Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » General » Anjos Públicos font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Published: 03-27-08 - Updated: 03-27-08 - Complete - id:2495775

Mais um texto pra meu conjunto de reflexções em forma de conto.

Anjos Públicos

O encaixe entre o corpo e a cama nova é perfeito, mas ainda assim há um rompimento nessa harmonia. Ela pega o celular e aperta com força desnecessária a tecla vermelha que desliga o despertador. Não há como ter certeza que está mesmo acordada, até que os pés tocam o chão ridiculamente frio do banheiro.

Ao escovar os dentes, flachs cada vez mais borrados do ultimo sonho se alternam a cada piscadela no interior da pálpebra. Cavalos esqueléticos, uma banheira enorme, uma moça linda e nua, lagrimas...não faz sentido, e não é de todo agradável, como sempre.

A mecanização dos movimentos a leva a sair de casa ainda mastigando o ultimo pedaço de torrada com requeijão, equilibrando a chave em uma mão, pastas no antebraço e uma mochila gasta e velha no ombro. Caminha devagar até o ponto de ônibus, porque como sempre saiu adiantada cinco minutos. Senta-se, os pés virados pra dentro, o rosto apoiado na mão e o cotovelo no joelho direito. Olhos perdidos onde as paralelas se encontram. Está sozinha ali, mas não por muito tempo.

Uma senhora chega. Depois uma mãe de meia idade. Não demora cinco minutos para que comecem a conversar sobre as inutilidades cordiais que se conversa nessas ocasiões, e logo se descobre que a mãe é a falante. Em todos os lugares públicos do mundo parece haver exatamente um exemplar desse, geralmente do sexo feminino, que sente um prazer quase orgástico em falar sobre sua própria vida desinteressante, filhos, tempo e outras coisas do mesmo nível. Outro jovem de mochila se encosta no primeiro apoio que encontra ao chegar, olhar tão vago quanto o dela. Nem muito bonito nem muito feio. Jovem classe-média, desses existem aos montes. Um negro metido em um terno impecável, com uma pasta de couro falso de baixo do braço. Outra senhora, imperturbável diante das tentativas da falante de puxar assunto. Uma moça plasticamente bonita, sem nada fora do contexto, uma classe média trabalhadora. E finalmente o ônibus.

Quando todos acabaram de se acotovelar civilizadamente para entrar e pegar um dos disputados lugares de plástico duro, ela encosta a testa na janela e observa o ponto vazio, aquela mulher de cabelos vermelhos correndo lá longe achando que pode alcançar o ônibus já em movimento, o brilho fraquíssimo da luz do sol refletindo nos chaveiros da mochila velha.

Eu não tenho vida.

E o pensamento a atinge com força suficiente para que o mundo ao redor dela suma sem que ela suma para ele. Não vê mais ponto de ônibus, nem brilho, nem mulher de cabelos vermelhos, nem percebe o incomodo do encosto sobre as costas nem a pessoa que senta-se ao lado quieta e igualmente imersa em pensamentos próprios. Não é a primeira vez que tem aquele pensamento, talvez seja a primeira em que realmente o percebe, mas ele em nada a surpreende ou a faz sentir algo mais. Afinal, quem tem vida?

Muita gente tem vida, se contra argumenta internamente, desencostando a testa da janela de deixando nela uma nodoa transparente, a marca da pele. Eu tenho uma vida! Se afirma, quase com garra, pensando vagamente nos happy hours e cineminhas de quarta feira. O que eu não tenho é companhia, se completa, a garra recém adquirida dando lugar a um derrotismo resignado.

A pessoa ao lado se levanta e ela percebe, assustando-se com o fato de não a ter notado antes. O ônibus para trinta segundos depois, a pessoa desce e alguém mais sobe, e se senta exatamente no mesmo lugar.

A pessoa tem cabelos longos, pele pálida e rosto forte. É uma pessoa que não parece predisposta a divagar sobre a própria vida num ônibus lotado, e sim alguém que tem certeza que tem uma vida, amigos, aventuras e principalmente companhia. A pessoa lhe sorri, sorriso educado, e vira o rosto para frente. Ela não consegue desviar muito bem o próprio olhar, que acaba voltando-se para o outro ser de poucos em poucos segundos. Por fim a pessoa vira completamente o rosto, parecendo até acostumada com esse tipo de atenção, um sorriso genuíno no rosto, e fala alguma amenidade. Diferente da faladeira, a amenidade parece fazer sentido. Ela responde, e continua a conversa.

Ao descer do ônibus, sozinha, de alguma maneira ela já não pensa mais em solidão, ou vida. Ao menos por um tempo, aquela sensação não voltara.



Return to Top