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Fiction » General » Julie Franklin e a Linhagem de Príncipes Bastardos font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sara Lecter
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Mystery - Reviews: 21 - Published: 03-30-08 - Updated: 05-24-08 - Complete - id:2497280

JULIE FRANKLIN e a Linhagem dos Príncipes Bastardos

Autora: Sara Clarice Lecter

Categoria: Geral, Mistério

Rating: indicado para maiores de 13 anos.

Spoilers: Julie Franklin e o Mistério do Falso Conde, Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto, Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor, Julie Franklin e o Outro Lado do Crime.

Disclaimer: mais uma vez contarei com lugares, personagens e acontecimentos reais, embora estejam entrelaçados em uma trama de mera ficção que não pretende ser um romance histórico. A Lenda dos Príncipes Bastardos, caso um dia me questionem, existe. Para descobrir se é verdadeira ou não, terão de ler até o final. Espero que a pseudo-estilista que cito em um flashback não venha a me processar por ridicularizar o seu nome – ela existe e ela é ridícula mesmo. Todo o resto é fruto da minha imaginação e está à venda, pois eu não tenho alma.


Prólogo

Um homem de semblante sério esfregou os olhos e se permitiu pausar a leitura para beber um gole do chá que esfriara sobre sua mesa. Deixou que seu olhar se perdesse no segundo nível de prateleiras da sua biblioteca, onde a encadernação vermelho vinho destacava os livros de referência. Os grandes romances ingleses ficavam à esquerda, do chão até o teto abobadado por dentro, embora uma visão aérea da casa revelasse um telhado contemporâneo, com suas taboinhas marrons e o caimento perfeito que evitava o acúmulo de neve sobre elas. O gosto do dono e idealizador do lugar permitiu que parte semelhante fosse dedicada à literatura francesa, que seu tradicionalismo inglês jamais permitiria admitir ser a melhor, mas seu conhecimento profundo do tema o obrigava a não se afastar de Hugo, Dumas (pai e filho), Flaubert, Balzac e amigos. Os exemplares mais raros, como os primeiros livros que tratavam do oriente para o público europeu, ficavam perto de sua mesa, no primeiro patamar, e ninguém tinha autorização de tocá-los, nem mesmo seu jovem e fiel mordomo que lhe servia também como conselheiro e melhor amigo, ambos compartilhando anedotas aventurescas: o criado nos subúrbios de Veneza e seu amo em terras hostis de onde teve de afugentar aborígines para tomar posse dos campos de petróleo que ganhou trapaceando em uma mesa de pôquer na terceira classe de um trem.

Uma cortina negra cobria uma das prateleiras, à direita de quem entrava e confortavelmente diante da visão de quem se sentava à mesa. Ned Franklin costumava dizer, a quem perguntasse e aos empregados, que atrás dela estavam os livros de ouro de muitas famílias londrinas, ou pelo menos algumas cópias, e que o manto tinha por objetivo isolá-lo daquele mundo que deixara para trás ao partir em um vapor para Sydney quando mal se tornara maior de idade. Vincent, o mordomo, nunca se atreveu a tocar e nem mesmo a ficar a menos de dois passos daquela prateleira atrás de uma grande pilastra feita com o cerne de um cedro bicentenário, mas era bom observador e já topara com genealogias londrinas e relatos de linhagens em várias outras partes da biblioteca, de modo que para ele estava muito claro que havia outra coisa ali atrás.

Ned se retirou da biblioteca no meio da madrugada, já bastante cansado. Vincent apagou as luzes da sala ao vê-lo subir pela escada a passos lentos.

– Boa noite, Vincent.

– Boa noite, doutor.

O mordomo viu a porta da biblioteca entreaberta e se lembrou da xícara de chá que Ned provavelmente deixara sobre a mesa de trabalho. Afastou dois ou três documentos que não pôde identificar devido à escuridão do recinto, mas a fresta de luz que entrava pela porta incidia sobre um grosso livro que o dono da casa deixara aberto. Vincent já se deparara com maravilhas naquela biblioteca: diários de bordo de navios pirata, cartas que seu amo trocava com presidiários, toda espécie de artigos relacionados à segurança de bancos e uma infinidade de manuais de todos os gêneros, os quais ensinavam desde como construir um mecanismo pequeno para abrir um cofre até catálogos dos melhores museus de arte do mundo. O acervo o encantava cada dia mais. De fato, para quem crescera nas ruas de um dos mais importantes portos do Mediterrâneo, um caso raro de judeu sem família, Vincent se fascinava facilmente com aquilo tudo. Fora para Londres com a promessa de ganhar muito dinheiro em pouco tempo e depois de dez anos com os Franklin já tinha fortuna suficiente para o resto de sua vida e nenhum plano de deixar aquela casa em Primrose Hill, onde apesar de serviçal, finalmente era tratado como ser humano.

Havia um grande motivo, além da agradável companhia de Ned, que prendia Vincent àquela casa. Ela nascera em Sydney seis anos antes de Vincent encontrar aquele misterioso livro sobre a mesa da biblioteca, em um parto difícil que deixou o filho de Ned com os nervos à flor da pele e que – segundo lhe constou na época – vitimou sua nora. A pequena Julienne passava grande parte de suas férias naquela casa, dando ao mordomo mais trabalho em algumas semanas do que o avô dela lhe dava no resto do ano, sempre fazendo perguntas, sempre inquirindo o mordomo com seus olhos castanhos semicerrados e uma expressão inconfundível de determinação que a acompanharia para o resto da vida. No dia em que tomou Julie nos braços pela primeira vez, assim que ela nasceu, Vincent soube que seu destino estava ligado ao dela para sempre, e ao contrário do que acusava a madrasta da garota, fora “Vinci” quem a ensinara os melhores – ou os piores – truques cedo o suficiente para que ela pudesse causar grande alvoroço pouco depois de aprender a andar com as próprias pernas e não o avô, que nutria por ela nada mais que o mesmo amor e devoção que tinha pela outra neta, alguns meses mais velha, e que teve depois pelo meio-irmão de Julie, que mal conheceu.

Vincent se permitiu pensar sobre aquilo por um instante. Ned Franklin enviuvou muito cedo e criou praticamente sozinho um casal de filhos: Lena e Peter. As duas crianças souberam muito pouco sobre parte da família que ficara no Reino Unido e provavelmente as mais significativas lembranças que tinham da infância remontavam alguma humilhação pública, às quais eram submetidas com freqüência por conta da má fama do pai. O varão rompeu com Ned assim que se tornou maior de idade, exigiu a herança que lhe cabia pela morte da mãe e criou aquela que se tornaria uma das maiores empresas do mundo, uma vez que o petróleo, vetor de seus negócios, foi o combustível que moveu o mundo por todo o século XX. Sua irmã Lena entrou na sociedade a convite do irmão, mas sua participação foi sempre simbólica, já que dois anos antes ela fugira para os Estados Unidos da América para se casar com um jovem que seu pai desaprovava. Ao “perder” os dois filhos, Ned voltou para a Europa, conheceu Vincent, e nunca mais deixou Primrose Hill, a única coisa que ainda pertencia aos Franklin no velho mundo.

Lena Sullivan – sobrenome de casada – logo engravidou e teve aquela que seria sua única filha: Jessica. O marido morreu oito anos depois, de ataque cardíaco em um motel barato nos braços de outra mulher e Lena jamais se casou novamente. Também nunca chegou a rever o pai com vida, apesar de permitir que sua filha passasse algum tempo com o avô depois que ela fez cinco anos. Jessica e Julienne, ainda que primas em primeiro grau, não tiveram qualquer convivência na casa do avô, que freqüentavam em épocas diversas do ano. Mais tarde, com a morte dele e logo depois a do pai de Jessica, dividiram muitos verões em Sydney porque seus pais voltaram a ser tão unidos quanto tiveram de ser na infância para sobreviver a tantas adversidades. O único incômodo era o pequeno Desmond, fruto do segundo casamento de Peter Franklin, que muitos anos mais novo, tinha por principal atividade infernizar a prima e a irmã.

Naquela noite, enquanto folheava um grande catálogo de jóias raras, hipnotizado por quatro conjuntos praticamente idênticos que eram anunciados como as peças perfeitas jamais criadas, Vincent não poderia supor que Jessica e Desmond protagonizariam um caso de amor e ódio que duraria a vida inteira; não poderia supor que Julienne e Desmond, seguindo os paços do avô, seriam criminosos temidos e ardis ao trabalharem juntos desde a adolescência; não poderia supor que Jessica e Julienne poderiam conviver tantos anos competindo em silêncio, guerreando por baixo dos panos, enquanto na superfície aparentavam uma perfeita relação entre amigas, primas ou cunhadas.

Vincent pousou novamente o grande livro sobre a mesa. Alguns esboços mostravam um colar cujo diamante no pingente deveria ter coisa de 50 quilates, perfeitamente dilapidado e transparente. Os brincos que o acompanhavam, segundo a legenda, tinham juntos outros 10 quilates. O mordomo apurou a visão para as letras miúdas: prata e diamantes, a combinação lhe pareceu muito boa. A página seguinte mostrava o mesmo modelo de brincos e colar, mas ao invés dos diamantes reluzentes, três grandes rubis adornavam as peças, novamente acompanhados de prata. Ele não precisaria ser muito esperto para adivinhar o que vinha nas páginas seguintes: o mesmo conjunto também em safira e por último em magníficas esmeraldas de um verde tão límpido que o mordomo pensou ser impossível existirem minerais tão perfeitos. Sentou-se na cadeira do amo e se pôs a ler o artigo, sabendo que não deveria fazer aquilo. Como a maioria das peças de catálogo de Ned Franklin, aquelas jóias eram atribuídas a um gênio e teriam poderes sobrenaturais se um dia reunidas. Vincent não era homem de se deixar impressionar por tais crendices, mas tantos anos ao lado do patriarca dos Franklin acabou por lhe ensinar que toda lenda tem um fundo de verdade e que não raramente a realidade pode se mostrar mais interessante do que todos os floreios que lhe são acrescentados quando uma história como essa atravessa os séculos.

Por alguma razão se firmou na mente dele a idéia de que as doze peças existiam e embora nunca tenha se arriscado a perguntar, o fiel mordomo sabia que o intuito de Ned Franklin era roubá-las para si e quando ele faleceu, um ano depois, sabia que a herança que ele deixava para os três netos estava além daquela casa em Primrose Hill e de algum dinheiro que restara de sua vida errante. Os verdadeiros espólios eram as pistas que levariam ao paradeiro daquelas jóias e por naquela época acreditar que apenas Julie seria capaz de seguir os passos do avô, Vincent achou que não faria mal usar o que aprendera ao ver espalhados alguns documentos de seu amo que um dia poderiam lhe dizer respeito.


JULIE FRANKLIN e a Linhagem dos Príncipes Bastardos

Capítulo 01 – A Agente Anne Marple

A copa dos pinheiros se agitava com a brisa quente do meio-dia. Não era exatamente uma clareira, mas a densidade dos pinus era menor ao redor de uma cabana de aparência rústica, mas muito bem equipada. Trinta metros montanha acima, entre as pedras, um pequeno receptor de satélite fora camuflado com galhos. A energia era obtida através do painel solar sobre a aba leste do telhado, a água era encanada desde uma nascente na floresta e bombeada por um monjolo cujo ciclo de quatro segundos era marcado por um estalo audível quando o vento soprava para o norte. Ao invés de incomodar, o barulho tornava a atmosfera ainda mais bucólica.

Jack acordou e imediatamente identificou o som que lhe despertara: um telefone celular. Balançou a cabeça, chateado, mas atendeu. Ainda se perguntava como o interlocutor tinha aquele número quando sacudiu delicadamente o ombro de Julie, beijando-lhe o rosto adormecido.

– Meu amor... Ju... – ele a ouviu resmungar alguma coisa e concluiu que teria de ser um pouco mais enfático. – Julie, telefone.

– Não estou para ninguém. – disse ela, virando-se e tapando o rosto com o travesseiro.

– Ronald Noble. – disse Jack, simplesmente.

Ele pôde notar pela expressão dela, assim que se livrou do travesseiro, que a ligação não era bem vinda. De qualquer modo, Julie apanhou o telefone da mão de Jack e lhe agradeceu com um sorriso pela delicadeza de acordá-la com cuidado. O sorriso desapareceu quando ela começou a falar.

– Franklin. – disse ela, deixando larga margem para que o comissário percebesse que a acordara.

Sinto pelo transtorno, Julie.

– Eu estou de férias, Ron. – reclamou.

Eu sei, eu sei. Desculpe-me.

– Você não ligou para ficar se desculpando. O que foi desta vez?

Um caso plural da Judiciária. Não ouviu falar porque não deixamos vazar para a imprensa. Cinco mortes até agora. – disse o comissário, pesaroso.

– Há quanto tempo está agindo? Já conseguem saber? – o tom de Julie se tornou mais sério.

A primeira vítima foi raptada há dois meses.

– Então age rápido. Causa mortis comum?

Estrangulamento. Por isso temos quase certeza que é um homem.

– Não me passe mais detalhes por telefone, é perigoso. Ouça, mande o que puder para o Vinci, ele sabe como me encontrar.

Certo. Qualquer coisa que possa identificar ajudará. A Judiciária está tão perdida que o Presidente em pessoa nos passou a batuta. Algumas cabeças rolaram por lá e-

– Não quero partilhar da política, Ron. Mande a pasta do caso, eu saberei o que fazer com ela.

Julie desligou o telefone e teve de se inclinar sobre Jack para recolocá-lo no móvel de cabeceira. Ela encarou o rosto do amante e notou que ele ansiava por alguma explicação acerca do que acabara de acontecer. Julie sorriu e o beijou sucessivas vezes, de um ombro até o outro, para então se acomodar sobre o peito dele.

– Então? – perguntou Jack, afagando as costas de Julie.

– Podemos falar sobre isso mais tarde? Tenciono dormir mais um pouco.

– Sabe que não pode me enrolar.

– Nem pretendo. Só quero mesmo dormir...

Ela notou que ele se movia sob seu corpo.

“Vai levantar?

– Preparar nosso café.

– Hmmm. Verifique se a impressora tem papel, Vinci mandará um bocado de coisas pelo fax.

– Foi por isso que você trouxe essa parafernália toda?

– Também. – ela se virou e Jack teve nisso o sinal de que o diálogo estava encerrado.

Jack desceu as escadas de madeira escura e olhou pela janela da varanda, cujas cortinas eram fracamente agitadas pela brisa. Árvores por todos os lados, nenhum sinal de civilização. Nos últimos dez dias as únicas companhias que ele e Julie tiveram foram pequenos animais, alguns esquilos, pássaros, e ele poderia jurar que vira um cervo no alto da montanha na manhã do primeiro domingo. Fazia sentido, aquela era uma cabana de caça, a cinqüenta quilômetros de um pequeno povoado e a pelo menos três horas de uma cidade minimamente infra-estruturada.

Teve de acordar Julie novamente quando subiu com a bandeja do café, ligeiramente empobrecida uma vez que contava quatro dias desde a última visita ao mercadinho do povoado – o que consistia no único compromisso social do casal, que procurava cumpri-lo o mais rapidamente possível. Aquele era o último dia que passavam ali, juntos.

– Ju...

– Hum?

– Café.

– Aham.

Ele riu, Julie era imprestável no período matinal. Colecionava um leque de desculpas para esticar seu sono nem que fosse por dois ou três minutos. Jack tinha pouca paciência para aquilo; de todos os hábitos de Julie, aquele era o que ele mais detestava e quando estavam separados, era uma das coisas que ele mais sentia falta.


Felicia secou o suor de sua testa com uma toalha branca. Olhou-se no espelho, notando que quase todas as mulheres ao seu lado faziam o mesmo. O professor de aeróbica acabara de lhes dar um intervalo de cinco minutos, depois de uma série pesada de exercícios. A médica mirou sua cintura, nada satisfeita com o que viu. Sempre mantivera forma invejável com alimentação saudável e alguns cuidados especiais, mas desde que tivera o primeiro filho – embora todos discordassem com veemência – andava se achando acima do peso. A balança também discordava, mas Felicia insistira no ponto de que ainda não recuperara o corpo que tinha antes do nascimento de Timoty. Por fim, como parte da equipe se mudara para Londres, ela passou a freqüentar uma academia próxima da casa de Peter Franklin, onde estava instalada com o marido e o filho, além de seus amigos. Levantava cedo, deixava Timoty aos cuidados de Vincent ou de Caio, caminhava por uma hora e repetia o ritual antes do pôr-do-sol, às vezes acompanhada por Clark. Três tardes por semana passava duas horas dentro da academia.

O instrutor se aproximou dela, oferecendo-lhe uma garrafa de isotônico e um sorriso de dentes muito brancos e perfeitamente alinhados.

– Deixe-me adivinhar: você é médica. – disse ele, simpático.

“Você viu isso na minha ficha, principiante.” Felicia tomou aquele comentário somente para si. Teria sido demasiado grosseiro e afinal de contas, o tal principiante provavelmente espiou sua ficha na secretaria para encontrar um assunto pelo qual poderia começar uma conversa.

– E eu achando que tinha guardado o estetoscópio no armário, antes da aula. – disse ela, um pouco mais sorridente que ele.

– Esteban Valentín. – ele estendeu a mão educadamente.

– Adamm. Felicia Adamm. – ela respondeu, subitamente corando ao lembrar que ultimamente usava apenas o sobrenome de Caio e que o esquecera completamente. Era tarde para corrigir.

– Então, doutora Adamm, não foi o estetoscópio, eu já tive muitas alunas médicas. Observo todas vocês durante os exercícios, você respira corretamente, toma bastante cuidado, é dedicada. Uma simples observação.

“Na minha ficha.” Ela completou em sua mente. Recusava-se a acreditar que ele fosse capaz de qualquer dedução mais elaborada que diferenciar o banheiro masculino do feminino. Riu-se de seu preconceito.

– Como estou me saindo, professor? – foi a única pergunta que lhe veio a mente.

– Em pouco tempo você pega o ritmo.

E nisso ele pediu licença amigavelmente e voltou para o outro lado da sala. Felicia crispou os olhos e cerrou os punhos.

Em pouco tempo você pega o ritmo...

– Que foi? – perguntou a mulher ao seu lado, que alongava a coxa esquerda.

– Am... nada. Falava sozinha.

Felicia estava repetindo a frase de Esteban com voz caricata. Não gostou nem um pouco do que ele disse. Tinha plena convicção que estava muito mais adiantada nos exercícios que a média da turma. Afinal, como em tudo ao longo de sua vida, ela só se contentava ao saber que era a melhor. Mesmo em uma turma de aeróbica, tinham de ser seus os exercícios perfeitos, tinha de ser ela a que perderia medidas mais rápido. Suspirou cansada, prometendo-se caminhar uma hora a mais todas as manhãs e aumentar uma tarde na grade da academia. Caio tinha tempo suficiente para cuidar de Timoty e o fazia de bom grado.

Quando voltou para casa ainda se sentia ridícula por ter omitido seu sobrenome de casada. Balançou a cabeça e riu nervosamente depois que Caio já estava adormecido, ao seu lado. Se o instrutor vira sua profissão na ficha então certamente também vira seu sobrenome e mais do que isso, sabia que ela tinha um marido. Felicia não sabia como olharia Esteban novamente sem se achar ridícula. Tinha certeza de que presunçoso como ele passara a impressão que era, deveria ter acreditado que ela mentiu para dar em cima dele.


Bianca verificava cada um dos nomes que constava em uma lista memorizada há muitos anos, mirando novamente, uma a uma, as lápides de uma quadra inteira do cemitério ecumênico de Milão. Elas cobriam o caminho desde uma das entradas até o túmulo que ela visitava com freqüência.

Amigos para sempre”, pronunciou ela, respirando profundamente. Mirou por instantes a pequena tatuagem na forma da letra “H” em seu pulso. Sorriu ao lembrar que Heck sempre dizia que, ao morrer, preferia ir para o inferno; Deus para ele era um velho barbudo e sendo o seu oposto, o Diabo deveria ser um lindo moreno, alto, forte, sensual. Bianca ainda sentia, mesmo depois de tantos anos, que encontraria Heck em seu camarim no próximo desfile. Mentia para si mesma que ele estava de férias, assim como ela, que não pisava em uma passarela desde o noivado com Rafael Vittorini.

Certa vez lhe disseram que o mais triste na partida de um amigo é que, invariavelmente, acaba-se esquecendo mesmo as pessoas que se ama profundamente. Se fosse uma regra, Bianca era a exceção viva. Ela ainda chorava ao lembrar do melhor amigo. Calculando rapidamente ela verificou que se passara mais tempo desde que Heck morrera do que a soma de todos os anos que passaram juntos. A tendência inalterável era que essa diferença continuasse aumentando. Outra tendência era que Bianca o acabasse esquecendo, mas ela se recusava a isso com todas as suas forças. Agarrava-se aos objetos de Heck que mantivera consigo, às lembranças em sua mente, os vídeos que fizera com ele em uma câmera improvisada nos bastidores da São Paulo Fashion Weeck, em seu penúltimo ano como modelo, os recortes de jornal narrando o assassinato.


Bianca se encontrava literalmente atirada sobre um puff inflável de cor verde cítrico no centro de sua sala quase vazia. Todas as luzes estavam acesas e produziam muita claridade refletida nas três paredes brancas. O quarto lado era de vidro, uma enorme janela que antecedia a varanda. Ela estava cantando muito alto e em inglês intencionalmente deplorável a versão original de “Like A Virgin”.

– Céus, pare com isso antes que a Madonna venha em pessoa lhe calar a boca!

Like a virgin, touched for the very first time

Heck andou até ela e apanhou a garrafa de rum que Bianca pousara ao seu lado, no chão. Estava tão animada que dispensara o copo. Ele bebeu um longo gole e apoiou suas costas na parede, sorrindo. Vestia uma das camisolas da amiga e tinha um tapa-olhos cor-de-rosa na testa.

– Preciso de um pouco mais disso. – disse Heck, apontando para a garrafa.

– Como está se saindo?

– Melhor, Bibi, melhor.

Ele voltou para onde estava. Havia um chinelo marcando uma linha no chão, a qual ele não poderia ultrapassar. A frente daquele lugar, pendurado na parede, estava um alvo para dardos cujo desenho não se caracterizava por um conjunto de círculos coloridos e concêntricos, mas por uma foto preto-e-branco de Donatella Versace.

– Deixe-me tentar. – Bianca tomou um dos dardos da mão esquerda de Heck, tirou-lhe o tapa-olhos e colocou diante de sua face, arremessando o dardo mesmo vendada. – E aí?

– Garota, você é boa...

O dardo ainda tremia, no centro do alvo.

– Vadia! – disse Bianca, olhando para a foto e virando o restante do conteúdo da garrafa de uma vez só. – Heck, se eu tiver um filho, você aceita ser a madrinha?

Ele demorou para entender a brusca mudança de assunto.

– Ahn? Ah, claro. Madrinha! – ele comemorou sorridente. – Foi o melhor convite que você me fez na vida.

Principalmente quando embriagados, e às vezes sóbrios mas a sós, Bianca se referia a Heck usando pronomes e artigos femininos. Ele acabava fazendo o mesmo consigo. Depois de algum tempo aquela se tornou a marca registrada de sua amizade.

– Heck, você é a melhor amiga que todo mundo sonha em ter na vida. De um jeito estranho, mas é. Eu nunca quero perder você.

– E não vai. Por que isso, agora? Não vale, essa é a minha semana de ficar na TPM.

– Heck, você não pode ter TPM.

– O quê?? – ele usou o timbre mais estridente que conseguia imprimir em sua própria voz. – Quem disse?

– Ta bom, ta bom, desculpa.

Ele se atirou no puff inflável de cor verde cítrico e fechou os olhos. Bianca também era a melhor amiga com quem jamais sonhara. Era uma das raríssimas pessoas que não o julgava e que o deixava ser quem tinha vontade sem abrir mão do direito de dar alguma opinião, vez ou outra, como quando o pediu para moderar no rímel, pelo menos à luz do dia. Heck ergueu a cabeça para agradecê-la por aquilo, mesmo que ela estivesse cansada de saber, ele queria dizer novamente. Ele tinha uma ânsia incontrolável de que as pessoas soubessem o que ele sentia, mas Bianca adormecera, deitada no chão frio. Tinha o péssimo hábito do sono, quando alcoolizada, e perdia geralmente o melhor da festa.


Julie estava sentada no chão da sala adaptada como escritório, com as pernas flexionadas e uma quantidade imensa de folhas de papel espalhadas por todo lugar, à sua volta. Havia também um mapa da França e uma série de fotografias. Jack bateu duas vezes na porta que estava entreaberta e adentrou o cômodo, estranhando a pouca luminosidade, o que provavelmente prejudicava a leitura de Julie.

– Amor, veja se consegue identificar algum padrão nisso aqui. – ela lhe alcançou o mapa.

Havia uma numeração colorida e grande, de 1 a 5, em lugares diferentes, entre Amiens e Reims, a nordeste da Île-de-France. Diversas rodovias cortavam toda a área que Julie delimitara com um círculo em lápis. No verso havia uma série de anotações, também em lápis:

600Km de perímetro;

Mais de 24.000Km quadrados de área;

Cinco rios principais;

Dois aeroportos.

Jack analisou atentamente. Julie não prestava atenção em suas reações, mas detinha-se em algumas fotografias. Jack pôde ver poucos detalhes de onde estava, mas certamente eram cadáveres.

– Não acha melhor fazermos isso em um lugar mais claro?

– Estou terminando, amor. Por favor não se aborreça, farei isso logo, entregarei ao Ron e não precisaremos mais nem pensar no assunto ainda antes do jantar.

Subitamente ela apanhou o telefone e discou o primeiro número da agenda. Aguardou alguns instantes e sorriu. Se tinha alguma objeção à presença de Jack durante a chamada, não manifestou, ao que ele permaneceu na sala, escorado na parede e com as duas mãos nos bolsos.

– Sim, Vinci. Página duzentos e dezesseis, você ficou com uma cópia da pasta, não? (...) Ótimo. O que acha do terceiro parágrafo? (...) Que lhe parece? (...) Falso, não? Enganação. (...) Quem bom que não sou a única a pensar assim. (...) Ron ligou novamente? (...) Falarei com ele. (...) Está ótimo, mas curioso... preparou-me um belo café da manhã. (...) Até breve, Vinci.

– “Está ótimo, mas curioso”. Sou eu? – ele perguntou, assim que ela largou o aparelho.

– Jack...

Ele se agachou. Estava claro que todas aquelas páginas faziam parte de um relatório de investigação policial. Seus olhos apurados, no entanto, perceberam que havia dois conjuntos. O segundo era uma pasta departamental.

– “Anne Marple”. Já a vi usando essa identidade. Certamente uma alusão à Miss Jane Marple, da obra de Agatha Christie, não?

– Sim, amor. – Julie continuava detida nas páginas do relatório.

– Agente Marple... “mérito por serviços prestados, menção honrosa, distinção...” Você não poupou mesmo, hein? Já que era para se passar por Agente da Interpol, que fosse por uma das boas. Interessante.

Julie riu baixo e finalmente o olhou.

– Por que não me ajuda com isso e ficamos livres os dois?

Ele não respondeu.

“Amor, eu sei que tinha prometido largar isso... – ela suspirou derrotada.

– Pelo menos você largou o cigarro. – Jack deu de ombros.

– Seu bobo. Mais meia hora, está bem?

– Tínhamos combinado que seriam férias. Nada de testar as fraquezas da segurança do aeroporto, nada de identidades falsas, nada de bater carteiras dos outros turistas, nada de ludibriar a população local, nada de tramar um roubo a banco quando fôssemos ao caixa eletrônico... E aí a chefiatura de polícia liga e você sai correndo.

Julie esfregou as têmporas.

– É mais forte do que eu... – ela simulou uma expressão digna de pena, provocando o riso de Jack.

– Por que... por que... Por que meu braço direito, minha ladra favorita, por que a minha garota tinha de brincar de detetive?

– Eu não estou brincando.

– Ah, então isso é um emprego, agora? Vão lhe pagar o seguro social?

– Jack, mais meia hora, está bem? E me traga um café, dos fortes. – ela foi um tanto seca.

– Como quiser, mademoiselle. Ou deveria dizer “sim, senhorita!” e bater-lhe continência? Que tal? Qual a sua patente?

Julie suspirou cansada.

– Agente Especial Classe A.

– Classe A. – repetiu Jack, gostando da sonoridade. – Quando tivermos o júnior, ele será filho de uma “agente especial classe A” e do maior ladrão do mundo. Que lhe parece, hein? Uma bela combinação, não é mesmo?

Ela costumava se chatear quando Jack falava sobre terem aquela criança, mas naquela ocasião sua reação foi diferente.

– Você não faz idéia do quanto é complicado ter ascendentes em carreiras diametralmente opostas. Não me parece interessante ver inimigos na mesma família – disse, misteriosamente.

Jack ficou tentando captar algum sentido no que acabara de ouvir, mas Julie interrompeu seu raciocínio.

“E Júnior é o último nome que essa criança terá, a não ser sobre o meu cadáver. Aliás, não haverá criança alguma, já conversamos sobre isso.

Ele apanhou algumas das páginas, em silêncio. Seus joelhos começaram a doer por causa do longo tempo flexionados e então ele se sentou no chão, perto de onde Julie estava. Em segundos ela estava distraída com a análise mais uma vez. Fez algumas anotações, prendeu o cabelo, depois o soltou, alongou o pescoço, mordiscou o lápis, suspirou cansada várias vezes, tudo sob o olhar atento de Jack, que parecia não incomodá-la. Depois de um tempo ela sorriu.

“Que foi?

– Apenas olhando. – esquivou-se ele.

– Está tirando a minha concentração.

– Hum, é mesmo? Você não consegue pensar sobre o caso tendo o seu vigarista favorito ansiosamente a sua espera, é isso? Gosta de saber que não tenho mais nada a fazer na vida do que esperar você terminar seja lá o que estiver fazendo?

Julie fechou a cara por um instante.

– Você tem a Marlee.

– Que acha que eu estou em Londres, ocupado com antiquarismo.

– E quando sairmos desse exílio, quem estará ansiosamente esperando alguma coisa será ela.

– Tem outros planos, Julie Franklin?

Ela largou a página que segurava e apoiou o lápis em seu queixo, mirando Jack apenas pelo tempo suficiente para falar:

– Tenho uma surpresa em Londres para você.

– Está na casa do seu pai?

– Não.

– Do que se trata?

– A palavra surpresa subentende que não lhe direi, não é mesmo?

– Nem se eu implorar? – sugeriu ele.

– Não.

– E se eu beijar você?

– Também não. – garantiu ela, pensando melhor depois de algum tempo. – Mas você pode fazer isso, se quiser... mesmo que eu não conte.

Jack sorriu e a beijou com certa euforia. Julie correspondeu inicialmente, mas logo o afastou alegando que quanto antes terminasse o favor a Ronald Noble, melhor. O amante se conformou e foi dar uma volta pela floresta para não atrapalhá-la mais. Tinha certeza de que Julie não demoraria um segundo a mais que o necessário.

Quando voltou ela estava ao telefone com Ronald Noble novamente. Ele acenou e ela sorriu sem falar nada, apenas demonstrando que o vira entrar. Parecia realmente ocupada, andando de um lado para o outro com meia dúzia de folhas de papel na mão. O cabelo estava preso novamente e os óculos de leitura residiam entre os dedos da mão que segurava o telefone.

– Ron, Ron, por favor, ouça: eu não quero saber desses detalhes. Estava de férias, só aceitei receber esse trabalho como um favor a você. Não me faça me arrepender de ter deixado a Judiciária lhe dar a identidade de Anne Marple.

Eu quase caí da cadeira quando me disseram que era você! Desculpe, é que você trabalhou para os federais franceses tanto tempo, achei que tivesse amigos lá.

– Se tivesse não seria da sua conta, Ron. Só quero falar do caso, está bem?

Claro, Julie.

– Obviamente o material que me mandou permitiu apenas uma pequena análise, mas confio nos peritos do ICPO, imagino que relataram tudo na pasta que recebi. – ela respirou fundo antes de retomar a frase, com um tom um tanto mais sério e enfático. – Seja quem for o assassino em série que procuram, é o autor dos três primeiros crimes e do quinto.

E o número quatro? – surpreendeu-se Noble.

– Imitação. Existe sim um padrão entre os locais de desova dos corpos, basta que se exclua o número quatro. Mandei minha hipótese ao Vinci e nesse momento ele deve estar transferindo os dados para um software, você receberá o esquema já pronto. O perfil traçado pela psiquiatria se perdeu exatamente no ponto da transfiguração dos corpos, que foi bastante semelhante nos casos 1, 2, 3 e 5, mas diversa no quarto.

Isso é... mas que droga!

– Com esse dado acredito que em dois ou três dias o ICPO avançará bastante. Foi isso que me pediu, considero meu trabalho neste caso terminado.

É claro, Julie. Veremos isso, mas se você estiver correta, é uma grande pista.

– Confie em mim.

Algo mais?

– Talvez. – ela refletiu um instante. – Caso você não perceba logo as implicações do que acabei de dizer, adianto que está com um grande problema nas mãos.

Do que se trata, Julie?

– O caso número quatro é falso, é alguém em busca de notoriedade, querendo assumir a responsabilidade por todas as mortes. Acontece com freqüência em episódios envolvendo serial killers, mas particularmente nesse, ou você me mentiu sobre o sigilo da imprensa, Ron, ou o imitador e, portanto, assassino da quarta vítima, é alguém que trabalha muito perto de você e que tem acesso às informações secretas da polícia.

Ronald Noble ficou mudo por cerca de quinze segundos, do outro lado da linha, enquanto tentava absorver o peso do raciocínio de Julie. Só pareceu recobrar os sentidos quando ela se despediu:

“Tente não me ligar mais. Adeus, Ron.

Ela desligou o telefone e viu Jack parado no meio da sala, com um sorriso misterioso. Andou até ele tencionando abraçá-lo, mas mudou de idéia depois dos primeiros passos. Mordeu os lábios e o viu enfiar uma das mãos no bolso antes de perguntar:

– Você gosta mesmo disso, não?

– Disso o quê?

– Mostrar o quanto eles são burros.

Julie inclinou a cabeça para trás um instante, rindo abertamente.

– Amor, não é nada disso. Você não gosta de palavras cruzadas? – ela aguardou que ele confirmasse gestualmente. – Eu gosto disso.

– Acabou?

– Eles terão trabalho pelos próximos dias, não creio que me procurarão tão cedo.

– Mas Noble ligará novamente, não ligará?

– Fiquei com essa impressão. – admitiu Julie, vendo Jack se aproximar.

– Por que a Interpol? Não é um caso doméstico?

– Uma das vítimas é belga.

– Espero que você não se meta na rua caçar esse bárbaro.

– Faça-me o favor, Jack. Meu trabalho na Interpol é meramente intelectual.

– Sei. – ele a beijou na testa. – Quer sair para jantar?

– Preciso de um banho, antes.

– Tudo bem, eu espero.

Julie estava no meio da escada quando se voltou novamente para ele, com uma das mãos apoiada no corrimão e uma expressão que tentava denotar falsa inocência. Sugeriu que Jack temperasse a água enquanto ela escolhia o que vestir. Ele sorriu solicitamente, acrescentando um “claro, meu bem”, entrando no quarto logo atrás dela e fechando a porta.


Desmond se interessara pelo que Jessica lia há mais de duas horas. A vira voltar algumas páginas, vez ou outra, para conferir um desenho ou esquema. Bill já pedira um refresco, depois biscoitos, por último fora se abrigar em seu quarto, era um garoto bastante reservado e morava com os pais adotivos há menos de um mês.

– Posso saber do que se trata? – perguntou Desmond, aproximando-se da mesa onde Jessica espalhara suas anotações.

– Claro. E Bill?

– No quarto, acabou de fazer um lanche. Tudo normal.

– Hum. Trata-se de um projeto. – explicou Jessica. – Julie pediu que eu revisasse, apesar de ela ter contratado dois arquitetos de talento e competência incontestáveis.

– Por que ela não pediu logo a você?

– Ela pediu, mas eu recusei. É algo enorme, tomaria todo o meu tempo, sem falar no envolvimento pessoal. Indiquei dois amigos para ela, são ótimos para o que Julie quer.

– Minha irmãzinha está aprontando alguma? – Desmond se colocou atrás de Jessica, para que pudesse espiar o conteúdo do que ela lia, com a desculpa de lhe massagear as costas.

– Certamente.

– O que quis dizer com envolvimento pessoal?

– Julie está reformando a casa do vovô. Ficou fechada desde a morte dele, mas Vincent sempre tomou conta enquanto não estava ocupado paparicando sua irmã em Paris ou no esconderijo de ocasião ao redor do mundo. – Jessica abriu uma planta sobre a mesa.

– Sei. Julie me contava histórias de Londres e do vovô, antes de sair de casa. Achei justo ele ter deixado a mansão em testamento para ela. Meu pai e sua mãe não tinham qualquer ligação com ela. Nós dois muito menos.

– Você não faz idéia do que significa, não é mesmo?

– Como assim?

– Fomos convidados e conheceremos o lugar. Então você verá como é muito mais do que uma simples casa de muitos quartos.

– Já esteve lá? Na infância?

– Duas vezes, de passagem.

– Então pode me adiantar alguma coisa. O que tem lá? Um portal para outra dimensão? – brincou ele.

– Às vezes você esquece que é neto de Ned Franklin.

– Eu sei que ele era um ladrão dos bons e que meu pai não o suportava por isso.

– Ele deixou de ser ladrão depois de poucos anos. Mas isso não fez com que nossos pais o perdoassem.

– E o que fez no resto de seus dias?

– Construiu a herança que deixaria em testamento para Julie. Achei que ela lhe tinha mencionado.

– Ela não fala comigo, lembra? Quer dizer, até voltou a fazer isso ultimamente, mas só comentamos banalidades.

– Então você terá uma grande surpresa amanhã. Também não conheço os detalhes, só o que posso dizer é que o próximo trabalho é dos bons.

– Julie e Jack sumiram para cuidar disso?

– Quem cuidou disso, há trinta anos, foi Ned Franklin. Aparentemente os dois pombinhos estão apenas namorando escondidos, para não perder o costume.

Desmond conteve a respiração por alguns segundos. Com certa freqüência tinha a nítida impressão de que sua mulher ainda sentia ciúmes do ex-marido. Por outro lado sempre soubera que Jack não era páreo para si e embora dissesse por provocação, tinha plena convicção de que Jessica só se casara com ele para lhe fazer ciúmes, como se casaria com o americano que tinha o mesmo apelido que o filho que eles viriam a adotar. Continuando a massagem que fazia, Desmond pensou friamente sobre a situação e concluiu, por fim, que exatamente como para ele, o grande problema não era Jack, mas Julie. Jessica e Desmond eram tão Franklins quanto ela, mas não tinham um décimo de sua notoriedade.

Depois de um tempo Desmond se pôs a observar a planta. Lembrava muito pouco uma casa e ele só compreendeu quando notou que se referia ao porão. Entretanto parecia grande demais. Viu que havia muitas anotações de Kevin – era fácil reconhecer a letra do britânico, difícil era decifrá-la – e imaginou uma grande quantidade de explicações plausíveis para aquilo até desistir de tentar entender. Se Jessica queria que ele tivesse uma surpresa, pararia de insistir.


Nota da Autora: no prólogo um pequeno episódio do passado que cumpriu vir a tona para explicar os próximos trabalhos da equipe. Certamente um bocado de informações sobre a família Franklin já estava diluído nas histórias anteriores, mas pensando na harmonia desse capítulo, achei por bem repeti-las.

Elyon: não tenho palavras para expressar o quanto é especial poder contar mais uma história para você. Espero que esteja a altura de sua crítica e gosto.

Luana: para não perder o costume de lhe enviar algo antes, sei que você já leu o prólogo... Em última análise ele fala pouco do enredo e muito das histórias anteriores.

Sara Clarice Lecter



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