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Fiction » Mythology » Eros e Psique font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: T - Portuguese - Romance/Fantasy - Reviews: 33 - Published: 12-17-07 - Updated: 11-24-09 - id:2451630

Capítulo X


- Brilhante! – exclamou Eros no final do meu relato. – Simplesmente brilhante! Eu sabia que havia alguma razão para seres a minha irmã favorita.

- Sou a única que tens – argumentei.

- E agora o que planeiam fazer? – continuou Eros, ignorando a minha óbvia constatação. – Não tens... hum… a mínima ideia do que Afrodite pedirá a seguir?

Não. Não tinha a menor ideia e Eros estaria muito mais próximo de o saber que eu, ou não tivesse ele herdado a mente macabra de minha Mãe.

- Não sei, Eros – respondi. – Sabes que só aqui vim colocar-te a par dos acontecimentos. Em tudo o resto sei tanto quanto Psique, o que é muito pouco.

- Insinuas que sei mais? – perguntou Eros, rindo-se. Fazia uma alusão aos velhos tempos, quando a vítima mortal de Afrodite lhe era um terceiro desconhecido. Nessa altura, Eros sabia tanto dos planos vingativos de nossa Mãe quanto ela própria.

- Quem sabe? – brinquei, rindo-me perante o ar falsamente ofendido de Eros. No meu íntimo, relembrava-me vezes e vezes sem conta de que não era a mim que cabia a tarefa de lhe contar sobre a gravidez de Psique.

***

- Desta vez foste rápida – comentou Psique, vendo-me tomar forma a seu lado. Encontrava-se sozinha nos seus aposentos a costurar algo a que não dei muita atenção. Era um quarto agradável, de tons claros e luminosos e embora possuísse certas comodidades que não se encontravam ao alcance de todo e qualquer mortal, não ostentava demasiado luxo ou opulência.

- Não quero cometer o mesmo erro duas vezes – respondi, satisfeita por Psique já se ter acostumado às minhas súbitas aparições. Das primeiras vezes, cheguei a temer ter-lhe provocado um aborto, preocupações que a minha cunhada levianamente acusou de serem demasiado extremas. – Bastou-nos a primeira vez.

Psique resmungou qualquer coisa sobre os meus exagerados complexos de culpa e da necessidade que eu tinha de me abstrair mais das asneiras provocadas por outros. Resolvi mudar de assunto.

- Mas para deixar o Olimpo foi um horror! – exclamei. – Parecia que de repente todos se tinham lembrado da minha existência! Primeiro Deimo veio ter comigo a choramingar sobre algo que Apolo lhe fizera… Deixei Fobo tratar dessa questão, ele é muito protector em relação a Deimo, depois…

- Deimo é quem? – perguntou Psique, interrompendo o meu rol de queixumes. Ah sim, por vezes – demasiadas vezes – esquecia-me que ela ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer muitos membros da família.

- É o teu cunhado mais novo – expliquei. – O deus do medo e amante de Fobo.

Psique parou a costura, olhando-me confusa.

- Deus? São ambos homens?

- São.

-E irmãos?

- Sim.

- Então como…?

Deixou o restante da pergunta no ar, esperando que o mesmo não acontecesse à resposta. Encolhi os ombros, não sabendo exactamente o que lhe dizer. Tendo crescido no Olimpo, nada via de anormal na relação entre Fobo e Deimo. Aliás, pelo que sabia, também na terra, no mundo mortal, eram comuns as relações entre duas pessoas de sexo idêntico… Já para não falar em incesto, tão comummente praticado entre as famílias reais e de sangue nobre.

Psique abanou a cabeça e voltou a focar a sua atenção na costura.

- Fui rude, peço desculpa – murmurou. – Fiquei apenas… surpreendida. É estúpido, eu sei, mas meu pai tem ideias muito inovadoras a respeito de tudo isso e educou-nos de forma estranha. Além disso para uma mulher é sempre diferente do que para um homem.

Vi-me obrigada a concordar com a sua última frase. Fosse o país, a altura ou a cultura, para a mulher seria sempre diferente do que para o homem.

- Bem! – exclamou alegremente Psique. – Desde o dia dos grãos que não te ouvia falar tanto de uma só vez! Que aconteceu em seguida?

- Hein? Oh, pois, fui literalmente atacada por um bando de ninfas ressabiadas que exigiam saber o porquê de agora Eros as recusar sistematicamente. Não acreditaram quando lhes disse que não sabia! Como é que é possível!?

Psique sorriu, condescendente.

- Isso é porque lhes estavas efectivamente a mentir – observou. Senti-me ligeiramente aborrecida. Sim, era verdade, eu mentira-lhes, mas odiava faze-lo e odiava que mo dissessem que o tinha feito. Ainda para mais quanto tinha sido para o bem dela.

- Não tive propriamente outra solução, tendo em conta que te quero manter incólume.

Psique atirou a cabeça para trás, gargalhando em toda a sua vontade.

- Tens razão e agradeço-te por isso – arfou, enquanto lutava para recuperar o ar que o riso lhe roubara. – Continua, quem apareceu a seguir?

- Athena – murmurei tristemente, lembrando-me do meu encontro inesperado com a deusa da sabedoria. – Julguei que me fosse chamar a atenção pela negligência que tenho tido nas últimas semanas, mas acabou por ser justamente o contrário! Era os parabéns que ela me queria dar!

- E isso não é bom?

- Não! – exclamei. Será que Psique não via o quão grave era aquela questão? – Eu não o tenho feito e não há ninguém com o poder para o fazer por mim! – expliquei, o desespero latente no tom da minha voz. – É impossível que neste momento o equilíbrio da harmonia esteja tão bem balançado no mundo mortal ao ponto de Athena, Athena!, me vir felicitar por isso! Alguém anda a brincar com o meu trabalho e o mais preocupante é o eu não saber como!

Psique suspirou, pousando a costura na mesinha de madeira polida a seu lado. Levantou-se, agarrando-me nas mãos e obrigando-me a sentar-me ao lado dela na colcha fofa da cama de casal.

- Querida… Eu não queria ter de te estar a explicar isto – começou, empregando o tom doce que se usaria a uma criança teimosa. – Esperava que depois de tantos dias connosco… E em especial com toda a companhia que tens recebido de Theron…

Abri a boca para reclamar daquela despropositada menção a Theron, mas Psique apressou-se a continuar a sua linha de raciocínio, não me dando tempo para a interromper.

- Achei que já o tivesses compreendido. Francamente, Harmonia, olha à tua volta! Olha para mim! Realmente ainda acreditas que todas as nossas emoções, os nossos erros, desgraças e alegrias são controladas por deuses? Achas que todos os nossos infortúnios resultam das vossas vontades? Que todas as soluções que encontramos são-nos oferecidas através de vocês? É possível que ainda creias na nossa total inutilidade? Somos assim tão controláveis, tão manipuláveis? O que é que achas que nós somos, irmã, o quê?

A força com que me segurava as mãos entre as suas aumentava à medida que se inflamava com o próprio discurso, transmitindo-me o fervor, a paixão que colocava de corpo e alma naquelas palavras. Pela primeira vez, senti vergonha. Verdadeira vergonha, como nunca havia sentido. Da minha cegueira, da minha ignorância… Acima de tudo, da minha presunção. O rosto ardia-me, de tão corado se encontrava. Conti a vontade que me assolara de baixar os olhos e obriguei-me a continuar a olhá-la com a mesma intensidade com que o fazia ainda há poucos minutos, como se de uma igual se tratasse… Ou talvez melhor dizendo, como a igual que ela verdadeiramente era.

- Te…tens razão – gaguejei, antes de me libertar do aperto carinhoso das suas mãos e soltar uma gargalhada amarga. Conseguia sentir-me ainda pior comigo mesma do que quando descobrira o que era a culpa. – Somos tão arrogantes, tão egocêntricos! – exclamei. – O meu trabalho está a ser feito por quem de direito, não é? São vocês, são os mortais que o andam a fazer… Tal como já o faziam antes de mim e continuariam a fazer depois de mim, caso a morte me fosse uma opção viável.

- Harmonia… – murmurou Psique, aproximando-se mais de mim, aparentemente incerta sobre se me deveria abraçar ou não. – Não estou a querer dizer que vocês são inúteis…

- Eu sei – interrompi. E realmente, sabia-o. – Eu sei. Nós somos… como uma encarnação. Como uma ajuda, algo palpável do que seria por sua natureza imaterial, não é assim?

Psique sorriu, num tom ligeiramente triste, concordando mudamente com as minhas palavras.

- Estás bem? – perguntou. – Não pareces muito…

- Não – respondi, evitando-lhe a tortura mental de continuar a procurar pelos termos correctos. – Estou bem. Não é mau de todo, até é... algo bom, calmante. Sinto-me como se me tivessem tirado um peso dos ombros, é... qual a palavra? Reconfortante. Sim, é isso, é reconfortante.

Para meu próprio espanto, não mentia.

***

Fosse pela melhor consciência que agora tinha do que se passava em meu redor, fosse por alguma qualquer sensação psicológica que o meu cérebro me oferecia, apanhei-me a mim mesma a prestar uma maior atenção à minha volta. Via os empregados no seu vaivém de tarefas, sentindo o quão pequena era a parcela que aquilo ocupava nas suas vidas, mais cheias e ricas do que eu poderia ter imaginado até então. Ouvia os comentários das criadas, coscuvilhando sobre fulano e bisbilhotando sobre sicrano, e já nada me parecia tão fútil quanto antes achava. Bem ou mal, aquilo era vida. Aquelas pessoas, aqueles mortais que até aquele dia eu vira como inferiores, como seres facilmente manobráveis, algemados à nossa vontade, eram, na verdade, os verdadeiros senhores da liberdade, e, como tal, perfeitamente capazes de auto-determinação.

Helena passou por mim, lançando-me um olhar enviesado. Controlei a minha irritação, relembrando a mim mesma que não me deveria deixar levar por aquele tipo de emoções negativas. Não gostava daquela rapariga. Havia algo nela que me desagradava profundamente, embora não conseguisse descortinar o quê. Provavelmente os seus modos e atitudes, tão pouco educados, tão pouco temperados…

“Ciúmes” sentenciara Psique. “A rapariga tem ciúmes de ti e tu desde que te apercebeste disso retribuis-lhe com a mesma moeda.”

Tolice, tolice, tolice. Como se houvesse alguém sobre quem ter ciúmes, para começo de conversa! Com certeza que Psique não se poderia estar a refe…

- Ãaa, hein?

Estaquei subitamente, fechando os olhos e esfregando-os com força. Voltei a abri-los, encarando desconfiadamente o corredor vazio que se estendia à minha frente. Iria jurar… Não, de certo juraria que ainda há um segundo atrás…

O grito soou, interrompendo a minha perturbada nuvem de pensamentos e dando razão às minhas desconfianças. Virei-me, correndo o mais depressa possível para o local onde sabia que tinha nascido o grito, para um local que me era muito querido…

- Psique! – chamei, entrando no quarto dela sem bater. Encontrei-a caída no chão, abanando um candelabro acobreado em direcção ao culpado de tudo aquilo e envergando um olhar ameaçador o suficiente para fazer recuar até mesmo Ares, senhor da guerra. – Psique, não te exaltes, esse é Hermafrodite, o deus dos dois sexos – apressei-me a esclarecer.

Para meu alívio – e ainda mais de Hermafrodite – Psique parou de abanar o candelabro, ficando com ele imobilizado a meio caminho.

- Dois sexos? – repetiu. Acenei com a cabeça em reconfirmação daquilo que acabara de dizer. Em silêncio, vi-a deslizar os olhos pelo novo deus que se apresentava à sua frente, analisando-o perante a nova informação. O fascínio resplandecia-lhe na face à medida que se apercebia da androgenidade das suas formas e feições, belas e delicadas como nunca poderia ter visto iguais nos seus curtos anos de vida. Vi-a prender a respiração e soltá-la novamente perante a longa trança loira que lhe emoldurava o rosto e descia disciplinadamente pelas costas abaixo, tentando alguns a dizer que era uma mulher. Estavam, como é claro, errados. Hermafrodite era ambos.

- Psique, apresento-te o meu irmão Hermafrodite, filho de Hermes e Afrodite. Hermafrodite, esta é Psique, esposa de Eros.

Hermafrodite acenou em reconhecimento e estendeu uma mão a Psique, oferecendo-se para a ajudar a levantar.

- Obrigada – murmurou Psique, aceitando a oferta e ajeitando o vestido. – Espero que me desculpes por esta péssima exibição da minha parte, fui apanhada de surpresa e…

- Não, eu carrego uma certa percentagem de culpa – interrompeu Hermafrodite, na sua voz dúbia e agradável. – Poderia ter falado com Harmonia primeiro, aliás, era isso que planeava – acrescentou, falando especificamente para mim. Eu sabia que o tinha visto no corredor. – Mas depois não pude resistir à minha curiosidade…

Psique sorriu, corando um pouco perante o interesse que Hermafrodite parecia destacar à sua pessoa. Esperei que ela cumprisse os rituais mortais a que chamavam de “educação” e “receber bem um convidado” antes de ir directa ao assunto. Hermafrodite não era deus de abandonar o Olimpo de livre e espontânea vontade.

- É a segunda tarefa? – perguntei, fazendo-o engasgar-se com o chá de laranja que Psique lhe oferecera. – Já foi decidida?

- Evidentemente – respondeu, limpando cuidadosamente os lábios com o guardanapo de linho branco. – Que outra razão teria eu para aqui estar? Sem ofensa, irmã… err…irmãs. Tendo em conta que Psique… bem, se cumprir as tarefas… Isto é…

- Irmãs – confirmei. Vi Psique esconder um largo sorriso – não sei se de troça se de contentamento – por detrás de um gole na sua chávena. – E qual é?

Hermafrodite pareceu pensativo durante alguns segundos, como se procurasse recordar-se da tarefa que lhe fora dita. Conhecendo-o e à sua fraca e selectiva memória, não tive dúvidas de que era exactamente isso que se encontrava a fazer.

- Ora bem… Eram uns carneiros… E se não me engano alguma coisa a ver com oiro… Ou era prata? Não, não, tenho a certeza que era oiro…

- Carneiros e ouro? – sintetizou Psique, extraindo o que era possível da fraca informação de Hermafrodite. – Os carneiros de lã de ouro? Ela quer esses carneiros!?

- Ah! – exclamou triunfantemente meu irmão. – É isso mesmo! Não, quer dizer, não os carneiros! Só a lã. A Mamã só pediu pela lã.

- “Só” é um tanto ou quanto relativo – argumentei. Hermafrodite olhou-me, confuso. Com certeza que ele não poderia ter-se esquecido…? – Irmão, o mau génio daqueles carneiros é tão conhecido quanto a sua lã!

- É? – perguntou Hermafrodite, genuinamente admirado. Pousou finalmente a chávena na mesa à volta da qual nos encontrávamos a discutir a segunda tarefa de Psique e esticou o braço em direcção a um dos bolinhos secos.

- É – confirmei, ouvindo Psique dize-lo em simultâneo. Calei-me, deixando-a continuar.

- Não podemos dizer que é inesperado – declarou a esposa de Eros. – Afrodite deixou bem claro que não estava para brincadeiras, assim como eu afirmei com todas as letras que arcaria com tudo o que ela me reservasse.

- Isso é um sim? – perguntei, perfeitamente consciente do que ouviria em retorno.

- É um partimos amanhã – respondeu firmemente Psique. – Vou avisar Helena para que prepare apenas o essencial. – Olhou incerta para Hermafrodite, ocupado demais com o seu bolo seco para se aperceber de que era um centro de atenção. – Ele vem? – perguntou, dirigindo-se a mim. Encolhi os ombros, demonstrando a minha ignorância sobre os seus planos.

- Não – respondeu Hermafrodite. – Eu fico por aqui à espera do vosso regresso. Se houver regresso, acrescente-se.

- Haverá – garantiu Psique. – Garanto que haverá.


N/A: Sim, Hermafrodite tem dois sexos, tecnicamente não é ele nem ela, é ambos, mas por questões logísticas refiro-me como um ele. Não perguntem porquê o masculino em vez do feminino, garanto que não qualquer tipo de complexo de inferioridade XD, apenas calhou.



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