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Fiction » Spiritual » Casa de Lembranças font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Lycanrai Moraine
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Drama - Reviews: 1 - Published: 12-13-07 - Updated: 12-13-07 - Complete - id:2449701

Casa de lembranças

Os irmãos se levantaram e partiram. Assim como haviam feito seus pais. E ela continuou sozinha naquela pequena casa. Sozinha. Como sempre estivera. Viu gerações irem e virem, os filhos dizendo adeus e os pais virando avós e ela ali. Presa àquela pequena casa. Perdida no nada, sem que ninguém a visse ou percebesse, apenas observando.

Novas pessoas chegaram ao casebre. Ela achava engraçado. Pessoas querendo desaparecer e ela querendo ser vista. Dessa vez era um casal com um menino não mais velho do que ela própria. Escondeu-se nos primeiros dias. Por quê? Porque se esconder? Tinha medo. Medo do medo. Era estranho, mas era sempre assim. Primeiro tinha medo e se escondia, depois observava e, quando já conhecia todos pelos nomes ela se apresentava e ficava com eles por algum tempo. Mas no fim, todos iam embora, e ela continuava. Sozinha novamente. Começou a pensar que tinham medo dela. E esse pensamento a deixou apreensiva. Medo do medo. Era isso. Tinha medo do medo que as pessoas sentiam dela.

Foi numa dessas noites em que não se consegue dormir que ela resolveu andar pela casa. De quarto em quarto olhou as fotos da nova família. Pareciam bons. Fotos alegres: do pai empurrando o menino no balanço, da mãe com o filho no carrossel, dos pais sorrindo, abraçados sobre uma ponte. Fotos alegres de tempos alegres. Porque pessoas assim iriam querer morar num lugar como aquele? Tão distante e morto.

Olhava as fotos, quadros, pratos, a mesa que deixaram arrumada antes de dormir. Continuou andando pela casa. Olhou pela porta entreaberta do quarto do menino. Caixas. Apenas caixas empilhadas. Nenhuma cama, nenhum armário. Nada. Por quê? Continuou caminhando pela casa, subiu as escadas, sentindo cada degrau daquela casa antiga. Virou no corredor do andar de cima e lá estava ele. O menino. Parado em frente à porta aberta do quarto dos pais. Observava-os quieto, como se ele e as sombras do corredor fossem um só.

O menino olhou-a com olhos tristes. Como se soubesse uma verdade que nem ela compreendia. E ela foi até ele.

- Porque está aqui a essa hora? Porque não está dormindo como eles?

O menino olhou novamente para os pais

- Não consigo dormir...

- Vi suas fotos. São bonitas, felizes. Me deixaram feliz também.

- Porque está aqui? Nesta casa? – o menino perguntou com um ar levemente curioso.

- Não sei. Minha família foi embora, e eu fiquei. Porque resolveram vir morar aqui? Tão longe de tudo?

- Eles ficaram tristes e vieram pra cá. Eu senti que devia protegê-los, então também vim.

- Você os protege? Por quê?

- Foi a alguns anos. Estava na rua com minha mãe e disse que gostaria de um dos sorvetes da loja em frente, do outro lado da rua. Ela disse que tudo bem, então eu saí correndo na frente. Não me lembro de ter tomado o sorvete, mas desde então eles estão sempre se mudando... Sempre tristes. Não sorriem mais. Por isso os protejo. E você? Porque ainda esta aqui?

- Não sei. Estou simplesmente. Acabei ficando. Minha família se foi e eu fiquei. É uma casa triste, mas eu a amava na época em que meus pais ainda moravam aqui. Nós tínhamos bichos de todos os tipos: patos, galinhas, bois, cavalos e um cachorro chamado Rufão que dormia o tempo todo. E eu amava sentar a beira do lago com meus irmãos. Não consegui deixar a casa quando eles se foram. Hoje ela já não é tão aconchegante mais ainda a amo.

O menino a olhou novamente, com um sorriso de compreensão.

- Entendo. Não tenha pressa. Vá apenas quando achar que vai se lembrar sempre de cada pedaço daquilo que amou.

- É. Sinto que é isso que devo fazer.

Ela voltou pelo corredor, desceu as escadas. Olhou as fotos mais uma vez e saiu da casa. Andou pelo terreno relembrando a época em que brincava ali com seus irmãos.

Uma semana depois o casal se mudou novamente. Achavam que a casa tinha algo de estranho. Perturbador. A menina não entendeu. Esboçou um adeus com as mãos para o menino espremido entre as caixas no banco traseiro do carro quando eles partiram. Entrou novamente na casa. Quem seria sua próxima família?

FIM

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