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Sinuca e futebol
Era uma quarta-feira. Fluminense e São Caetano na televisão. Resolvemos jogar sinuca. Achamos que era a coisa perfeita pra se fazer numa véspera de feriadão. Fomos direto ao bar da faculdade, que, graças ao jogo, estava lotado.
Nos entreolhamos, não caberia mais uma pessoa naquele lugar. Seguimos para a Caverna, um bar não tão simpático e, certamente, não tão cheio. Andamos pelos dois quarteirões que agora nos separavam do Caverna. Risos e brincadeiras eram deixados pelas calçadas. Chegamos ao Caverna e constatamos alegremente que apenas duas ou três mesas estavam ocupadas por torcedores que não tiravam os olhos do jogo.
Seguimos para o segundo andar, onde ficavam as mesas de sinuca. Com o lugar praticamente vazio, a não ser por umas três meninas que se divertiam com a maquina de musica, compramos algumas fichas e cervejas e nos dirigimos a uma das mesas mais ao canto. Como éramos apenas três, resolvemos jogar mata-mata, ao invés de jogar uma sinuca seria. Não somos ótimos jogadores, nem tentávamos aparentar ser, estávamos ali por pura diversão.
Jogamos e nos divertimos e nem reparamos o lugar encher até que um dos garotos que estavam esperando uma mesa veio falar conosco.
- Oi! Licença, mas vocês vão jogar muito ainda?
- Olha, nós ainda temos três fichas. Então, no mínimo mais três partidas...
- Ah! Então deixa pra lá, ‘brigado.
Só então olhamos ao redor e vimos que o lugar estava realmente cheio. Não demorou muito para que outro viesse perguntar sobre a mesa. Respondemos que ainda jogaríamos uma partida ao menos, mas ao invés de sair como o outro, ele ficou. Sentou-se próximo a mesa e ficou esperando. Não nos importamos muito e continuamos o jogo.
Acabamos mais uma parida e começamos uma outra e o homem continuava sentado. Estávamos bebendo desde a hora em que havíamos chegado (o que já dava um bom tempo), então começamos a jogar pior que o normal. Faltando apenas uma bola para o fim da partida, e também da noite, já que já tínhamos gastado todo nosso dinheiro, fomos encher mais uma vez os copos. E qual não foi nossa surpresa ao voltar para a mesa e acertar aquela ultima bola?
O homem que até aquele momento estivera observando havia posto sua ficha na mesa e já a arrumava para uma nova partida. A raiva que sentimos por ele ter acabado com a partida foi imensurável. Acho que naquele momento o desejo de nós três era o mesmo. Pelas caras de raiva e os nós dos dedos brancos era obvio que todos queríamos fazer o taco entrar em alguns dos orifícios daquele sujeito.
Bom, claro que nenhum de nós fez nada de verdade. Afinal, o homem era grande, estava acompanhado e parecia já estar pra lá de Bagdá. Jogamos os tacos na mesa e simplesmente fomos embora. Xingando e praguejando, lógico, mas fomos embora. Ao invés das brincadeiras, andávamos agora pelas mesmas calçadas, dessa vez deixando maldições.
Cada um para sua casa, nem vimos o resultado do jogo. Foi difícil dormir, mas no dia seguinte o jornal trouxe uma noticia, que apesar de trágica, não conseguiu deixar de me fazer sorrir. Uma foto mostrava o rosto exato do homem que havia acabado com o jogo no dia anterior. A manchete dizia que o traficante havia sido morto empalado por um taco de sinuca ao se meter numa briga num bar em Niterói depois de ver que o Fluminense havia empatado o jogo.
Passei a assistir assiduamente todos os jogos do time.