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Fiction » Mythology » Eros e Psique font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: T - Portuguese - Romance/Fantasy - Reviews: 34 - Published: 12-17-07 - Updated: 12-05-09 - id:2451630

Disclair: Psique pertence aos romanos, mas duvido que me metam um processo por causa disso, até porque eles mesmos plagiaram o resto dos deuses aos gregos XD. Então, até agora todas as personagens que apareceram pertencem à mitologia greco-romana.


Prólogo

Ela apresentasse-me como uma mulher de traços delicados e maternais – algo que nunca foi –. Os olhos, cor de mel, transmitiam uma suavidade incomparável, algo a que não poderia resistir, enquanto que os longos cabelos doirados lhe desciam em cachos delicados pelas costas, emoldurando o rosto mais belo que alguma vez teria a dádiva de ver.

Mas isto é como ela se parece para mim. Não é por um mero acaso que Afrodite carrega o título de deusa da beleza e da sensualidade. Desde pequena que me apercebi que a imagem física de minha mãe varia conforme os olhos de quem a vê. Para os meus irmãos Deimo, o Medo, e Fobo, o Pânico, ela aparecesse como uma mulher pequena e frágil, alguém que vive constantemente com medo e pânico seja lá do que for, demonstrando fisicamente o seu cansaço e agitação. Para cada pessoa, seja homem ou mulher, mortal ou deus, ela surge-lhes como a materialização da sua mais bela concepção de beleza. Julgo que apenas Eros, o seu primogénito, a consegue ver na sua forma original.

- Harmonia.

Tão distraída estava que nem me apercebi na transformação do seu rosto. Por mais que Afrodite o tentasse esconder, a raiva e irritação estavam presentes nas delicadas formas da sua face, arruinando totalmente a imagem serena com que me presenteava há poucos minutos. Já o deveria esperar. Sempre que minha mãe se debruça sobre o Espelho D’Água e espreita para o mundo mortal, vê alguém que a irrita.

- Sim, mãe?

- Espreita e diz-me o que vês.

Fazendo uma pequena ideia do que se seguiria, aproximei-me do Espelho D’Água e fiz o que ela me ordenava.

- Então? Que vês?

- Uma rapariga – respondi, sentindo pena pelo destino que a esperava. – De alguma beleza.

Dizer que tinha alguma beleza era uma mentira descarada, aquela rapariga mal acabada de sair da meninice era a mortal mais bela que alguma vez havia visto. Mas Afrodite não precisava de ser ainda mais irritada.

- Dizem os mortais que a sua beleza alcança a minha. Negligenciam o meu culto por sua causa.

- Disparate, minha mãe! É coisa passageira, em breve se esquecerão. Lembrasse do que aconteceu com Esmirna?

Quase imediatamente desejei não ter aberto a boca. Esmirna tinha sido alvo da fúria de minha mãe e embora Afrodite se tenha compadecido dela no final, duvido de que tenha sentido reais remorsos, especialmente sabendo que a sua vingança acabara por gerar Adónis, um dos seus mais bem amados amantes.

- Chama Eros – ordenou Afrodite, ignorando totalmente as minhas palavras. – Terei de lhes lembrar novamente quem é Afrodite.

Suspirando, saí em busca de Eros, sabendo já nada poder fazer pela rapariga mortal. Se havia algum filho a quem Afrodite passara o gosto de usar as emoções do amor e do ódio como vingança pessoal, esse filho era Eros, o deus do amor. Já por diversas vezes fora ele o executor das suas vinganças, não só por o fazer sem levantar qualquer tipo de questão ou reclamação mas também por ser terrivelmente eficaz.

Encontrei-o perto dos domínios de Ártemis, a deusa virgem da caça e da Lua, acompanhado por algumas das suas ninfas. Riam com gosto de uma qualquer piada interna e apercebi-me de que chegara no momento certo: Ártemis reagia muito mal a que qualquer uma das suas ninfas fosse desvirginada e tornou-se claro para mim que se não fosse a ordem de Afrodite e a minha consequente chegada, tanto Eros como uma das ninfas se meteriam em grandes sarilhos.

- Eros – chamei, usando um tom de voz mais alto que o usual. Ele olhou-me com uma contrariedade mal disfarçada. – Afrodite solicitou a tua presença. E leva as flechas.

Esta última informação foi o suficiente para ele formar uma ideia do que iria fazer. Um largo e travesso sorriso formou-se-lhe na face e as ninfas foram imediatamente esquecidas e deixadas para trás.

- Sádico – murmurei-lhe enquanto caminhávamos de encontro a Afrodite. Ele suspirou com impaciência.

- Não posso esperar que tu, a personificação da harmonia, tenhas o feitio que te permita compreender o prazer destas pequenas brincadeiras.

- Não, não compreendo.

- Mas posso esperar que não me recrimines cada vez que me pões a vista em cima.

- Eros, ainda há pouco tempo tive de intervir para que Apolo não exercesse a sua vingança sobre ti! Como queres que não te recrimine?

- Ele mereceu – sibilou Eros antes de entrarmos no compartimento de Afrodite.

- Estás atrasado – acusou-o imediatamente minha mãe. A minha presença, tal como já acontecera noutras ocasiões em que Afrodite estava concentrada em alguma coisa que considerava importante, foi totalmente ignorada. – Eles estão a faze-lo outra vez.

- A tentar libertar alguém de um qualquer castigo que lhe tenha dado, minha mãe? – arriscou Eros, já que havia imensas coisas que os mortais estavam sempre a tentar fazer e que irritavam profundamente Afrodite.

- Oh, não, julgo que não farão isso nos tempos mais próximos. Dizem que eu me mortalizei. Que nasceu uma Afrodite humana.

- Ah, isso.

- Sim, isso.

Não posso deixar de admirar minha mãe pelo auto controle incomparável que detém sobre si mesma. Outro qualquer e já estaria, no mínimo, a cerrar os punhos de tal maneira que os nós dos dedos estariam brancos. Mas Afrodite nem isso fazia. E eu sei o quanto estas coisas a deixam fora de si.

- Olha-a no Espelho D’Água – ordenou novamente, dirigindo-se a Eros. – Não erres na rapariga! Quero que a faças cair de amores pelo mais vil dos mortais.

Tive grande dificuldade em não deixar transparecer o meu espanto. De certo modo, Afrodite estava a ser muito mais branda que o costume. Lembro-me que com Esmirna fora bastante mais cruel. Pela expressão de Eros, ficou obvio que lhe estavam a passar pela cabeça pensamentos semelhantes aos meus. Contudo, limitou-se a encolher os ombros e a acatar as ordens dadas, esfumando-se em direcção ao mundo mortal.

- Ainda aqui estás?

Afrodite pareceu ter-se finalmente apercebido da minha presença. Agora que contava que a rapariga mortal fosse punida e a sua vingança cumprida, as linhas de raiva que lhe tinham estado a deformar ligeiramente o rosto até então haviam desaparecido, fornecendo-me novamente a mais bela imagem com que poderia alguma vez sonhar.

- Não se incomode, minha mãe. – Imaginei que aproveitaria a ausência de Hefesto, seu marido, para receber novamente Ares, um dos dois amantes que ela realmente amava. - Sairei de imediato.

Abandonei o compartimento, evitando pensar da rapariga mortal. Sabia que acabaria por me esquecer até mesmo da sua existência, mas até ao dia da sua morte, ela ficaria a incomodar-me, pela simples razão de que jamais haveria harmonia na vida dela. Eu considerava parte da minha função estender harmonia a quem a solicitasse ou desejasse. E isso é uma tarefa terrivelmente árdua, já que a maioria dos mortais deseja harmonia na sua vida. É obvio que eu não consigo fazer a vontade a todos eles e esta rapariga ia ser mais uma. Eu tinha visto pelas roupas e pelo ambiente que a rodeava que ela pertencia a uma família nobre. Jamais seria capaz de ter paz e harmonia a partir da altura em que apaixonaria, como iria com toda a certeza acontecer, pelo “mais vil dos mortais”.

- Harmonia!

Eros materializou-se à minha frente, assustando-me e quase fazendo com que desejasse espancá-lo. Vinha nervoso, claramente perdido e mais irrequieto do que Fobo nos seus piores dias. Reparei que nenhuma das suas setas d’ouro do amor fora usada.

- As setas… Não atingiste a rapariga?

Abanou a cabeça, mordendo o lábio inferior.

- Acho… acho que estou apaixonado.


N/A: Tendo a quantidade de amantes que Afrodite tem, é natural que também tenha uma ninhada de filhos (estranhamente, filhas só uma...Pelos menos que eu saiba). Eis então a orgulhosa prole da familia Afrodite: Eros (a doutrina diverge quanto à paternidade/origem deste aqui, então,eu escolhi a versão que gostava mais), mais conhecido pelo Cupido da mitologia romana (peço que nesta historia imaginem a sua versao jovem e não a criancinha gordinha dos postais de ), Deimo (o Medo), Fobo (o Pânico) e Harmonia (dificil, esta... a Concórdia), filhos de Ares, deus da Guerra; Hermafrodite (o deus dos dois sexos), filho de Hermes (deus da Medicina, dos Ladrões e menssageiro dos deuses); Eneias, o heroi e mortal, filho de Anquises (mortal) e Príapo, filho de Dioniso (filho de Zeus com uma mortal).

Como os amantes eram muitos mais, existe a possibilidade de a prole ser maior, mas por enquanto desconheço mais que estes. Ai estes deuses promíscuos...



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