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Fiction » General » O Sonho font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Hurt/Comfort - Published: 03-27-08 - Updated: 03-27-08 - Complete - id:2495781

N/A: Este conto minusculo resultou de uma especie de auto desafio onde busquei entre imagens do PC e palavras do dicionario algo minimamente condizente com uma história. A sequencia de palavras e idéias desconexas que levou a esse conto são essas: Palhaço. Parque de diversões...abandonado. Amanhã (futuro). Lua. Olhos. Estações. Medo. Estrada no meio do deserto, vazia. Conversível vermelho (velho)

O Sonho

Um parque de diversões se estendia diante de seus olhos grandes e infantis, cheio de luzes, musica e gritos de crianças felizes. Todo o ambiente parecia parte de uma fita antiga, pois junto com o cheiro de algodão doce, podia sentir o cheiro de poeira, e as nuvens eram amareladas e cortadas por riscos e arranhados de um filme de cinema. Estava lá mais uma vez, outra vez, naquele sonho.

Não fez força para acordar, ou para muda-lo...gostava daquela parte. Gostava daquele sonho repetido, meio inconsciente, meio doce, meio reminescente. Logo ele chegaria, o palhaço com os balões.

Sim, lá estava ele, pulando em direção a ele, a grande cara redonda pintada de branco e vermelho, sorrindo para ele...só para ele. E então parando na frente dele, com aquele mesmo sorriso enorme, aquele mesmo cabelo encrespado e laranja, os mesmo sapatos...tão alto! Ele se abaixou na frente do garotinho e lhe entregou o melhor balão de todos, o mais cheio e mais vermelho, enorme também, gigante!

Seus dedinhos de unhas roídas seguraram a cordinha, temendo – e talvez desejando – que o enorme balão o fizesse voar, tirar seus pés e joelhos ralados do chão poeirento...um vento muito forte assoprou a mesma poeira, fazendo o balão mexer-se e levar o menino junto, não para o alto, mas para longe, cada vez mais longe do palhaço, numa corrida desenfreada para não perder o premio seguro precariamente entre os dedinhos vermelhos.

Um pássaro de metal com um bico afiado e garras reluzentes cor de ouro passou voando entre eles, circulando-os como um pequeno e delicado urubu mecânico, e certeiro como um tiro, enfiou o bico no balão.

Pluf! A grande bola vermelha estourou no ar e sumiu, deixando no lugar apenas uma corda e uns pedaços pouco reconhecíveis de plástico vermelho. Seus olhinhos fecharam-se por um segundo, e quando voltaram a se abrir, já não eram olhinhos. A mão que segurava o balão estourado era grande, bem tratada e adulta, e já não era mais desbotada como um filme antigo. O pássaro havia trazido consigo o futuro, e o futuro era cinza, feio, e sem luzes.

Não havia ninguém no parque, as cores das tendas e do carrossel haviam desbotado quase todas para um tom próximo e murcho, decadente. A roda gigante estava quebrada, e a tenda de doces, vazia e rasgada. O chão estava coberto de pedras e cacos de garrafas de cerveja, e ao longe o deserto via um raro dia cinza e tempestuoso nas areias queimadas. Um resquício de vento frio fez a mão adulta soltar o balão, e aquele pedaço vermelho voou em direção ao deserto, rente a estrada, cada vez mais rente...

A chuva era deixada para trás a medida que os dedos bem cuidados apertavam a direção de um velho conversível vermelho, andando sozinho na estrada deserta e desértica, e seus olhos focavam em algum ponto longínquo onde as paralelas se encontravam. A lua despontava ali, pálida pela luz restante do dia, enorme devida a proximidade com o chão. Os olhos da lua encontravam os dele, e a sensação resultante era uma apreensão surda, impotente e insana, que o fazia acelerar, mais, mais...

Mais.

O desfiladeiro surgiu do nada, e o conversível voou sobre ele antes de ser chamado de volta aos braços da terra. A poeira entrou nos olhos dele, ofuscando ainda mais sob a claridade de um sol bem abaixo de si. Ia cair na luz daquele sol, ofuscado e cego por ela...

Com um grito rouco e abafado, ele sentou-se na cama, momentaneamente cego ainda pelo sonho, os olhos da lua pálida ainda nítidos na parte interna das suas pálpebras. Respirando com dificuldade, acendeu a luz do abajur e olhou enraivecido para o álbum de fotos, os DVD’s de Star Wars e a garrafa de vinho do porto pela metade. No próximo ano, daria um jeito de não passar o Natal sozinho. Outra vez.



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