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Fiction » General » O Velho font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: K - Portuguese - General - Reviews: 1 - Published: 04-12-08 - Updated: 04-12-08 - Complete - id:2503180

N/A: Baseado em fatos reais

O Velho

Todos os dias eu chego ao terminal central da cidade, e sento numa barra de ferro horizontal, esperando pela linha 302. Todos os dias, quando o ônibus chega, eu me sento na segunda cadeira depois da primeira porta, perto da janela. Todos os dias observo chegar um velhinho, meio oval, quando todos os assentos já estão ocupados. O mesmo velhinho com a mesma camiseta verde bandeira e com o mesmo boné azul escuro, e os mesmo óculos de grau forte. Todos os dias ele olha em volta e para do segundo degrau da primeira porta, com a cabeça baixa e aquele olhar de desespero resignado dos trabalhadores de longa data.

É quando o ônibus começa a se mover que meus olhos pousam nele, e minha mente divaga enquanto tento perfurar o velho senhor em busca de verdades. Será que ele é sozinho, será que tem filhos, será que a esposa já morreu? Será que tem amigos, em que será que trabalha, qual será seu nome do meio? Será que é feliz, apesar de tudo? Será que é triste, apesar de tudo? Será que já amou e foi amado, ou será que nunca teve tempo pra isso?

E enquanto vamos balançando no ritmo lento e desconexo do coletivo, cada um ouvindo nos próprios ouvidos uma musica diferente, embalada talvez por crianças, ou talvez pelas vozes de algum professor, talvez de um antigo cantor já morto, eu o perscruto com meus olhos e minha mente, num silencio ostentoso. Estamos a dois metros de distancia, estamos tão estáticos quanto se pode ficar ali, e ao mesmo tempo nos movemos para nossos destinos. O meu é um apartamento confortável, jantar, televisão. E o dele? Será que tem outra roupa além daquela camiseta verde e daquele boné azul escuro? Será que as usa?

Eu me levanto, puxo uma corda ou aperto um botão, aquela velha linguagem de sinais que faz o motorista – outra interrogação além do meu mundo – parar. Desço eu, pela porta de trás, e ele, pela porta da frente. Descemos no mesmo ponto, e então seguimos cada um para um caminho. Ele sobe, e eu desço, olhando para suas costas verde bandeira. Ele sobe, e some, e eu desço de volta para a minha própria realidade.

Aquele velhinho carrega consigo um mistério na face cansada. Carrega como quem leva nas costas uma trouxa muito pesada e difícil de se levar, mas a leva mesmo assim, porque deve. Ele tem segredo ordinário, o segredo dos desconhecidos, da multidão silenciosa que arrasta burburinhos. Olho para trás, para ele, e desejo nunca descobrir seu segredo tão bem guardado. Porque a magia está na incógnita, não da Vida, mas das vidas.



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