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Fiction » Romance » O Êxtase da Paixão font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: M - Portuguese - Romance/Angst - Reviews: 5 - Published: 03-27-08 - Updated: 03-27-08 - Complete - id:2495783

N/A: Uma especie de conto, ou seja lá o que isso for, que prometi a minha amiga C. quando ela acidentalmente leu uma das piores fanfics da minha vida. Feito pra me redimir.

O Êxtase da Paixão

Meu corpo cambaleia escada abaixo, e eu sinceramente só consigo pensar na minha necessidade imediata de arrumar um santo lugar deserto para pensar. Evito os elevadores, pois nos elevadores as pessoas costumam por falta do que fazer prestar atenção nos outros, e se alguém prestasse atenção em mim agora veria claramente o Pecado marcado na minha cara, seus contornos nítidos nas marcas arroxeadas escondidas precariamente pela gola da minha camisa. Sinto no caminhar uma sensação incomoda por toda a pele, pegajosa como suor, sêmen e sangue fresco. É quase bizarro pensar que antes de meu banho relâmpago a dois minutos atrás estava realmente coberto das três substancias.

Chego ao fim das escadas arquejando, e não tenho certeza se é de cansaço ou de puro pavor. A fita branca que indica meu grau sacerdotal estrangula meu pescoço lentamente, e sinto ganas de arranca-la e joga-la no chão de cimento, na calçada suja e impura, para nunca mais usa-la. Minhas costas ardem com a fricção do pano. Entro no velho Volvo noventa e cinco de pintura desgastada e forço o carro a cortar as ruas não mais tão pacatas da cidade numa velocidade que poderia me render mais um problema, mas a hilaridade trágica da situação faz Deus olhar por mim nesses minutos, afastando qualquer autoridade policial. Deus...certamente não devia mais ter esperança alguma de ver Deus em qualquer momento da eternidade.

O pensamento me assola de maneira muito definitiva, muito seca e amarga, como uma pena consumada. Viro uma esquina e estaciono do fim de um beco sem saída de um subúrbio qualquer. Há muros dos dois lados, altos, protegendo casas extravagantes de marginais, mas a frente apenas um grade separa aquela rua de uma vasta paisagem, um campo verde esmeralda, desigual como um lençol amassado e desprovido de qualquer outro tipo de vegetação. O sol desponta daquele horizonte simples e verde, um sol limpo e vermelho de um dia de verão. Sua luz incide sobre o carro e sobre meu rosto, desenhando neles o padrão losangular da cerca. Me pergunto porque raios aqueles homens ricos construíram suas casas de costas para tão linda vista.

Deus nesse momento parece um gato com um grande olho vermelho sangue, brincando com sua presa antes de cortar-lhe a garganta fraca e pecadora.

Meus dedos rijos finalmente agarram a fita branca de pastor e a jogam com certa fúria no banco do passageiro, e em seguia as unhas fazem um caminho impudico sobre o peito até o interior das coxas doloridas por sobre o tecido fino. Meu pensamento voa para um quarto em completo caos de um pequeno apartamento no centro da cidade, onde um corpo masculino esguio, pálido e zombeteiro descansa sobre edredons negros e macios. É impossível conter a seqüência detalhada dos fatos em minha mente, como um angustiante filme de terror.

Ele entrando na igreja, sob a luz alaranjada do poente, as orbes negras fitando-me suplicantes quando eu dobrava a toalha do altar. Um pedido aflito de ajuda, quase comovente, a respeito de alguma pintura encomendada. Minha superioridade imbecil achando que era aquele apenas mais um desses loucos artistas que apelavam para a fé quando nada mais da uma vida promiscua lhes servia de consolo. Meu quase despeito em aceitar ir em sua casa abençoar seus quadros.

As coisas pareciam embaçar levemente a partir desse ponto, porque em sua dita casa além de um verdadeiro bacanal das mais variadas coisas das mais variadas partes do mundo comprimidas num espaço absurdamente pequeno, ainda havia muitas garrafas, e um cheiro estranho vindo de um incensório metálico. Lembro-me de ter percebi um pouco tarde que aquele cheiro não era o de um inocente incenso, como havia julgado a principio, mas sim de alguma espécie de erva ilícita. Talvez ele mesmo tenha me contado, enquanto enchia minha terceira taça de vinho batizado com algo eu aceitara beber?! Oras...eu era um homem cansado numa noite de sábado, cheio de problemas na cabeça e com uma companhia que se revelara estranhamente agradável, apesar de tudo. É impossível ser um homem de Deus em tempo integral.

Mas se as preliminares para tal pecado estavam estranhamente borradas por álcool e drogas, o pecado em si era nítido como o sol num céu sem nuvens. Começara com um murmúrio divertindo sugerindo que um pastor de verdade nunca posaria para um quadro. Houve uma resposta quase igualmente atrevida por minha parte, dizendo que eu poderia posar para um quadro sem ofender a vontade de Deus. Ele riu-se, riu-se muito, finalmente mostrando um de seus quadros, uma obra impudica de um homem nu contra a luz branca de uma janela de monastério, luz e sombra brincando com um corpo liso e forte. Era de uma beleza estranha, ao mesmo tempo pura e suja. Era, para um homem em meu irrefreado estado mental, excitante.

E então ele dissera algo...palavras ocas de sentido e recheadas de significado. Foi pintado em um templo budista, foi o que ele disse, o rouco sussurro chocando-se contra minha nuca enquanto seu corpo postava-se atrás do meu, também olhando a obra. Só então notei os olhos puxados e a cabeça sem pelos do modelo retratado, e perguntei-me, um tanto obviamente, se um verdadeiro monge posara para ele. A pergunta foi respondida pelo artista em forma de outra pergunta.

“Posaria para mim, pastor?”

Ao menos uma pontinha de minha vergonha imensa é amenizada ao lembrar-me que inicialmente recusei. Compreendera, ainda que parcialmente, que eu estar naquele apartamento era resultado de uma espécie de armadilha executada com perfeição por ele, e seu sorriso enviesado confirmava minha teoria. As íris negras repentinamente a mim pareceram a mim demoníacas.

E pobre de mim, um fraco homem de Deus, lutar contra um demônio verdadeiro. Suas duas mãos delicadas deslizaram pelo meu braço e me arrastaram para um quarto conjunto, seu estúdio, ignorando meu ‘não’ educado. Um pequeno cenário fora montado, uma cruz de madeira encimava um altar coberto de panos negros em cascata, velas amareladas iluminavam-na e lançavam semi-luzes sobre um cálice de vinho e um pedaço de pão partido. Quando meus olhos bateram naquele sacrilégio montado com tamanho esmero de frente para um cavalete grande, pude me ver no meio dele imediatamente. A coisa toda fora montada para mim.

As mãos do artista, vindas de trás do meu corpo, desabotoaram meu cinto e abriram minha calça, sem que eu nada fizesse. Meus olhos estavam pregados no local onde eu ficaria, naquela única lacuna do cenário, torpemente. Os botões de minha camisa foram abertos, um a um, com lentidão, enquanto seu tórax parcamente coberto por uma regata branca encostava-se as minhas costas e ele murmurava outras palavras sem sentido em meu pescoço. Não queriam dizer nada, apenas serviam para me manter hipnotizado pelos meus sentidos. A visão do altar profano, o cheiro doce de velas e incenso, o gosto fresco do vinho em minha boca, a sensação quente de dedos contra minha pele e a fala suave e melodiosa de um artista nato. Ele finalmente contornou meu corpo e olhou-me nos olhos, repetindo sua pergunta.

“Posaria para mim?”

Oh, eu posaria! Mexi os ombros fazendo a camisa de corte reto e muito bem passada deslizar e formar um monte insignificante no chão. Dei um passo a frente e minhas calças engomadas, retas e altas juntaram-se a camisa. Levei a mão ao pescoço para me livrar da fita, mas sua mão de dedos quentes me impediu. “Isso não” ele disse, e dei ombros. Fiz escorregar pelos meus quadris a roupa intima branca, e ele me conduziu até meu lugar pela mão. Sentei-me entre os panos negros de seda, as pernas em ângulos quase sensuais cobrindo languidamente meu sexo, a cabeça encostada aos pés da cruz, fazendo meu pescoço ficar visível e meus lábios se abrirem automaticamente.

“Perfeito” Foi seu grave murmurou, num tom cheio de paixão...não por mim, mas pela minha imagem, e pude ouvir carvão raspando a tela por tempo suficiente para que eu perdesse a noção do mesmo. Então ele novamente se aproximou, e havia um punhal em sua mão. Senti medo, e murmurei por Deus. Ele sorriu, e virou o cabo para mim, e quando me apossei da faca ele tirou a camisa deixando completamente exposto o peito claro e sem qualquer resíduo de pelos.

“Confio em você...depois você poderá confiar em mim”. Divisei, semi-ocultas pela luz precária, pequenas cicatrizes em seu dorso, linhas brancas cicatrizadas. Recusei-me a cortar sua pele, fosse pelo motivo que fosse, e larguei a adaga sobre os tecidos. Ele a pegou e passou a ponta fria sobre meu peito nu, fracamente.

“Sangraria um pouco pelo bem da arte?” e seus olhos me incitaram a dizer sim, novamente. Mas não pela arte, por ele, porque ele me pedira. Houve um pouco mais de pressão contra meu peito e o senti arder bem acima do coração. Uma cruz feita a lamina começou a sangrar, mas a dor não me incomodava. Não era um corte profundo.

Ele voltou a tela, e meus olhos se fecharam absorvendo a dor fraca. Novamente o tempo se perdeu entre as pinceladas desiguais dele. Quando voltei a mim, ele havia coberto a tela com um tecido translúcido e me sorria.

“Quando o vi falando na igreja, sabia que seria minha obra prima...há paixão de mais em você”

Seus passos foram silenciosos até mim, e ele prostrou-se de joelhos perante minha figura e a cruz. As orbes antes demoníacas então exibiam um brilho angelical.

“Eu não sou Deus” disse, rouco, desfazendo a pose em favor de uma mais cômoda e erguendo seu rosto para o meu.

“Não é a Deus que estou adorando agora” e seu rosto se ergueu, e seus lábios suaves colaram-se aos meus, e seus dedos longos sujos de tinta escorregaram pela minha pele para dentro das minhas coxas. E eu apenas resolvi, sem qualquer outra escolha visível, deixar sua língua profanar minha boca, e suas mãos transformar meu corpo numa tora rija de desejo e calor.

Não houve nenhum tipo de complicação após esse primeiro estagio. Eu já estava nu, e para que ele se igualasse a mim faltava apenas uma calça larga de moletom. Puxamos sem querer o edredom negro para o chão, derrubando o vinho e apagando as velas. Quando apenas a luz subentendida das estrelas passou a iluminar o local através da janela meio fechada, o mundo parou de existir.

Eu, inexperiente, apenas me deixei levar pelas sensações que ele, experiente, me causava. Pelo calor, pelo desejo, pela loucura, medo, e...dor, e novamente prazer e loucura até o ponto em que nossos corpos alucinados explodiram juntos em um êxtase muito maior do que o dos santos que eu conhecia.

Quando acabou, uma claridade laranja enfraquecida já entrava pela janela, e a noite levava junto consigo minha ilusão tola de que tudo aquilo não passava de mais um sonho. O peso dele sobre o meu era muito real, a sensação de prazer carnal e de dor era muito vívida, para que aquilo fosse apenas um sonho louco no qual eu me metera. Junto com os primeiros raios de sol, me veio todo o peso das conseqüências. Seu rosto naquela luz, exausto, me mostrava algo que eu não notara antes. Ele era muito jovem, talvez dez anos mais jovem que eu.

Mais um pecado para juntar-se ao meu Pecado.

Meu olhar pousara sobre a faca, esquecida inocentemente no chão ao nosso lado, e minha dor da culpa, ainda sufocada pela confusão mental, me fez pega-la e fazer vincos profundos em minhas próprias costas com ela. Sabia que se não me cortasse, acabaria enterrando o objeto no coração dele, que me fitava semi-adormecido, quase desinteressado pelo meu gesto. Muito jovem...

Senti-me sujo como nunca havia me sentido na vida. Cambaleei para fora daquele ninho indigno e entrei no minúsculo banheiro do apartamento. Liguei o chuveiro e entrei de baixo dele, gemendo suplicas para algo que naquele momento, eu não entendia. Eu precisava me limpar! Precisava parar, e pensar em meu pecado. Precisava de punição. Aquele banho em nada me ajudaria...ficar ali apenas aumentaria minha lista de expiações.

Voltei para o estúdio, toda a minha pele ardendo de vergonha e dor, e vesti minhas roupas amassadas em um segundo. Mas não rápido o suficiente para que ele, todo enrolado em si mesmo entre as sedas negras, não tivesse tempo de me perguntar se não queria ver o quadro.

Saí sem uma única palavra dirigida a ele.

E então...então acabou-se comigo dentro de meu velhíssimo carro, com padrões de grade desenhados a sombra no rosto, lembrando-me cruelmente de cada detalhe lascivo de minha loucura. Sei o que devo fazer...devo voltar para a igreja, celebrar a missa de domingo. Devo então jejuar, ajoelhar em cascalho pontiagudo, rezar tantos terços quanto fosse necessário para que meu coração começasse a se aliviar de culpa. Deveria procurar outro pastor, confessar meus pecados, receber a devida penitencia. Deveria começar a pedir perdão, e continuar a vida como se nada houvesse acontecido.

Mas eu não posso. Não posso porque algo aconteceu, algo mudou. Eu não posso pedir perdão porque não estou arrependido.

A consciência que não estou arrependido me assola, ainda mais seca e cruel que a de que Deus já não mais me considera um dos seus. Estou envergonhado...estou desolado, confuso, enraivecido. Mas arrependido não. Não verdadeiramente.

Lagrimas mais quentes que o sol brotam de meus olhos e mancham minha face, e pela terceira vez perco a noção de tempo. Me sinto doente, fraco, usado. Derramo lagrimas após tantos anos, as primeiras após um tempo que eu nem me lembro, pelo fim de uma vida como eu a conhecia.

Não foi somente algo que mudou, tudo mudou. E eu estou perdido num novo mundo sem Deus. Não sei direito como consigo chegar a casa paroquial, mas lá permaneço por semanas, encarregando outro pastor dos serviços religiosos.

Corre pela cidade o boato que adoeci. Recuso um médico e não ouso dizer o nome da doença. As marcas em meu corpo não poderiam revela-la para sempre.

Recuso visitas, qualquer visitas, mas uma delas recusa-se a aceitar ser botado para fora. Estou sentado em minha cama com os olhos lacrimejantes olhando pateticamente para a capa negra da bíblia quando ele entra. Seus olhos escuros me avaliam com nada mais que dó. Ele carrega algo coberto por papel pardo.

“Ouvi dizer que estava doente”

Não me digno a responder, apenas espero que se vá. Ele encosta o embrulho fino na parede e caminha até mim, seus passos sem ruído me deixando acuado. Ele se inclina e deposita um beijo entre meus cabelos castanhos, acariciando suavemente minha bochecha. Não consigo me afastar, nem gritar, nem retribuir o gesto de qualquer forma.

“Desculpe...não sabia que se sentiria tão mal”

“Agora sabe” respondo, gélido, afastando meu rosto de seus dedos. Ele me olha com compaixão.

“Você ainda tem muita paixão dentro de si. Acho que cometi o erro de a despertar”

Não posso negar a verdade nas palavras dele. Minha vida morta pelo Pecado agora estava encubando um sentimento maior...paixão, havia paixão. Mas eu não sabia pelo que.

“Vá embora” murmuro, estarrecido, me perguntando se minha paixão é por ele.

“Você me deu de presente meu maior trabalho...em troca esperarei por você, pelo tempo que precisar. E então posso tentar te dar uma vida que inclua toda essa paixão”

Ele se levanta, e deposita mais um beijo desta vez em meus lábios. Fico olhando ele sair e fechar a porta, deixando o embrulho comigo. Sei o que é, mas demoro muito tempo para tomar coragem de me levantar e pega-lo. Há uma pequena nota escrita as pressas no papel pardo.

ISSO É SEU POR DIREITO, QUEIME SE O DESEJAR

Quase deixo escapar uma gargalhada amarga, antes de rasgar o papel e olhar para o quadro mais incrível que tive o desprazer de ver.

Lá estou eu, a expressão em êxtase divino, a luz das velas fazendo contornos místicos sobre meu corpo, a cruz de madeira se refletindo estranhamente na cruz de sangue em meu peito. O pão e o vinho brilham estranhamente, assim como o pedaço de tecido branco em volta de meu pescoç o resto era puro negro. Naquele quadro estavam o céu e o inferno, fundidos num só, e esse algo tão contraditório era eu.

Ele não mentira ao chamar aquilo de sua obra prima, e por mais terríveis que sejam as lembranças que me evoca, não poderia queima-lo.

Decido me desligar da igreja. Escondo o quadro cuidadosamente, e recupero minha saúde, porém tiro de meus ombros a responsabilidade da religião. Mudo-me de cidade.

Arranjo um emprego em uma galeria, ajudando na manutenção das obras de arte. Tenho um pequeno apartamento envolto em completo caos. Um jovem artista controverso e convidado para expor seus quadros na galeria onde trabalho, e um sorriso aflora em meu rosto quando ouço seu nome.

Acrescento, discretamente, um quadro de minha ‘coleção pessoal’ aos que serão expostos, e tomo a liberdade de lhe dar um nome. Tenho certeza que ele rira quando vir. Olho para o meu quadro tão vergonhoso exposto aos olhos de todos, por minha própria vontade, e pronuncio o nome que lhe dei.

Sorrio ao sentir um leve cheiro de incenso no ar, e me viro para olha-lo. Descubro que estava enganado...ele nunca foi um demônio ou um anjo, sempre foi algo muito mais complexo e magnífico. Ele sempre foi humano.

O Êxtase da Paixão, por Ângelo Demian Priest, dedicado a Gabriel Hope.


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