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Beijo Hollywoodiano
Nunca entendi a cena mais romântica de um baile representado pelo cinema americano, com direito a todos os efeitos hollywoodianos durante o filme.
Claro. Quando mais nova e ainda agora sinto aquela expectativa previsível sobre a incrível demora do tão esperado beijo do casal. É impossível não esperar!, é clichê e já foi mostrado tantas vezes que quando não acontece nos decepcionamos.
A garota, tímida ou não, põe sai mão nos ombros do rapaz e ele por sua vez toca delicadamente na cintura fina da heroína. Com um sorriso ela envolve o pescoço do garoto que sempre é uma cabeça mais alta que ela e entrelaça seus dedos, sentindo as mãos do garoto segurando-a pela cintura e fazendo-os se moverem centímetros totalmente fora do ritmo.
Os braços da garota ficam quase que esticados e sua coluna fica numa posição extremamente incômoda pelo esforço que ela faz para olhar nos olhos do outro. O rapaz, experiente e com mais confiança olha para baixo sorrindo; a distância entre seus corpos permite um retrato gravado na mente de ambos. Apaixonados e tentando as chances.
Tão lindo! Eles pareciam contentes apenas em se encararem, e mesmo que não houvesse nada, assim era o jeito que dançavam, se não eram exagerados e criadores de passos. Ou pior, quando não dançavam de forma libidinosa; prática horrível praticada inclusive aqui.
Como brasileira, nunca consegui imaginar uma festa nossa assim. Principalmente agora, na mesma situação que a mocinha estava. Nossas festas não permitiam alguém ficar parado, era um absurdo, e mesmo juntos os movimentos eram animados. Talvez seja o valor que damos à uma dança. Dançar com um menino numa festa com música não é uma promessa de amor eterno ou um beijo tão importante quanto nos filmes. É pura e simplesmente uma dança, uma “seqüência de movimentos corporais executados de maneira ritmada” segundo o dicionário.
Realmente, os filmes não são nada parecidos com a vida real.
Valorizamos mais o contato. Com a música alta e todos dançando, enlaço os braços no pescoço de um garoto e ele me puxa pelas costas, deixando que nenhum espaço fique entre nós. Seu rosto afunda em meu cabelo e seus braços me envolvem.
Talvez seja apenas meu jeito de ser; claro que adoraria que o garoto dos meus sonhos – que, por sinal, nunca é perfeito – me segurasse com segurança e me guardasse com carinho enquanto me olhava apaixonado todos os segundos. Mas não gosto de ser o centro das atenções, por isso só me aproximo – quando me aproximo – quando sei que nem todos focavam em mim.
Pouco me importa os boatos que correm depois de uma festa, se precisar, danço sozinha, olhando inclusive para o chão e eu o faço. Mas meu corpo pede pelo prazer da dança, e eu sinto esse prazer abraçando um outro corpo; o contato já me é o suficiente.
E odeio, odeio, quando ficam me olhando. Nunca fui boa em encarar e ainda não continuo sendo, prefiro mil vezes deixar que a carne comande o jogo na dança do que a mente, pois é com ela que penso e faço besteiras.
Como está acontecendo agora. Não era para eu estar no meio da sala junto de você, não era para estar vendo os risos irritantes de minhas amigas e com toda certeza não era para eu estar de frente à você, olhando em seus olhos.
Deus!
Se não fosse pelo maldito jeito que me segurava eu já teria saído há muito tempo, agora seria ótimo se o toque fosse singelo como nos filmes e não forte e determinado. Nada contra, estaria tudo bem se eu não pudesse ver o olhar que recebia; aquela súplica exacerbada que me tirava dos eixos.
Seria melhor se eu não pudesse ver, se eu pudesse descansar a cabeça em seu ombro e simplesmente esquecer de qualquer segunda intenção que o toque trazia. Não, talvez fosse pior; as palavras podem se perder no caminho e memória, mas têm um poder incrível e eu não agüento mais os pedidos sussurrados.
Então aqui estou eu. Frente à frente com o garoto pelo qual tinha uma leve atração. Uma pequena e estúpida queda que acabou há séculos.
Querendo ou não vi seu rosto se aproximar, poderia fechar os olhos, mas não queria, os seus sem se desviarem enquanto lentamente forçava o caminho. Não dizem “água mole e pedra dura tanto bate até que fura”? Cansei de ouvir e de pensar, por isso estava vermelha agora; totalmente sem-graça diante do sorriso conhecedor que via em sua boca. Os segundos passam mais devagar na medida em que nos aproximamos quando enfim seus lábios encontraram os meus.
Mesmo que fosse ruim, mesmo que nada acontecesse, era um alívio porque finalmente acabou. Agora entendo o momento romântico do filme. Demoram tanto que é um alívio quando acontece. Eles sentem conforto, por isso podem aproveitar com tranqüilidade o tal beijo.