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Fiction » General » Julie Franklin e o Outro Lado do Crime font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Mystery - Reviews: 29 - Published: 11-11-07 - Updated: 01-02-08 - Complete - id:2437182

JULIE FRANKLIN e o Outro Lado do Crime

Autora: Sara Clarice Lecter

Categoria: Geral, Mistério.

Rating: indicado a maiores de 13 anos.

Spoilers: Julie Franklin e o Mistério do Falso Conde, Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto e Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor.

Sumário do capítulo: um epílogo é um epílogo, não tem como explicar. Ou tem? É alguma coisa que acontece depois do final da história, de preferência com um salto de tempo. Stephen King (vocês ainda não se cansaram de me ver citando o King?) costuma lançar mão de um bom truque: ele põe um epílogo no começo e um prólogo no final. Isso mesmo, troca as coisas. O melhor exemplo que posso recordar é “Salam’s Lott” – A Hora do Vampiro, em português. Só para constar, eu não fiz isso. Mas não custa pensar na idéia para a próxima fic, certo? Então esse é um epílogo daqueles bem clássicos, muitos dias se passaram desde que a equipe se separou. Ele se passa – maior parte – em Nova Iorque e antecede fatos que serão melhor explicados em outra oportunidade.

Mea culpa: meu melhor amigo, o Felixx, estava dando algumas opiniões sobre este enredo. Segundo ele, Eduardo Constantini, o dono do MALBA, se algum dia por acaso descobrir que usei o seu nome e o liguei ao tráfico de obras de arte, certamente vai a-do-rar (!!!) e se sentir orgulhoso do que fiz. Quem sabe financie a edição desta obra... Brincadeiras à parte, foi o mesmo Felixx que me deu todas as dicas sobre Buenos Aires – não apenas desse epílogo mas de toda a história, incluindo os nomes das personagens – a cidade que ele ama.


Epílogo

Jack Hellfeld desembarcou no Aeroporto John Fitzgerald Kennedy às dez da noite e na manhã seguinte já estava instalado em um apartamento no leste de Manhattam. Adquirira ao longo dos anos o costume de manter uma casa respeitável na cidade onde estivesse trabalhando, o que se revelara de importância maior que uma mera questão de conforto. Comprara o imóvel com a mobília do antigo morador, da qual preservou apenas as estantes na biblioteca, um divã e a cama, que ocupou na primeira noite para trocá-la no dia seguinte. Havia muito espaço para ser preenchido e pouco tempo para se preocupar com a decoração, que acabou deixando a cargo de outra pessoa. Almoçou na rua e partiu para Hell’s Kitchen, onde tencionava encontrar alguns amigos do tempo em que agia na cidade antes de formar a equipe. Um deles concordou em recebê-lo em uma casa de aspecto deplorável, cujo piso rangia a cada passo.

– Stephen Gray... é mesmo muita coincidência que tenha aparecido justo agora que a Interpol trocou de comando. – disse o homem, de origem claramente latina, que comia uma maçã portando uma pequena faca entre os dedos da mão direita.

– Receio que seu palpite esteja certo, eu tenho mesmo algo a ver com a queda da antiga cúpula. Afinal o ICPO achou que eu estivesse liquidado com aqueles anos na prisão... e estava errado.

– Eu não contaria tanta vantagem se fosse você. Ao que soube a número um da lista deles era a sua garota e não você.

– Deve estar falando de Julie Franklin. Não é mais minha garota.

– Claro que não. Dizem agora que ela é mais perigosa que você.

– Besteira.

– É, mas dizem. – insistiu o latino, enquanto mastigava sua maçã.

– A Franklin trabalhava para mim, seguia as minhas ordens.

– Mas era ela que o ICPO queria. Ela era a maior foto no cartaz de procurados, se é que você me entende.

Jack cerrou os punhos.

– É o que você também acha?

– Eu só ouvi boatos.

– Que boatos? – perguntou Jack.

– Que você não é o mesmo desde que saiu da prisão. Dizem que você amoleceu.

Ele gargalhou, mas não por muito tempo. Na despedida, ainda em Paris, Tom lhe dissera algo parecido. Sobre ele estar muito diferente do homem perigoso que entrara na Penitenciária de Frankfurt, quando conhecera O Professor.

– Certamente alguma coisa pode ser feita para que eu volte a ser respeitado.

– Aham. – o outro cuspiu a casca que quase engolira por acidente. – Só que tem alguém no seu lugar, foram anos longe daqui, meu amigo.

– E você, como amigo fiel, dará todas as informações que preciso sobre esse cara.

– Tudo tem um preço, até mesmo nossa longa amizade, Stephen.

– Não tenho mais problemas com dinheiro. Quero resolver isso de uma vez. Aposto que é algum idiota criado no Brooklin, que seu dinheiro veio do narcotráfico e que ele agora acha que pode ocupar um lugar descente junto a nós.

– Nisso você não perdeu a forma. Está certo, o cara não tem a sua classe, Stephen. Mas tem trinta guarda-costas armados com metralhadoras, a casa e os carros são blindados, ele não tem saído muito, pois outros como você tentaram tirar a coroa dele.

– Gente assim tem sempre um ponto fraco previsível. Antes que me diga o nome dele, permita que eu arrisque um palpite: ele tem um filho. Ou mais de um...

– Tem um garoto. Estuda em uma escola de brancos, em Manhattam. Mas devo avisar que um herdeiro dos Rockfeller não é tão vigiado quanto ele.

– Eu já lhe disse o quanto gosto de crianças? Acho que não...

– O chamam de Booba. O garoto, é claro, é Booba Jr. Ninguém sabe o verdadeiro nome dele.

– Todos temos mil faces.

– Não tente nada idiota, Stephen. Ele deve saber quem é você, tem algumas pessoas inteligentes trabalhando pelo dinheiro dele.

– Não estou interessando na origem disso. Não quero traficar armas nem drogas nos Estados Unidos. O governo já faz o suficiente. Mas não conseguiria trabalhar em paz com um cara como Booba cobrando uma fatia dos espólios de meus roubos. Um desastrado desses colocaria a perfeição de meus truques em risco.

– Temos uma guerra para começar, então?

– Temos. – confirmou Jack. – Quanto você quer para me ajudar?

– É um trabalho arriscado, você tem de entender que-

– Cem mil dólares por semana está bom para você? Haverá um bônus com o dobro disso se Booba cair em menos de um mês.

Os olhos do latino brilharam. Nunca tinha pensado em ganhar tanto dinheiro.

– Seja lá o que você tenha feito na Europa, parece ser bastante lucrativo. Eu aceito.

– Comprei um bom apartamento ainda ontem à noite, felizmente Nova Iorque nunca dorme. Tenho um tesouro pirata para gastar, amigo.

– Tesouro pirata?

– Você não perguntou o que andei fazendo na Europa? Bem, uma bela decoradora me espera em casa, estou voltando para Manhattam.

– “Decoradora”?

– Preciso de móveis novos. – explicou Jack. – E quem sabe de uma garota também.

Despediram-se rindo. Jack voltou para sua nova casa e a encontrou lotada de funcionários de uma transportadora de valores. Algumas paredes passavam por pintura, uma delas estava ganhando aspecto envelhecido, eletricistas mexiam nos interruptores, um encanador quase inundara a copa e uma mulher de estatura mediana, cabelos e olhos negros comandava tudo parecendo muito à vontade no meio daquela confusão.

– A senhorita levou a sério minha intenção de mudar para essa cobertura o mais rápido possível.

– Para mim os clientes têm sempre a última palavra. Algumas das empresas que você viu nos uniformes desses homens deviam-me favores, foi muito simples cobrar em um momento de necessidade.

Jack observou o trabalho por algum tempo.

– Compreendo. – ele esperou que ela o olhasse nos olhos. – Precisa mesmo supervisionar tudo pessoalmente ou posso convidá-la para um café?

– Prefiro ficar. – respondeu ela, desviando o olhar para a grande janela da sala e cruzando os braços em frente ao corpo.

Como de costume, Jack enfiou as duas mãos nos bolsos.

– Ouça, eu não questionarei seu profissionalismo logo no primeiro dia se você aceitar. Foi um convite despretensioso...

– Mas minha recusa não foi.

– Algum problema comigo? – Jack perguntou, divertido.

– Não costumo invadir a privacidade de quem me contrata, pelo menos não mais do que o necessário para acertar o tom do meu trabalho, que por definição é o reflexo da intimidade de uma pessoa ou de uma família.

– Depois do expediente, então?

– Como eu ia dizendo, não gosto de me meter, mas seria impossível não notar certas coisas...

– Que coisas?

– Coisas que já vi em outros lugares e que me alertam para me manter longe de tipos como você.

– Puxa, você deve ter notado meu gosto requintado por arte contemporânea e suposto que sou homossexual.

O tom sério da decoradora não resistiu à piada de Jack.

“Vamos, já lhe estou fazendo rir e você nem ao menos me disse seu primeiro nome.

– Marlee.

– Marlee, meu verdadeiro nome é Jack, eu sou ladrão profissional, o melhor do mundo, devo acrescentar.

Ela riu de novo.

– Você não pode ser ladrão.

– Por quê?

– Ladrões não são como você.

– Criminosos em geral podem não ser. Acontece que você está trabalhando para um cavalheiro refinado. Alguém cujo gosto exigente só permite o furto de peças muito significativas – ele a tomou pelo braço, conduzindo Marlee entre algumas caixas que haviam chegado da Europa – como este vaso Ming aqui. Eu passaria semanas lhe mostrando raridades como essa e anos lhe contando como as consegui, mas vejo pelo seu rosto que você prefere acreditar que sou apenas um colecionador excêntrico que se mudou para Nova Iorque por uma estação e que em breve retorna à Europa.

Marlee se mostrou completamente desconsertada pelo discurso de Jack.

– E o Salvador Dali que ficará na biblioteca? Vamos ver se eu acredito em sua história criativa de como o conseguiu.

Jack suspirou cansado. Não havia aonde sentar e por isso ele continuou em pé, ao lado de sua decoradora, que parecia achar que ele era antes um bom ator que um homem sincero usando a melhor de todas as suas armas de conquistas: a sinceridade.

– Já esteve em Madri?

– Mais de vinte vezes. – respondeu Marlee.

– Então conhece o Prado.

– Melhor do que muita gente, eu diria. Por isso não tente me dizer que roubou o quadro de lá porque eu sei que o Prado é melhor vigiado que o Louvre. É um museu impenetrável.

– À noite sim. – admitiu Jack. – Mas não durante o horário em que é aberto ao público.

– Você não está querendo me dizer que roubou o Prado em plena luz do dia? – ela balançou a cabeça. – Jack, você... Está bem, eu tenho de admitir que ou você é o melhor mentiroso ou o maior ladrão do mundo.

– Quase sempre as duas coisas andam juntas.

– Como fez? Como tirou o Dali do museu?

– É uma longa história.

– Então aceito seu convite para o café, estou cansada do barulho daqui.

Ele sorriu, tomando a mão de Marlee entre as suas.

– Quando comecei não tinha absolutamente nada. Você recusou meu convite, duvidou de minha sinceridade e me julgou um mero contador de histórias fantasiosas. Permita que eu mostre que além de convencê-la a ir ao café comigo, posso mudar todas as suas demais convicções sobre mim.

– Menos a de que você é muito pretensioso.

– Bem, nesse ponto você estava certa desde o início.

– Você trabalha sozinho?

Jack não respondeu imediatamente.

– Agora sim. Mas se é o que quer saber, não estava sozinho em Madri. – enquanto terminava a história, Jack se incomodou com a imagem de Julie lhe ocorrendo algumas vezes.


Buenos Aires, Argentina, duas semanas depois. Sebatian O’Higgens dobrou o Clarín sobre a mesa ao seu lado, em um café de Palermo, o bairro aonde trabalhava. Apanhou o The New York Times das mãos do garçom e abriu a sessão de economia, passando vinte minutos depois para os esportes e deixando as páginas policiais por último, só após ler e criticar mentalmente o conteúdo supostamente relacionado à cultura.

Uma foto estampava uma grande coluna que versava sobre a morte de um narcotraficante que seria o chefe da venda de entorpecentes em Nova Iorque. “Torturado até a morte” era a manchete que atraíra o olhar de Sebastian. Segundo o jornalista, o homem conhecido como Booba fora morto por inimigos que disputavam seu lugar no submundo do crime; uma segunda imagem mostrava o enterro de Booba, velado pelo filho de apenas seis anos, que teria sido seqüestrado em uma armadilha para pegar o bandido. A este crime teriam se seguido uma série de execuções, mas segundo fontes seguras, o autor escapara impune por enquanto – e não seria ninguém ligado ao tráfico de drogas.

Sebastian levantou os olhos, pensando sobre aquilo. Viu uma mulher passando em frente ao café, vagarosamente, mas estava tão absorto em digerir o que acabara de ler que não teve tempo de lembrar de onde a conhecia. Foi apenas quando sorvia seu segundo expresso que algo lhe ocorreu. Deixou o café apressado, olhando para os dois lados da avenida, procurando pela mulher que lhe encarara há alguns minutos. Nenhum sinal dela. Por fim achou que sua mente estava lhe pregando uma peça. Andou em direção ao estacionamento e embarcou em seu Porsche rumo ao Conservatório Nacional de Música, onde seu trabalho diário lhe esperava.

Batucou na direção alguns instantes, enquanto esperava no sinal vermelho. Quase vinte pessoas atravessaram a rua, à sua frente. Uma delas quase fez seu coração parar de bater. Sebastian esfregou os olhos, como se não tivesse certeza de estar acordado. Quando olhou de novo, a mulher estava oculta na multidão e ele a perdeu de vista. Estacionou assim que pôde, desceu do carro e correu alguns metros, até se dar conta do quanto estava sendo ridículo. Voltou ao seu veículo, deu a partida e sentiu um calafrio quando ouviu uma arma ser engatilhada ao seu lado.

– Continue dirigindo. – pediu uma voz feminina.

– Mas-

– Nenhuma palavra ou eu acabo com você agora mesmo. Dirija.

Ele guiou por menos de cinco minutos, tentando bolar um plano o mais depressa possível. Sabia que sua vida dependia daquilo.

– Eu matei você, Julie Franklin.

– Mesmo? Como supõe que eu esteja no seu carro, agora? – ela sorriu. – Vire à esquerda.

– Quem sabe se eu tentar de novo...

Sebastian virou a direção fazendo uma curva muito fechada. A mulher ao seu lado se chocou contra a porta do Porsche e foi jogada para fora do carro. Sebastian pensou em voltar e passar com seu veículo sobre ela, mas notou que seu corpo ficou inerte sobre o asfalto. Provavelmente havia batido a cabeça na queda. Ele esfregou o rosto, soltando a direção por alguns instantes. Estava suando como nunca, fora um grande susto, mas acabara por se livrar do problema mais rápido do que esperava. Estacionou dez minutos depois, saindo do carro para respirar um pouco. Colocou a cabeça entre os joelhos, inspirando profundamente. Se alguma das câmeras da rua, instaladas pela prefeitura, tivesse gravado o ocorrido, ele teria sérios problemas. Teria de dar outra explicação ao seu chefe, que não andava nada satisfeito com ele depois do sumiço de um de seus quadros.

Ouviu passos, viu um vulto feminino com o mesmo casaco verde escuro que vira passar em frente ao café.

– C... como?

– Para quem sempre lhe atraiu, achei que fosse lhe causar qualquer reação, menos o pavor estampado agora em sua face, Sebastian.

– Eu matei você!

– Você mesmo disse que eu não morro.

– Eu joguei você no fundo daquele canal! Não encontraram o seu corpo, eu vasculhei todos os veículos de notícias, não encontraram o carro!

Julie riu.

– Talvez eu seja um fantasma e tenha vindo lhe atormentar.

– Que roupa é essa? Você estava de preto quando lhe joguei do Porsche! O que há com você?

– Eu já disse, foi sua profecia. Eu não morro.

Sebastian sacou sua arma, a qual levava consigo o tempo inteiro desde que se livrara da falsa professora de piano do Conservatório. Julie agiu rapidamente e atirou-se, protegendo-se da linha de tiros com uma parede de tijolos. Atrás de si corria o Rio da Prata, imponente. Sebastian correu até lá, mas encontrou um corredor vazio assim que se aproximou.

– Você deve ser mesmo um fantasma. – gritou, para que fosse ouvido a grande distância.

Deu a volta, guardou a arma e andou em direção ao seu carro. Antes que pudesse entrar, de trás dele, saiu a mulher que ele jogara na rua há alguns minutos. O casaco preto trazia marcas do asfalto.

– Por que a pressa?

– O quê? – ele se virou, mirando a parede atrás da qual a outra Julie desaparecera, sem encontrar qualquer novo sinal. – Como fez isso?

– Parece apavorado, Sebastian.

A tensão o emudeceu. Pensou em sacar a arma novamente, mas assim que seus dedos se moveram, Julie lhe apontou o próprio revólver.

“Só preciso de um motivo. Vá em frente.

– Não pode me matar. Você não passa de uma alucinação!

– Andou exagerando na bebida, Sebastian?

– Vá embora! Por Deus, deixe-me em paz!!

Encararam-se por alguns segundos.

– Você já fez um acordo com a morte, Sebastian?

– Do que está falando, Franklin?

– Quando você me jogou naquele canal, eu fiz um acordo com o Diabo... Sabe o que ele me pediu em troca da minha volta?

Sebastian abria e fechava a boca debilmente.

– E... eu?

Ela sorriu, gargalhando sarcasticamente.

– Existem muitas coisas que um Franklin pode fazer, mas você não imaginou que eu fosse capaz de enganar o próprio Demônio, imaginou? Sabia com quem estava se metendo quando tentou me matar?

– Você entrou no porão, você roubou aquele quadro.

– Eu sou uma ladra. Estava apenas cumprindo meu papel.

– E eu cumpria a meu quando matei você. Estamos empatados. Agora me deixe em paz.

– Isso seria impossível.

– Mentira. Diga o que eu tenho de fazer. Você não fez um acordo com a morte? Também posso fazer o meu.

Julie gargalhou novamente.

– Incrível como você se impressiona facilmente com histórias desse tipo. Talvez eu seja o fantasma que assombrava o porão do Conservatório... Acha que eu me encaixo no perfil? – ela simulou uma face amedrontadora, mas não por muito tempo, já que Sebastian atirou três vezes contra ela.

– Morra! Morra de uma vez, Julie Franklin.

Ele viu o corpo tombar e se ajoelhou ao lado de seu carro. O barulho atrairia curiosos e depois a polícia. Sebastian apertou seus olhos e tentou controlar sua respiração ofegante.

Atirando em plena luz do dia, Sebastian?

A voz de Julie o tirou do transe. Ela vinha andando em sua direção, novamente com o casaco verde. Sebastian se virou, ainda de joelhos, e não teve coragem de olhar novamente para se certificar de que o corpo que abatera continuava estendido no chão.

“Achei que você não fosse do tipo que suja as próprias mãos.

– Eu-

– Você continua assustado. Não poderemos conversar francamente assim, sem mencionar a polícia portenha, que deve estar a caminho.

– Por tudo o que é mais sagrado, por que você não pode morrer como qualquer pessoa?

Julie refletiu por alguns instantes.

– Eu sinceramente não sei, Sebastian. Talvez eu acredite no que você disse, na lenda de que Julie Franklin não pode morrer.

– Você vai me matar? – ele perguntou.

– Não, Sebastian. Você fará isso por si mesmo.

– Do que está falando?

– Eu sou um fantasma agora. Não posso feri-lo, mas posso atormentá-lo pelo resto de seus dias, e eu garanto que você não agüenta muito. Vamos... vai ser preso de qualquer forma. Escolha uma saída digna.

Sebastian observou a própria arma, alternando o olhar para a mulher em pé, a sua frente. A face de Julie parecia mais inexpressiva do que nunca, como se ele estivesse diante de um fantasma. Poderia compreender como ela escapara do afogamento e como impedira que a descoberta do carro no fundo do canal em Paris fosse noticiada – de modo que ele não viesse a descobrir isso estando tão longe -, mas de maneira alguma encontrava explicação para o que acontecera há menos de uma hora. Fora sempre um homem religioso, não um praticante fervoroso, mas sem dúvida um homem de fé, e todas as suas convicções estavam abaladas pelos últimos acontecimentos. Apoiou a arma em sua própria têmpora e encarou Julie por um instante.

– Estou ficando louco.

Foram suas últimas palavras. Julie sequer piscou ao ouvir o tiro e ver o sangue atingindo a fuselagem do Porsche negro. No instante seguinte ela estava diante do corpo de Sophie, vestida de preto e inerte no chão.

– Vamos, a polícia estará aqui em trinta segundos. – ela ofereceu sua mão para que a outra se levantasse.

– Como sairemos daqui?

– Não se preocupe, Julie Franklin sempre tem um plano. – ela a olhou rapidamente. – Você está bem, Sophie?

– Estou, o colete que me deu funcionou perfeitamente.

– Você é que foi perfeita. Fez por merecer cada centavo. – Julie olhou para trás antes de embarcar na lancha que deixara preparada às margens do rio.

– Estou um pouco tonta.

– É normal, não está acostumada com tanta adrenalina. – Julie acelerou, rio acima. – Temos pouco tempo, vamos deixar a lancha e tomar um táxi, um helicóptero nos levará até Santiago do Chile, meu avião nos espera lá.

– Chile?

– Da última vez eu fugi pelo Uruguai, seria óbvio demais repetir. Sente-se um pouco. Desculpe, eu não achei que ele fosse atirar.

– Mas me deu o colete.

– Precaução. Aprendi você não imagina a que preço.

– Por que está me olhando assim? – perguntou Sophie, ao notar algo estranho em Julie.

– Estou me despedindo do seu rosto. Eu vou para Nova Iorque e você para o Rio de Janeiro. O Brasil tem os melhores cirurgiões plásticos do mundo, não é seguro para você continuar com a minha face.

– E depois?

Julie refletiu.

– Você tem dinheiro suficiente para fazer o que quiser.

– Eu perguntei sobre você.

Ela foi pega de surpresa. Percebeu naquele instante que a impressão que tivera no momento em que conhecera Sophie estava correta. Seriam grandes amigas, não fosse aquele pequeno e maldito detalhe. A despeito do rosto idêntico, eram muito parecidas. A diferença era que Sophie tinha consciência. E isso fazia dela, para Julie, uma versão de si mesma com a única alteração que ela um dia desejou: ser afetada pela conseqüência dos próprios atos.

– É seguro que não tenhamos mais notícias uma sobre a outra. Garanto-lhe que tão logo me certifique que você fez a cirurgia, a deixarei em paz para sempre.

Viajaram no mais absoluto silêncio. A despedida foi no Rio de Janeiro, aonde o jato dos Franklin foi reabastecido. Julie entregou uma maleta contendo os outros quinhentos mil dólares que prometera a Sophie, deu rápidas instruções de como passar pela fiscalização com todo aquele dinheiro e lhe acenou um adeus que prometia ser definitivo.


Ele se limitou na observação de uma única árvore, aonde acabara de pousar uma pequena ave de penas em tons amarelados e bico curvado. Jack não era um exímio ornitólogo e tanto tempo longe de Big Apple acabou por lhe desacostumar de suas excentricidades. Não saberia apontar a espécie, mas continuou a observá-la até que o pássaro alçou vôo rumo ao norte, para onde também os passos de Jack o guiavam desde cedo. Era um dia de pouca luminosidade no qual o sol preferiu brilhar acima das nuvens e mesmo que ele soubesse não correr risco de ser apanhado desprevenido pela chuva, a impressão que todos tinham era de que o mundo viria abaixo a qualquer momento.

Jack balançou a cabeça ao ver uma família correndo para uma das saídas, recolhendo suas coisas, dentre as quais uma cesta de piquenique. Não conseguia entender como as pessoas só conseguiam pensar em sair correndo e não prestar atenção na beleza de momentos como aquele. As nuvens escuras e carregadas sobre a cidade, pairando no vento, as aves planando mais baixo, o cheiro trazido pelo ar, as folhas amareladas correndo próximas do chão, como se ganhassem vida e vontade própria. Ele se abaixou para apanhar uma delas e sentiu o celular acusando uma chamada em seu bolso. Aguardava pela ligação de um homem que não quisera se identificar, mas que parecia ser o detentor do seu passaporte para uma nova vida, dessa vez sozinho, já que a equipe fora desfeita.

Distraiu-se tentando arrancar do homem qualquer pista que lhe revelasse sua identidade. Chocou-se contra algumas pessoas deixando o Central Park mas não se preocupou em se desculpar. Ninguém pede desculpas por um choque acidental em Nova Iorque. Apoiou o telefone contra o ouvido usando o ombro direito e apanhou um cigarro, tateando os bolsos de seu casaco a procura do isqueiro.

– Diabos... – murmurou, ao perceber que o artefato não estava o bolso onde o deixara.

Procurando por isso, senhor Gray? – ela acendeu o isqueiro e ficou observando a chama diante de seus olhos.

Jack se limitou a dispensar seu interlocutor e desligar o telefone, ligeiramente boquiaberto.

– Eu... – ele riu, desconcertado. – Eu sabia que você viria. Eu não sei porque, mas eu sabia.

– Foi por isso que se escondeu tão bem? Estou há dias atrás de você, senhor Gray.

– Espero não lhe ter dado muito trabalho, senhorita...

– Béranger. – ela adiantou. – Victória Béranger. Trago recomendações de uma certa amiga sua que não pode entrar em solo estadunidense.

– Achei que esta amiga estivesse ocupada demais se tornando uma cidadã honesta. – disse Jack.

– Ela tem tempo para tomar um café com você.

– Meredith? – Jack sugeriu.

– Perfeito.

Andaram juntos e em silêncio até a saída mais próxima, o que demandou cerca de quinze minutos. Jack se ocupou fumando três cigarros. Julie observava o céu cinzento com um misto de apreensão e fascínio. Tomaram um táxi e não levaram muito tempo para chegar ao primeiro café novaiorquino que freqüentaram juntos, no dia em que se conheceram.

– Victória Béranger também não é procurada? Tem certeza de que está segura?

– Você vale o risco, Jack. – ela sorriu. – E seria bastante divertido termos outra perseguição policial para nos distrair.

Jack riu e fez o pedido. Um Freddo para si e um Cappuccino para Julie.

– Sabe que nunca mais vi o velho Harold, que encontramos naquele dia? Certamente foi morto ou está preso, vivia metido em confusões.

– Mal lembro do rosto dele. – disse Julie, fazendo uma pausa para mudar de assunto. – O que tem feito nesses dias, Jack?

– Comprei um apartamento aqui. Estava ocupado resolvendo que cara daria para o lugar, essas coisas.

– Isso explica o que descobri sobre você estar namorando uma decoradora.

Ele estreitou os olhos, pensando na melhor forma de agir. Resolveu não negar, por fim.

– Ah, a Marlee. As notícias correm cada vez mais rápido.

– Parecia ocupado no telefone, quando lhe interrompi. Negócios?

– Sim, iniciando um contato. Mas não me importo de interromper, por você. Mais tarde ligo para ele. Vai ficar muito tempo na cidade?

– Ainda não resolvi. – respondeu Julie, com sinceridade.

– Ficaremos jogando conversa fora no café ou seus planos incluem repetirmos minha rápida passagem pelo hotel onde você está hospedada?

– Vamos ao hotel, sim, mas é melhor controlar sua mente criativa porque não faremos nada do que seu sorriso malicioso indica que pensou.

Jack sorveu seu café observando os olhos de Julie. Estavam escuros. Ele sabia que ela escondia alguma coisa, mas errara o alvo ao supor que seria um mero encontro íntimo. Como da outra vez – e ele se lembrava de cada detalhe – Julie apenas estendeu o braço e a chave de seu quarto foi parar em sua mão, sem qualquer explicação. Tomaram um elevador silencioso e foram cumprimentados com entusiasmo pelo carregador de malas que atravessava o mesmo corredor que eles. Paradas diante da porta, Jack se perguntou por que Julie parecia tão ansiosa.

– Primeiro as damas... – disse Jack, abrindo a porta.

– Por favor, eu insisto que esqueçamos a etiqueta, desta vez.

Ele entrou. As luzes estavam apagadas e as cortinas fechadas, de modo que Jack teve de acostumar seus olhos claros à escuridão enquanto tateava a parede a procura do interruptor. Antes que pudesse alcançá-lo, quando notou que Julie já adentrara a suíte, as luzes se acenderam e o que ele viu quase o fez cair de costas.

– O que...?

– Alou, Jack. – cumprimentou Tom, em pé, bebendo algum destilado que ele não pôde identificar imediatamente.

– Você não achou que estava livre de nós, achou? – disse Bianca, tendo Kevin em pé, atrás de si, com as mãos em seus ombros.

– Cumprimente seu padrinho, Timmy. Mostre o que andou aprendendo ultimamente. – disse Caio, com o filho nos braços e Felicia ao seu lado.

– Oi Jack. – William correu para abraçá-lo pelas pernas, sob o olhar atento de Jessica e Desmond.

Estavam todos ali. Cada membro da equipe, espalhada pelos sofás ou em pé. Ao que pôde perceber, Jack chegara no meio de uma pequena comemoração.

– O que significa isso? – perguntou, encarando Julie.

– Significa que o grande Eric Jacob Hellfeld, o homem que não pode ser enganado, caiu como um patinho na história do fim de sua equipe. – respondeu ela, sorvendo sua dose dupla e pura de vodka, entregue por Charlie. – Fechamos o andar todo, bem vindo a nossa festa.

– Eu... – ele deixou todo o ar escapar de seus pulmões. – Eu deveria acabar com você!

Julie sorriu, em meio ao riso dos outros.

– Somos os melhores, Jack. – disse Felicia. – E mesmo os melhores podem se divertir um pouco, para variar.

– E o indulto? Os empregos novos, sua especialização, Felicia? A sua cátedra na Sorbonne, Clark? Kevin, você não deveria estar no Japão?

– Essa equipe é o melhor emprego que poderíamos arranjar. – disse Tom. – E a sua cara merece uma foto!

Bianca foi a autora do clic. Jack ainda ficou alguns minutos desconcertado. Viu Julie absorta em uma conversa com Carmen, perto da porta, e andou até lá, camuflado pelo barulho da conversa de todos e das brincadeiras das duas crianças.

– Executiva, é?

Julie se virou. Carmen se afastou sem se preocupar em dar explicações.

– Com meus diplomas eu conseguiria um bom cargo em grandes empresas, sabia?

– Você comprou seus diplomas, mentia para seu pai que estava em Oxford e gastava o dinheiro dele em mesas de pôquer e bares de respeitabilidade duvidosa.

Ela estreitou os olhos.

– Pergunto-me o quanto é seguro você saber tanto sobre mim.

– A idéia foi sua?

– Que idéia?

– Isso tudo. O fim da equipe.

– Mais ou menos. De qualquer forma, todos ajudaram. – ela tomou a mão de Jack. – Venha, tem mais uma coisa.

Aproximaram-se da porta da suíte, sem chamar a atenção dos outros.

Hmm...

– Pode esquecer, mais uma vez não é nada do que você está pensando.

Jack riu, entrando no quarto assim que Julie lhe abriu a porta. Olhou para a cama e viu um grande embrulho.

– O quê...? – pela terceira vez no mesmo dia estava completamente surpreso.

– Abre. – disse Julie, timidamente.

Ele tomou todo o cuidado do mundo para desembrulhar seu quadro favorito, o Frida Kahlo que Julie quase morrera por furtar do Conservatório de Música da Argentina.

– É... Ju, ele é...

– É lindo, eu sei. E não estou dizendo isso por saber o quanto você gosta dele. Também me agrada muito.

Jack deixou o quadro sobre a cama e se aproximou de Julie.

– Achei que a obra estivesse arruinada, que... o canal, que a água, enfim... você entendeu.

– Já não estava comigo quando Sebastian me pegou. Eu guardei para uma ocasião melhor. – ela mordeu os lábios. – Feliz Aniversário.

Ele sorriu por meio segundo.

– Obrigado. – ele respirou fundo. – É seu aniversário também... e eu não trouxe nenhum presente.

– Lembra do que combinamos quando descobrimos que aniversariamos no mesmo dia? Um ano você comemora, no outro eu, no ano seguinte festejamos o Natal. Assim levamos o triplo do tempo para ficarmos mais velhos. – ela lhe piscou o olho.

– A conta está certa? É meu ano de comemorar?

Julie confirmou com um aceno.

“Posso lhe oferecer pelo menos um jantar? – perguntou Jack.

– O presente que eu quero vai ter de ficar para depois. – ela observou que Jack a olhou intrigado. – Sabe, a equipe toda está lá fora...

– Vai me censurar de novo e dizer que não é nada do que estou pensando?

Ela se calou e permaneceu séria por algum tempo. Depois, ambos sorriram. Voltaram para a sala e comemoraram com os outros a volta da equipe.


Nota da Autora: o último epílogo de “O Outro Lado do Crime”. Sinto pela demora, estava ocupada pescando com (e para) o meu gato.

Ely: com tanto tempo longe da internet, em uma espécie de retiro na natureza em que se configuraram meus festejos de Natal e Ano Novo, só fui ler agora os seus comentários, que devo dizer, foram carinhosamente lisongeiros. Puxa, assim você me deixa sem reação. Suas conclusões sobre o comportamento obsessivo de Lachaise foram as mesmas de Julie Franklin - isso é uma resposta para sua indignação sobre até hoje não conseguir pensar como as personagens dessa história. Para terminar, sim, você estava certa sobre a comissária e sobre Patrícia, mas se eu desse alguma pista anteriormente, estragaria o capítulo 11. Então, nada de achar que você é sempre a última a saber. O fim da equipe? Não não... e sobre a personagem astuciosa, brilhante e escorregadia - Gregory Harris - não precisa nem começar a sentir a falta dele...

Gataportuguesa: claaaro que a Julie tinha um plano...

Sara Clarice Lecter



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