Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search Login Register Extras
Fiction » Horror » Meninos Maus Não Choram font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Alex Nox
Fiction Rated: M - Portuguese - Horror/Suspense - Reviews: 1 - Published: 04-11-08 - Updated: 04-11-08 - Complete - id:2502600

Menino Mau: Beleza? Teclando de onde?

Cueca Branca: Londres e você?

Menino Mau: Também. Que bairro?

Cueca Branca: Chelsea e você?

Menino Mau: Docklands, Zona 3.

Cueca Branca: Quantos anos?

Menino Mau: Primeiro a sua idade. Estou envergonhado.

Cueca Branca: Tenho 24. Agora sua vez.

Menino Mau: :S tenho 12 anos…

Cueca Branca: Não é mau. Eu pessoalmente gosto de mais novos…

Menino Mau: E eu dos mais velhos…

Cueca Branca: Você tem… fotos interessantes?

Ou muito envergonhado para isso?

Menino Mau: Não… Você tem?

Cueca Branca: Sim. Quer ver?

Menino Mau: Mande-me.

O envio do arquivo “” foi concluído com êxito.

Menino Mau: Caralho, você é muito gostoso!

Cueca Branca: É o que me dizem…

Cueca Branca: Agora o que eu queria era ver você…

Menino Mau: Serve foto só de rosto?

Cueca Branca: Tudo bem.

O envio do arquivo “Tia Marge ” foi concluído com êxito.

Menino Mau: Gostou?

Cueca Branca: Ou, você é muito fofo!! Adoro loirinhos!

Menino Mau: Que bom.

Cueca Branca: Então, como se descobriu?

Menino Mau: Ano passado, no clube. Reparei que gostava de ver os caras sem camisa no vestiário…

Cueca Branca: Tive uma história parecida.

Menino Mau: Curte o quê?

Cueca Branca: Em relação a quê?

Menino Mau: Você sabe…

Cueca Branca: Ah, sim.

Sou total flex e você?

Menino Mau: Se eu entendi um 2.4, não é isso?

Cueca Branca: Você não é tão inocente quanto parece… XD

Menino Mau: Mais ou menos…

Mas você tem fotos mais… íntimas?

Cueca Branca: Tenho sim. Espere um pouco…

O envio do arquivo “” foi concluído com êxito.

Menino Mau: Uau, é grande!

Cueca Branca: E duro como pedra. Agora mesmo.

Menino Mau: Quer saber uma coisa?

Eu também…

Cueca Branca: Você está sozinho aí?

Menino Mau: Ninguém em casa, por quê? XD

Cueca Branca: Quer ligar a webcam? Agora é a sua vez…

Menino Mau convidou Cueca Branca para envio de imagem de webcam.

Conexão estabelecida.

Cueca Branca: Ai, que fofo!

Cueca Branca: Põe a cabeça para fora!!

Cueca Branca: Isso, continua!!

Menino Mau: Gostou?

Cueca Branca: Se eu gostei? Acabei de me sujar inteiro!

Menino Mau: Que bom…

Espere um pouco, vou me limpar.

Cueca Branca: OK, querido.

Menino Mau: Voltei.

Ou, você é judeu?

Cueca Branca: Não, por quê?

Menino Mau: Você é circuncizado…

Cueca Branca: Não é por isso que sou judeu. Por quê, você é neonazista?

Menino Mau: Não, foi só curiosidade…

Cueca Branca: Quer fazer isso pessoalmente?

Menino Mau: Onde e quando?

Cueca Branca: Amanhã estou livre a partir das 5.

Menino Mau: Posso sair da escola e encontrar com você no Starbucks de Tottenham Court Road.

Cueca Branca: E então vamos no banheiro?

Menino Mau: Vamos ver o que acontece.

Menino Mau: Tenho que dormir. Beijo

Cueca Branca: Beijo, bebê. Vejo você amanhã.


1 mensagem recebida.

Cueca Branca:

Já estou esperando. Cadê você?

Liguei e só dava caixa postal!

Ele viu e teclou a resposta: Você sabe que não há sinal no metrô. Já estou indo.

A porta se abriu e a turba pululou na plataforma, desesperada para encontrar os anúncios indicativos de Saída. Tênis Nike, branco, número trinta e oito no máximo, pousou calma e anteticamente a sola na borracha preta e depois no chão de pedra.

Não estava com pressa alguma.

Cuidado com o degrau.

Sob os arcos de pedra e entre colunas antigas e remodeladas, uma minijuba loirinha de cabelos lisos e olhos azul-turquesa, mochila a tiracolo. Subindo a escada rolante, ladeado por cartazes de musicais do West End. Phantom of the Opera, Grease, Les Misérables, Cats, Dance of the Vampires, Lord of the Rings, The Sound of Music, et cetera, et cetera, et cetera. Ao alto, surgiu o mosaico multicolorido na parede das escadas — um marco de Tottenham Court Road, do Soho e de atualmente o bairro mais homossexual de Londres, como haveria de ser.

Catraca. Oyster Card no leitor amarelo. Saída.

Saiu do buraco subterrâneo para a luz do dia, fazendo uma curva de 180° para entrar na Starbucks Coffee — apenas para encarar um par de olhos azu-acizentado paralelos a seu rosto..

Ele os encarou de volta.

— Então… aqui estamos.

— Sim.

Em frente ao garoto loiro, um homem. Já vestido de roupa social, camisa e gravata rosa, paletó risca-de-giz. Sentaram-se numa mesa de canto, no fundo, um de frente ao outro. Um copo de latte para viagem entre suas mãos, à sua frente.

— Não pôde me esperar para já ir pedindo?

— Acabei de sair do escritório, e só comi no almoço.

— OK. Vou pedir.

O loiro entrou na fila, pediu um mocha e um brownie, pagou, e logo voltava, copo para viagem na mão esquerda e equilibrando o brownie no prato com a direita, apertando o garfo com o polegar.

— No que trabalha, Sr. Cueca Branca?

O outro riu. — Meu nome verdadeiro é… mas pode continuar me chamando assim. Trabalho na multinacional X, no Departamento Jurídico. Mas e você, Menino Mau?

— Bem, meu nome é —Y, mas preferia que continuasse me chamando de Menino Mau.

— É excitante.

— É. Estou na Docklands Elementary.

Cueca Branca tomou mais um pouco do latte. Até este já exalava ferormônios infantis e serotonina.

— Você é muito fofo mesmo…

— Obrigado. E você é muito gostoso…

— Quando começou a se interessar por caras?

— Há um ano atrás, se não me engano.

Boca cheio de marrom gostoso. Cheiro de açúcar aspartame.

— Mas você não me contou como você se descobriu.

— Mesma coisa. Mas no banheiro. E você, já ficou com caras?

— Não — nunca beijei.

Rubor.

— Se você quiser, podemos resolver isso depois.

— Não vejo porque não — sorriso — Mas e você, como foi?

— Banheiro do metrô. Fui no urinol, um outro gostosinho foi do meu lado. Começamos a nos olhar com olhos, depois com mãos e lábios.

— Quer saber de uma coisa? — Tom de confidência — Estou duro.

— Pervertido.

— Não sou o único.

Menino Mau terminou o brownie.

— Que acha de eu lhe fazer uma visitinha ao terminarmos aqui?

— Você é menor. Não sei se…

— Mas eu quero. E foda-se a lei.

Sob a mesa, coxa esfregou com coxa, duas partes internas, um fio-terra elétrico mesmo com roupa por cima. O joelho alcançou, apertou e massageou.

— Você é inacreditável — Cueca Branca sorriu.

— E você ainda não viu nada…

— Mas pretendo.

Menino Mau sorriu.


Uoooon

… e o trem passou.

— Pegaremos o próximo — anunciou Cueca Branca, mãos nos bolsos.

Os dois estavam na beira da plataforma Sul, o símbolo do Metrô e os letreiros de Tottenham Court Road luzindo atrás deles. Menino Mau mastigava um Mars recém-comprado.

A visão do cartaz doera-lhe os olhos. As grades losangolares sobre o anúncio do Evening Standard queimavam-lhe a pele como ferro em brasa, assim como a foto sorridente e antética.

E ele comprando alegremente um Mars da banca de jornal possuidora do cartaz, como se nada houvesse acontecido.

Patrick… Eu sinto sua falta…

O cartaz era mais respeitoso do que ele.

— Alguma coisa errada?

— Nada. Absolutamente nada.

O trem passou e eles foram engolidos pela bocarra de metal.


A cena era muda.

O homem caía aos joelhos da mulher. Beijava-lhe os pés, as coxas, agarrava-os veementemente apenas para sentir a pele macia em seu rosto e o cheiro doce da derme.

A mulher tinha vontade de chutá-lo — desprezava-o completamente.

E o fez. O pobre e infeliz amante voou pela sala e bateu a cabeça na parede, arrancando-lhe parte do concreto.

E lá estava o infeliz homem, arrastando-se até ela novamente, cabeça sangrando, vestido e bancando o tapete. Atrás de si, preso a seus pés, ainda havia um piano de cauda, com duas cabeças de javali cortadas e posicionadas simetricamente sobre si, e ainda, amarrados às pernas traseiras do piano, dois piratas de barba, olho-de-vidro e perna-de-pau.

Insensível a tudo, a mulher desgraçada esfaqueou-lhe o olho.

Lembrava-lhe muito Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz).

— Acorde, vamos descer aqui.


O studio flat era uma daquelas velhas mansões estilo Tudor, o que implicava em corredores e escadas labirínticas e estreitas para chegar num buraco confortável no quarto e último andar mas que parecia nas profundezas da terra.

Sala-quarto-cozinha-banheiro.

Sentados na cama.

— Abrace-me.

E Menino Mau o fez.

A pele em contato com a outra, o cheiro quente de desodorante e loção de barbear, a barba roçando de leve; e ele sentiu o desejo quente e aterrador, mas ainda assim bom, de beijá-lo.

E Menino Mau o fez.

A língua penetrando-lhe na boca, os dentes rilhando nos seus, a troca de saliva, a carícia dos lábios, e então o esfregar das línguas, atravessando a boca, perscrutando, procurando, achando…

— Deixe-me fazer uns drinques… — ergueu-se em direção à parte-cozinha.

— Era só o que faltava… — Cueca Branca levantou-se atrás dele — Mas você não é muito novinho para entender de birita…?

— Meu pai é bartender. Além disso, tenho segredos e talentos que você sequer imagina…

Menino Mau pôs dois copos sobre a pia.

— Gelo e vodka na geladeira — disse o outro.

— Você tem suco de laranja? Quero fazer hi-fis.

— Sinta-se à vontade.

A porta da geladeira abriu, revelando uma garrafa azul de Skyy.

— Você não poupa despesas, hein?

Cueca Branca sorriu. Dentes brancos com saliva a pingar entre as fendas.

Gelo no copo, tintilando. Em seguida, o etanol gelado entrando em contato com o gelo, deslizando por entre as pedras, alcançando o fundo do vidro e sublimando de volta ao ar. Depois, foi a vez do ácido cítrico quebrar a tensão superficial, fogo-fatuar por entre a mistura até certo ponto, dançar por entre as pedras e as moléculas de álcool etílico, rebolar até tornar-se um com os outros dois num bacanal químico.

— Aqui está.

Os dedos se tocaram, e o Menino sentiu as mãos frias, suadas. Ele acabou de bater uma. A situação não deixou de agradá-lo; todavia, tentou concentrar-se no fato de que tinha algo importante a fazer.

— A que brindaremos? — perguntou Cueca Branca.

— Sabe Carpe Diem, certo?

Aproveite o dia.

— Então, prefiro dizer Carpe Noctem.

— Aproveite a noite. Por quê?

— Acho que somos um tanto vampirescos. Começamos a sair a partir do pôr do sol. E pode reparar que a maior população que permanece nas ruas londrinas até a aurora somos nós.

— Exceto você, por causa do toque de recolher para menores.

Menino Mau deu um sorriso sinistro e estendeu o copo. Cueca Branca, não se apercebendo de nada, brindou e os dois viraram o copo. Em seguida, o garoto atravessou o quarto e pulou de volta à cama.

— Suponho que agora queira estar… mais confortável — sorriso malicioso.

— Não sabia que garotos da sua idade eram tão safados…

Uma camiseta alçou vôo e pousou no chão ao lado da cama.

— Não sou a regra, mas a exceção. E tenho muitas cartas debaixo da manga…

Uma gravata desfeita e um paletó juntaram-se à camiseta.

— E como pode ser, se você não tem mangas?

Cueca Branca debruçou-se sobre Menino Mau, submergindo no vale formado pelas pernas do garoto.

— Mais perto, que eu conto para você…

As bocas se colaram novamente, e mãos desceram para abrir o cinto, e deixar a calça cair. Com a camisa igualmente aberta, mas pelo próprio usuário, Menino Mau sentiu-se engolido por ela, o suor servindo de cola com a pele quente e peluda. E sentiu nitidamente a saliência intumescente contra seu baixo-ventre, tendo como única e final barreira a Cueca Branca.

Minutos depois, o último abriu a bocarra lânguida num gemido febril e mergulhou na escuridão de lençóis e travesseiro.


— Bom dia, Bela Adormecida!

Cueca Branca abriu os olhos. A tênue claridade da vida noturna da cidade — à qual estava tão acostumado — entrava pela janela.

— Que horas são? — inquiriu estarrecido.

— Dez horas — respondeu Menino Mau calmamente. Estava nu da cintura para cima, e desta para baixo apenas uma toalha cobria-lhe as partes pudicas. Estava também encostado no balcão, observando calmamente suas unhas.

— Já passou do toque-de-recolher para menores! Como vai voltar para casa?

— Se eu fosse você, não me preocuparia com isso.

Realmente, essa era a última de suas preocupações — para alguém que acabara de se descobrir amarradinho na cadeira da escrivaninha. Ainda assim, Cueca Branca — que apenas portava a vestimenta de seu apelido — sorriu maliciosamente.

— Quer brincar de sadomasoquista, é?

— Não, bobinho — Menino Mau se aproximou e sentou-lhe no colo. Olhando-o nos olhos, passando os braços em volta de seu pescoço — Ferir e ser ferido não me deixa de pau duro. Mas eu disse que sou um Menino Mau.

Cueca Branca sorriu. Não conseguia evitar que o contato do saco-de-pele-schlap-schlop sobre suas coxas, ainda mais dentro do forno da toalha, excitasse-o. Entre uma dobra e outra da corda, surgiu uma protuberância mascarada pelo tecido.

— Mas aparentemente você gosta — completou Menino Mau.

Abaixou a sua cabeça e a cueca do amarrado. O enorme membro pulou para fora, ansiando por ar e liberdade — tomada por uma reentrância quente e molhada. Os lábios molhavam, raspavam. A pele trincava. Ele gemeu… gemeu… gemeu…

… e gritou loucamente, enquanto um jato intermitente de sangue chocava-se com seu rosto.

Menino Mau ergueu a cabeça, a bocarra cheia de sangue, os dentes sujos e escarlate. O fluido escorria por seus lábios e queixo, enquanto jatos chocavam-se com suas bochechas. Devido à ereção, o falo rasgado não murchava, tornando-se uma mangueira ereta que jateava por todo o cômodo.

— Você é louco?! — berrou Cueca Branca (Vermelha), num misto de raiva e dor.

Menino Mau lambeu os beiços, limpou a boca nas costas da mão e sorriu vermelho-escuro: — Talvez.

O prisioneiro urrou. O jato ainda invadia sua voca, mas diminuía gradativamente à medida que a pressão sangüínea baixava. Isso não impediu que sob e em volta da cadeira se formasse uma piscina de sangue, muito densa para ser absorvida pelo carpete.

— Por que você fez isso? — Rugido.

— Porque pareceu uma boa idéia. — Matter-of-factly.

Cueca Branca (Vermelha) urrou em fúria.

— Puta que pariu! Como podia imaginar que um garotinho de doze anos seria um maníaco?

— Não podia… e não pode.

— O que quer dizer?

— Quem disse que sou o que sou?

— Você não é… gay, bi, que seja?

— Isso posso assegurar que sim — o garoto sorriu.

— Você é um vampiro??

Menino Mau gargalhou.

— Pode-se dizer que sim — mas não no sentido literal, com capa, caninos, sede de sangue e vida eterna. Mas a razão por que vim aqui não é muito distante disso.

— O que quer de mim? — Um jatinho, como espirrando de uma seringa, passou em frente a seu rosto gemido.

— Ainda vai ter que adivinhar.

— Seu nome é realmente —Y? Você mora mesmo em Docklands? Tem mesmo doze anos?

O garoto sorriu e voltou a se inclinar no balcão. — Está começando a entender o que quero dizer.

Cueca Branca (Vermelha) inspirou profundamente, fraco como estava, para poder…

— QUEM É VOCÊ?

Menino Mau se aproximou, alinhando os olhos aos dele e apertando queixo e bochechas com uma mão só. Os lábios quase se colaram.

— Quem quer que seu seja, onde quer que eu more, e qualquer seja a minha idade, eu posso lhe assegurar que realmente sou um Menino Mau.

E estapeou-lhe o rosto.

— Agora, aos negócios. Onde está o seu segredinho sujo?

— Não sei do que esta falando — gemeu Cueca Vermelha em resposta.

— Ora, vamos! — disse Menino Mau calmamente — Todo pedófilo que se preze tem pornografia escondida.

— Ah, esse segredinho sujo.

— Sim, esse segredinho sujo.

— Mas se você não sabe, já não é mais um segredo, é?

Menino Mau sentou-se levemente sobre o pênis já amolecido. Um jatículo de sangue espirrou da ferida e Cueca Vermelha gemeu alto.

— Facilitaria muito meu trabalho se me dissesse onde está…

— No computador, onde mais?

— Mas você é um cara esperto — Ele jogou seu peso ainda mais sobre o membro ferido. O outro gemeu mais alto. — Não deixaria sua sujeira onde todo mundo poderia ver e achar… Não é?

— Ao lado da porta do banheiro… Cupido…

Menino Mau ergueu-se e dirigiu-se à porta do banheiro. Ao lado, havia um quadro pendurado na parede. Mostrava Eros, na mitologia grega, ou Cupido, na romana, ainda menino. De forma neoclássica, cheinho e com cachos dourados; entretanto, apontava seu arco-e-flecha aparentemente para o próprio observador.

Tão fácil?

Menino Mau tirou o quadro e o pôs no chão, apoiado contra a parede. Em seguida, identificou um botão giratório minúsculo com segredo, que estaria escondido sob o quadro.

— Deixe-me ver… A senha seria… 05061978?

Cueca Vermelha engoliu em seco — ou tentou, o que resultou num gemido alto. Como o garoto sabia tanto sobre ele? Foi o que indagou.

— Se pensar um pouco, vai chegar na resposta — respondeu o outro desinteressadamente, enquanto girava o botão do segredo.

Era óbvio que o garoto havia feito sua lição-de-casa. Mas como? Não era exatamente alguém famoso. Saber sua data de nascimento ainda era possível graças ao Facebook, blogs e afins — mas saber que era a senha do cofre de sua casa…?

— Aqui.

Ao posicionar o botão na marca do último número e apertá-lo, uma placa de uns vinte centímetros quadrados, antes invisível, saltou aberta. No pequeno buraco aberto na parede, com o tijolo e cimento à mostra na face interna, havia apenas uma folha de papel dobrada.

Tentou me roubar? Fodeu-se!

— Hum, imaginei que não seria tão fácil — disse Menino Mau em voz alta, mais para si mesmo.

Imediatamente voltou-se para o quadro. Não era uma pintura, mas uma fotografia moldurada. Não sendo uma tela, não possuía espaço vazio atrás — mas uma placa de madeira, que cumpria a função de segurar a figura no quadro. Mesmo assim, não havia nenhuma fenda aparente, ou nada que mantivesse a placa presa à moldura.

Outro cofre?

No canto inferior direito, havia outro jogo de roldana de segredo — de aspecto e tamanho das de uma valise. Touché.

— Você só podia esconder as suas crianças com a mais bela de todas, não é mesmo?

O amarrado não respondeu.

— E suponho que a senha deste aqui seja… 210894?

COMO?! Não podia ser! Era impossível. Não havia deixado nenhum indício, nenhuma pista. O sangue que lhe restara nas veias gelou — como aquele pirralhinho poderia saber de um de seus maiores segredos?

E, no entanto, era o que havia ouvido. Poderia estar amarrado, cansado, sangrando e com a funcionalidade de sua genitália em risco — mas não era surdo.

— Vou considerar isso um sim.

O garoto inscreveu a senha. A placa cedeu e mostrou a parte de trás da foto — com um punhado de minidiscs encolhidos no canto inferior direito.

Com estes em suas mãos, colocou o laptop ligado no colo de Cueca Vermelha e inseriu um dos discos pela bandeja lateral.

— Vamos assistir isso juntos — disse o garoto com um sorriso malicioso.

— Por que está fazendo isso comigo? — gemeu o outro — Escute, querido, tenho dinheiro…

— Eu também — respondeu o outro — Não é dinheiro que eu procuro, e nem preciso.

Quando o garoto quebrou os códigos de proteção do disco e o abriu, Cueca Vermelha perguntou: — Você é um hacker?

— Não. Meu pai é analista de sistemas da Microsoft. Estou cansado de lidar com qualquer tipo de logaritmo.

— Por que está fazendo isso comigo?! — tom lamentoso.

— Não se apresse, tudo tem sua hora. — O garoto abriu uma imagem em uma das pastas — Imaginava que fosse fotógrafo amador. Foi gostoso ver esse garoto de quatro?

Cueca Vermelha grunhiu. Menino Mau estapeou-o. — Não ouvi direito.

— Sim.

— Você pôs ele para dormir?

— Que tipo de pergunta doente é essa?

Outro tapa, mais forte.

— O doente aqui é você — clinicamente falando. Mas então, você pôs ou não?

— Não.

Mais um tapa.

— Não minta!

— Eu juro que não fiz mal nenhum a ele!

— Tem certeza?

— Absoluta! Mas afinal, o que isso lhe interessa? Você nunca viu a criança na vida!

— Eu disse para não se apressar. E não se excite, também, ou vai espirrar.

O prisioneiro realmente controlava-se para não ter uma ereção — sentia na pele as conseqüências.

— E este aqui? — Menino Mau mudou a foto.

— Eu não sei… OOOUCH!

O garoto apertou o falo ferido. Sua mão banhou-se em sangue.

— Não minta, querido. Seja um bom garoto.

— Eu não fiz mal a nenhum deles!

— Quantos ninou e pôs para dormir?

— Nenhum! Você é louco!

— E este aqui?

Um jato espirrou no rosto em êxtase de um loirinho que já havia sido visto aquele dia.

— Foi ele que você arrombou e pôsa para dormir, não foi?

Pergunta retórica. Ele sabia.

— Eu o tive, mas não…

— Lembra-se do nome dele?

— Patrick… Patrick Algumacoisa. Mas porque você se importa?!

— Sabe onde ele está agora? — Apertou-lhe o rosto entre os dedos.

— N…

— Patrick Algumacoisa está congelando num necrotério! A mãe dele quase não reconheceu o corpo!

— E o que isso tem a ver comigo? — gemeu o miserável, esbugalhando os olhos. — Aliás, o que isso tem a ver com você?Quem é você?!

O garoto afastou-se Surgiu um sorriso, afastando o resto de ar infantil que ainda havia, dando lugar a dentes maliciosos, quase demoníacos.

— Isso você já sabe. Eu sou um menino mau. Um menino mau que acabou por ser melhor amigo, confidente e amante do seu Patrick Algumacoisa. — Então voltou um ar quase lunaticamente infante — E como você fez maldade com meu amigo, o Menino Mau vai fazer maldade com você!

Um rio misto de urina e sangue descendeu das partes pudicas destroçadas, formando uma nova lagoa poluída.

— E o que você vai fazer? — Cueca Vermelha levantou o olhar debilmente para seu algoz.

— Assegurar que você não faça isso com outros amigos meus.

Em seguida, o garoto desapareceu na parte-cozinha da quintinete, mais especificamente no interior de uma gaveta.

— O que está fazendo? — berrou Cueca Vermelha, entrando em pânico — O que você vai fazer?!

O menino-demo emergiu de trás da bancada, carregando um sorriso coringa, diabólico, e uma enorme tesoura de inox entre os dedos.

— Achei!

— Já não acha que fez mal o suficiente? — o apresado já beirava a histeria, tentando freneticamente desvencilhar-se das cordas — Para quê vai usar essa tesoura?!

À guisa de resposta, Menino Mau produziu um copo de whisky em sua outra mão. O copo encarava ferozmente Cueca Vermelha, a incógnita de seu uso sendo sua ameaça mais leta. O garoto se aproximou, passo a passo, saboreando o momento. A vítima arregalava os olhos piscando intermitentemente, por vezes congelando a expressão num espasmo distorcido de horror. Já os pés do outro, macios e relaxados, colavam-se no chão a cada passo, quase fazendo amor com o carpete empapado e ensopado de sangue a cada contato com o suave e macio viscoso. Os pés do apresado tremiam e voavam convulsivamente, atravessando a barreira do visível, ao ponto de se ver apenas o movimento, em compulsão desesperadfa chocando-se com o chão duro. Os olhos, duas bolas de tênis de tanto saltar das órbitas, piscavam freneticamente, o desespero secando aridamente a razão e o senso da esclerótica — e esta refletia espelhadamente Menino Mau, o brilho demoníaco do sorriso e da faca, de tão vazia e morta que já estava. O garoto se ajoelhou e encarou o verdadeiro alvo sexual. Isso mesmo: a tesoura e o copo tinha como alvo não as bolas de tênis saltando das órbitas, mas as bolas do velho jogo do rala-e-rola, fugindo do corpo e do calor mas ao mesmo tempo buscando-o na liberdade exibicionista.

— Precisa de gelo? — o gemido quase não foi.

— Gelo, para quê? Não quero usar anestesia.

Cueca Vermelha soltou um berro ensurdecedor.


A tesoura penetrou no buraco que não havia — ou seja, criou-o. O sangue brotou, um lubrificante que facilitou a penetração da lâmina na carne. A casca enrugada se abria, descascando seu interior vermelho e liberando jatos de sangue que deliciavam os lábios sedentos de Menino Mau. A pupa sangrenta se abrira, dando a liberdade a uma borboleta redonda, escura, sem asas e natimorta. Depois percebeu-se que eram gêmeos.

Desnecessário dizer que a operação prosseguia com a trilha sonora de gritos lancinantes, gargânticos e ensurdecedores. A fonte destes era a bocarra escancarada, os dentes manchados e a língua tesa e suja, cuspindo sangue garganta e peito abaixo. A língua foi descrita como tesa e intumescida? No entanto, ela reverberava frenética e loucamente, batendo no maxilar, na mandíbula, no céu da boca, nas bochecas, nos cantos dos lábios. Nada menos do que uma cueca branca amassada foi enfiada em sua boca, de tamanho volume que não só abafou os berros doloridos como sequer pôde ser cuspida. Obviamente, o algodão alvo foi imediatamente manchado de escarlate.

— Não se preocupe, não terá nenhum efeito colateral da operação: meu pai é médico.

Em seguida, o casal de lâminas dedicou-se a afagar e acariciar o cordão umbilical, atravessando a carne e deslizando pelo tubo até rudemente rasgá-lo, borbulhando de seu interior o fluido uretético gosmento — e um berro-gemido. O ovo negro saltou alegremente em direção à sua liberdade, apenas para cair novamente no copo penitenciário. Após isso, foi a vez do outro gêmeo, cujo cordão umbilical foi lacerado precipitando o mesmo fluido e grito abafado. Então juntou-se a seu idêntico no copo.

A cueca ensangüentada foi jogada a um canto. Menino Mau depositou o copo sobre o balcão, e começou a procurar alguma coisa nos armários superiores, cantarolando a melodia de Mary Had A Little Lamb.

Cueca Branca fechava os olhos e gemia, imerso apenas em sua dor.

Voilà! — e o garoto voltou com um copo de ovo e colher em mãos — e dentro do recipiente nada menos do que o ovo recém-chocado.

Sentado num banquinho imediatamente em frente ao enfermo, Menino Mau saboreava seu lanchinho lentamente, com gosto, deliciando-se com o sabor da carne amolecida com tempero agridoce.

— Meu pai sempre me dizia que a melhor coisa de jantar é poder tomar o café-da-manhã depois — A fala se abria em dentes sujos de molho à bolonhesa e fibra decomposta. — Ele é cozinheiro.

— Você é doente — A resposta foi um sopro.

— Doente? — Menino Mau inclinou-se para a frente — O que é doente? Aliás, quem é doente? Eu ou você?

— Não banque o Sócrates.

— O pensamento é mais zetético que socrático. Você que é o advogado e deveria saber. Mas quem e o que é doente?

Grunhido.

— Foi o que pensei. Servido?

Um Tâmisa misto de sangue e vômito eclodiu da boca de Cueca Vermelha, tomando como leito o peitoral nu do prisioneiro até a pele 

quase sumir, afluindo pelo meio e pela lateral das pernas e achando foz na lagoa poluída já composta por sangue e urina.

— Quando terminar vou lavar a louça, você se importa?


A faca cortou o tronco de madeira vorazmente, brotando outro chafariz de seiva rubra.

— Adoro lingüiça, mas já estou satisfeito.

Com isso, Menino Mau jogou o falo sujo e rasgado na lixeira.

— Já está quase na hora de eu ir. Agora, você pode sangrar aí até a morrer. Mas vou dar a você uma opção mais honrada. Durante as minhas explorações achei esse brinquedinho aqui.

Menino Mau pousou no colo da vítima uma Magnum 25mm prateada.

— Pintar a parede com seus próprios miolos não é lá muito honrado… — gemeu Cueca Vermelha, utilizando o limite de suas forças, a voz quase sumindo.

— A escolha é sua. Mas não deixa de ser curioso… A mesma arma que deu misericórdia a Justin Algumacoisa dá-la a seu assassino. Até tentei usar o mesmo projétil, para você chupar a mesma bala que ele, mas ela estava muito amassada. Não cabia. Mesmo assim, é como o Código de Hamurábi: Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

— Isso é a Bíblia — soprou a aéoloresposta — E você acha que vai sair sem um arranhão disso?… E a Metropolitan?… E a Yard?…

— Eu tomei as minhas precauções. Achei a Magnum porque estava procurando onde você escondia o backup de sua sujeira. Dividir em duas partes foi uma boa idéia, mas não esconder uma dentro da Lolita de Nabokov, e a outra na caixa do filme de Kubrick. Descarreguei os arquivos no seu laptop, escrevi uma carta suicida confessando seus pecados e não agüentava mais ser esse monstro. Depois anexei num email para o The Guardian com cópia para a sua empresa. E mesmo se recair alguma suspeita sobre mim, meu pai é advogado.

O garoto pendurou sua mochila nas costas. — Acho que é tudo. Au revoir.

Virou-se, ao que Cueca Vermelha vomitou mais sangue e o suspiro de Espere!

O algoz voltou-se. — Ah, sim, esqueci uma lembrancinha.

Menino Mau tirou do bolso a mão fechada e deixou cair um objeto minúsculo no colo do outro: uma bala de chumbo amassada e retorcida. Ia retomar seu caminho, quando…

— Espere! — A voz já quase não existia. — Não sou… o monstro… que você diz. Diverti-me… com o garoto… mas não puxei… o gatilho. Esse foi… TesudocomCam. Posso dar nome, endereço…

— Eu já sei. Ele disse que foi você antes de eu enfiar-lhe um ferro em brasa onde não bate sol.

Enquanto descia as escadas, ouviu algo como uma garrafa de champanhe ser aberta. Ao menos eu tenho algo para comemorar.


Era entre onze e meia e meia-noite quando Menino Mau atingiu a calçada. Sendo verão, a luz crepuscular apenas terminava progressivamente de desaparecer, sendo ainda uma noite clara. A lua já iluminava seu caminho até a estação. O celular tocou.

— E aí, cara, onde está você? Estou aqui na frente do West End Odeon, o filme começa daqui a quinze minutos! Você não vem, não?

— Vou sim, chego ai na Leicester em dez minutos. É porque estava ocupado cometendo meu primeiro homicídio.

— Sério, que irado?! E como foi?

— Uma delícia. Depois conto todos os detalhes sórdidos. Viu Justin hoje?

— Acho que não sai mais de Arkham. Virou um vegetal: não fala, não ouve; não duvido nem que não percebeu que eu estava lá.

— Vou desligar que estou entrando no metrô.

— Daqui a pouco.


Return to Top