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Karkelius olhava com um misto de receio e desconfiança para o feiticeiro da pequena vila de Ortus. Desconfiaria ele de alguma coisa? A dúvida atormentava-o desde que se decidira à traição mas, justificava-se interiormente, nos tempos que corriam quem o podia culpar de querer manter-se a salvo, a si e à sua taberna, do espírito devastador de Kurl? A lei do mais forte dominava, quem o não fosse ou se lhe juntava ou perecia e Karkelius limitara-se a escolher a primeira hipótese.
Acabou de limpar as canecas e dirigiu-se ao feiticeiro. De uma das pequenas janelas notava-se o brilho intenso da Jade da Vida. Enquanto brilhasse, a sua protecção seria inviolável, mas caso esse brilho se apagasse ou extinguisse, a vila tornar-se-ia vulnerável a todo e qualquer ataque. O estômago do taberneiro deu um nó ao lembrar-se do seu acordo com Kurl.
- Está nublada – a voz do feiticeiro intrometeu-se nos pensamentos de Karkelius.
- Hãh!?
- A noite – elucidou o feiticeiro. – Encontra-se coberta pelas nuvens. Mau sinal. Ficaria aqui esta noite se não tivesse assuntos tão urgentes...
- A Jade da Vida proteger-nos-á – respondeu abruptamente Karkelius, o suor a cobrir-lhe a careca. O feiticeiro lançou-lhe um olhar penetrante.
- Sim – respondeu por fim. E, deixando um cobre em cima da mesa tosca de madeira, vestiu o manto de viagem e saiu com a sacola ao ombro.
O taberneiro respirou fundo e varreu a moeda para dentro da bolsa de coiro. Quando expulsou o último bêbado da taberna, dirigiu-se silenciosamente ao nicho da Jade da Vida. Não podendo apagar a sua luz, abafou-a com um espesso cobertor e enterrou-a funda na terra fofa. Em seguida, dirigiu-se aos portões. O guarda dessa noite dormia profundamente. Karkelius apunhalou-o rápida e sucessivamente, escancarando em seguida os portões. De imediato dois batedores de Kurl incentivaram as montadas pelo portão.
- Fizeste tudo como combinado? - inquiriu rudemente um deles, de dentes afiados e pontiagudos.
- A Jade está enterrada e o guarda morto. Toda a vila dorme – respondeu Karkelius. - Receberei a minha recompensa como prometido?
- Oh, sim – assegurou o outro sorrindo desdenhosamente. - O meu Senhor Kurl dar-te-á a recompensa merecida assim que chegar.
- O traidor traído por traidores – murmurou o feiticeiro, e, engolindo as emoções, virou costas ao tenebroso cenário, dando início à sua jornada.
N/A: Texto já com uns dois anos e meio, talvez três... Inicialmente seria o prologo da minha primeira tentativa de livro de fantasia mas acabou por ficar parado porque para alem deste prologo só escrevi mesmo o 1º capitulo. Encontrei-o no computador de casa quando estava à procura de documentos que tinha no portatil e que poderia ter tb naquele... (tentativa bem sucedida de minimizar as perdas que sofreu com o "pifamento" do disco rigido - só os textos mais recentes é que não estavamlá). Como podia ser postado independentemente resolvi faze-lo de modo a ir actualizando o meu press. Ok, e tb pk foi o meu orgulho de há dois anos e meio (talvez três) anos atras,embora agora me pareça que poderia te-lo escrito de um modo melhor.
Bjs