficiente para conhecer mais do que suas habilidades “profissionais”.

– Então você já trabalhou com ela? – Sophie dirigiu a pergunta à Carmen.

– Desde o começo.

– Por que nos está ajudando, então?

– Mais tarde você saberá. Por hora, não faça perguntas, apenas obedeça.

Sophie bufou contrariada.

“Primeiro de tudo, não escreva suas emoções na testa.

– Já me disseram isso.

– Então aprenda. Ouça, as pessoas que terá de enganar não hesitarão meio segundo se perceberem algo errado. – Carmen a encarou. – Medo! Posso ver medo no seu rosto, escancarado! Guarde para você, garota. Julie teme tão poucas coisas que é praticamente impossível vê-la com essa expressão.

– Você já viu? – o tom de Sophie foi desafiador.

Carmen e Lachaise sorriram sem se encarar.

– É a pergunta que ela teria feito.

– Tudo que tenho feito é estudar essa mulher. Nunca vi tantos nomes e lugares para decorar, tantos segredos, códigos...

– Sei. Talvez não seja apenas semelhança física. Vai ver você também é esperta e pode conseguir, e eu não terei perdido meu tempo. – disse Carmen, se dirigindo para a porta.

– Muitos afazeres fora de Lyon, Carmen? Apenas imagino como você andou ocupando seu tempo ultimamente. – provocou Lachaise.

Sem se virar, Carmen respondeu:

– Pelo visto a veia irônica vem da porção “LeMans” do sangue da doutora Franklin. – ela abriu a porta. – Começamos hoje à tarde, Sophie. Foi um prazer.

Lachaise estava branca. “Como ela pode saber?” Aquele era um dos segredos mais bem guardados da face da Terra. Lachaise tinha certeza que Julie jamais contara a qualquer um de seus amigos, assim como se certificara várias vezes que ninguém no ICPO sabia de seu passado na Austrália. Certamente, pelo menos, ninguém que tenha tido acesso à Carmen, que era mantida como funcionária no Quartel General, embora recebesse vigilância constante. Por fim, acreditou ter ouvido mal. Mas não dormiu bem naquela noite e nem nas seguintes, enquanto durante o dia monitorava o treinamento de sua nova arma.

Sophie correspondeu muito bem às expectativas do ICPO. O plano elaborado por Lachaise corria o risco de ser atrapalhado pela pressa de Thales Nassar em executar seu mais novo projeto e por isso, mesmo que não tivesse certeza, depois de dois meses ela declarou a jovem sul africana apta para o trabalho.

xxx Próximo Capítulo xxx


Nota da Autora: faltar com minha própria palavra me doeu menos dessa vez. Parecia-me certo que Julie Franklin estava terminada, que não havia mais nada a ser dito sobre ela, sobre seus crimes, sobre um mundo que ganhou vida a partir de longos parágrafos. Eu estava errada...

Ely: você deve ter notado que já lhe mandei um arquivo com algumas cenas desse prólogo, que escrevi há muitos meses. Aquele foi o cerne dessa quarta história, mas sofreu muitas alterações, então espero que o desconsidere em relação a esse. Obrigada pelo apoio quanto ao título. Naufrágio do Corsário Traidor não terminou como você queria? Quem sabe essa nova tentativa logre melhor êxito.

Gataportuguesa: eu ainda espero pelo capítulo 7 de Kate e Rachel, ouviu bem? Ouviu? Leu? Eu terei de repetir isso quantas vezes? Hein? Ah, sim, obrigada pelos comentários on line. Acrescentei a explicação sobre Sophie na conversa de Carmen e Lachaise.

Sara Clarice Lecter.



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