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Um Presente Especial
Nicolau andava sozinho pela rua enfeitada com motivos natalinos e profusamente iluminada. Mãos nos bolsos, andar reto, o rapaz passava na frente das vitrines das lojas que ofereciam os mais variados tipos de produtos, seja a preços exorbitantes ou a quantias dignas de ótimas liquidações. Através dos vidros via brinquedos coloridos, perfumes caros, roupas bonitas e até luxuosos casacos de pele. Tudo cercado por bonecos e adornos representando Papai Noel, guirlandas, duendes e lâmpadas, as placas e letreiros anunciando o preço das mercadorias... Mercadorias, mercado...
O Natal estava, mais a cada ano, transformando-se em comércio.
A confraternização e a paz, que compunham o verdadeiro significado da festa, perdiam espaço para uma crescente onda de consumismo e individualismo. Na maioria dos casos, as pessoas se importavam apenas com a comida da ceia e os presentes. E às vezes, quando não gostavam de algum, chegavam até a ficar de cara virada para quem o dera por um ano inteiro até o Natal seguinte, quando teria a chance de “se redimir”. Nicolau achava tudo aquilo um imenso absurdo. Poeta, procurava resgatar a real essência natalina através do que escrevia, porém sentia não ser suficiente...
Se desejasse ganhar algum presente, o jovem pensava apenas em um... E não se tratava de qualquer coisa material...
Há tempos era apaixonado por uma garota de sua classe chamada Nina. Linda, simpática, inteligente, meiga... Tudo com o que sempre sonhara se tratando de uma menina. Nicolau nunca namorara e queria muito encontrar alguém, porém era muito tímido e desajeitado. Até que, poucas horas antes naquela véspera de Natal, a esperança tomou-lhe o coração: Nina, que obtivera seu telefone através de uma amiga, ligou para o garoto convidando-o a encontrar-se com ela na Praça Central à meia-noite. E lá estava o rapaz, confiante e feliz, seguindo até o local com sua melhor roupa e pensamentos sonhadores.
Ao contrário do que muitas pessoas faziam, ele não gostaria de presentear aqueles que amava, como uma eventual namorada, com algum produto ou mercadoria, perecíveis e transitórios. Se ele amasse e fosse correspondido, ia querer pegar nas mãos de sua amada e, olhando bem nos olhos dela, desejar-lhe um bom Natal e muita paz e felicidade, além de dizer que a amava como ninguém. Como ele gostaria de poder fazer alguém alegre, de acalentar uma alma...
Quando percebeu, já entrava na Praça Central, praticamente fazia àquela hora, pois quase todos estavam em suas casas, ceando, às vezes simulando uma animação que mascarava algum tipo de tristeza ou carência, as quais presentes materiais não poderiam nunca aliviar. Respirando fundo, Nicolau olhou para a grande e luminosa árvore de Natal que havia sido montada no centro do lugar, e aos pés dela, trajando um vestido lindo e estando mais bela do que jamais imaginara, Nina o aguardava sorrindo.
Hipnotizado pelo esplendor da colega, o jovem parou, aproximou-se dela a passos mais lentos e cumprimentou-a, acanhado:
“Oi, Nina”.
“Oi, Nicolau” – retribuiu a menina, sempre graciosa. – “Tudo bem?”.
“Tudo sim, e você, como vai?”.
“Tudo bem também!”.
Os dois ficaram em silêncio por segundos que pareceram ser eternos, trocando um olhar mágico. Nicolau estava tremendo, mas conseguiu disfarçar isso bem. Ainda com um sorriso divino em seus lábios lindos de batom, Nina falou, tendo também um pouco de vergonha:
“Eu chamei você aqui para conversarmos... É que fiquei sabendo de algo...”.
“O quê?” – o garoto estava nervoso.
“A Nara me contou que você gosta de mim há meses... Mas nunca teve coragem de se declarar!”.
“Bem, eu...” – Nicolau suava. – “É verdade!”.
Para surpresa do menino, o sorriso da amada ampliou-se, e ele viu-a chegar ainda mais perto de si. Tomado pela mágica que emanava naquele encontro entre os dois, logo se tranqüilizou, e a jovem revelou:
“Não sabe como isso me deixa feliz!”.
Nicolau agradeceu muito a Deus em seus pensamentos naquele instante e, felicíssimo por ter ganhado aquele presente tão especial, aquela dádiva tão reconfortante que constituía o amor correspondido, o garoto também abriu um sorriso e desejou, com indescritível satisfação e sinceridade:
“Feliz Natal, que sua vida seja repleta de luz, felicidade, paz, e saiba que eu amo-a como ninguém, e que farei tudo ao meu alcance para sempre vê-la bem!”.
“Essas palavras são o melhor presente que eu jamais poderia ter ganhado...”.
Em seguida beijaram-se. Sim, apesar de todo o consumismo, toda a hipocrisia, toda a mesquinhez e toda a superficialidade que têm se associado ao Natal, a chama do amor ainda vive, e enquanto existirem pessoas como Nicolau e Nina, ela não se apagará tão cedo. O carinho sempre prevalecerá sobre o desejo de comprar, os abraços e beijos nunca valerão menos que o dinheiro. Havendo paz e solidariedade entre os homens de boa vontade, a humanidade ainda poderá seguir em frente.
Feliz Natal e um próspero Ano Novo, Marjarie! Que o amor nunca deixe de estar vivo em seu coração!
Abraços!
Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – “Goldfield”.